domingo, 4 de novembro de 2018

Vamos Conversar Sobre Filhos?

Se você tem filhos, provavelmente concordará com este texto. Se não tem e não pretende tê-los, também. Na verdade, quero falar com você, que ainda não tem filhos mas deseja muito ser mãe. Você tem ideia do que seja realmente a maternidade?

Antes de ser mãe, você deve lembrar que, a princípio e por um longo tempo, seu filho será um bebê - e bebês dão trabalho. Basicamente, bebês choram, mamam, fazem xixi e cocô e precisam dos cuidados da mãe 24 horas por dia, pois não têm horário para nada e a menor inobservância pode facilmente fragilizá-los ou adoecê-los. Enquanto tiver um bebê, muitas vezes você se sentirá exausta, confusa, sozinha (ainda que conte com uma rede de apoio), incompreendida. Você chorará de cansaço, de desespero, de solidão, de dor nos seios ingurgitados. Você cheirará a leite e fraldas e trocará almoço, banho, passeio ou qualquer outra coisa por algumas horas de descanso. Não se preocupe, tudo vai passar, e logo seu bebê terá se transformado em uma criança.

Antes de ser mãe, você deve lembrar que crianças também precisam de você em tempo integral. E que os filhos não são uma extensão da mãe e, muito menos, sua propriedade: são seres independentes, com personalidade própria e direito de se descobrir e encontrar seu lugar no mundo. Amar um filho não é projetar nele as próprias expectativas, mas acolhê-lo e respeitá-lo exatamente por quem ele é, com seus defeitos e peculiaridades. Você deve lembrar que crianças têm um potencial infinito de aprendizado, e que educar um filho não significa prover a melhor escola nem todos os cursos possíveis e imagináveis: educar uma criança exige que você seja seu maior e melhor exemplo, e isso só será possível caso você se esforce dia após dia para vencer seu pior lado a fim de se tornar um ser humano melhor. Criar um filho não é só colocar comida na mesa, roupas boas no armário, brinquedos caros na estante - é demonstrar interesse pela pessoinha que está ao seu lado, é não negar um abraço ou um sorriso, é preservar sua inocência, é lutar diariamente pelo seu direito à infância, é estar ciente de que os seus problemas de gente grande não devem ser transferidos para uma criança que não tem capacidade nem obrigação de lidar com eles. Antes de ser mãe, você deve lembrar que crianças não são robôs: elas fazem birra, testam sua paciência, levam você ao limite. O filho que você vai ter pode ser completamente diferente do filho que você sonhou. Contudo, você deve lembrar que nenhuma criança deve estar exposta à violência, seja ela física, psicológica ou verbal - pois há palavras, atitudes e omissões que abrem feridas tão profundas a ponto de uma vida inteira não ser suficiente para que cicatrizem. Mas não se preocupe: sua criança também irá crescer e, quando menos esperar, seu filho será um adolescente.

Antes de ser mãe, você deve lembrar que adolescentes também precisam de empatia. Você, muitas vezes, sentirá saudades do bebê fofinho e da criança espirituosa de antes, e chorará por não reconhecê-los no rebelde de hoje. Você deve lembrar que é indispensável muita disposição para orientá-los e que impor limites é necessário, e a melhor maneira de fazer isso é estabelecendo com os filhos uma relação de confiança e cumplicidade, porém nada disso é algo que se possa exigir automaticamente de quem quer que seja: confiança se conquista, cumplicidade se constrói ao longo do tempo. Você deve lembrar que é desde a primeira infância que se estabelecem esses vínculos. Ignorando a realidade, a adolescência do seu filho tem grandes chances de se tornar um martírio para vocês dois. Mas não se preocupe. Essa fase também irá passar, e seu adolescente logo dará lugar a um adulto. 

Antes de ser mãe, você deve lembrar que a gente cria os filhos para a vida. Não somos suas donas, apenas guardiãs temporárias. Amar um filho não é privá-lo de encontrar seu lugar no mundo, mas prepará-lo para alçar seus próprios voos, levando consigo a certeza de que sempre terá para onde voltar. Antes de ser mãe, você deve lembrar que um dia ficará novamente sozinha, pois esse é o ciclo da existência. Aconteceu com nossos pais, acontece conosco, acontecerá com nossos filhos. Todos precisam escrever sua história. E, fisicamente perto ou longe, você sempre estará ao seu lado, com o mesmo amor de quando se viram pela primeira vez.

Antes de ser mãe, você deve lembrar que esse texto não trata do lado ruim da maternidade, pois ser mãe não tem um lado bom e um lado mau. Maternidade é difícil, requer dedicação, abnegação, sacrifício, paciência, sabedoria e, claro, amor - um amor altruísta, diferente de qualquer outro sentimento, que nos dilacera ao mesmo tempo que nos edifica. Ser mãe é tão assustador quanto apaixonante. Se você leu esse texto até o fim e se encheu de coragem, vá em frente. Porém, se bateu uma pontinha de medo, talvez não seja a hora.

Filhos não são status, prêmios de consolação ou recompensa. São seres humanos. São presentes maravilhosos demais para virem ao mundo e existirem nele de qualquer jeito. Ser mãe não é fácil. Vai exigir o seu melhor e, mesmo assim, inevitavelmente, algumas coisas fugirão ao controle e darão errado. É uma luta diária. Eu, particularmente, não trocaria minha maternidade por nada. E se você, que deseja ter filhos, estiver realmente pronta para essa batalha, prepare o colo e o coração: não há nada nessa vida que mais valha a pena.




(Obs.: escrevi sob o ponto de vista de uma mãe porque não tenho total propriedade para incluir o ponto de vista dos papais, mas penso que, independente do laço parental, quando se tem amor e responsabilidade, as lutas e realizações são conjuntas.)

domingo, 11 de junho de 2017

VACINAS: HEROÍNAS OU VILÃS?


Imagem: Google

Ultimamente – entre os amigos, nos grupos de famílias, no trabalho – tenho visto/ouvido inúmeros questionamentos a respeito da utilidade, indicação e segurança das vacinas. Existe um sem fim de informações na internet, algumas bem fundamentadas e outras sem qualquer respaldo técnico-científico, todas muito acessíveis, causando muitas dúvidas na cabeça dos papais e mamães. Compreender o funcionamento das vacinas depende do entendimento de alguns conceitos importantes, entre os quais, o de IMUNIDADE. O que é, afinal, essa tal imunidade?

Imunidade é a resistência ou proteção contra algo, normalmente relacionada com doenças e infecções que podem atacar o organismo de um ser vivo. Assim, a imunidade consiste num conjunto de mecanismos que defendem o corpo de agentes infecciosos invasores. Esse processo ocorre basicamente de duas maneiras: de forma PASSIVA ou de forma ATIVA.

