sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Enquanto Você Dormia


Um dia você acorda. Acorda pra vida. Acorda de um sono que nem sabia que estava dormindo. Você, que sempre se gabou de ter sono leve, dormiu demais, perdeu a hora, mas antes tarde do que nunca. Você acorda com o rosto inchado e a boca seca, lava o rosto com água gelada, lava a boca pra tirar o gosto ruim de boca adormecida – fechada por tanto tempo para aquilo que você não disse, não provou, não riu. Acorda com a dor de cabeça típica de quem dormiu demais e com o corpo dolorido, entrevado, castigado pela ausência de todas as danças que você não dançou, de todos os lugares que você não visitou, de todas as vezes que você não mergulhou no mar, na vida, na panela de brigadeiro – mergulhar vale a pena até quando a gente toma um caldo aqui e ali.Concordo com você: dormir demais dá uma ressaca dos infernos. Pior que misturar cerveja com vinho doce. Pior que vodca vagabunda. Pior que visualizar e não responder. Muito pior. 

Aí você acorda e tenta se atualizar, liga a tevê, lê os jornais, pega uma revista, feicebuque, uatisápi, bate um papo com o pessoal que sempre sabe tudo o que está rolando – e percebe que, enquanto você dormia, tanta gente casou, nasceu, morreu, aconteceu uma revolução, brincadeira virou trollagem, o que era sério virou brincadeira, o que era legal virou crime e vice-versa, o salário, ó, a moda ficou muito estranha e as pessoas mais ainda, o preço do quilo do tomate disparou, o dos imóveis nem se fala, o Rio de Janeiro continua sendo mas o ser humano nem tanto, e o mais inquietante: percebe que uma boa parte da sua vida passou. Acontece. Você acordou, é o que interessa. 

Agora é vencer a inércia, levantar, tomar um banho (de chuveiro, de sal grosso, de sete ervas, de coragem, sobretudo), chutar pra longe o travesseiro e os lençóis, chutar uma parede imaginária, chutar o pau da barraca, chutar o balde. E, por fim, chutar a gol. Dá tempo. 



Vai um café?




Imagem: DeviantArt


terça-feira, 5 de novembro de 2013

da via crúcis de conjecturar.

Imagem: "Blow, Wind, Blow" - Couting Alyis

Ando cismada com pessoas volúveis. Mais que o habitual. Mais do que consigo ignorar. Porque opinião, ainda que febril, não é coisa que dá e passa. Não arrisco falar de sentimentos: os meus têm raízes profundas, robustas - mas são os meus e, mesmo assim, penso que só sei deles o essencial para não me desconhecer completamente; do coração alheio não se fala, quando mal se sabe o próprio. Preciso perder essa mania de discutir com quaisquer uns, mesmo em silêncio, para provar que tudo está do avesso e não se pode viver de/para efêmeros; devo, talvez, tentar ser mais indulgente com as circunstancialidades. Quem sabe eu esteja errada, e a facilidade que certas pessoas têm de volatilizar isto e aquilo seja um bônus, e fidelizar-se a algo que ninguém mais conhece seja, de fato, a grande loucura da vida. Claro que é.


Eu nunca fui muito lúcida, mesmo.