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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Íris

Do que pulsa no peito.

Soundtrack: Etta James - Stormy Weather





Quando me dei conta de que os meus olhos têm a tua cor, éramos meu coração e eu, apenas, repousando sob o céu calado de um dia completamente azul, salpicado da memória dos teus sorrisos – e havia o teu rosto em cada cristal de luz que me acariciava os cabelos. Era a paz dissipando a tempestade germinada das minhas dúvidas mais ferozes, aquelas norteadas para uma estéril busca de sentido no que não admite razão. Nesta paz tão súbita e tão familiar não cabe razão alguma, nem entendimento, nem outras desnecessidades dessas inutilmente ansiadas – e que discernimento pode ter alguém cujo coração parece assim pequeno diante de paixão tamanha mas que se redimensiona, se agiganta na intenção de abrigar o que não tem medida?

Quando me dei conta de que a tua presença é maior do que qualquer ausência presumível, quando me dei conta de que me deixar consumir pelos receios é inútil – porque te trago irremediavelmente entranhado no corpo e na alma – meu coração acalentado inundou de paz os meus olhos cor-dos-teus-detalhes. Sem questionamentos me entreguei à vontade desse pulsar de origem indefinida, irradiada do melhor que tenho em mim, e já não me oculto sob a armadura das dissimulações: vou, apenas, prescindindo de lógica, abandonando artifícios, ignorando destinos – são as tuas mãos que me abrem os caminhos.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Dos Vícios Perdoáveis

F., 29 anos. Nada limpa.

Soundtrack: Janis Joplin - Cry, Baby*


A paixão é tal e qual um remédio tarja-preta.

E dizer isso não é desmerecer a paixão, nem tentar fazê-la parecer menos saudável e necessária. Mas é verdade que paixão vicia. Vicia tanto que ninguém sabe o que fazer quando, de repente, percebe que a cartela está vazia porque o miraculoso e costumeiro comprimidinho acabou no dia anterior.

É exatamente como um tarja-preta: doses individualizadas, porque há quem não tolere altos teores da substância assim, de supetão, circulando pelo organismo; diferentes formas de apresentação pois, enquanto algumas pessoas são capazes de engolir cápsulas e drágeas numa boa, outras precisam beber soluções, xaropes e emulsões, gota a gota ou de colherinha, e existe quem só funcione com a droga lançada sem delongas na corrente sanguínea, direto na veia. E os efeitos colaterais, ah, os inevitáveis efeitos colaterais: boca seca, sudorese profusa, tremores, visão turva, perda de apetite, rubores, vertigens, palpitações, fala embotada, insônia, episódios febris, delírios. Sintomas às vezes incômodos, fora de hora, de um descabimento homérico e transtornante, sem falar no perigo iminente da dependência – mas o remédio é dos bons, deixa a gente mais leve e disposta, vale a pena correr os riscos.

A paixão é, ao mesmo tempo, antidepressiva e ansiolítica, e os efeitos são imediatos. A pele fica mais viçosa, a circulação mais eficiente, o humor menos lábil, a libido mais aguçada, o raciocínio mais rápido, a gente agradece aos céus o bendito “doutorzinho” – ou “inha” – que acertou em cheio no tratamento, e não abre mão da abençoada prescrição por nada nesse mundo. Mas a “paixonina” é ainda mais psicotrópica que a mais potente das anfetaminas: circula livremente pelo organismo e estabelece circuitos de reentrada nos sistemas nervoso e cardiovascular sem sofrer a ação de nenhum mecanismo inibitório, e não há sistema de depuração enzimática que seja capaz de clivar as suas moléculas. É fácil se intoxicar de paixão. Difícil é distinguir com precisão o limite entre o terapêutico e o patológico. Não há antídoto contra a paixonina. O único expurgo cabível é o tempo, mestre na arte de eliminar os excessos e ressacas de paixões tumultuadas e inadvertidamente exacerbadas. É sentar, segurar a cabeça – e o coração – entre as mãos e esperar passar.

E passa. Mas há que se reconhecer a dependência e, sobretudo, há que se ter vontade e disciplina para lutar contra ela, pois as recaídas são freqüentes, massacrantes e terrivelmente... apaixonadas. É um longo e penoso caminho até que o dependente se torne definitivamente capaz de dizer “estou limpo”.Só por hoje, ao menos por hoje, ainda hoje limpo. A paixão se parece deveras com um remédio tarja-preta. É bom, é ótimo ter paixão circulante no sangue – em níveis séricos aceitáveis pelo Ministério da Saúde Sentimental. A gente tem que sorvê-la em doses quase homeopáticas, mas sempre bate aquele frisson de tomar o frasco todo pra curtir o barato lisérgico das paixões cavalares. Overdoses de paixão são tão fascinantes quanto constantes. Talvez pelo medo de seguir à risca as recomendações e sentir, como efeito único, apenas uma coceirinha morna e desmilingüida no meio do peito – até terminar o frasco e descobrir, num pasmo atônito, que a receita se perdeu.


*Janis Joplin foi uma cantora americana de blues, influenciada pelo rock e pelo soul. Lançou quatro álbuns, desde 1967 até o lançamento póstumo, em 1971, do álbum Pearl, gravado com o grupo Full Tilt Boogie Band, de onde faz parte a faixa Cry, Baby. Hoje é lembrada por sua voz forte e marcante, bastante distante das influências folk mais comuns em sua época, e também pelos temas de dor e perda que escolhia para suas músicas. Disse, certa vez: "Do not make compromisses, you are what you've got!" - inglês corrente para "não faças compromissos, tu és tudo o que tens".