A imunização passiva produz uma rápida e eficiente proteção, que, contudo, é temporária, durando em média poucas semanas ou meses. A imunidade passiva natural é o tipo mais comum de imunidade passiva, sendo caracterizada pela passagem de anticorpos da mãe para o feto por meio da placenta e também pelo leite. Essa transferência de anticorpos ocorre nos últimos dois meses de gestação, de modo a conferir uma boa imunidade à criança durante seu primeiro ano de vida.

A imunização ativa ocorre quando o próprio sistema imune do indivíduo, ao entrar em contato com uma substância estranha ao organismo, responde produzindo anticorpos e células imunes (linfócitos T). Esse tipo de imunidade geralmente dura por vários anos, às vezes, por toda uma vida. Os dois meios de se adquirir imunidade ativa são: contrair uma doença infecciosa e, vejam só!, a vacinação.

É por esse motivo que as vacinas são recursos indispensáveis para a saúde individual e pública. Através da imunização é possível prevenir infecções e impedir que várias doenças se espalhem por um território. Elas atuam estimulando o organismo a produzir sua própria proteção (por exemplo, a produção de anticorpos) contra enfermidades. É a maneira mais eficaz de controlar e até erradicar doenças – quem tem mais de 30 anos dificilmente vai se esquecer da “vacina da pistola”, a qual, até alguns anos atrás, era oferecida largamente nas escolas e teve foi a responsável por exterminar do país uma doença altamente contagiosa, de altíssima morbidade e mortalidade: a varíola!


Imagem: Google

O desenvolvimento de uma vacina segue altos padrões de exigência e qualidade em todas as suas fases. No Brasil, a maioria das vacinas é produzida pelo Instituto Butantan, mundialmente reconhecido pela excelência técnica, e o órgão responsável pela avaliação dos resultados de segurança e eficácia de uma vacina e seu registro é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Anvisa, por meio da Resolução (RDC) n. 55, de 16 de dezembro de 2010, estabelece os requisitos mínimos para o registro de produtos biológicos, entre eles as vacinas. As fases de desenvolvimento exigidas por essa RDC são semelhantes às exigidas pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC).
Esse acompanhamento também é realizado pelo Ministério da Saúde, por meio do Sistema de Vigilância de Eventos Adversos Pós-vacinação (EAPV) do Programa Nacional de Imunizações (PNI). O objetivo é quantificar e qualificar os eventos adversos para não haver dúvidas de que os riscos de complicações graves causadas pelas vacinas são nulos ou muito menores que os oferecidos pelas doenças contra as quais elas oferecem proteção. Todo esse cuidado é para garantir que o melhor produto seja disponibilizado à população, possibilitando, assim, a prevenção, o controle e até mesmo a erradicação de doenças, caso das vacinas contra varíola e poliomielite.


VACINAS INATIVADAS X ATENUADAS

As vacinas são classificadas de acordo com a característica do microorganismo e do mecanismo de ação, em atenuadas e inativadas. As atenuadas são compostas de microrganismos vivos “enfraquecidos” em laboratório, que devem ser capazes de se multiplicarem no indivíduo vacinado para que possa ocorrer a estimulação de uma resposta imune. Essa resposta imune ao microrganismo atenuado é idêntica a produzida pela infecção natural, pois o sistema imune é incapaz de diferenciar entre uma infecção pelo microrganismo vacinal e o microrganismo selvagem. A multiplicação do microrganismo vacinal não costuma ser capaz de causar doença propriamente dita. As reações sistêmicas incluem febre, mal-estar, rash cutâneo, mialgias, cefaléia e anorexia. Esses sintomas usualmente ocorrem 1-2 semanas após a administração de vacinas vivas atenuadas e são considerados como uma “doença” leve provocada pela multiplicação do microrganismo da vacina. É possível, eventualmente, o surgimento de reações locais, como edema, rubor e dolorimento discreto, os quais não costumam evoluir com maior gravidade. Exemplos de vacinas vivas atenuadas: Sarampo, caxumba, rubéola, pólio (Sabin), febre amarela, varicela, BCG.

Por outro lado, as inativadas são compostas de microorganismos que não mais se encontram vivos, logo incapazes de se multiplicarem. Exemplos de vacinas inativadas: DPT (tríplice), hepatite A, hepatite B, raiva, pneumococo, meningococo, influenza, haemophilus do tipo-b, febre tifóide, cólera.


CONTRAINDICAÇÕES

Porém, nem todo mundo pode tomar vacinas. Existem algumas contraindicações:

Contraindicações gerais à vacinação:
• Alergia grave a uma dose prévia da vacina
• Alergia grave a um dos componentes da vacina
• Doença aguda moderada à grave

Observação: As vacinas contra influenza (gripe) e febre amarela não são recomendadas a indivíduos alérgicos à proteína do ovo de galinha.

Contraindicações às vacinas vivas atenuadas:
• Gravidez
• Imunossupressão
• Transfusão recente de produtos sanguíneos

Contraindicações à vacinação BCG:
• Todas relativas às vacinas vivas atenuadas
• Criança com peso < 2 Kg (impossibilidade técnica da aplicação)

Contraindicações à vacinação DPT (devido ao componente pertussis):
• Encefalopatia nos 7 dias pós-vacinação
• Convulsões nas 72 horas pós-vacinação
• Choro persistente e inconsolável, com 3 horas ou mais de duração


É PRECISO SABER

No Brasil, a vacinação das crianças é obrigatória e obedece a um calendário válido em todo o território nacional, recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e pela Sociedade Brasileira de Imunizações. A efetivação do direito à saúde da criança e do adolescente é um dos deveres que incumbe à família, conforme artigo  do Estatuto da Criança e do Adolescente. O cuidado com a saúde dos filhos é um dever inerente ao poder familiar, e assim, o descumprimento deste dever pode levar desde a aplicação de medidas leves aos pais até à destituição do poder familiar, conforme artigo 129 do  ECA. Como já foi dito, a vacinação é um instrumento essencial não só no que diz respeito à saúde individual, mas também à saúde pública, e um indivíduo não vacinado pode ser responsável pelo adoecimento de toda a coletividade e pelo retorno de agravos que, um dia, foram causa importante de óbitos ou sequelas – sobretudo na faixa etária pediátrica, como o sarampo e a poliomielite.

Por isso, papais e mamães, não deixem de conversar com um pediatra. Fundamentem suas leituras em fontes confiáveis. Conheçam a fundo a história natural das doenças imunopreviníveis e, se possível, conheçam também o que muitos desses agravos foram capazes de fazer ao longo da nossa história. Prevenir sempre vai ser a melhor maneira de cuidar não só dos seus pequenos, mas de todas as crianças do nosso Brasil.


