sábado, 28 de janeiro de 2012

Sobre um dia sem nome.

"Eu me lembro que um dia acordei de manhã 
e havia uma sensação de possibilidade."

Virginia Woolf


Deixo o corpo cair no sofá, olho em frente, o dia de ontem pendurado na parede parece mesmo meio torto. Um gole de água, outro de paciência minimamente invasiva com cara de poucos amigos. Há tanta coisa para arrumar que nem sei se começo por mim ou se pela palavra que caiu da minha boca e ficou assim toda riscada, sempre deixo as coisas pela metade; saí jogando tudo fora, inclusive aquele velho pedido de desculpas que não fiz e ficou se repetindo pela sala, arranhando no toca-discos. Ao contrário do que se possa supor, não sirvo em roupa bonita, linha reta ou confissão. E se guardar segredos de fato poupasse o mundo de alguma verdade terrível, quem sabe valesse a pena manter o silêncio quando até os vincos da nossa pele reclamam amor e nos pedem asilo. Não foi o vento, mas um pedaço de egoísmo quem trincou os vidros das janelas – e vou deixar assim pois desisti de tentar consertar toda e qualquer falha que não seja minha, e não nego que pelas minhas próprias chego a ter desvelo de mãe. Vou desalinhar um pouco mais o passado na parede. Não estou aqui para ser perdoada.



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Do Instante ao Destino


Soundtrack: Matthew Perryman Jones - Amelia

Entendo que hoje seja um dia difícil. Entendo mais: que hoje é um dia difícil arrastando um som metálico de melancolia, assim sofrido, meio oco. Coisa que devia ter sido deixada para trás mas veio caminhando junto. Boa companheira, má companhia. Muito peso para carregar, bagagem quase nenhuma. Um quase você, não fosse esse olhar que não se encaixa. Entendo mais por intuição do que por me dispor a; deve mesmo haver, escondido sob os sulcos dos nossos pés, um instante que nos prepara para certas compreensões. E eu lhe digo que entendo e que não me importo com o fato de hoje parecer maior do que realmente é, e lhe digo que todas as coisas de hoje rodopiam íngremes conforme a sua própria vontade e o que nos cabe é discutível e torto porém não se engane com minha concisão: pratico vermelhidões mas sou frágil como mente desenganada. E não me preocupo com o que você vai achar ou não, eu vou ficar aqui, arrumando a casa para o dia do vendaval. Sem trancas nas portas. Sem portas, que eu não quero oclusões. Não me acostumo. Eu vou ficar aqui, arrumando a casa, desarrumando um pouco a vida: fascinante como tudo fica mais inteiro depois de uma gota de caos. Porque não há mesmo redenção sem um pouco de culpa, nem resgate sem um tanto fiel de perdição.

Eu não me lembro da última vez em que foi fácil. E quando não há nada, como é que se faz?