Caro futuro amor:
Talvez você esteja achando muito esquisito ser
chamado de “caro” pela própria futura amada – mas, como ainda não nos
conhecemos, me sinto pouco à vontade para quebrar as formalidades logo de
saída. Vai que você seja daquelas pessoas mais tradicionais, que gostam de tudo
bem politicamente correto. Nunca me imaginei apaixonada por alguém assim – mas
já tive provas mais que suficientes de que o amor é cego, portanto é mais
prudente não cuspir para cima. Não briguemos por causa disso. Não agora.
Não sou a mulher mais linda do
mundo, é preciso que você saiba. Também não sou a mais legal. Não tenho dinheiro
sobrando e, confesso, há dias em que não sobra sequer paciência. Roo as unhas e
fico louca com tubo de creme dental aberto, privada com tampa levantada, copos
pela casa e panelas dentro da geladeira. Imagino que você também colecione algumas
manias, as quais não farão a menor diferença entre nós dois – desde que, entre
elas, não esteja a de me pedir para coçar seu pé. Tenho um pé atrás com a
coceira de pés alheios. Com cuecas, idem. Passar, até passo; lavar, jamais. Portanto,
é bom que você tenha esse hábito ou, na falta dele, um estoque considerável de underware.
Gosto de barba, só que depende.
Sobretudo de como você cuida. Crescidinha, charmosinha, cheirosinha, me ganha
fácil. Do contrário, futuro amor, pra quê? Vamos facilitar essa maravilha de
contato que é ficar de rostinho colado, pele com pele. Deitadinhos no sofá,
assistindo a um filme. Aliás, futuro amor, sou partidária de qualquer sistema
de revezamento da tevê que nos possibilite interagir pacificamente sem que
comece uma guerra mundial porque eu cancelei a programação do futebol para
assistir ao meu filme preferido pela sétima vez, ou porque você mudou para o
canal de esportes enquanto fui ao banheiro no intervalo de um episódio do Dr.
House. Eu não me incomodo se você dormir de meias, como espero que você não se
importe com as minhas pantufas do Scooby-Doo. Não durmo com bobes nos cabelos,
não babo e nem ronco à noite – e, de coração, se for o seu caso, relax. Faz parte
das coisas com as quais convivo bem e até, quase sempre, finjo que não vejo – a
não ser com relação aos bobes.
Não me preocupo com provas de
amor. Aprendi a sublimar a demasiada relevância que a maioria das pessoas em um
relacionamento sério dá a datas, rituais, simbologias, demonstrações sociais de
compromisso, alianças, chaves compartilhadas. O que espero mesmo, futuro
amor, é que, quando olharmos nos olhos um do outro, a gente se entenda e se
reconheça em meio aos nossos silêncios. Porque há coisas, futuro amor, que
jamais devemos nos dizer, como também há aquelas que prescindem da necessidade
de verbalizar – e eu confio no amor não dito muito mais do que em qualquer
palavra. Confio na confidencialidade de mãos que se tocam, de sorrisos que
nascem mútuos para se transformarem em um só. Confio na solidez do amor que não
exige razões para ser diuturnamente provado. Se é algo a que você não está
acostumado, não se preocupe. Eu ensino. Você perceberá: não há prova de
amor que nos faça sentir tão amados quando a sensação de abrir o coração
despretensiosamente.
Tenho mil defeitos, futuro amor,
tenho mil defeitos. E mesmo que você, depois disso tudo, me ache um pouco
estranha e até certo ponto complicada, eu lhe peço: não desista de mim. Sobretudo,
não desista de você. Jamais deixe de ser você por minha causa. Lembre-se – será por
você que eu me apaixonarei. Pelos seus defeitos, pelas suas ideias, pelo seu jeito
engraçado de dizer certas coisas. Também não deixarei de ser quem sou para me
tornar quem você quiser que eu seja – sejamos nós dois cada um de nós, para
que, ao invés de dividir nossas vidas, sejamos capazes de somá-las. Para nos
tornarmos maiores e melhores um pelo outro. Para que eu não o exaspere, e nem
você a mim, colecionando mágoas, ciúmes, discórdias. Não desista de mim, futuro
amor. Não tenho pressa de nós mas, se estiver por aí, a porta está aberta. Meu coração também – entre sem
bater.