Links úteis:

SBIm - mitos sobre vacinas

Mitos e verdades sobre vacinas (Hospital Sírio Libanês)

Calendário Nacional de Vacinação 2017 - Ministério da Saúde

Biotecnologia aplicada ao desenvolvimento de vacinas

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Guirlanda e Luminárias DIY - customizando o Natal

Depois que minha filha começou a caminhar (e a fazer bagunça), muita coisa na minha casa precisou ser repensada. Uma delas foi a decoração de Natal - tínhamos uma árvore de Natal de 210 centímetros, que optamos por não montar nesse fim de ano porque seria extremamente perigoso deixá-la ao alcance de um bebê ávido por explorar cada cantinho do ambiente. Por outro lado, meu filho mais velho ficou indignado com a hipótese de um fim de ano sem pinheiro natalino, e a solução foi comprar uma árvore pequenininha(e enfeites proporcionalmente menores), que pudesse ser acomodada em um local fora do alcance da nossa toquinho. Árvore comprada e enfeitada, o dilema: fazer o quê com a montanha de enfeites antigos? Simples: customizar! 

Sempre tive o sonho de ter uma guirlanda rústica, única, personalizada e feita especialmente para nossa casa. Meu marido, então, preparou a base com cipó trançado e galhos de cipreste; "domei" a folhagem com uma fita fina de cetim verde, preparei os laços para o topo, finalizei com os adornos da decoração antiga e vi surgir a guirlanda mais linda que já tivemos - a um custo que só não foi zero porque utilizamos os arranjos de flores que originalmente tinham sido comprados para a árvore nova, mas acabaram sobrando. 

nossa guirlanda rústica, feita com cipó trançado, galhos de cipreste
e enfeites reaproveitados.



Pronta a guirlanda, partimos para a customização de uma luminária. Tenho o hábito de guardar as garrafas de vidro (de água, suco de uva, cerveja, vinho) para reutilização, e encontrei duas garrafas bem bonitas de vidro verde, já higienizadas e secas, que foram recheadas com pisca-pisca colorido (aquele simples, de 100 luzes) e receberam uma carinha de Papai Noel em feltro, cada uma. O custo foi zero, já que dispúnhamos de todos os itens em casa, e o resultado ficou, apesar de simples, muito bonito!


Luminária de garrafa de vidro verde e pisca-pisca. Ao lado, a caixa-pedestal também
DIY, revestida com papel e com desenhos feitos com cola dimensional pela meninada. 


 O mais legal de fazer seus próprios enfeites, além de economizar um bom dinheiro, é reunir a família para por a mão na massa e deixar tudo com um pouco de cada um. Faz uma baguncinha, mas é uma delícia ver todo mundo envolvido na organização desta data tão especial. Basta soltar a imaginação: não tem cipó? Improvise uma armação com arame trançado ou palha! Não tem cipreste? Dá para utilizar outras folhas e flores secas, estopa e chita! 

E aí, se animou para entrar na onda DIY nesse Natal? 

domingo, 6 de novembro de 2016

cidadela




"tu és um corpo vivendo,
eu sou um corpo vivendo,
nada mais." 

(Clarice Lispector)



um corpo se assemelha
a uma pequena cidade

                   pernas e braços confluem
                   para um  sísmico território
                  de intrincados itinerários

toda pessoa é
uma cidade pequena
e o coração é a mais perigosa
das ruas sem saída



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créditos da imagem: Denise Storer - "Cidadela" (acrílica sobre tela)



sábado, 5 de novembro de 2016

o controle remoto do ar condicionado

fonte: Google (autoria desconhecida)

            O mundo é pródigo em lugares misteriosos. A colônia de Roanorke. O lago Angikuni. O rio Azul, na China. Quem nunca estremeceu ao ouvir falar, por exemplo, no Triângulo das Bermudas? O mais intrigante, entre todos eles, tem como principal característica fazer as coisas desaparecerem e reaparecerem em datas e locais inesperados – e nisso consiste sua alta periculosidade – e se localiza em território brasileiro, mais especificamente em território paranaense: o buraco negro da minha casa, que já tragou de tudo um pouco e teve como última vítima o controle remoto do ar condicionado.

            Há algumas semanas, aproveitando uma frente fria que baniu temporariamente o calor insano típico do final do ano, meu marido e eu resolvemos fazer um faxinão em casa. Arruma daqui, limpa dali, esvazia acolá, ao fim do dia tínhamos a casa brilhando, todos os músculos e articulações doendo, alguns itens para doação e cinco sacolas imensas de lixo para descarte (eliminamos tantas inutilidades que, ao término do trabalho, era possível ouvir um eco estranho reverberando pelos cômodos, que não sei dizer se desapareceu ou se nos acostumamos com ele). A sensação de dever cumprido era tão boa quanto a de uma massagem nas nossas costas destruídas.

            Frentes frias são como paixões na adolescência: vêm e vão. Interrompidos por um temporal, os dias amenos foram substituídos por outros cada vez mais secos e abafados. Consigo tolerar o calor durante o dia, mas minha ideia de um limbo espiritual pós-morte inclui dormir suada, grudenta e com mosquitos em redor do meu desditoso corpo pelo resto da eternidade. Meu marido, por conta de uma rinite alérgica, não é adepto do uso constante de ar-condicionado; chegou, porém, o inevitável momento em que até ele concordou em pedir uma mãozinha à tecnologia para driblar o imenso desconforto causado pelo mormaço. Vamos ligar, pois, o ar condicionado. Mas, ei, cadê o controle remoto?

            Procuramos em todos os lugares: nas caixas de brinquedos das crianças, nos armários, atrás dos livros da estante, sob as camas, em cada bolsa/mala/mochila, na geladeira (houve um episódio em que o buraco negro sumiu com meu smartphone e o fez ressurgir dentro dela), nas gavetas da cozinha, nos sacos de lixo. Mapeamos a casa inteira, fizemos uma retrospectiva do dia da faxina, identificamos os pontos estratégicos (leia-se: os mais improváveis) e nos dividimos na busca pelo ouro.

– E aí, encontrou?
– Nada. E você?
– Nada.
– Gente.

            Os dias passaram. O calor se impôs com uma intensidade sobrenatural. E o controle remoto havia desaparecido.

– Como está quente hoje.
– Ô.
– Mas e o controle remoto?
– Gente.

            Tinha que estar em algum lugar. TINHA QUE ESTAR EM ALGUM LUGAR.

– O cesto de revistas, o sofá, o cafofo da Sushi. O que ficou faltando?
– Acho que nada. A gente já olhou tudo.
– Gente. Não pode.
– Não faltou nada.
– Gente.
– Uma hora vai aparecer.
– Não adianta nada aparecer só no inverno. Tem que aparecer hoje. Sente só esse calor. Não é de Deus.
– Tá quente, mesmo.

            Demos por encerradas as buscas e decidimos comprar outro controle remoto, o que não saiu necessariamente barato – mas valeu, pois o investimento pouparia uma família de ser carbonizada em uma noite incendiária de verão. Não costumo me lembrar dos meus sonhos; no entanto, docemente embalada pelo ambiente geladinho, devo ter sonhado, nesta primeira noite de frescor após tantas outras de tortura, com anjos tocando flautas e liras ao meu redor. Dia depois veio uma nova frente fria, o calor deu uma trégua e o condicionador de ar ganhou alguns dias merecidos de folga, mas a instabilidade climática provocou uma crise de asma no meu pequeno. Fui até a caixinha de remédios, peguei tudo o que precisava, abri a caixa do nebulizador, retirei o motor, as máscaras, as cânulas – e reluzente, enigmaticamente, o controle remoto perdido.

