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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Trivialidade.






Há alguns dias eu estava com um amigo na livraria de um shopping center, em busca de um presente para um outro amigo. Loja cheia, com mezaninos cheios e com a cafeteria igualmente lotada, coisa que definitivamente não é empecilho para dois alucinados por café. Escolhemos nossos livros, nos dirigimos até o balcão, fizemos nosso pedido e, enquanto esperávamos, Juliano avistou uma mesa com três lugares ocupada por apenas uma pessoa.

- Com licença. Você se importa de dividir a mesa com a gente?

O rapaz olhou para a cara do meu amigo um tanto surpreso, não sei se pela naturalidade com que a pergunta havia sido feita ou se por ser uma vítima estreante naquele tipo de abordagem – afinal, basta olhar para o lado onde quer que se esteja para reconhecer uma infinidade de “solitários por força do hábito”: no cinema, nos restaurantes, lanchonetes, ônibus, bancos de praça... o fato é que, refeito da surpresa, o tal rapaz concordou em dividir conosco sua mesa-para-três-ocupada-por-um.

Confesso que me sinto pouco à vontade de me sentar com desconhecidos, e costumo resolver esse pequeno problema da forma mais simples possível. Apresentando-me. Foi exatamente o que fiz.

- Muito prazer, Flávia. E este é Juliano – e ambos, meu amigo e eu, estendemos a mão com um sorriso. O rapaz retribuiu na mesma moeda e, como há poucas coisas no mundo que um sorriso genuinamente simpático não resolva, em poucos minutos a conversa fluía como se fôssemos três velhos conhecidos. Entre goles de café, biscoitinhos amanteigados, gargalhadas, dicas gastronômicas, impressões sobre viagens e afins, 50 minutos se passaram num piscar de olhos. Nos despedimos de Elias – esse era o nome do moço – com abraços e satisfeitos por tê-lo conhecido, ainda que de forma tão inusitada.

- Cara bacana, né?

- É.

- Será que a gente ainda se vê?

- Não sei, quem sabe... o mundo é pequeno, né?

- É... – e, de braços dados, também deixamos a livraria, com a sensação de que levávamos conosco muito mais do que livros na sacola e um bom café no paladar.

E o que teima em não me sair da mente desde então é a expressão de surpresa no rosto do Elias, quando nos convidamos para dividir com ele sua mesa-para-três-ocupada-por-um. E me causa um certo desconforto, uma estranheza triste e reflexiva, a conclusão de que somos todos “Elias” em graus variáveis de solidão por opção. Talvez a correria do cotidiano tenha feito germinar nas pessoas um instinto subliminar de autopreservação diante da alucinada existência contemporânea, e isso tenha nos afastado uns dos outros a ponto de nos transformar em ilhas cercadas de ilhas por todos os lados. E nos esbarramos sem nos tocar, e nos olhamos de soslaio sem nos enxergar, e nos falamos sem nos dizer coisa alguma.

E assim, sem perceber, nos distanciamos de nossa essência gregária, e convivemos pacificamente com a ausência do outro, sem atentar para o fato de que essa é também uma espécie de “auto-ausência” – pois, ainda que neguemos consciente ou inconscientemente, carregamos conosco, ao longo da vida, a necessidade atávica de compartilhar, de dividir. A questão do espaço é relativa e, de certa forma, insignificante: há quem viva sua “vida-para-vários-ocupada-por-um” até mesmo no ambiente familiar.

Quem sabe um dia eu reencontre o nosso Elias em uma dessas esquinas da cidade – ou no cinema, ou num restaurante, ou num banco de praça, ou quem sabe naquela mesma livraria. Se o mundo é mesmo pequeno como dizem, não duvido que tornemos a dividir uma mesa e alguns bons minutos de nossas vidas. Enquanto isso, continuo acreditando que todo e qualquer lugar vazio é candidato em potencial para ser preenchido. E, igualmente, continuo acreditando que vale a pena preencher os meus – e os dos eventuais “Elias” que aceitarem dividir comigo suas tantas “coisas-para-muitos-ocupadas-por-um”.




(texto escrito em algum dia perdido de fevereiro de 2008. a lição da história, porém, permanece muito bem guardada comigo e ficará, ad eternum.)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Um quarto cor-de-rosa.




Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha sem sequer saber se ela gostará de cor-de-rosa. Eu mesma não gostava. Não sei se fez diferença na minha vida não ter tido meu quarto cor-de-rosa, e também não sei se fará diferença na vida dela. Mas faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque é o que as mães fazem: tentar construir um lugar bonito, seguro e colorido para os filhos, para onde eles possam voltar sempre, mesmo quando alguns sonhos e esperanças desbotarem e a vida parecer um filme melancolicamente preto-e-branco.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque, um dia, ela crescerá – e desejo que jamais se esqueça de que será sempre a minha menina. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque sei que o mundo não o é, e a tratará com rigor e a fará chorar, e desejo que as lembranças de sua cama quentinha, suas bonecas e, sobretudo, do amor incondicional que lhe dedicamos desde o instante em que soubemos que seríamos abençoados com sua chegada sejam como um doce beijo de boa noite a apaziguar diuturnamente seu coração. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque não espero que minha filha seja uma princesa – embora, para mim, seja exatamente o que ela sempre vai ser.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha, porque minha filha está construindo um quarto cor-de-rosa dentro de mim, repleto de lindezas e doçuras e sonhos. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque não posso fazer um mundo cor-de-rosa para ela e, mesmo que pudesse, não o faria – o que posso, e farei, é estar ao seu lado e segurar sua mão mesmo quando ela imaginar estar sozinha em sua caminhada, pois há jornadas que não podemos cumprir pelos filhos, ainda que sejamos capazes de dar um braço ou uma perna para poupá-los de certas dores. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque, além de beijá-la, abraçá-la, amá-la e estar/ser com ela incondicionalmente, é o que posso fazer. E porque fazer um quarto cor-de-rosa para minha filha é como erigir um lugar sagrado onde estaremos sempre juntas, resguardadas pelas ternas memórias dos nossos momentos lado a lado nessa existência.

Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha. Não julgue, amigo querido, uma mãe por se esmerar em coisa tão aparentemente inútil e boba. Mães são assim – estão sempre a se esmerar em coisas bobas e inúteis para seus filhos amados. Construímos quartos cor-de-rosa a cada sorriso de um filho, a cada passinho, a cada vitória dele. Somos meninas aprendendo a crescer através do amor que a maternidade nos descortina, dia após dia. Talvez o quarto cor-de-rosa que estou fazendo para minha filha seja, de fato, para mim. Para você. Para todos nós. Como amor de mãe, que se irradia até onde entendimento humano jamais alcançará.

Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha. E se você, querido amigo, um dia tiver a sensação de que não há mais aonde ir, fique à vontade para se aconchegar.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Um Instante de Felicidade



"Capineiro de meu pai
não me cortes meus cabelos.
Minha mãe me penteou;
minha madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira
que o passarim beslicou."

(Belchior - Aguapé)




Tenho um bonsai de figo.

A verdade é que, nem sempre, o bonsai me pertenceu; foi, originalmente, um presente dado por mim a meu ex-marido e que ele, quando nos separamos, por motivos que não vem ao caso, não levou consigo. A separação não foi nada amigável, mas seria uma insensatez cruel deixar a plantinha morrer. Fiquei com ela, no início mais por obrigação do que por opção, e passei e cuidá-la com a disciplina de quem cuida de uma criança pequena – eu que, mais do que desacostumada a vasos, terra e outras peculiaridades do reino vegetal, nunca havia cogitado ter uma planta.

O ex-marido se foi, o bonsai ficou. Acomodei-o num canto iluminado e arejado próximo ao que restara de uma begônia tão presente de aniversário quanto e que eu, apesar dos esforços, não conseguira salvar (tempos depois imaginei que a visão de uma begônia agonizante poderia aterrorizar um pouco o bonsaizinho – mas, como ele continuou viçoso mesmo quando sua companheira, dali a poucos dias, morreu definitivamente, não vi razão para mudá-lo de lugar). Dizem que o bonsai é uma planta de um dono só. Tive, por certo período, receio de que ele, com saudades do antigo proprietário, me rejeitasse, e virasse em poucas semanas uma arvorezinha seca. Não virou. Despreocupei-me.

Confesso: os primeiros dias não foram nada fáceis. Havia mesmo certa animosidade entre nós – e, para quem se pergunta como pode existir animosidade entre um ser humano e uma planta eu digo: plantas são seres mais sensíveis do que certas pessoas e percebem nosso estado de espírito. Mais do que isso, demonstram claramente o seu próprio. Nada que eu fazia lhe agradava. Se lhe oferecia menos água, era pouco; se lhe oferecia mais, era muito. Quando a deixava ao sol, era muito quente – e se a levava para dentro de casa era muito escuro, frio, sufocante para uma planta. Fui até a floricultura onde o havia encontrado, comprei o melhor adubo, terra especial, aprendi tudo sobre bonsais de figo: que gostam da vaporização da copa e de ambientes ventilados e arejados, que o sol reduz a folhagem embora os faça crescer mais vigorosamente, que a sombra aumenta o tamanho das folhas e que bonsais de figo não curtem temperaturas muito frias. Que existem figos “femininos” e “masculinos”, que o figo é considerado um fruto sagrado pelos judeus e que na Birmânia e no Ceilão também é venerada com árvore religiosa; que, na Índia, a figueira é a árvore sagrada sob cuja sombra Buda se acomodava para escrever seus manuscritos. Que os astecas e maias usavam a casca do fícus para fazer papel e os gregos e romanos como medicamento, que existem centenas de espécies de fícus e que meu bonsai se chama, cientificamente, Ficus benjamina. Estabeleci rituais de cuidado seguidos à risca quase com a disciplina e espiritualidade de um mestre zen. Independente do que eu fizesse, porém, as folhas continuavam meio encolhidas, com jeito de ressabiadas, e o que dizer daquele verde? Áspero, mal-humorado, com cara de quem estava achando tudo muito monótono. Aquele verde não tinha nenhum brilho nos olhos. Definitivamente, eu não lhe apetecia.

O que veio a seguir aconteceu em uma noite quente de quase verão. Havia uma brisa fresca e, apesar do calor, a noite era agradável; meu filho, que ainda contava poucos meses de nascimento, dormia profundamente no berço, no mesmo quarto onde minha mãe assistia a um programa de tevê. Decidi passear pelo gramado e acabei me sentando sob uma laranjeira, ao lado de onde havia deixado, horas antes, meu bonsai de figo. Comecei a pensar na vida. E, subitamente, me sentia menina demais para compreender que havia ainda uma vida inteira pela frente. Então, naquela noite – que era, como meus pensamentos, morna e imediata, e que parecia tão eterna e estática como se fosse sempre ser noite escura embora eu soubesse que, após ligeira brevidade, seria manhã – sentei-me com os joelhos cerrados entre os braços e precisei me esforçar para conter a primeira lágrima. Eu sabia que minha pequenina figueira estava ali. Então estiquei uma mão em direção a ela e, ainda com os olhos na direção do nada, disse com uma cumplicidade tanta que até me surpreendeu:

- Você sabe. Eu sei que você sabe o que eu estou sentindo.

Continuei a acariciá-la – até que meus dedos esbarraram em uma forma arredondada, de uma textura diferente e suave. Não me contive: saltei em sua direção e estava ali, o primeiro fruto do meu bonsai de figo! E era, eu tinha certeza, um presente seu para mim. Enquanto minha pele era acariciada por suas folhas, eu me entregava à comunhão silenciosa com aquela arvorezinha. Eu a ignorara durante tanto tempo. Tive raiva dela, até. Mas, naqueles dias tumultuados, eu sabia, agora eu sabia, ela também cuidara de mim, a princípio mais por obrigação do que por opção, como eu fizera com ela quando seu legítimo dono se foi. Mas ela também aprendera a gostar de mim. Havia amor, afinal.

Foi, sem dúvida, um instante de felicidade.




segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Pará e o Pará da Mídia


Meu nome é Flávia, tenho pouco mais de trinta anos e sou paraense. Talvez isso não lhe diga muita coisa sobre mim, embora você pense que essa frase contenha toda a informação necessária para que me conheça bem. Será mesmo verdade?


