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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Engolidor de Sonhos

Onde os seus sonhos vão parar?

Soundtrack: Smashing Pumpkins - Tonight, Tonight




- Eu não queria acordá-la mas a senhora sabe como é: se a gente não chamar o doutor eles ficam nervosos e aí, bem, e ele trouxe a família toda, a senhora sabe como é esse tipo de paciente...

Saber, saber, eu não sabia. A mensagem subliminar no rosto da técnica de enfermagem, para mim, era quase esfíngica: meio ressabiada, meio assustada – e o ligeiro ar de riso contido seria real ou mera e capciosa invenção da minha cabeça sonolenta? Olhei no relógio: quinze para as quatro. Madrugada alta, gelada. Densa. Dessas em que a última coisa que se pensa em fazer é levantar da cama para ir a um hospital, só em caso de morte iminente e olhe lá. Se ele estava ali – e com a família toda – só poderia ser mesmo uma intercorrência que merecesse a minha atenção. Calcei os sapatos, arrumei os cabelos num coque e, em companhia da técnica, desbravei os então silenciosos corredores do Pronto Atendimento até o consultório 2. O que era silêncio absoluto principiou a virar um burburinho que logo se transformou em uma sucessão de vozes atropeladas, femininas e masculinas, enoveladas em um sem-fim de “ai” e “ui” e “oh” e “aaaah” cujo nascedouro era uma aglomeração de cinco ou seis parentes desesperados em volta de um homem cuja aparência, cansada, fazia aparentar bem mais que os 36 anos informados na ficha de admissão. O homem, ofegante, com a mão sofregamente massageando o lado esquerdo do tórax e com o rosto contraído de aflição, se sentara na cadeira em frente à minha mesa e era abanado freneticamente por uma senhora corpulenta que depois se identificou como “a irmã” e desatou a dissecar o mal-estar do rapaz; pedi delicadamente que o deixasse falar e, quando as vozes sossegaram, ele finalmente respirou fundo como se para tomar fôlego e disse:

- Ah, doutora. É um negócio aqui no peito, sabe? Uma coisa. Uma coisa no peito, uma coisa.

Suspirei. Mais um para testar meus conhecimentos em “coisologia”.

- Uma coisa no peito?
- É.
- E como é essa coisa? Aponta para mim onde fica.
- Aqui.
- Ok. E como é a coisa?
- Ah, doutora, é assim um negócio, me tranca o peito e faz uma bola que vai rasgando entre as costelas, sabe?
- Não, ainda não sei. É uma pontada? Uma latejada, uma dor cansada, o que é?
- Não é dor, doutora. É uma coisa, uma coisa.
- Tá bem, uma “coisa”. Certo. Mas como foi que a “coisa” começou?

Nesse momento todos se entreolharam. O rapaz ficou em silêncio. A “irmã” fez menção de falar, mas antes que pudesse abrir a boca pedi que aguardassem do lado de fora enquanto eu colhia a história. Quando finalmente ficamos a sós e fechei a porta, ele deu um suspiro de alívio, me fitou diretamente nos olhos e soltou a bomba.

- É que foi assim: eu estava dormindo, e sonhando. E aí de repente, minhanoss’inhora... uma coisa, doutora! Eu senti aquela bola descendo... e o sonho foi parar no estômago.
- Hum?!
- O sonho, doutora. Eu engoli.
- O que foi que você comeu no jantar?
- Não foi o jantar. Foi o sonho.
- Um sonho recheado, certo? Desses de padaria?
- Não, doutora. Desses que a gente sonha.

Meu Deus. Eu, que pensava já ter ouvido de tudo, não estava preparada para aquilo.

- E sonhou com o que?
- Não me lembro.

Era preciso ser profissional, mas eu não lembrava de ter lido em lugar nenhum qual era a conduta a ser adotada em caso de sonhos acidentalmente deglutidos. O que é que se faz quando alguém engole um sonho e o danado, imprudente, vai parar justamente no estômago? Antiácido? Sal de frutas? Lavagem gástrica? Procinético e laxativos, para o sonho desentalar e sair sozinho pelas vias naturais? Esperar passar? Vai saber! Engolir o espanto, executar o exame físico e continuar tentando identificar qual era o problema dele era o tudo o que eu podia fazer no momento.

