quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Identidade

Ano novo, ainda eu, embora outra.
Ao som de Riders on the Storm - The Doors
Sigo. Distraio o mundo, lhe imprimo minhas pegadas durante meu caminhar silenciosamente turbulento sobre as águas do meu mar interior. Persisto vento, redemoinho, tempestade, pois, sim, sou olho e alma de furacão, força da natureza espraiando-se em ondas indomadas, violentamente arrebatadas pelo anseio de tudo tocar, sentir, possuir. Sou além de mim e me transbordo, incontida, por todos os poros, e assim me agiganto, me reconheço, me reencontro. Sou além em mim.

Beijo meus medos em despedida e prossigo, olhos fixos em meu horizonte interminável de possibilidades, corpo liberto e fluido entregue ao balé desconexo dos segundos, alma buscando-se ávida, imperecível, em meio à significância ilógica da vida, em meio às insensatezes e incompletudes do destino que traço nas linhas das minhas mãos. E, embora múltipla, não renego minha identidade, e faço desta pão e vinho para celebrar a comunhão com as verdades insofismáveis que me afloram à pele. Esgoto-me, e me renovo de meu próprio fim – pois trago, incrustado nas minhas intuições, o gérmen da minha fortaleza.

Invado-me; e me desafio passeando de olhos fechados por minhas beiras de precipício, e ignoro a iminência da queda, e me refaço nessa incursão vertiginosa em meus labirintos, e me permito ser Sol e Ícaro, cuidando para que meu calor não me derreta a cera das asas imaginárias tecidas, dia após dia, com retalhos cuidadosamente recortados dos meus quereres – sem os quais inexisto, sem os quais me reduziria à inexatidão de barro cujo sopro vital lhe foi negado. E me catapulto mais e mais para essa existência superlativa e incondicional, destituída de quiçás e porquês, fundamentada unicamente no desejo de ser, incontestável e desmedidamente, quimera, absurdo, anseio, sangue, célula, universo. Eu.

Cumpro-me.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008