            Más línguas dirão que o problema da minha casa é falta de organização. Não vou me deter a dar mais explicações na tentativa de convencer os incrédulos, até porque nem tenho tempo hábil para tal: dessa vez, o buraco negro sumiu com o carregador do meu notebook e a bateria está por um fio, mas prometo que, assim que ele reaparecer, eu volto. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Caixa em Forma de Coração

Imagem: weheartit

Quando aquela carta chegou, sem qualquer identificação, o primeiro pensamento foi largá-la junto à confusão de papéis inúteis sobre a mesa. Apanhou o envelope em branco – fechado, mas não lacrado – e o examinou contra a luz: viu apenas um pequenino retângulo de papel que, à primeira vista, parecia igualmente em branco. Ao contrário das demais correspondências, sempre entregues pelo carteiro, esta havia sido passada por baixo da porta, nas primeiras horas da manhã. Cogitou jogá-la fora, a curiosidade foi maior: abriu o envelope cuidadosamente, retirou o retângulo dobrado ao meio e abriu. Nenhuma palavra; apenas um perfume delicado evocando alguma coisa conhecida e, há muito tempo, esquecida. 

Fechou os olhos na tentativa de buscar dentro de si o nome daquela lembrança e, quando tornou a abri-los, estava exultante – o cheiro era idêntico ao de uma boneca que tivera na infância, a boneca favorita, sem um olho e quase sem cabelos, com uma costura torta emendando a cabeça e o corpo. Há quanto tempo não se lembrava dela! A mãe acabou jogando-a fora porque havia ficado muito velha e lhe comprara uma boneca nova, que ficara ignorada em um canto do quarto; sua amiga, sua companheira, mesmo, era a outra. Betina, era o nome dela. O papel, sem dúvida, tinha o cheiro da Betina, o mesmo cheirinho de pano, de suor de criança e da água-de-colônia que a avó usava, e que ficava impregnado na boneca quando a velhinha tomava para si o trabalho de costurá-la. Sorriu encantada com a lembrança e com saudades da avó, que partira há alguns anos, da Betina e até da boneca substituta, dada de presente a uma sobrinha muitos anos depois. 

Fechou os olhos novamente, aproximou o retângulo de papel do rosto e aspirou novamente aquele cheiro – viu novamente a avó sentada na cadeirinha de balanço com o cesto de costura ao lado, a mãe assistindo tevê, o pai tomando um café e lendo um livro antes de deitar. Viu novamente a avó, indo até o seu quarto para lhe devolver a Betina, nova em folha, na hora de dormir, junto com um beijo de boa noite. Abriu os olhos, impressionada. Que coisa esquisita!  A carta seria para ela, sem dúvida; não havia de ter ido parar em suas mãos por engano. Devolveu o papel ao envelope e guardou a cartinha em uma pequena caixa em forma de coração que, até então, existia sem uso no interior de uma gaveta. Ainda com um sorriso no rosto, voltou para os afazeres do dia. E, por algum tempo, não pensou mais no assunto.

A segunda carta chegou dez dias depois. Tinha o mesmo jeito da outra – um envelope branco e bem cuidado, sem remetente ou destinatário, igualmente esgueirada por sob a porta num início de manhã. Tomou-o nas mãos e, ao abri-lo, se espalhou pela sala um cheiro azulado, morno e arenoso, prontamente reconhecido: o cheiro da primeira vez em que vira o mar. Dessa vez, conseguiu sentir até a carícia da água nos pés e um sopro suave de brisa a alisar seus cabelos. Uma após outra, mais cartas foram chegando. Sempre do mesmo jeito. Uma delas tinha o cheiro do primeiro dia de aula. Outra, o do seu aniversário de doze anos. Outra, ainda, o do último Natal. E outras, surpreendentemente, tinham cheiro de coisas que não têm cheiro, como de banho de chuva, do primeiro beijo e de procurar desenhos nas estrelas. Em pouco tempo, a caixa em forma de coração estava tão cheia que começava se deformar; as memórias se acumulavam, e tanto tempo haviam estado misturadas entre si que o cheiro desta era também o cheiro daquela. 

Coincidentemente, quando a caixa ficou cheia, as cartas cessaram – um período muito triste, pois a destinatária se havia apegado tanto a recolher suas lembranças que o presente se tornara irrelevante: simplesmente, não sabia mais o que fazer com ele. Recordou-se do dia em que chegara a primeira carta, do quanto a vida era ágil e o passado, fugaz. Há tanto tempo não se lembrava mais de tudo aquilo; espantoso não haver percebido o quanto lhe fazia falta, como espantosa era a absoluta insignificância do que não dizia respeito ao conteúdo de sua caixa. Naquela noite, dormiu abraçada a ela – como se, assim, o cheiro de todas aquelas memórias pudesse penetrar definitivamente em suas narinas, e definitivamente alcançar cérebro e coração para jamais tornar a se apagar. Quando acordou, tinha no pensamento, além das memórias, a imagem da mulher que vivia solitária em um apartamento a dois andares do seu – se esbarravam, volta e meia, no elevador, mas nunca haviam conversado. Na verdade, nunca prestara mesmo muita atenção na vizinha; mas, naquele momento, enquanto se lembrava dela, via seus olhos melancólicos perdidos em meio à confusão dos dias que se ocupavam em nascer e morrer sem que, de fato, sua existência significasse alguma coisa. Compreendeu que as cartas já não lhe pertenciam. Com o coração partido compreendeu o que precisava fazer.

Abriu a caixa, retirou uma das cartinhas, sentiu seu cheiro – longínquo, mas ainda inebriante – pela última vez. Fechou o envelope sem lacrar e, ainda de pijamas, tomou o elevador, apertou o cinco e, segundos depois, estava diante do apartamento da vizinha solitária. Sem hesitar, deslizou o envelope por sob a porta e partiu. Em breve, a caixa em forma de coração ficaria vazia, mas isso já não lhe importava; por algum motivo, estava feliz. Tomou novamente o elevador, apertou o sete e, em casa outra vez, tornou a adormecer. A poucos metros dali, um par de olhos melancólicos, surpreso, também se fechava, admirando, por sob as pálpebras, a inesperada lembrança misteriosamente resgatada pelo terno cheiro de uma certa saudade.


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Toda Mãe é um Ser Imaginário



Ois! Tudo bem com vocês?


Faz tempo que não dou as caras por aqui, mas minha ausência se justifica: com dois filhos pequenos, encontrar tempo e disposição para fazer, nos intervalos dedicados a eles, qualquer outra coisa que não seja comida-cama-banho é um desafio. A maternidade é uma epopeia. A mais árdua e recompensadora delas. Hoje, estou aqui justamente para falar sobre maternidade - a respeito de todas as coisas que imaginamos a respeito das mães e nos fazem esquecer de quem elas são realmente. A respeito das nossas mães, de nós, quando mães, de quem somos além de mães, em quem a maternidade nos transforma. 

