Soundtrack: Allie Moss - Corner
Então: lembre aquilo que eu lhe disse. A razão das coisas é
serem imperfeitas. Imperfeitas como meu café sempre mais forte ou mais fraco ou
mais doce ou mais amargo do que deveria.
Imperfeitas, e ponto final. Como minhas cartas: sem cabeçalho e repletas
de incorreções e autenticidades desnecessárias. É assim. Portanto vamos às
notícias, que é o que interessa.
As notícias são as mesmas de sempre, não fosse o ineditismo
de meu primeiro fio de cabelo branco – há quem insista para que eu o arranque
mas o deixo ali entre os outros, único e reluzente, quase como uma coroa. A
parte minha mais parecida comigo, esse inevitável fio de cabelo branco. Que
fique aí e, insidiosamente, se multiplique – porque nunca temi velhice e meu
grande medo sempre foi, e ainda é, perceber ser inconveniente para mim mesma. Vou
mudar outra vez – de cidade, de casa, de vida. Encontrei um apartamento não tão
grande mas espaçoso, com jeito de antigo e cheiro de dias melhores se
aproximando, com muitas e amplas janelas, dessas que permitem à luz entrar também dentro de nós. Ficará
ainda melhor com um pouco de cor. Ainda não decidi onde vou arrumar os livros e
discos e você sabe, gosto deles um tanto desarrumados porque assim me parecem
mais interessantes; as fotos, inclusive aquelas que você achava estranhas por
se assemelharem demais a sentimentos desconhecidos se aproximando íntimos o
suficiente para desvendar nossos segredos, creio que gostarei delas pelas
paredes, perscrutadoras dos meus tons de vida. Ando em busca de olhos fiéis.
Troquei novamente o número do meu telefone. E confesso: não
me lembro do seu. Preciso de uma agenda telefônica daquelas antigas, de papel
mesmo – nada dessas geringonças eletrônicas que parecem fantásticas mas que, de
uma hora para outra, se tornam mais inúteis que uma pilha gasta. Eu
costumava ter boa memória antes dessas coisas virarem rotina; a rotina, hoje, é
não recordar sequer o que comi no café da manhã. Faz parte. Não faz parte é
esperar, isso ainda não aprendi. Mas pratico – diária e diligentemente, porque
o erro maior é não procurar saber. Portanto, quando precisar de mim, ou quando
quiser falar comigo, estou todos os dias, à mesma hora, na esquina daquela rua
inventada onde o tempo não passa porque ali é sempre quando fui mais
feliz nessa vida, e eu não me lembro quando foi, mas sei que foi um dia muito,
muito suave, como uma canção de ninar na boca de uma mãe ou um par de mãos dadas.
Passo, paro, respiro, observo, sigo adiante – mas sempre volto. Sempre.
Então, eu não vou me despedir de você porque nenhum de nós
está partindo. E, em meio a tudo isso, lembre aquilo que eu lhe disse: as
coisas são assim, marginais, sabiamente defeituosas. Como a imperfeição dos cafés,
cartas, memórias, juízos, com a virtude incógnita de serem certas em seus
desvios, tão incógnita quanto amores perfeitos.