O Pará não fica no nordeste. Não sou, portanto, nordestina, nem quase baiana, nem paraíba. Não moro no meio do mato, nem em uma aldeia indígena e nunca tive um mico-leão-dourado de estimação. Nunca vi um jacaré passeando pela cidade. Ao contrário do que você se acostumou a pensar e da herança genético-cultural que carrego e da qual tenho muito orgulho, não sou índia: sou mestiça, como a esmagadora maioria dos quase 190 bilhões de brasileiros nesse país – inclusive, provavelmente, você. O Pará só é o fim do mundo para quem ainda não deixou de andar a pé – coisa que nós, paraenses, há muito tempo não fazemos mais: temos um dos aeroportos mais bem equipados do Brasil, frotas marítimas e terrestres que nos levam a qualquer lugar e estão, como nós, de braços abertos para receber quem nos visita. Porque sim, estamos sempre de braços abertos para receber quem quer que seja não por complexo de inferioridade, mas porque nossa educação não nos permite ser diferentes.



Não ouço brega, o que não significa que o desvalorize; não ouço brega porque prefiro o ritmo mais suave da música popular brasileira deliciosa feita por outros artistas tão paraenses quanto eu – artistas que suponho que você desconheça por ter sido levado a acreditar que o Pará é um estado de um ritmo só. Nunca desmatei a Amazônia. Nunca assassinei religiosas por posse de terra. Não saio nas ruas vestida como a Joelma e a Gabi Amarantos, como você também não anda por aí usando trajes à la Fiuk, Cláudia Leitte, Latino ou Alcione. Sim, eu tomo açaí, e tacacá, e tempero a comida com molho de pimenta murupi – e, se lhe parece estranho, vou confessar uma coisa: eu também achava bem esquisito esse negócio de comer peixe cru, até o dia em que deixei os preconceitos de lado e comi sushi pela primeira vez. 

E se você faz parte do contingente de brasileiros que conhece apenas o paraense estereotipado e diametralmente oposto ao da realidade, tudo bem. A culpa não é sua. A culpa é da mídia, que apresenta em cadeia nacional paraenses que desconhecem um simplório telefone celular e se atiram com roupa e tudo no mar de Copacabana como nunca houvessem visto água salgada em toda a sua vida. Ou paraenses que se vestem com figurinos extravagantes porque são artistas que fizeram de tal caracterização sua marca registrada, esquecendo-se de mostrar que esses mesmos artistas também usam jeans, camiseta e Havaianas fora dos palcos e dos videoclipes. Ou, ainda, paraenses que abusam de criancinhas, empreendem rebeliões em presídios, agridem-se no trânsito, agonizam nas filas do SUS e matam-se uns aos outros em conflitos agrários, como se a criminalidade e as mazelas sociais fossem prerrogativas exclusivamente nossas. Agora que já estamos devidamente apresentados, tenha a bondade de me respeitar. E de vir nos visitar, caso queira nos conhecer a fundo. Nós somos de verdade. E queremos ser conhecidos pelo que somos, não pelo que a mídia, com seu reflexo pálido de uma realidade fantasiosa e presumida, diz.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Status de Relacionamento: Mãe Solteira

Soundtrack: Ludov - Princesa



- Essa aí. Cuidado com essa aí que é mãe solteira.

Uma vez ouvi essa frase da mãe de um amigo de faculdade. Tínhamos acabado de passar no vestibular e ele estava de namorinho com uma menina do curso de Farmácia; a mãe soube do relacionamento e, como qualquer boa mãe, tomou para si a missão de advertir o filho sobre o perigo daquele envolvimento. Afinal, a menina era mãe solteira: saíra de outro relacionamento com mais experiência e um filho pequeno para criar.  A menina era legal, divertida, inteligente, mas o namoro não durou muito, não sei por que – embora sempre tenha desconfiado que a tal advertência materna tenha sido mesmo o começo do fim. O tempo passou e nunca mais me lembrei dessa história. Até o dia em que fui convidada para um passeio por um dos meus pacientes e ele, muito educadamente, complementou o convite:

- A senhora não deixe de levar seu marido.

Confesso que na hora me bateu um constrangimento. Sincronicamente, ele baixou os olhos para minha mão esquerda: nada de aliança. Fez-se um breve e pesado silêncio, tradutor de centenas de perguntas (da parte dele, tenho certeza) e de algumas possíveis justificativas (não sei explicar porque, mas REALMENTE fiz uma revista mental em busca de algumas), seguido de um fôlego curto, de coragem ou de alívio, não sei, mas que foi o abre-alas para a frase que escapou da minha boca e, também para mim, foi a constatação de um status do qual nem eu havia me dado conta: SOU MÃE SOLTEIRA.

Sou mãe solteira. E daí? Sou legal, divertida, inteligente - como a menina do meu amigo de faculdade. Tenho um bom emprego, nome limpo na praça, bons antecedentes, nada de ficha na polícia. Limpinha, todos os dentes na boca. Porque meu estado civil deveria importar? Porque meu estado civil importa tanto? E o termo, “mãe solteira”, pesa, infinitamente mais do que a responsabilidade de ser uma delas. É como se a mãe solteira estivesse sempre à espreita de uma oportunidade de se dar bem à custa de algum bobão que leve para casa o “kit” de que outro abriu mão. Ou como se fosse alguém tão emocionalmente vulnerável a ponto de aceitar migalhas de afeto por pura carência. Ou, ainda, como se fossem mulheres sem sorte, renegadas: coitada, essa aí não tem sorte com homem: é mãe solteira. Ninguém nunca parou para pensar no quanto uma mãe solteira pode ser sortuda? Há bem pouco tempo atrás, a mulher separada e a mãe solteira eram párias – não havia desgraça maior para uma família do que ter entre os seus uma mulher largada do marido ou uma moça com um filho sem pai. Hoje, felizmente, a mulher aprendeu a exigir ser respeitada independente de véu, grinalda, papel passado e de como administra sua cama e sua vida. E conciliar um filho e liberdade para ir e vir não é coisa de gente azarada, mas de gente inteligente e bem resolvida.

