terça-feira, 5 de novembro de 2013

da via crúcis de conjecturar.

Imagem: "Blow, Wind, Blow" - Couting Alyis

Ando cismada com pessoas volúveis. Mais que o habitual. Mais do que consigo ignorar. Porque opinião, ainda que febril, não é coisa que dá e passa. Não arrisco falar de sentimentos: os meus têm raízes profundas, robustas - mas são os meus e, mesmo assim, penso que só sei deles o essencial para não me desconhecer completamente; do coração alheio não se fala, quando mal se sabe o próprio. Preciso perder essa mania de discutir com quaisquer uns, mesmo em silêncio, para provar que tudo está do avesso e não se pode viver de/para efêmeros; devo, talvez, tentar ser mais indulgente com as circunstancialidades. Quem sabe eu esteja errada, e a facilidade que certas pessoas têm de volatilizar isto e aquilo seja um bônus, e fidelizar-se a algo que ninguém mais conhece seja, de fato, a grande loucura da vida. Claro que é.


Eu nunca fui muito lúcida, mesmo.



domingo, 27 de outubro de 2013

do lado de dentro.

Imagem: Bailey Elizabeth (in deviant art)

Há algo sempre comigo. 

Nestes dias, principalmente. A vida segue quase comum - tudo igual, exceto essa coisa que está sempre comigo e que, agora, mal se restringe a me fazer companhia. Não sei dizer seu nome. Não sei dizer o que me provoca - comoção, angústia, tristeza, raiva, euforia, orgasmo. Uma iminência, um pressentimento, talvez. Seja lá do que for. Roo as unhas enquanto tento delimitar um espaço entre mim e esta coisa. Inútil; nem ela e nem eu nos habituaríamos a outras presenças, ou a presença nenhuma, nos momentos em que é preciso levar as mãos ao peito e comprimir com firmeza para que o coração não salte e se choque com a palavra paralisada entre os dentes. Esta coisa é quem limpa minha sujeira quando os sentimentos me evisceram. Esta coisa é que segura minha mão quando medos íntimos me violentam no meio da noite. Há tanto tempo me falta jeito para dizer amor ou delicadeza, mal me lembro se um dia foi fácil e deslizou através dos meus lábios como se tivessem carne de cetim. Roo as unhas, mordo as pontas dos dedos, arranco um pedaço do que faz meus olhos verterem casulos e perscrutações. Não há nenhum ruído lá fora, quase ouço o que se passa dentro de mim - mas esta coisa, esta que permanece comigo consistente e vígil como um cão de guarda, obscurece o silêncio cada vez que, de olhos fechados, me observo e insisto em me cobrar: quem é você?

Roo as unhas, meus dedos sangram um pouco. A dor me salva de (me) saber.