O texto é fresquinho, inédito, foi escrito por esta que vos fala e está lá no blog Lado Mãe, no qual participo, a partir de hoje, como colaboradora mensal. Convido vocês a ler aqui, e os desafio a resistir a chamegar muito as mamães após a leitura :)

Beijos com o carinho de sempre!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Trivialidade.






Há alguns dias eu estava com um amigo na livraria de um shopping center, em busca de um presente para um outro amigo. Loja cheia, com mezaninos cheios e com a cafeteria igualmente lotada, coisa que definitivamente não é empecilho para dois alucinados por café. Escolhemos nossos livros, nos dirigimos até o balcão, fizemos nosso pedido e, enquanto esperávamos, Juliano avistou uma mesa com três lugares ocupada por apenas uma pessoa.

- Com licença. Você se importa de dividir a mesa com a gente?

O rapaz olhou para a cara do meu amigo um tanto surpreso, não sei se pela naturalidade com que a pergunta havia sido feita ou se por ser uma vítima estreante naquele tipo de abordagem – afinal, basta olhar para o lado onde quer que se esteja para reconhecer uma infinidade de “solitários por força do hábito”: no cinema, nos restaurantes, lanchonetes, ônibus, bancos de praça... o fato é que, refeito da surpresa, o tal rapaz concordou em dividir conosco sua mesa-para-três-ocupada-por-um.

Confesso que me sinto pouco à vontade de me sentar com desconhecidos, e costumo resolver esse pequeno problema da forma mais simples possível. Apresentando-me. Foi exatamente o que fiz.

- Muito prazer, Flávia. E este é Juliano – e ambos, meu amigo e eu, estendemos a mão com um sorriso. O rapaz retribuiu na mesma moeda e, como há poucas coisas no mundo que um sorriso genuinamente simpático não resolva, em poucos minutos a conversa fluía como se fôssemos três velhos conhecidos. Entre goles de café, biscoitinhos amanteigados, gargalhadas, dicas gastronômicas, impressões sobre viagens e afins, 50 minutos se passaram num piscar de olhos. Nos despedimos de Elias – esse era o nome do moço – com abraços e satisfeitos por tê-lo conhecido, ainda que de forma tão inusitada.

- Cara bacana, né?

- É.

- Será que a gente ainda se vê?

- Não sei, quem sabe... o mundo é pequeno, né?

- É... – e, de braços dados, também deixamos a livraria, com a sensação de que levávamos conosco muito mais do que livros na sacola e um bom café no paladar.

E o que teima em não me sair da mente desde então é a expressão de surpresa no rosto do Elias, quando nos convidamos para dividir com ele sua mesa-para-três-ocupada-por-um. E me causa um certo desconforto, uma estranheza triste e reflexiva, a conclusão de que somos todos “Elias” em graus variáveis de solidão por opção. Talvez a correria do cotidiano tenha feito germinar nas pessoas um instinto subliminar de autopreservação diante da alucinada existência contemporânea, e isso tenha nos afastado uns dos outros a ponto de nos transformar em ilhas cercadas de ilhas por todos os lados. E nos esbarramos sem nos tocar, e nos olhamos de soslaio sem nos enxergar, e nos falamos sem nos dizer coisa alguma.

E assim, sem perceber, nos distanciamos de nossa essência gregária, e convivemos pacificamente com a ausência do outro, sem atentar para o fato de que essa é também uma espécie de “auto-ausência” – pois, ainda que neguemos consciente ou inconscientemente, carregamos conosco, ao longo da vida, a necessidade atávica de compartilhar, de dividir. A questão do espaço é relativa e, de certa forma, insignificante: há quem viva sua “vida-para-vários-ocupada-por-um” até mesmo no ambiente familiar.

Quem sabe um dia eu reencontre o nosso Elias em uma dessas esquinas da cidade – ou no cinema, ou num restaurante, ou num banco de praça, ou quem sabe naquela mesma livraria. Se o mundo é mesmo pequeno como dizem, não duvido que tornemos a dividir uma mesa e alguns bons minutos de nossas vidas. Enquanto isso, continuo acreditando que todo e qualquer lugar vazio é candidato em potencial para ser preenchido. E, igualmente, continuo acreditando que vale a pena preencher os meus – e os dos eventuais “Elias” que aceitarem dividir comigo suas tantas “coisas-para-muitos-ocupadas-por-um”.




(texto escrito em algum dia perdido de fevereiro de 2008. a lição da história, porém, permanece muito bem guardada comigo e ficará, ad eternum.)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Um quarto cor-de-rosa.




Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha sem sequer saber se ela gostará de cor-de-rosa. Eu mesma não gostava. Não sei se fez diferença na minha vida não ter tido meu quarto cor-de-rosa, e também não sei se fará diferença na vida dela. Mas faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque é o que as mães fazem: tentar construir um lugar bonito, seguro e colorido para os filhos, para onde eles possam voltar sempre, mesmo quando alguns sonhos e esperanças desbotarem e a vida parecer um filme melancolicamente preto-e-branco.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque, um dia, ela crescerá – e desejo que jamais se esqueça de que será sempre a minha menina. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque sei que o mundo não o é, e a tratará com rigor e a fará chorar, e desejo que as lembranças de sua cama quentinha, suas bonecas e, sobretudo, do amor incondicional que lhe dedicamos desde o instante em que soubemos que seríamos abençoados com sua chegada sejam como um doce beijo de boa noite a apaziguar diuturnamente seu coração. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque não espero que minha filha seja uma princesa – embora, para mim, seja exatamente o que ela sempre vai ser.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha, porque minha filha está construindo um quarto cor-de-rosa dentro de mim, repleto de lindezas e doçuras e sonhos. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque não posso fazer um mundo cor-de-rosa para ela e, mesmo que pudesse, não o faria – o que posso, e farei, é estar ao seu lado e segurar sua mão mesmo quando ela imaginar estar sozinha em sua caminhada, pois há jornadas que não podemos cumprir pelos filhos, ainda que sejamos capazes de dar um braço ou uma perna para poupá-los de certas dores. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque, além de beijá-la, abraçá-la, amá-la e estar/ser com ela incondicionalmente, é o que posso fazer. E porque fazer um quarto cor-de-rosa para minha filha é como erigir um lugar sagrado onde estaremos sempre juntas, resguardadas pelas ternas memórias dos nossos momentos lado a lado nessa existência.

Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha. Não julgue, amigo querido, uma mãe por se esmerar em coisa tão aparentemente inútil e boba. Mães são assim – estão sempre a se esmerar em coisas bobas e inúteis para seus filhos amados. Construímos quartos cor-de-rosa a cada sorriso de um filho, a cada passinho, a cada vitória dele. Somos meninas aprendendo a crescer através do amor que a maternidade nos descortina, dia após dia. Talvez o quarto cor-de-rosa que estou fazendo para minha filha seja, de fato, para mim. Para você. Para todos nós. Como amor de mãe, que se irradia até onde entendimento humano jamais alcançará.

Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha. E se você, querido amigo, um dia tiver a sensação de que não há mais aonde ir, fique à vontade para se aconchegar.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Você


soundtrack: Lorene Scafaria - We Can't Be Friends


Você, aquele seu olhar de pureza, sempre me desnorteou. Você tinha nos olhos aquela coisa de pureza, uma coisa muito louca, eu olhava pra você e pensava que parecia um anjo, e eu, que nunca acreditei em Deus, flagelava minha descrença até ela quase se transformar em fé, e deve ter se transformado, por alguns segundos, algumas vezes, desconfio. Não o suficiente para que eu desejasse o paraíso, nessas horas eu desejava apenas que você jamais deixasse de olhar para mim daquele jeito, mesmo quando você me beijava a boca, a nuca, e as suas mãos seguravam os meus seios com uma delicadeza morna e úmida, uma delicadeza desistindo de ser lúcida, e a minha pele quase virava a sua – eu aceitava o fim do mundo e o meu próprio sem receio ou barganha porque aqui, nesse lapso efêmero onde somos carne e sangue e osso entremeados de absurdas repercussões sensoriais, eu pertencia a você e você e você a mim, ninguém sendo dono de ninguém, nós apenas nos descobrindo, redescobrindo. Cobrindo-nos de profundidades. Ainda durmo sem travesseiro e com os pés para fora da cama – mas, desde que você se foi, minha pele não se acostuma, e os cantos da casa me olham inquisitivos, atônitos, eu, blasé, mentirosa, respondo: é a vida. Não é a vida, meu amor, não é. Não é a vida, é a minha descrença despencando em queda livre na vontade reprimida de que exista de fato um Deus, uma força, uma entidade que faça todo o transitório ser menos hostil sem você. Porque a vida é transitória, relapsa e insinuadora de desvios. E a minha descrença, permanente e vígil como qualquer promessa de eternidade, se fere inteira em cada “e se”, e eu não consigo mais secar suas feridas. Ou, talvez, não queira.


A verdade é que não acredito em paraíso. Mas em nós, eu acreditava. 



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Enquanto Você Dormia


Um dia você acorda. Acorda pra vida. Acorda de um sono que nem sabia que estava dormindo. Você, que sempre se gabou de ter sono leve, dormiu demais, perdeu a hora, mas antes tarde do que nunca. Você acorda com o rosto inchado e a boca seca, lava o rosto com água gelada, lava a boca pra tirar o gosto ruim de boca adormecida – fechada por tanto tempo para aquilo que você não disse, não provou, não riu. Acorda com a dor de cabeça típica de quem dormiu demais e com o corpo dolorido, entrevado, castigado pela ausência de todas as danças que você não dançou, de todos os lugares que você não visitou, de todas as vezes que você não mergulhou no mar, na vida, na panela de brigadeiro – mergulhar vale a pena até quando a gente toma um caldo aqui e ali.Concordo com você: dormir demais dá uma ressaca dos infernos. Pior que misturar cerveja com vinho doce. Pior que vodca vagabunda. Pior que visualizar e não responder. Muito pior. 

Aí você acorda e tenta se atualizar, liga a tevê, lê os jornais, pega uma revista, feicebuque, uatisápi, bate um papo com o pessoal que sempre sabe tudo o que está rolando – e percebe que, enquanto você dormia, tanta gente casou, nasceu, morreu, aconteceu uma revolução, brincadeira virou trollagem, o que era sério virou brincadeira, o que era legal virou crime e vice-versa, o salário, ó, a moda ficou muito estranha e as pessoas mais ainda, o preço do quilo do tomate disparou, o dos imóveis nem se fala, o Rio de Janeiro continua sendo mas o ser humano nem tanto, e o mais inquietante: percebe que uma boa parte da sua vida passou. Acontece. Você acordou, é o que interessa. 

Agora é vencer a inércia, levantar, tomar um banho (de chuveiro, de sal grosso, de sete ervas, de coragem, sobretudo), chutar pra longe o travesseiro e os lençóis, chutar uma parede imaginária, chutar o pau da barraca, chutar o balde. E, por fim, chutar a gol. Dá tempo. 



Vai um café?




Imagem: DeviantArt


terça-feira, 5 de novembro de 2013

da via crúcis de conjecturar.

Imagem: "Blow, Wind, Blow" - Couting Alyis

Ando cismada com pessoas volúveis. Mais que o habitual. Mais do que consigo ignorar. Porque opinião, ainda que febril, não é coisa que dá e passa. Não arrisco falar de sentimentos: os meus têm raízes profundas, robustas - mas são os meus e, mesmo assim, penso que só sei deles o essencial para não me desconhecer completamente; do coração alheio não se fala, quando mal se sabe o próprio. Preciso perder essa mania de discutir com quaisquer uns, mesmo em silêncio, para provar que tudo está do avesso e não se pode viver de/para efêmeros; devo, talvez, tentar ser mais indulgente com as circunstancialidades. Quem sabe eu esteja errada, e a facilidade que certas pessoas têm de volatilizar isto e aquilo seja um bônus, e fidelizar-se a algo que ninguém mais conhece seja, de fato, a grande loucura da vida. Claro que é.


Eu nunca fui muito lúcida, mesmo.



domingo, 27 de outubro de 2013

do lado de dentro.

Imagem: Bailey Elizabeth (in deviant art)

Há algo sempre comigo. 

Nestes dias, principalmente. A vida segue quase comum - tudo igual, exceto essa coisa que está sempre comigo e que, agora, mal se restringe a me fazer companhia. Não sei dizer seu nome. Não sei dizer o que me provoca - comoção, angústia, tristeza, raiva, euforia, orgasmo. Uma iminência, um pressentimento, talvez. Seja lá do que for. Roo as unhas enquanto tento delimitar um espaço entre mim e esta coisa. Inútil; nem ela e nem eu nos habituaríamos a outras presenças, ou a presença nenhuma, nos momentos em que é preciso levar as mãos ao peito e comprimir com firmeza para que o coração não salte e se choque com a palavra paralisada entre os dentes. Esta coisa é quem limpa minha sujeira quando os sentimentos me evisceram. Esta coisa é que segura minha mão quando medos íntimos me violentam no meio da noite. Há tanto tempo me falta jeito para dizer amor ou delicadeza, mal me lembro se um dia foi fácil e deslizou através dos meus lábios como se tivessem carne de cetim. Roo as unhas, mordo as pontas dos dedos, arranco um pedaço do que faz meus olhos verterem casulos e perscrutações. Não há nenhum ruído lá fora, quase ouço o que se passa dentro de mim - mas esta coisa, esta que permanece comigo consistente e vígil como um cão de guarda, obscurece o silêncio cada vez que, de olhos fechados, me observo e insisto em me cobrar: quem é você?