Mães solteiras são mulheres flex – trabalham, criam seus filhos, estudam, criam seus filhos, pagam suas contas, criam seus filhos, cuidam de si, criam seus filhos, (às vezes) namoram, criam seus filhos. Esquecem (às vezes) de si, criam seus filhos. Aprendem a equilibrar nos ombros problemas, angústias, iminências, esperanças, devaneios, alegrias, tempo. Sobretudo tempo. Tempo é a coisa mais relativa na vida de uma mãe solteira. Sempre falta mas, no fim das contas, a gente sempre encontra. Aliás, somos especialistas nisso de achados e perdidos, porque a rotina, ao contrário de nós, está sempre de pernas para o ar – e é preciso muita habilidade para não desaparecer em meio ao de-tudo-um-pouco. É claro que é difícil. É claro que há dias em que a sobrecarga é tanta que a única vontade é largar tudo, trocar de identidade e correr pro mundo, mas é uma vontade que nasce para morrer logo em seguida – porque logo ali, pertinho, sorrindo, existe um rostinho lindo dizendo “eu te amo, mamãe” que faz tudo, absolutamente tudo valer a pena. Eu não me orgulho de muitas coisas nessa vida, mas de ser mãe solteira eu me orgulho, sim.

Mães solteiras merecem respeito. Mais do que isso: merecem aplausos. É coisa para mulheres valentes, que têm a coragem de dar à luz seus filhos e de conduzir sua vida sem se submeter a convenções meramente sociais. Não é feio ser mãe solteira. Feio é ter preconceito e mente pequena, julgar o livro pela capa e o caráter pelo estado civil. Feio é ser infeliz. E felicidade, certamente, é algo que nunca nos falta.



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Pausa Para Ser.

Hoje chove muito. O dia inteiro, a noite inteira. Ruas, becos, casas, o tempo em suspenso. Corações distraidamente rabiscados na umidade das janelas dos ônibus, rostos entreolhando-se por curiosidade ou por hábito através das janelas dos carros, um cheiro sorrateiro de capuccino deixando a cafeteria para deslizar por entre pingos e guarda-chuvas. Chove, faz frio. A cidade, quieta como um bichinho adormecido dentro da própria carapaça. Mas parece mesmo que, nesse dias líquidos, também um pouco de vida brandamente se liquefaz e, generosa, escorre pelas vidraças e frestas desatentas dos corações atentos. E estamos assim, na chuva, com frio, porém intimamente conectados à a inexplicável humanidade que essa chuva traz.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Proibido Para Maiores

Tentei escrever uma estória para crianças. A primeira coisa a fazer seria a escolha do tema. Difícil. As crianças não são bobas como os adultos imaginam: detestam ser subestimadas. Pensei em escrever uma estória de bicho, já que elas estão saturadas desse negócio de fadas, duendes, princesas e afins. Fantasmas, mula-sem-cabeça e bicho-papão nem pensar. Tudo bem que as crianças de hoje não acreditam em muita coisa e as de amanhã, provavelmente, terão em suas cabecinhas sinapses ainda mais céticas e exigentes, mas escolher um desses seres como protagonista poderia ou assustar um dos meus leitores em potencial ou, na mais frustrante e risível das hipóteses, me garantir, entre os pequenos, o título de “a pior contadora de estórias infantis de todos os tempos”. É um perigo subestimar a inteligência delas. Sei disso porque já fui uma. 

Pensei então em escrever sobre um cometinha que desobedeceu a mamãe-cometa e resolveu sair da própria órbita, acabou se perdendo e veio parar na Terra, mas aí imaginei meu filho um pouco mais crescidinho dizendo “cometas são feitos de rocha, gelo, poeira e gases, mãe; se cair um aqui, a gente morre, você devia assistir Discovery Channel”. Nada bom. Caubóis, cavaleiros, detetives... hoje em dias as estórias para crianças falam do quê, mesmo? Vasculhei os brinquedos do Samuca em busca de uma ideia salvadora, encontrei a bola de plástico verde que ganhamos de brinde no supermercado e pensei “quem sabe uma estória sobre um menino que ganhou uma bola de plástico verde no supermercado e, pouco depois, descobriu era uma bola de plástico verde falante?” – por um segundo, pareceu promissor. Mas, de novo, a voz da razão: “bolas não falam, mãe”. Puxa... nunca pensei que fosse tão difícil escrever uma estória para crianças. 

Pensei em algo do tipo Toy Story ou Pluft, o Fantasminha. “Mãe, isso é plágio”. Amigo imaginário, na minha época funcionava. “Tá tudo bem com você, mãe?”. Um menino que fez um barquinho de papel e nele navegou os sete mares. Uma casa bem-assombrada. Um skate voador. Um golfinho que não sabia nadar. Pensei mil coisas, sem conseguir desenvolver nenhuma. Tudo parecia tão questionável! O que era mesmo que eu curtia ler quando era uma criança? Pouca memória, nem tanta criatividade; me conformei com a tela em branco, larguei o computador e fui brincar no tapete com a cria.

Foi aí que olhei para ele, e para aquele monte de brinquedos esparramados no chão... e percebi o quanto ele, ora compenetrado, ora rolando de rir, se divertia com alguma coisa que eu, por mais que tentasse, não estava enxergando muito bem. Coisa que só ele via. Era isso! Como pude ser tão cega? Crianças não precisam de justificativas; crianças precisam de imaginação, e a imaginação não tem lógica. Crianças enxergam, sentem e amam coisas que não fazem sentido para nós mas que, no mundinho delas, são perfeitamente naturais. Para elas não existe absurdo. E foi aí que desisti de escrever uma estória PARA crianças e decidi escrever uma estória SOBRE crianças para nós, que em certos dias nem tanto, mas que algumas vezes, sem perceber, crescemos demais. Uma estória que nos lembre de que nós, que algumas vezes crescemos demais, talvez não sejamos capazes de alcançar a clareza de espírito dos pequeninos mas que, para isso, seja preciso apenas “desamadurecer” um pouco.


As janelas por onde vejo o mundo fazer sentido:
os olhinhos de jabuticaba do meu pequeno Samuel.



domingo, 5 de fevereiro de 2012

Incompletudes

(...)Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto
brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de
pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha
coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda
mais;contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha
coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele
mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos,
sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está
à espera de que alguma coisa... divina aconteça.
Ela sabia que iria acontecer infalivelmente.(...)

Katherine Mansfield in: Bliss



A sua dúvida talvez seja a mesma minha: não saber onde todas renúncias se recolhem à espera de uma segunda chance. Aquele caminho que a gente não seguiu, aonde daria. Parecia tão simples desinibir ternuras alguns dias atrás que não percebi em que momento a espontaneidade se tornou privilégio – e se tornou regra essa cordialidade vigilante, hábil em macerar o dia. Tenho vontades que não morrem. Tenho repentes que inquietam meu coração e fazem doer meus dedos. Parecia tão simples, mas imagino: nada é simples, a não ser fugir – e eu escolhi ficar aqui, e renunciar, e ignorar. Porque certas coisas, quanto mais absurdas, mais adequadas me parecem. Certas coisas, não tão certas. Enquanto escrevo, eu me lembro do cheiro daqueles dias. Então escrevo, e me lembro, e persisto desorientando infinitudes e desafiando incompatibilidades - porque não pude, porque não soube, porque não vi(vi) mas ainda assim acredito num amor imune ao aleatório.



