terça-feira, 26 de maio de 2009

De Uma Carta

"(...)O que me traz a ti, Flavitcha. Eu conheço os homens (não todos, é verdade). Então há uma micro-chance de eu estar errado), eu converso com eles, e escuto suas idéias ridículas e covardes. Na verdade, eu não deveria criticá-los dessa maneira. Afinal, eles são apenas humanos. Os humanos e seus temores insuportáveis. E como humanos, eles estão preparados apenas para se relacionar com humanas, que possuem as mesmas fraquezas deles.

Você, porém, minha criança, não é humana. Você é algo além. Desconfio, e apenas desconfio, que você seja um anjo. Como eu sei disso? Pelos sentimentos com que temperas as tuas palavras. Veja bem, há pessoas que sabem fingir, mas você não finge. Você é autêntica... e bela, como eu nunca vi.

Eu sei que já deves ter ouvido isso milhares de vezes, e provavelmente perdeu o valor, mas não há como te dizer isso de outra forma simplesmente porque é a mais pura verdade: És especial !

Por isso mereces alguém tão especial quanto. Não vai ser C. quem saberá captar o teu espírito, tampouco qualquer outro humano, com exceção de um que treinou a vida inteira para encontrar um anjo parecido contigo.

Esses encontros de fato acontecem. São como colisões no vasto espaço. Improváveis, mas vez ou outra, acontecem sim. O problema é que nem sempre eles encontram condições de liberar sua energia, e então precisam ser reprimidos. (...) E a vida segue assim, minha querida. Nós com os nossos "companheiros", vivendo e fingindo que escapamos da solidão. E na barriga aquela fome por algo inenarrável: o acontecimento único de um encontro de asteróides..."


Ao remetente do texto - que não sabe que leio tudo
o que me escreve, mas que ficará sabendo agora que
cada linha que chega fica gravada na minha memória
e faz meu dia incomparavelmente melhor: obrigada.

Muito. Mesmo. Por tanta, tanta coisa.

Um beijo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Constatação

Estou aqui parada diante dessa tela branca pensando, resvalando entre esboços de palavras. Sentindo. Eu não sei o que te dizer. Eu só sei que eu quero você, já.

Para sempre, quem sabe.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sobre Febres e Antitérmicos

Mens sana in corpore sano.

Soundtrack: Chico e Lucinha - História de uma Gata











Tenho um gato vira-lata.
Eu estava realmente planejando ter um gato, mas um de raça, peludo, de pedigree assepticamente puro - só que esse bendito gatinho vira-lata atrapalhou meus planos quando cruzou o meu caminho feito a pedra do Drummond. Feio. Microscopicamente feio, com uma crosta antiga de sujeira sobre a pelagem branca, sujeira velha mesmo para um animal com menos de duas semanas de vida. Manco. Olhudo. Levei-o comigo enrolado numa camisa e dei casa, comida, roupa lavada, CPF, RG, uma vida dentro das CNTP e amor desbalanceado, pendendo sempre para a ultrapassagem do limite superior da normalidade (mas reza a lenda que amor que é amor é sempre plus ultra). Em troca, ele usurpou a minha família, meu iogurte desnatado e o meu coração. E o último item, o tal que para ser o que é deve ser plus ultra, ele retribuiu, como retribui até hoje, igualmente sem medida, e o até então pretendido gato de pedigree asséptico virou poeira cósmica sapecada em algum lugar da minha memória de peixe.
Pois bem: há um tempo, coisa de um mês, minha irmã caçula me telefonou preocupada e meio chorosa para contar que o gato estava doente e que veterinário algum descobrira o mal de que o bichano padecia. Não comia. Não miava. Não brincava (sim, meu gatinho brinca e pasmem, abana o rabo, convencido talvez de que, equivocadamente ou nem tanto, existe um gene canino no seu DNA). Não "nada". Mas o que mais impressionava era a febre: um febrão digno de uma legião de microvilões estafilocócicos destruidores de gatinhos, no mínimo uma nada inofensiva sepse. S-E-P-S-E. Meu gatinho vira-lata, o tal que com duas semanas de vida sobrevivera no mundo em condições inóspitas e se salvara graças a seu charme e inteligência, estava prestes a ser derrotado por uma bacteriazinha chinfrim. Corre que corre com ele de veterinário em veterinário, vão-se amostras de sangue, vêm hemogramas e... surpreendentemente nada, nadinha, nem um leucócito a mais, nem a menos. O veterinário, então, bateu o martelo: febre emocional. A prescrição: atenção, em altas doses, seguida à risca, e em menos de 48 horas o animalzinho estava serelepemente curado.
E se alguém estiver se perguntando "e o que é que eu tenho a ver com isso?" eu respondo: nada. Mas quem é que que nunca teve uma febre emocional na vida, uma febrícula que fosse? Quem é que nunca se deixou atingir pelo tal virusinho ou bacteriazinha que deixa a gente com aquela terrível sensação de sei-lá-o-quê? Não existe influenza que seja páreo para a melancolia, porque tristeza não é imunomodulada - a gente não produz anticorpos contra ela, mas é cientificamente comprovado que a severa inflamação espiritual decorrente desses estados sorumbáticos é perfeita e eficazmente combatida com outro tipo de manifestação flogística: o calor humano. É uma delícia ser lembrado e receber um carinho apenas porque batatinha-quando-nasce-se-esparrama-pelo-chão. É bom, é inexplicavelmente bom ouvir um inesperado "te gosto", ou "que saudade de você", ou aquele mutismo de olhos derramados com cara de cafuné, ou sentir o toque daquela mãozinha - ou mãozona - pousando na pele ou nos cabelos apenas porque deu vontade. É inexplicavelmente bom mas não apenas inexplicavelmente bom: é necessário. Porque cada um de nós é, no fundo, aquele fulano que passa distraído e sem querer querendo se deixa cativar pelas surpresas do caminho. E cada um de nós, no fundo, é exatamente como um gatinho vira-lata, com nódoas no pedigree, cruzando o caminho de alguém para carinhosamente lhe atrapalhar os planos, olhudo, manco e faminto, esperando para ser enrolado numa camisa e num coração. Plus ultra.
Você já abriu seu coração hoje?


P.S.: pessoas, esse é meu Theo.
P.S. 2: vocês se lembram o que são as tais CNTP, não lembram? ;)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

terça-feira, 5 de maio de 2009

Saudade

Onde?

Soundtrack: Paralamas - Busca Vida




Eu não sabia. Mas era alguma coisa assim meio pela metade, com olhos cor de rua - densos, coisa que não se acaba e que a gente vai olhando para ver se enxerga o fim e o fim, onde? Eu não sabia. Soube quando me faltou um pedaço e eu parecia tão maior, agigantada em meio à sobra de mim, com os meus braços ondulando em torno de uma nostalgia doce, dulcíssima, exata medida do que deveria estar e, à revelia, se ausenta. Onde? Eu não sabia, ouvi de leve um rumor de passos perdidos e era ela, a vontade que eu tinha de afagar o que me faltava. E dessa vez eu não a espantei: apenas deixei que se aproximasse naquela cadência de vontade tímida querendo crescer e tomar conta, e lhe beijei a testa, e a deixei seguir seu destino de Vontade, como é destino da Saudade apenas ser. Assim, meio pela metade. Com olhos cor-de-rua. E essa nostalgia doce, dulcíssima.


Plínio, esse é seu. E de todos, absolutamente
todos os que me são caros nessa vida.