Roo as unhas, meus dedos sangram um pouco. A dor me salva de (me) saber.




quinta-feira, 24 de outubro de 2013

DA HABILIDADE HUMANA DE JOGAR PEDRA NA GENI


Tenho visto um auê danado em torno da separação de um casal lindo, bem-sucedido, perfeito e famoso. Segundo a mídia, o motivo da separação seria uma moça igualmente linda, bem-sucedida, perfeita e famosa, mas que, ao contrário da esposa traída - alvo de toda solidariedade por parte da mídia e da opinião pública - é "uma puta rodada". 


Traição é algo desnecessário, doloroso, feio, essa coisa toda? É. Quem já foi traído sabe. Eu sei, porque já fui, então aprendi na pele, como aprendi algumas outras coisinhas:

1) Nenhum casal, mesmo lindo e bem sucedido, é perfeito.

2) Ninguém obriga ninguém a trair seu parceiro. a moça que está sendo chamada de "puta rodada" provavelmente não ameaçou o cônjuge alheio com armas, blackmails ou frases do tipo "transe comigo senão vou matar toda a sua família" a fim de que o rapaz dormisse com ela.

3) Machismo e déja vu caminham de mãos dadas na sociedade brasileira - e, infelizmente, esse "passeio no bosque" está a anos-luz de ter um fim. A esposa traída é sempre a vítima; a amante é sempre a puta desgraçada destruidora de lares; o marido sempre sai à francesa da história sem um arranhão. o homem que trai, trai porque é homem. A mulher que trai, trai porque é vagabunda. e a mulher que se sujeita a ser a outra é nada menos que o anticristo.

4) Nenhum relacionamento termina exclusivamente por causa de uma terceira pessoa. O buraco que mantém - ou deixa de manter - duas pessoas juntas é muito, muito mais embaixo.

Menos hipocrisia aí, sociedade.


(que fique claro que em nenhum momento estou fazendo apologia de traição. já fui traída, e sei que é algo que dá início a um processo muito doloroso de juntar os cacos de tudo o que é destruído dentro de nós quando passamos por isso. só estou dizendo que toda traição é multifatorial, como todo relacionamento também é, como indivíduo também é.)



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

só pensando.

antes, rezava a lenda, todo mundo tinha um pouco de médico e louco. hoje, graças à internet, todo mundo tem um pouco de médico, louco, jornalista, cientista político, social media, voyeur e babalorixá. 

bom ou ruim? depende de quanto tempo você passa - e do que você procura - olhando pelo buraco da fechadura. ou daquilo que você mostra ao deixar, propositalmente, uma fresta da janela aberta.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Pausa Para Respirar


Entendi que não gosto de perder o fôlego. Não gosto de taquicardia. Eu aceito a taquicardia como um mal necessário, mas gosto, prefiro, meu coração batendo sem maiores tropeços. Singular e íntimo, como um bom blues. Porque a gente tem que parar para respirar fundo. Desaprender o vício que é estar sempre alerta, experimentar outras percepções – próprias, alheias, comuns. Deixar essa preocupação besta de viver tudo ao mesmo tempo. Não se trata de ser zen ou de se espiritualizar, eu não sou zen e nem me espiritualizei mais do que ontem ou há dez anos; se trata de fazer uma pausa para respirar, pelo tempo que for necessário, apenas para existir um pouco mais. E tenho feito as minhas, ainda que elas não me elucidem (tudo é dicotomia – e me conheço melhor desde que aceitei não saber exatamente quem eu sou).

Respirar, respirar, respirar.


A vida é feita também de pausas.


Imagem: Deviantart

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Cultura do Jeitinho

Dia desses, em meio a uma polêmica suscitada por uma discordância entre condutas profissionais, ouvi de uma colega de trabalho a assertiva “pode ser ilegal, mas não é imoral”. A discórdia que deu origem às discussões era, basicamente, o quanto um determinado hábito, arraigado há muito e perpetuado a fim de facilitar algumas coisas, pode ser nocivo mesmo que sua intenção seja dar um jeitinho de resolver eventuais problemas. Passei dias matutando a frase da moça. E não consegui chegar a outra conclusão senão esta: em tudo se pode dar jeito – mas nem tudo se resolve dando um “jeitinho”.

Diz-se que o Brasil é o país do jeitinho – e é verdade: dá-se um jeitinho para fazer um favor, para sair de um aperto ou, mais frequentemente, em causa própria. Há quem dê jeitinho por compulsão – de fato, deve haver quem seja viciado em jeitinho. Não se sabe como começou, mas o jeitinho virou uma coisa tão tradicional para o brasileiro quanto a feijoada dos fins de semana, a camisa verde e amarela da seleção ou errar a letra do Hino Nacional. Quem renega o jeitinho é chato, caxias, maniqueísta. Quem pratica é querido, esperto, prestativo. Fazemos parte de uma cultura na qual quem se nega a dar um jeitinho nas coisas frequentemente é interpretado como disfuncional e antipático. O jeitinho brasileiro é conhecido mundo afora. Quem tem DNA brazuca faz, e isso tem seu lado bom – o jeitinho brasileiro é uma das maiores expressões da criatividade que nos permite dar a volta por cima em situações altamente desfavoráveis, e isso é necessário e saudável, e tão automático que, embora seja quase sempre uma atitude lúcida, às vezes acontece de maneira até inconsciente. O lado ruim do jeitinho é que, cada vez mais, se cruza uma fronteira delicada quando a prática deixa ser exceção para se tornar a regra: seja por comodismo, viés de planejamento ou porque “isso aqui não dá nada”, entre jeitinhos e “jeitinhos”, o que é lícito e ético, e o que deixa de ser?

Dar um “jeitinho” – assim mesmo, entre aspas e com jeitão de gambiarra – não é simplesmente feio. Soltar um pum e colocar a culpa no cachorro é feio. Quando, ao dar um “jeitinho”, há a intenção de obter alguma vantagem, paralela ao fato de que alguém, direta ou indiretamente, em diferentes escalas, arcará com o prejuízo – seja financeiro, moral ou emocional, consciente ou não – o “jeitinho” deixa de ser inócuo e vira uma praga. Senão ilegal, no mínimo, imoral. Sendo assim, não há diferença entre quem sonega impostos ou o centavo de troco daquilo que custa 1,99, ou entre aquele que chega atrasado e fura a fila para ser atendido primeiro e quem rouba no peso do quilo da cebola, ou quem superfatura nota fiscal, ou quem adultera atestado documentos, ou quem finge doença pra passar uns diazinhos em casa. Dá um “jeitinho” quem faz gato na rede elétrica, quem rouba o sinal da tevê a cabo do vizinho, quem delega suas responsabilidades a terceiros com o objetivo de tirar vantagem. E dá um “jeitinho” quem se acumplicia com o jeitinho alheio, mesmo ciente de que sempre haverá alguém para pagar o pato. Ninguém conseguiu, até hoje, foi dar um jeitinho para acabar com o “jeitinho”. E, embora tantas discussões, cada vez mais calorosas, a respeito de moral e ética, a prática segue inversa à teoria.