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Carta a Samuel



Oi, filho.

Eu gostaria de ter-lhe escrito esta carta há mais tempo; desde que soube que você, meu sonho mais bonito e mais ansiosamente sonhado, finalmente, passara a existir. Algumas coisas, no entanto, acabaram por me atropelar e fui involuntariamente protelando a planejada cartinha. Perdoe o relaxamento da sua mãe. Com o tempo, meu querido, você perceberá que essa sua mãe é mesmo assim: meio com a cabeça em todos os lugares, meio em lugar nenhum, tanta coisa para fazer nesse mundo que você ainda não conhece mas que já o espera como se fosse a sua chegada o sentido de tudo que carece de fazer sentido, é assim que parece ser ao menos dentro do coração da sua mãe. Não se assuste com as confusões que este mundo, provavelmente, trará à sua cabecinha: à primeira vista ele parecerá estranho e difícil, mas haverá muita gente ao seu lado para lhe mostrar que, apesar de estranho e difícil, esse mundo o espera com muito amor. Não tenha medo.

A sua mãe, meu querido, veja que coisa, nascerá junto com você; a sua mãe, até hoje, era apenas uma menina crescida, sem grandes pretensões e responsabilidades. É você quem a está transformando na mulher que ela sempre acreditou que fosse capaz de ser. Seja paciente com ela. Não ria do jeito desajeitado que ela tem de demonstrar amor. Ou melhor, ria: a sua mãe, certamente, rirá junto com você e será ainda mais feliz nesse mágico instante de descontração e cumplicidade. A sua mãe espera por você como quem espera pelo momento em que nós, pobres seres humanos, frágeis, fugazes seres humanos, nos damos conta de que tudo o que vivemos, e tivemos, e sofremos nessa vida valeu a pena. E tudo valeu a pena, meu querido, por você.


Amor, da sua mãe.


sábado, 30 de janeiro de 2010

Todas as Canções São de Amor

Para você, todo amor que houver nessa vida.

Soundtrack: Frejat - Amor Pra Recomeçar





Eu ainda não conheço você. Não sei se os seus olhos são castanhos como uma tarde repousada sobre a noite que ainda caminha sobre as horas, ou de algum outro tom entre a tranqüilidade e a inquietação. Não conheço ainda a sensação do toque as sua pele, eu que desejo tanto tocá-la. Não conheço ainda a sua risada; não conheço seus tiques, suas manias, a textura do seu cabelo cuja cor também desconheço.

Não sei se você gostará de Português ou Matemática. Não sei se preferirá azul ou amarelo; cachorros ou gatos; maçãs ou peras; brigadeiros brancos ou pretos; leite gelado ou morno. Se gostará de livros. Não sei o que quererá ser na festa de aniversário; não sei o que quererá ser quando crescer. Se terá medo de escuro e pedirá para deixar acesa a luz do armário na hora de dormir; se escreverá cartinhas ao Papai Noel ou se terá uma verve mais moderninha e esperará sem grandes superstições pela primeira bicicleta.

O que eu sei é que já há tanta coisa que gostaria de dizer, e sei também que todas essas coisas virarão apenas um silêncio bobo e emocionado quando eu olhar para você pela primeira vez. O que eu sei é que eu estarei ao seu lado na sua primeira cólica, na sua primeira gripe, na sua primeira febre, no seu primeiro passo, no seu primeiro tombo, na sua primeira palavra, no seu primeiro dente, no seu primeiro dia de aula, no seu primeiro amor, na sua primeira desilusão, e em quaisquer outra situações – porque eu ainda não conheço você mas já carrego você dentro de mim, e dentro de mim, além de você, carrego um amor que é o maior do mundo e que já é todo seu, eu que ainda não conheço a sua voz mas sei que ela será, para mim, todos os dias, a música mais doce, porque, com você, todas as canções são de amor.


O texto mais especial da minha vida para alguém
que existe há apenas 5 semanas e 1 dia, mas que já
é a pessoa mais especial da minha vida: meu filho.




domingo, 10 de janeiro de 2010

Porta-Retratos

"Que te dizer? Que te amo, que te
esperarei um dia numa rodoviária,
num aeroporto, que te acredito, que
consegues mexer dentro-dentro de mim?"


(Caio Fernando Abreu)

Soundtrack: Maxi Priest - Fields of Gold





Lembro de quando decidimos reinventar essa coisa toda de destino e, sem resistência, encantados com a idéia de domar o incerto, redesenhamos o imprevisível a lápis numa cartolina branca imaginária. Foi o desenho mais bonito que fizemos juntos, porque o fizemos de lábios colados naquela noite onde o que não era sonho era cumplicidade – e apenas a paixão adormecendo satisfeita entre as minhas pernas e os seus quadris quase tirava nosso sossego, num murmúrio de não necessidade de palavra, você e eu formados por um pedaço de cada atordoamento de amor errado que amamos nessa vida e, no entanto, tudo tão perfeitamente certo. Eu, enfiando o rosto no seu peito, encontrando ali a segurança do instante único em que o mundo para inteiro a fim de caber na palma da nossa mão; você, de olhos fechados e com o polegar me acariciando com suavidade uma unha – não o dedo, a unha, tão engraçado achei aquilo, e tão bom. Era a sua forma de declarar presença dentro da vida que eu ainda nem sabia que, dali em diante, seria a minha, e que nascia em silêncio enquanto eu observava o quanto o seu rosto ficava bonito daquela maneira, rasgando a penumbra como um facho de claridade de longos cílios. Lembro de como foi surpreendente nada mais ter importância. Foi a primeira vez em que não me desagradou não pensar e que acreditei que podíamos, sim, gozar esse mistério que é a felicidade absoluta, eu nem sabia se o que senti enquanto abracei o seu corpo morno e nu era mesmo felicidade mas era quase uma invulnerabilidade o que eu sentia; então acho que naquele instante eu completamente fui feliz, sim. Morno e nu, seu corpo. Escudo. Altar. Eu soube, ali. E nem precisaria muito mais para que aquele instante se perpetuasse, mas, confesso, guardei – num canto da minha memória que é o mais belo e enfeitado com o melhor que jamais houve mim – a tal cartolina imaginária e o desenho rabiscado, justamente o mais bonito, feito a quatro mãos, a lápis, a salvo do tempo, dos esmorecimentos e das desatenções.

