quinta-feira, 3 de abril de 2008

VOZ

"Minhas desequilibradas palavras
são o luxo do meu silêncio."

(Clarice Lispector)


Ao som de Sia - Don't Bring Me Down





Eu digo mais quando me calo. Porque nessas horas digo com o corpo, e corpo não mente, carece da malícia das palavras; corpo sente, e só. E corpo sim, há que se saber ler; se traduz em olhos, e mãos, e até mesmo na cadência da respiração ou na direção misteriosa dos passos ainda por vir. É onisciente a ignorância do meu pensamento. E, por tanto querer dizer, me faço inteira linguagem outra, além do verbo.

Por tanto querer dizer, me estampo subliminar nas entrelinhas da minha mudez. É lá que estou, completa e desafogada de pontuações, clara e veemente como uma resposta que independe de pergunta para ser resposta. Para lá confluem todas as inflexões da minha voz dessilabada, desse timbre particular que nasce na garganta do olhar que tudo diz. Não me valho dos sons para existir – mais do que som, existo signo e movimento.

Mais do que som, existo percepção. É na sutileza dos detalhes que me declaro, no branco dos olhos que me passo a limpo. E assim – olhando, sentindo, vivendo, somente – me vejo sendo, e sigo não sabendo ser de outro jeito e, tampouco, querendo. Crendo-me aquém da oralidade e, por isso mesmo, tão além – embora, por tanto crer, às vezes desacredite nas minhas descrenças e acabe por me dissolver em palavras, fazendo delas a catarse natural e inevitável dessa atribulada convivência comigo mesma. Mais do que som, signo, percepção, movimento, existo algo ainda inominado, oração muda que queima incendiando o dizível para florescer significado intenso. Eu, mulher de essência anônima e despalavrada, digo em silêncio. Digo, apenas.

terça-feira, 1 de abril de 2008

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“Não fiz mal algum. Mas agora ocorre-me que
estou neste mundo terreno, onde fazer o mal
é muitas vezes louvável, e fazer o bem, algumas vezes,
foi considerado ato perpetrado por louco perigoso.”

(Lady Macduff em Macbeth – W. Shakespeare)

Ao som de The Flaming Lips - "The Sound od Failure"





Há dias em que eu desejaria deletar alguns dos meus próprios sentimentos. Surpreendentemente, os arquivos destinados à exclusão seriam não aqueles de maior vileza – mas aqueles mais elevados, mais nobres, cuja natureza imaculável se constitui em empecilho moral diante das tentativas de insurreição do meu alterego anárquico, permanentemente em id mode, contra seu arqui-rival: meu imperturbável e quase monástico superego.

Eu deixaria de acreditar. E ir-se-iam as esperas e esperanças, e até mesmo algumas crenças, dissolvidos que estariam seus significados na mais invulnerável das incredulidades – a de quem não acredita por convicção. Poupar-me-ia, benção das bênçãos, de confiar e, finalmente, passaria incólume pelas frustrações e desencantos. Teria, é verdade, de aprender a viver sem a euforia pueril das expectativas, aquelas, as expectativas que são o sentido maior de tudo que diz respeito a elas e, principalmente, do que não diz respeito a elas. Um preço razoável a ser pago para existir intransitivamente.

Eu deixaria de oscilar entre a perplexidade e a ojeriza quando dos inevitáveis confrontos com as grosserias, leviandades, deseducações e outras mediocridades tão características de quem ainda não descobriu que a estupidez é uma viagem sem escalas para a mais completa e amarga solidão. Abster-me-ia de nutrir piedade pelas personalidades turvas e infantilóides e cortaria, de uma vez por todas, os pulsos às obliqüidades; feriria de morte a covardia das indiretas que me são oferecidas aqui e ali – e as abandonaria, moribundas e exangues, ao sabor de sua própria nocividade. Experimentaria uma anérgica indiferença diante das incompreensões, blindar-me-ia com a couraça das distâncias olímpicas para que não mais me alvejassem os egoísmos e egocentrismos daqueles que se ufanam da própria pequenez, full time e loucamente enamorados de seus umbigos.

Eu deixaria de querer bem. Simplesmente deixaria. E pouco me importariam as eloqüências do não dito, não feito, não quisto. Os amigos cuja amizade pontilhada de lenitivos jamais teve fôlego para transcender a infeliz condição de "pseudo". Um estalar de dedos e adeus, saudades, adeus, lembranças, adeus, paixões... Adeus, coração saltando no peito. Adeus, coração. Peito, adeus. Sem mágoas, sem tristezas, sem decepções... e sem alegrias, nem amores, nem todos esses detalhes sentimentalóides, idílicos e nada práticos que eu já não saberia compartilhar e, pensando bem, compartilhar para quê? É certo que eu perderia também as amizades verdadeiras – pois alguém sem coração é incapaz de separar joio e trigo. Paciência – todo remédio tem inevitáveis efeitos colaterais. Ao menos eu já não sofreria.

Nesse dia, eu deixaria de me importar. Deixaria de me preocupar. Reiniciar-me-ia livre do peso dos tantos arquivos corrompidos e inúteis que abarrotam minha exaustivamente solicitada memória emocional. Quando esse dia chegasse, eu, enfim, seria... seria... eu seria... eu seria?

Por sorte, alguns dias nunca chegam.