Diz-se que o Brasil é o país do jeitinho – e é verdade. O que não quer dizer que, individualmente, o brasileiro não tenha solução: aquilo que praticamos no dia a dia e o quanto somos capazes de nos portar corretamente quando ninguém está olhando dá o tom de quem realmente somos. Que o jeitinho brasileiro, um dia, deixe de ser sinônimo de gambiarra e passe a ser visto como uma das nossas qualidades mais notáveis. Até lá, o jeito é praticar o desapego do tal “jeitinho” e demonstrar que sabemos arrumar a casa sem jogar a sujeira debaixo do tapete. Porque pode até ser que ninguém saiba que ela está lá – mas sempre existe um dia de ventania, e aí...


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A PEC da Mulher Maravilha

Há alguns anos, abri mão de ter empregada doméstica porque não vi muita razoabilidade em pagar uma pessoa para fazer algo que eu mesma faço, e tão bem quanto.

Mentira. Ficar sem empregada doméstica, àquela altura do campeonato – com uma rotina de trabalho insana, um filho de três anos, um cachorro indomesticável e um corpo a caminho dos quarenta, que pode até ter boa vontade, mas, indiscutivelmente, já não tem o mesmo pique de alguns anos atrás – foi uma questão de caixa. Não que a mudança na legislação trabalhista das domésticas tenha me surpreendido: assinar carteira, pagar hora extra, recolher FGTS e combater a informalidade eram rotina na minha vida muito antes da PEC que regulamentou os direitos dos trabalhadores domésticos. A verdade é que, mesmo exercendo uma função pela qual sou relativamente bem remunerada, o amontoado de contas a pagar no início de cada mês fazia meu salário se transformar rapidamente em nada mais que uma vaga lembrança na minha conta bancária; colocadas todas as despesas na ponta do lápis, abrir mão da funcionária me renderia uma economia mensal de quatro dígitos, e anual de cinco. Analisei todos os prós e contras e cheguei à conclusão de que seria perfeitamente possível dar conta do serviço da casa já que, trabalhando fora o dia inteiro e com o filho na creche, não nos sobraria muito tempo (nem energia) para fazer tanta bagunça; a rotina seria, mais ou menos, chegar em casa, passar uma vassoura, lavar uma loucinha, colocar a roupa na máquina para lavar e deixar o “grosso" para o fim de semana. Tudo muito harmônico. Até cheguei a pensar duas vezes, mas a possibilidade de ter um dinheirinho sobrando venceu. E a minha vida, que já não era lá um exemplo de calmaria, ao contrário do que eu imaginava, virou definitivamente de pernas para o ar.

A primeira semana sem a funcionária não foi tão ruim – eu estava sob efeito da empolgação inicial e a casa ainda permanecia razoavelmente organizada, a ponto de me fazer acreditar que tinha me preocupado à toa. Chegava do trabalho, fazia o jantar, lavava a louça, varria a casa e passava uma flanelinha nos móveis para tirar o pó, e a máquina dava conta da roupa suja da semana. Nem percebi que, pouco a pouco, as roupas começavam a se acumular à espera de que eu me encorajasse a encarar um ferro de passar somado a algumas horas de pé, e que meus armários, estantes e banheiros, em questão de dias, pareciam ter sido varridos pelo furacão Katrina. Intensifiquei o ritmo e passei a limpar, limpar, limpar – mas, se minha boa vontade era grande, a falta de jeito e familiaridade era infinitamente maior, e eu tinha a impressão de que tudo estava sempre caótico. Precisava dividir meu pouco tempo extra entre cozinhar, limpar, lavar, passar, ser mãe, estudar e, ainda, encontrar alguns minutos para cuidar de mim – o que foi me deixando cansada e mal-humorada porque, afinal de contas, mesmo acostumada a fazer várias coisas ao mesmo tempo, não fiz curso de Mulher Maravilha. Pegar o jeito das coisas não foi fácil; foi um típico “caminho das pedras”, que me fez ter certeza de que a mudança na legislação dos trabalhadores domésticos já veio tarde (e que eu gostaria de de ganhar, além de um cachorro autolimpante e de um robô igual àquele da família Jetson, uma PEC que, diante de tanto esforço, legalizasse, como um direito “politrabalhista” legítimo e inalienável de toda Mulher Maravilha diplomada ou não, meu lugarzinho no paraíso). E, passado o primeiro mês, e o segundo, e o terceiro, finalmente, vi minha vida sem empregada doméstica entrar nos eixos e passar de caos a uma experiência enriquecedora e (pasmem) prazerosa, até.

Hoje, além de cumprir minha jornada profissional formal de 40 horas por semana, sou minha “personal” faxineira, cozinheira, office boy e, muitas vezes, cabeleireira e manicure (porque o tempo que eu dedicava indo ao salão duas vezes por semana, agora,  é dedicado a preciosas, merecidas e ansiosamente aguardadas horas de descanso, leitura, lazer e mimos pessoais). Se compensa? Compensa, quando vejo que o gás de cozinha dura mais, a conta de energia caiu em mais de 30% e a do supermercado também diminuiu consideravelmente depois que aprendi a comprar os produtos certos e a utilizá-los sem desperdício – eu não fazia ideia de quanto podia durar um frasco de detergente de louças, ou um litro de amaciante de roupas, ou um quilo de sabão em pó, até essas coisas passarem a fazer parte da minha rotina. Nem sempre consegui guardar a grana, mas ninguém pense que torrei o dinheiro com futilidades – ao longo desse tempo all by myself (que deixou de ser all by myself depois que conheci meu atual marido, o qual se mostrou, além de um príncipe encantado, a mola mestra no que se refere aos cuidados com as crianças e com as tarefas do lar), consegui, entre outras coisas, trocar o sofá, comprar a mesa de jantar dos meus sonhos, refazer a cozinha, investir em um carro melhor, financiar parte da nossa casa própria, quitar várias continhas e investir em uma série de itens que fazem a vida de qualquer dona de casa parecer um comercial de Veja.

Apesar de não ser a Mulher Maravilha, nesses anos sem empregada doméstica, acredito que tenho me virado muito bem. Estou pensando em me dar de presente uma folguinha para voltar a malhar em uma academia, e não apenas entre baldes, panelas e produtos de limpeza. Ao contrário do que algumas pessoas podem imaginar, não encaro ter que arrumar minha própria bagunça como castigo: cuidar da casa virou quase uma terapia. E aprendi a organizar não só o meu espaço físico, mas também meu tempo, meu dinheiro, minhas prioridades e, por tabela, até minha própria vida. Ficar sem empregada doméstica, longe do que muita gente supõe, não foi o fim do mundo, e sim o começo de uma rotina que me ensinou, entre outras coisas, a otimizar meu tempo e a ser ainda mais prática e independente. Porque nos dias de hoje, se duvidar, até a Mulher Maravilha deve ter um pezinho na cozinha – e insistir em manter os pés fora do chão pode custar muito caro. Em todos os sentidos.