É esse o quadro que beijo com carinho todas as noites antes de dormir.

Para L.


sábado, 21 de novembro de 2009

Quando O Que Se Tem É Tudo Que Se Tem

Pensei: vou morrer.

Porque acreditei que não agüentaria esperar o minuto seguinte, eu que deliberadamente não aprendi a ser paciente, eu que não compreendo nem faço questão de crer nessa coisa misteriosa e absolutamente incerta e abstrata chamada futuro. Porque eu respirei e o ar me fazia doerem os ossos e a minha cabeça pesava sobre as idéias que eu tivera e ainda mais sobre as que eu não tivera, a minha cabeça pesava pendular e disciplinada e era como se naufragasse sem resistência entre os meus passos, eu andando em círculos sobre o tapete da sala, indo e vindo, e indo e vindo, e indo e vindo, indo, aonde eu jamais saberia dizer. A mim, talvez. Eu que há tanto tempo apenas desejo meu coração em paz, e não me lembro onde nem em que momento ele ficou para trás. Eu que sofro e choro e rio e me maltrato e me desfaço em rotas internas de complexidade irremediável, eu, intratável, eu que tenho tanto fascínio por profundezas e que, por isso mesmo, agonizo naquilo que é raso, pensei: vou morrer. Hoje. E não desejei que fosse diferente, mas morrer de uma morte macia, embora contundente, sem impressionismos. Nada disrítmico. Nada que me fizesse sentir entorpecida; desejei, exigi, uma morte consciente, assim, meio amarelada, do tom exato das serenidades antigas. E morri. Eu, a intratável de coração perdido num dia que ainda não chegou. Sem pedir licença para ir embora. Sem traje bonito, sem óbolo sobre a língua, sem arrependimento ou confissão. Sem documentar a minha morte, com a discrição elegante dos que jamais perdem a hora da chegada ou da partida. Morri dispensando boas intenções e ladainhas e sinos e beatitudes e o sétimo dia, e tão definitiva e imperceptivelmente que ninguém percebeu, além de mim, que eu já havia nascido de novo.


sábado, 24 de outubro de 2009

Entropia

Cansei de me esconder no topo da vida. Às vezes eu preciso mesmo de um pouco de sombra, dessa umidade reluzente que protege os meus braços do calor imposto pelo desejo de abraçar o mundo como se abraça um ente querido às vésperas de partir. Com amor. Com fúria. Com a saudade antecipada e incontida de quem não compreende paciência. Com a patética falta de jeito de quem necessita urgentemente e a todo instante se sentir arrebatado pelo próprio coração e há de ser hoje, há de ser agora. Às vezes eu preciso submergir. Eu preciso me esgotar. Eu preciso despencar em queda livre e cair com o peito desprotegido e arrebentar as mãos abertas contra as minhas feridas e ficar ali, exausta, até parar de respirar e então perceber num fôlego só que eu estou viva e que aquela dor mesquinha não é nada, é só mais uma dor mesquinha e inútil que, mais hora menos hora, irá se revolver sozinha na sua pobre e mesquinha e inútil condição de dor. Às vezes eu preciso daquela coisa de puxar o gatilho e disparar cautela contra a minha própria metralhadora giratória, e de ficar calada para ouvir o estampido que finalmente me convencerá de que aquilo que me tolhe definitivamente morreu. E, às vezes, eu preciso apenas ficar quieta, muito quieta, numa quase imobilidade absoluta, e nessa quase imobilidade absoluta sentir que as existências todas vibram frenéticas dentro de mim e me transbordam e não me cabem e estão ali, explodindo nos meus olhos: eles brilham.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

01:01:01 (ou A Variável Oculta Atrás da Porta)



Eu tenho medo de ouvir qualquer som; é como se a vida falasse pela tua boca e não se engane, não é de ti que tenho medo e sim da angústia que me fala aos ouvidos quando o mundo vibra dentro da minha cabeça, é quase uma afronta essa continuação indiferente das coisas. Sempre ouvi dizer que paz fosse uma coisa escassa. A paz, talvez, esteja justamente na ausência, nesse não-estar tão premente e solícito, avesso à insistência de toda presença que não seja a sua própria. Mas sim, eu falava dos sons e igualmente não falava, falava de coisa diversa, provavelmente da eternidade em que se transformou cada minuto, anoitece e amanhece e anoitece e amanhece e a história parece se esparramar inteira no assoalho gelado de um tempo que anda em círculos e eu ando, vê bem, eu ando tentando encontrar uma rota de fuga mas é tudo tão hermético, tão hermético, tudo, tu, eu, não escapo de mim, eu quero, eu avanço e retrocedo e colho razões ácidas e as quero doces na minha boca, como pode. É o som do tempo que não passa o que definitivamente me assusta. Hoje alguém telefonou e perguntou por ti; o que eu diria? Acabei não dizendo muita coisa, apenas um “está bem” que poderia ser “não sei”, ou “queira saber de mim que sou quem está aqui do outro lado da linha, mas queira saber apenas do que me fere e que não consigo dizer porque me espeta a garganta e não sai, e me afoga e me faz morrer de várias formas menos daquela que realmente me aliviaria, portanto tire isso de mim”. Já tentei todo tipo de promessa. E pare de dizer que eu faço drama, que eu minto: isso é o teu orgulho te consumindo como a lança que transpassa o lado são de uma vaidade adoecida, não existo para ser teu oponente. Mas ando evitando ter juízo, é verdade.


sábado, 11 de julho de 2009

Com o Tempo a Gente Esquece

Esquecer é um aparte,
é uma morte,
é uma arte.

