domingo, 5 de fevereiro de 2012

Incompletudes

(...)Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto
brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de
pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha
coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda
mais;contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha
coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele
mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos,
sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está
à espera de que alguma coisa... divina aconteça.
Ela sabia que iria acontecer infalivelmente.(...)

Katherine Mansfield in: Bliss



A sua dúvida talvez seja a mesma minha: não saber onde todas renúncias se recolhem à espera de uma segunda chance. Aquele caminho que a gente não seguiu, aonde daria. Parecia tão simples desinibir ternuras alguns dias atrás que não percebi em que momento a espontaneidade se tornou privilégio – e se tornou regra essa cordialidade vigilante, hábil em macerar o dia. Tenho vontades que não morrem. Tenho repentes que inquietam meu coração e fazem doer meus dedos. Parecia tão simples, mas imagino: nada é simples, a não ser fugir – e eu escolhi ficar aqui, e renunciar, e ignorar. Porque certas coisas, quanto mais absurdas, mais adequadas me parecem. Certas coisas, não tão certas. Enquanto escrevo, eu me lembro do cheiro daqueles dias. Então escrevo, e me lembro, e persisto desorientando infinitudes e desafiando incompatibilidades - porque não pude, porque não soube, porque não vi(vi) mas ainda assim acredito num amor imune ao aleatório.



sábado, 28 de janeiro de 2012

Sobre um dia sem nome.

"Eu me lembro que um dia acordei de manhã 
e havia uma sensação de possibilidade."

Virginia Woolf


Deixo o corpo cair no sofá, olho em frente, o dia de ontem pendurado na parede parece mesmo meio torto. Um gole de água, outro de paciência minimamente invasiva com cara de poucos amigos. Há tanta coisa para arrumar que nem sei se começo por mim ou se pela palavra que caiu da minha boca e ficou assim toda riscada, sempre deixo as coisas pela metade; saí jogando tudo fora, inclusive aquele velho pedido de desculpas que não fiz e ficou se repetindo pela sala, arranhando no toca-discos. Ao contrário do que se possa supor, não sirvo em roupa bonita, linha reta ou confissão. E se guardar segredos de fato poupasse o mundo de alguma verdade terrível, quem sabe valesse a pena manter o silêncio quando até os vincos da nossa pele reclamam amor e nos pedem asilo. Não foi o vento, mas um pedaço de egoísmo quem trincou os vidros das janelas – e vou deixar assim pois desisti de tentar consertar toda e qualquer falha que não seja minha, e não nego que pelas minhas próprias chego a ter desvelo de mãe. Vou desalinhar um pouco mais o passado na parede. Não estou aqui para ser perdoada.