(...)Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto
brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de
pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha
coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda
mais;contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha
coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele
mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos,
sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está
à espera de que alguma coisa... divina aconteça.
Ela sabia que iria acontecer infalivelmente.(...)
Katherine Mansfield in: Bliss
A sua dúvida talvez seja a mesma minha: não saber onde todas renúncias se recolhem à espera de uma segunda chance. Aquele caminho que a gente não seguiu, aonde daria. Parecia tão simples desinibir ternuras alguns dias atrás que não percebi em que momento a espontaneidade se tornou privilégio – e se tornou regra essa cordialidade vigilante, hábil em macerar o dia. Tenho vontades que não morrem. Tenho repentes que inquietam meu coração e fazem doer meus dedos. Parecia tão simples, mas imagino: nada é simples, a não ser fugir – e eu escolhi ficar aqui, e renunciar, e ignorar. Porque certas coisas, quanto mais absurdas, mais adequadas me parecem. Certas coisas, não tão certas. Enquanto escrevo, eu me lembro do cheiro daqueles dias. Então escrevo, e me lembro, e persisto desorientando infinitudes e desafiando incompatibilidades - porque não pude, porque não soube, porque não vi(vi) mas ainda assim acredito num amor imune ao aleatório.