segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Primazia

"Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água..."

Chico Buarque - Gota D'Água


Soundtrack: Dionne Warwick - Walk on By



Eu te amei com todas as minhas forças e todas as minhas fraquezas. Escancarei a nudez da minha alma diante dos teus olhos, te entreguei meu corpo de dama e meu cio de besta. Confessei-te meus segredos, adulterei minha pouca razão e desalinhei-a para caber sem temores entre as tuas carícias. Sim, eu rompi com todas as minhas premissas, porque te amei – e, porque te amei, morri e vivi desse amor tantas e tantas vezes, e em todas as vezes cri que fosse a última e me surpreendi ali, continuamente morrendo e vivendo, continuamente morrendo e vivendo, continuamente morrendo e vivendo. Porque te amei.

E esse amor, onde ficou? Desalentado, esquecido atrás da porta, enquanto apagavas as luzes para reacender teus olhos em alguma esquina furtiva do teu labirinto de desejos, em algum encanto barato e fugaz. Perdido entre os cacos da última garrafa de vinho, um tanto ébrio, borrado ainda do violáceo dos teus beijos frios. Ressequido. Esse amor ficou vagando atônito, a passos pequenos, descrevendo círculos estéreis por entre os “não” que a tua inconstância deliberou cravar entre nós dois. Esse amor se desfez do abraço frouxo de amor que cinge uma inexistência e cruzou os braços – cruzou os braços. E amor de braços cruzados esquece de si, amor, ou se faz esquecer – porque vive de tempo presente, desentende, ignora o depois.

Esse amor não ficou, amor. Esse amor, aquele amor, se foi.

E tu? Por onde vais agora, sem vinho e sem esquinas?


domingo, 26 de outubro de 2008

Caro Desconhecido:


Escrito e endereçado a quem interessar possa,
na primeira manhã do primeiro inverno em que nevou flores.


Decidi que lhe escreverei cartas. Não me importa que não nos conheçamos; é a você mesmo que desejo escrever. Tampouco me incomoda não saber a sua história; ainda assim você saberá a minha. Em cada letra segue meu segredo mais bem guardado, minhas verdades respiradas, o calor das pontas dos meus dedos marcados pela tez das sensações impregnadas na minha íris. Uma história nem tão bonita, nem tão feia. Nem tão comum, nem tão extraordinária. Uma história nem tão uma, nem tão história, contada, sobretudo, nas pausas e nos hiatos onde pululam as palavras que não escrevi. Não sei se o endereço está correto mas, se nesse momento você estiver lendo essas linhas e tentando compreender o que se passa, significa que sim – é você a quem minhas palavras deveriam chegar, após se extraviarem de tantos silêncios. É assim: às vezes precisamos facilitar as coisas para que a vida se encarregue de nos levar a quem seja capaz de transformar signo em significância.

Escrever-lhe-ei uma carta por dia, sem data, sem remetente – um coração não cabe no tempo, e o tempo não cabe em nomes ou envelopes. Escreverei para falar de mim. E, quem sabe, de você; talvez lhe seja desconfortavelmente surpreendente perceber que somos tão iguais. Ou, talvez, lhe seja um alento. O que sei é que é a você, caro desconhecido, que desejo escrever essas cartas, embora não saiba o motivo pelo qual me é tão necessário e urgente que me conheça – talvez porque, quem sabe, será você a me reconhecer em meio à profusão de rostos que assomam à minha superfície em busca de existência e perenitude, caso um dia eu não me recorde mais de quem sou.