- Você tem gastrite?
- Não, senhora.
- Problema de coração? Pressão alta? Diabetes?
- Não, senhora.
- Toma algum remédio?
- Não sou louco.
- Não disse que é.
- Mas pensou. Desculpe.
- Na boa. Você toma?
- Não.
- Teve algum aborrecimento?
- Não.
- Isso já aconteceu antes?
- Com sonho sonhado, foi a primeira vez.

Larguei o estetoscópio sobre a mesa e decidi prescrever um antipsicótico, mas a caneta vacilou sobre o papel – ou fui eu que vacilei? Fosse como fosse, ele percebeu, e na sua voz transparecia um quê de orgulho ferido.

- A senhora não está me acreditando. Estou lhe dizendo, engoli um sonho. E estou com uma coisa no peito e eu só queria que a senhora me ajudasse a fazer isso passar.

Ele me olhava com os olhos muito abertos. E eu, não sei bem o porquê, nessa troca de olhares – ou melhor, nessa súbita invasão de mim pela angústia daquele homem que tão sinceramente procurava alívio para o seu mal – comecei a acreditar que ele, por que não?, havia sim engolido um sonho, eu que de repente me lembrava em cores vivas dos muitos sonhos que também engolira, acidentalmente ou nem tanto, ao longo da vida. E agora eu entendia, entendia perfeitamente. Sonho engolido faz um mal danado – sonho é pra ser sonhado até o fim, ora; sonho engolido, não vivido, só pode mesmo fazer mal à saúde. Eu não podia tirar o sonho de lá: o homem teria de digeri-lo até que não houvesse lembrança dele, ou que lhe nascesse outro sonho na cabeça. Mas eu podia tentar explicar a ele o jeito mais ameno, já que, tantas vezes, passara pela mesma experiência terrível. O que se sucedeu não me compete contar aqui; o fato é que ele melhorou e deixou o consultório bem mais aliviado e com um sorriso largo no “muito obrigado” repetido umas três ou quatro vezes enquanto ele percorria o caminho até a porta de saída, acompanhado por sua comitiva.

Voltei para o dormitório pensando no engolidor de sonhos. Um homem com "uma coisa no peito". Que sonho afinal fora aquele que, ao ser interrompido, provocara tamanho mal-estar? Será que ele, um dia, finalmente o sonharia inteiro ou o sonho permaneceria eternamente a mesma vagueza interminada e abrupta, translúcida, para sempre perdida perdida a meio caminho entre corpo e espírito? Há tantos sonhos que nascem com esse destino triste, e há tanto males nascidos dessa condição. Engolidores de sonhos, quem diria. “Onirófagos”. Talvez no dia em que alguém se dedicar a escrever um Tratado Geral Sobre os Males da Alma essa curiosa onirofagia seja finalmente compreendida e adequadamente diagnosticada, quem sabe até combatida profilaticamente – porque o tratamento, algo me diz que esse sempre será difícil: engolir sonhos, definitivamente, é prejudicial à saúde. Madrugada alta, gelada, densa. Apaguei as luzes e espichei o corpo sobre a cama com a cabeça cheia de ideias e uma estranha comichão no peito, deitei a cabeça no travesseiro e, instintivamente, adormeci.


_____________________

Queridos meus: por mais estranho que pareça, esse conto foi construído a partir de um relato real, colhido em um dos meus plantões de urgência e emergência. Agradeço aqui a um certo jornalista de Minas Gerais que, em uma conversa despretensiosa, me fez ver o quanto de lirismo existia na história. O próximo post que vocês lerão por aqui também é fruto das descobertas que tenho feito na minha vida nova no Paraná - e nele, lhes apresentarei uma pessoa muito especial. :)

Beijos!


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

13º Andar

Publicado originalmente no
Novas Visões,
em junho de 2008.