Soundtrack: Skank - Vamos Fugir




Com o tempo a gente esquece que a toalha molhada sobre a cama deixou úmido o lençol recém-trocado e se lembra de como foi delicioso tomar um banho demorado depois do dia mais cansativo da semana, porque a toalha molhada sobre a cama é apenas e tão somente uma toalha molhada sobre a cama. Com o tempo a gente esquece a janela aberta, e a porta fica apenas encostada – e por aí vão entrando novas idéias e saindo posturas viciosas, que é preciso mesmo arejar os ambientes e tirar o mofo da vida. A gente esquece as chaves no bolso e desiste de trancar o riso. E, às vezes, também se esquece de lembrar o próprio nome e passa a se chamar Passarinho, Correnteza ou Ventania. Ou Céu.

Com o tempo a gente esquece a reserva que fez no restaurante mais badalado da cidade e passa a tarde no quintal chupando fruta do pé. Com o tempo a gente se esquece de como é que se fuma, e de como é que se bebe, e respira fundo a sobriedade de estar com a cabeça fresca e o corpo pronto para o que der e vier. A gente esquece que acabou a margarina e que faltou sal no feijão, a gente esquece que adoçou o café com açúcar ao invés de adoçante, a gente esquece que o arroz cozinhou demais – e dá de ombros porque nem dá nada passar um dia sem margarina, e sal demais aumenta a pressão, e comer açúcar uma vez na vida não vai fazer disparar o ponteiro da balança, e qual o problema de comer arroz um pouco mais molinho? Com o tempo a gente se esquece de ligar o celular, a tevê e o computador – e dá vontade de encontrar alguém pra jogar conversa fora ou de ficar em casa com o corpo largado no sofá e os pés sobre a mesa, curtindo um abraço e uma caneca de chocolate quente. A gente esquece o guarda-chuva em cima da mesa da cozinha e vê que bom mesmo é sacar fora os sapatos e se enfiar por entre os pingos d’água, bom mesmo é lavar a alma numa chuva inesperada. A gente esquece o relógio e as chaves do carro, e sai a pé e vai lá fora viver sem hora pra voltar.

Com o tempo a gente esquece como é que se faz as malas, porque tudo que se pretende é ficar. A gente se esquece de que tudo tem um preço, e quer mais é pagar pra ver. Com o tempo a gente esquece também de que amanhã é segunda-feira e deixa o corpo se lembrar, com toda a preguiça do mundo, de que hoje é domingo e o hoje está aí pra isso. A gente, com o tempo, até esquece que o filme é dublado, e entra no clima da interpretação canastrona da versão aportuguesada porque o filme é o mesmo, e a gente já viu, e vale a pena ver de novo de qualquer jeito porque o John Malkovich está matando a pau ou a Bette Davis nunca esteve tão malvada. Com o tempo a gente se esquece do bicho-papão, do boi da cara preta, da vaca que foi pro brejo e entende que o que era doce está muito longe de acabar. Com o tempo a gente esquece que cresceu e vê que o tempo que passou não faz tanta diferença assim, e que sempre é hora de esquecer muita coisa para lembrar-se do que realmente importa. É que, com o tempo, a gente se lembra da gente. E disso, quando a gente lembra, a gente nunca mais se esquece.


Com o Tempo a Gente Esquece

Esquecer é uma arte.



Com o tempo a gente esquece que a toalha molhada sobre a cama deixou úmido o lençol recém-trocado e se lembra de como foi delicioso tomar um banho demorado depois do dia mais cansativo da semana, porque a toalha molhada sobre a cama é apenas e tão somente uma toalha molhada sobre a cama. Com o tempo a gente esquece a janela aberta, e a porta fica apenas encostada – e por aí vão entrando novas idéias e saindo posturas viciosas, que é preciso mesmo arejar os ambientes e tirar o mofo da vida. A gente esquece as chaves no bolso e desiste de trancar o riso. E, às vezes, também se esquece de lembrar o próprio nome e passa a se chamar Passarinho, Correnteza ou Ventania. Ou Céu.

Com o tempo a gente esquece a reserva que fez no restaurante mais badalado da cidade e passa a tarde no quintal chupando fruta do pé. Com o tempo a gente se esquece de como é que se fuma, e de como é que se bebe, e respira fundo a sobriedade de estar com a cabeça fresca e o corpo pronto para o que der e vier. A gente esquece que acabou a margarina e que faltou sal no feijão, a gente esquece que adoçou o café com açúcar ao invés de adoçante, a gente esquece que o arroz cozinhou demais – e dá de ombros porque nem dá nada passar um dia sem margarina, e sal demais aumenta a pressão, e comer açúcar uma vez na vida não vai fazer disparar o ponteiro da balança, e qual o problema de comer arroz um pouco mais molinho? Com o tempo a gente se esquece de ligar o celular, a tevê e o computador – e dá vontade de encontrar alguém pra jogar conversa fora ou de ficar em casa com o corpo largado no sofá e os pés sobre a mesa, curtindo um abraço e uma caneca de chocolate quente. A gente esquece o guarda-chuva em cima da mesa da cozinha e vê que bom mesmo é sacar fora os sapatos e se enfiar por entre os pingos d’água, bom mesmo é lavar a alma numa chuva inesperada. A gente esquece o relógio e as chaves do carro, e sai a pé e vai lá fora viver sem hora pra voltar.

Com o tempo a gente esquece como é que se faz as malas, porque tudo que se pretende é ficar. A gente se esquece de que tudo tem um preço, e quer mais é pagar pra ver. Com o tempo a gente esquece também de que amanhã é segunda-feira e deixa o corpo se lembrar, com toda a preguiça do mundo, de que hoje é domingo e o hoje está aí pra isso. A gente, com o tempo, até esquece que o filme é dublado, e entra no clima da interpretação canastrona da versão aportuguesada porque o filme é o mesmo, e a gente já viu, e vale a pena ver de novo de qualquer jeito porque o John Malkovich está matando a pau ou a Bette Davis nunca esteve tão malvada. Com o tempo a gente se esquece do bicho-papão, do boi da cara preta, da vaca que foi pro brejo e entende que o que era doce está muito longe de acabar. Com o tempo a gente esquece que cresceu e vê que o tempo que passou não faz tanta diferença assim, e que sempre é hora de esquecer muita coisa para lembrar-se do que realmente importa. É que, com o tempo, a gente se lembra da gente. E disso, quando a gente lembra, a gente nunca mais se esquece.


terça-feira, 26 de maio de 2009

De Uma Carta

"(...)O que me traz a ti, Flavitcha. Eu conheço os homens (não todos, é verdade). Então há uma micro-chance de eu estar errado), eu converso com eles, e escuto suas idéias ridículas e covardes. Na verdade, eu não deveria criticá-los dessa maneira. Afinal, eles são apenas humanos. Os humanos e seus temores insuportáveis. E como humanos, eles estão preparados apenas para se relacionar com humanas, que possuem as mesmas fraquezas deles.

