domingo, 11 de dezembro de 2016

o cara que eu amava na segunda série




O cara que eu amava na segunda série, curiosamente, não falava comigo. Eu também não fazia questão de trocar palavras com ele – natural, pois quando se tem sete anos de idade é mais fácil acontecer um diálogo espontâneo entre cães e gatos que entre meninos e meninas. Não sei dizer por que eu o amava: se eram as sardas, os dentinhos tortos, o charme magricela, nossos nomes parecidos ou apenas uma errada do Cupido no meu coração que estava começando a aprender a gostar de alguém.

Naquela época, eu acreditava que amor era uma coisa de guardar num potinho bem fechado e esconder debaixo da cama pra ninguém desconfiar que existia – mas ao alcance, sempre que desse pra pegar o potinho sem ninguém ver, só para admirar a lindeza daquilo brilhando lá dentro. Meu potinho brilhou como nunca quando, na brincadeira de amigo secreto da escola, ele sorriu e disse "eu tirei você", e me deu de presente um Snoopy de pelúcia que mais tarde, insanamente, eu trocaria por um estojo perfumado da Moranguinho – e me arrependi até o último fio de cabelo, pois o cheirinho de morango logo se foi, e talvez o Snoopy fosse a materialização de um amor recíproco, e eu sabia que tinha feito uma grande besteira mas a outra menina não topou desfazer o negócio, e o Snoopy mais especial que já existiu sumiu da minha vida definitivamente.

Depois disso não trocamos mais nenhuma palavra. O ano terminou, e o cara que eu amava na segunda série mudou de escola porque o pai foi transferido para outra cidade. Nunca mais o vi e, sempre que olhava o fatídico estojo da Moranguinho, eu me perguntava se amar era mesmo daquele jeito – querer bem, guardar o bem-querer, fazer escolhas erradas, se arrepender, ver partir, aceitar as partidas, eventualmente se acostumar com elas. O tempo foi passando e inevitavelmente me trouxe outros amores e o aprendizado: amor a gente não guarda. A gente deixa voar, para poder voar com ele. A vida nos traz infinitas oportunidades de amar. E nos concede o privilégio de aprender a amar cada vez mais e melhor. Ao contrário da minha primeira impressão, ainda que as pessoas não permaneçam para sempre, o amor que sentimos por elas seguirá sempre conosco – e nos iluminará, e a todos pelo caminho.

Então, não importa em quem você está pensando enquanto lê esse texto – se na sua mãe, no seu pai, no seu melhor amigo de infância, no amigo de quem você nunca mais ouviu falar ou em quem você amava na segunda série. Deixe que o amor fale mais alto. Ou a vida corre o risco de virar uma coleção de potinhos, bem fechados e bem guardados, cujo brilho aos poucos se apagará por não (se) iluminar (d)o coração de ninguém.

Você já disse "eu te amo" hoje?


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Imagem: Google