Soundtrack: The Doors - The End




Entrou em pânico quando percebeu que ela, de fato, não respirava. A flacidez fria daquele rosto pequeno, de traços levemente orientais, subitamente assumira uma assustadora lividez, anúncio de uma realidade tão inesperada quanto irremediável. Morta. Sentiu o sangue congelando de imediato nas veias ao contato daquele corpo inerte, o coração prestes a se despedaçar tão descompassado se havia tornado. Adormecera bêbado ao lado de uma desconhecida no quarto mofento de um hotel vagabundo e acordava desagradavelmente sóbrio, nu, dividindo a cama com um cadáver – circunstância que o nauseava, embora não conseguisse se afastar dali nem desviar os olhos da mulher. Que teria acontecido? Perplexo, imerso numa desorientação que o mantinha preso ao colchão desarrumado com cheiro de bebida, observou o terrível contraste entre os cabelos escuros e a pele muito clara já vencida pela palidez mórbida da morte, os seios pequenos e rijos repousando sobre o peito imóvel. Morta. Não ouvira gritos, não notara quaisquer indícios de suicídio – ela não parecia mesmo o tipo de mulher disposta a se matar. Sem sinais de violência, sem marcas de qualquer natureza, sem nada. Absolutamente nada. Apenas morta.

Como se chamava mesmo, Virgínia? Vanessa? Valéria? Bianca? Nem guardara o nome, não o ouvira mais de uma vez desde que se haviam encontrado naquela boatezinha chinfrim de periferia. Ela era bonita, parecia uma índia de pele branca, o corpo apertado num vestido transpirando vulgaridade e luxúria, o desejo queimando nos olhos oblíquos semi-ocultos pelos cílios pesados de rímel. Fora dela a sugestão do hotel, fizera o convite em meio a beijos lascivos regados a muito álcool. Abriram a porta do quarto cambaleando, às gargalhadas, ela segurando nas mãos uma garrafa de tequila, ele já demasiadamente tonto, tentando arrancar-lhe o vestido. Beijos, carícias, goles, goles, goles. Depois mais nada, lembrança alguma. Apagara. Esforçava-se para compreender o que teria acontecido, o suor escorrendo pela testa gelada, a respiração ofegante e curta, o olhar acorrentado a um ponto situado entre o coerente e o inverossímil em qualquer lugar no encardido da parede, que teria acontecido? Tudo era confuso, borráceo, esdrúxulo, aquela mulher morta, aquela droga de hotel, aquele embrulho no estômago, mistura de náusea, ressaca e medo, aquele silêncio de tumba violentado pelo som da sua própria respiração, que teria acontecido? O medo maior era de tê-la matado. Tornado-se um assassino. Por que mataria aquela mulher? Matara aquela mulher? Aquela merda de silêncio. Aquela merda de silêncio e de repente trrrrrrim! – chicoteando-lhe os ouvidos, sacudindo-lhe o corpo num pulo, a mão indo parar sobre o seio já semi-enrijecido, ele se assustando com a textura do corpo, nojo, náusea, medo, a bola no estômago irrompendo garganta afora, vou vomitar, banheiro, merda de telefone. Tarde demais, o peito sujo, o colchão sujo. Fétido, tudo fétido, o quarto, ele, ela, a situação, tudo fétido, tudo sujo. Tudo demasiadamente sujo.

Banheiro. A água escorrendo pelo corpo, gelada como aquele cadáver. Tão gelada. Merda de telefone, quem teria ligado, alguém procurando por ela? Depois perguntaria à recepcionista. Tentou relaxar um pouco durante o banho, era boa aquela sensação dolorosa de frio – estava tão entorpecido que precisava sentir alguma coisa. A água escorrendo pelo corpo, o seu. Era bom. Acabou perdendo a noção do tempo absorvido no banho, a sensação já não era de dor, transformara-se em quase redenção. Fechou as torneiras, apanhou a toalha já usada, enxugou lentamente o rosto, a toalha pouco a pouco desnudando os olhos em frente ao espelho, o interior do quarto se esgueirando na sua superfície lisa. E o coração descompassado outra vez, o sangue congelando, o medo, o impossível estampado naquele reflexo – a cama desarrumada, a sujeira, a bagunça, e só. Ela havia desaparecido.