Você, porém, minha criança, não é humana. Você é algo além. Desconfio, e apenas desconfio, que você seja um anjo. Como eu sei disso? Pelos sentimentos com que temperas as tuas palavras. Veja bem, há pessoas que sabem fingir, mas você não finge. Você é autêntica... e bela, como eu nunca vi.

Eu sei que já deves ter ouvido isso milhares de vezes, e provavelmente perdeu o valor, mas não há como te dizer isso de outra forma simplesmente porque é a mais pura verdade: És especial !

Por isso mereces alguém tão especial quanto. Não vai ser C. quem saberá captar o teu espírito, tampouco qualquer outro humano, com exceção de um que treinou a vida inteira para encontrar um anjo parecido contigo.

Esses encontros de fato acontecem. São como colisões no vasto espaço. Improváveis, mas vez ou outra, acontecem sim. O problema é que nem sempre eles encontram condições de liberar sua energia, e então precisam ser reprimidos. (...) E a vida segue assim, minha querida. Nós com os nossos "companheiros", vivendo e fingindo que escapamos da solidão. E na barriga aquela fome por algo inenarrável: o acontecimento único de um encontro de asteróides..."


Ao remetente do texto - que não sabe que leio tudo
o que me escreve, mas que ficará sabendo agora que
cada linha que chega fica gravada na minha memória
e faz meu dia incomparavelmente melhor: obrigada.

Muito. Mesmo. Por tanta, tanta coisa.

Um beijo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Constatação

Estou aqui parada diante dessa tela branca pensando, resvalando entre esboços de palavras. Sentindo. Eu não sei o que te dizer. Eu só sei que eu quero você, já.

Para sempre, quem sabe.

terça-feira, 17 de março de 2009

Poema-Gesto



Porque eu choro riso,
E sorrio cor.



Tirinha de Ricardo Liniers, presente da Jazz, que com um gesto despretensioso conseguiu relizar uma missão quase impossível: deixar o meu dia mais leve:)


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Carta Para Minha Mãe

"Te guardei nove meses dentro de mim.
Te desejei... te planejei... e, enfim, você chegou.
Te vejo nos teus dez anos de idade e vejo agora
que meu sonho é uma doce, bela realidade:
sou sua mãe.
E te desejo um futuro num mundo melhor,
onde os homens se amem bem mais e
onde você também tenha direito ao seu espaço,
onde você possa ser feliz
com suas esperanças e realizações.
Seja feliz, minha filha.
Todo amor de sua mãe,
Graça Brito. "


Escrito pela minha minha mãe há 20 anos
numa página de diário que me acompanha vida afora,
porque carrego o amor como amuleto.


Soudtrack: Elis - Como Nossos Pais

Oi, mãe.

Não se preocupe comigo, cheguei bem. A viagem foi longa e cansativa, mas você conhece a sua filha e sabe que ela aguenta qualquer tranco, a sua filha aprendeu direitinho as lições que você ensinou – a sua filha só não aprendeu ainda a contar moedas e a não aceitar doces de estranhos mas um dia, quem sabe, ela aprende.

Eu juro que estou me alimentando direito e cuidando de mim e das minhas coisas como você recomendou, você ficaria orgulhosa de me ver, tenho certeza, nem pareço aquela coisica destrambelhada que só não largava a cabeça pelo meio da casa porque está grudada no pescoço, e que esquecia de comer e trocava o dia pela noite, agora até dormir eu durmo. E vou lhe dizer uma coisa, a senhora deve ter muito prestígio lá com Deus: ficaria feliz em ver o quanto estou sendo bem tratada, as pessoas todas são muito gentis e me ajudam de um jeito que só você vendo mesmo, mãe, contando ninguém acredita, mas eu digo pra você, eu sei que cada uma dessas mãos que me afaga é você cuidando de mim. Eu sei. Eu sinto, eu sinto você aqui comigo, mãe, segurando a minha mão pelas ruas dessa cidade linda. Aqui é lindo, mas aí é muito mais bonito e sabe por quê? Porque aí tem você, e eu sinto tanta falta de olhar para o seu rosto miúdo, mãe, eu sinto tanta falta, e nessas horas eu percebo o quanto estou longe de casa e quase me desespero e não consigo não chorar, e me sinto tão, tão pequena. Eu sinto falta do seu radinho ligado todas as manhãs e do pleque-pleque-pleque macio e ritmado dos seus chinelos, do seu cheirinho bom de lavanda, mãe, e até das coisas que eu pensava que não gostava mas que descobri que fazem parte do amor imenso que eu carrego por você nesse peito meu que é chão de fazer amor crescer. Eu me sinto tão pequena, mas aí eu me lembro do quanto você é grande e entendo que não posso ser pequena sendo você gigante assim, e é quando crio forças pra me agigantar também.

E há tanta coisa ainda que eu queria dizer, mãe, mas você conhece a sua filha: sabe que ela, nessas horas, tropeça nos próprios sentimentos e o que deveria ser palavra vira uma boca muda e dois olhos úmidos, eu queria mesmo te abraçar e aí, eu sei, você entenderia tudo que eu estou sentindo. Mas não se preocupe, a sua filha está bem e feliz, e cheia de novidades e surpresas, e de histórias também. Eu já conheço muita gente, você sabe, eu falo muito, e o trabalho é tão bom que nem vejo o tempo passar, e aqui é bem diferente, mas veja só!, é ao mesmo tempo tão parecido com a nossa cidade... e tomei chimarrão e comi umas coisas que não sei o nome, mas vou descobrir pra lhe contar. Essa é uma fase de descobertas, mãe, e você sabe: a sua filha não tem medo de nada e aguenta qualquer tranco. Ainda não sei se esse aqui é o meu lugar, mas sei que algo me trouxe para essa terra e eu preciso descobrir por quê, e é por isso que eu não vou voltar, mãe. Eu vou ficar aqui, mas cada dia que estiver aqui eu vou estar aí também. Porque o mundo é grande, mãe, mas eu sou maior.

A benção, mãezinha. Amo você.

Todos os beijos do mundo.