Ela havia desaparecido. O corpo havia desaparecido.

Largou a toalha no chão e, atônito, as pernas trêmulas, verificou a porta do quarto: trancada. A chave permanecia intocada sobre o criado-mudo. Entrar pela janela e carregar um cadáver através dela? Impossível, era o 13º andar. Nada fora mexido; as coisas da morta continuavam espalhadas pelo piso do cômodo. O telefone tocando novamente. Atendeu, do outro lado da linha só o silêncio, desligou, precisava se acalmar, onde afinal teria ido parar aquele maldito corpo? Outro trrrrrrim irritante e fora de hora, atendeu, outro silêncio. Palhaçada. Discou para a recepção.

- Olha, não sei o que está acontecendo aqui. Mas há um engraçadinho testando a minha paciência ao telefone, então não transfira mais chamada nenhuma para o 1303, entendeu?

- Desculpe, senhor, mas não houve nenhum chamado para o 1303.

- Escuta, querida, acabei de atender ao telefone pela terceira vez. Não estou louco.

- Lamento, senhor, realmente não houve nenhum chamado. Se o senhor preferir, podemos...

Desligou com ódio da recepcionista, nem esperou que concluísse a frase. Confuso, apavorado, perdido, a mulher praticamente o chamara de louco, se queixaria ao gerente daquela vagabunda. O corpo. Que acontecera ao corpo? Outra vez, trrrrrrrrim, trrrrrrrrim, muitas vezes, não atenderia, atendeu: uma gargalhada... seria possível? Ele vira, tocara, ela estava morta – mas era ela, conhecia aquela gargalhada... era ela, sim, era ela! Como podia? Sentiu o corpo desfalecer e desabar sobre o chão, a mão direita procurando aflita pelo gancho do telefone que rolara para baixo da cama, precisava falar com ela, balbuciou um “alô” quase inaudível, tarde demais: a chamada fora interrompida. Precisava falar com alguém ou ficaria louco de verdade, discou para a polícia, desistiu, discou para a esposa, desistiu, falaria o quê? Que uma desconhecida com quem havia transado durante a noite e que supostamente fora morta por ele o estava assombrando ao telefone? Agora ouvia passos no corredor, lentos, ritmados, batidas na porta, não abriria, queria sumir, o peito explodindo, a bola no estômago voltando a crescer, o telefone, trrrrrrrrim, o chuveiro ainda aberto, a água escorrendo gelada como aquele cadáver, passos, trrrrrrrrim, toc-toc, passos, trrrrrrrrim, toc-toc, passos, trrrrrrrrim, toc-toc... trrrrrrrrim, toc-toc...

Acordou coberto de suor, ainda sob o impacto do sonho; ao fundo, o som estridente do despertador do telefone celular, gritando numa insistência irrequieta. Maldita tequila. A mulher devia estar no chuveiro, podia ouvir o som das torneiras abertas. Olhou em volta: uma garrafa vazia abandonada num vão entre o criado mudo e o guarda-roupa. Ao lado, a carteira. Sentia as pernas bambeando, a cabeça latejante de uma explosão iminente, o estômago embrulhado, um torpor horrível. Horrível. Meio tonto, venceu a resistência do próprio corpo e cambaleou até o interruptor; o súbito clarão amarelo turvou-lhe a vista por alguns segundos, as coisas pouco a pouco assumindo formas inteligíveis. A carteira! Atirou-se a ela num ímpeto, abriu: vazia. A mulher limpara até as moedas. Ela provavelmente pusera a droga na bebida, apagou depois de engolir aquela coisa. Procurou-a no banheiro, em vão – havia desaparecido, àquela hora já estaria longe.

Respirou fundo e, enquanto recolhia seus pertences espalhados pelo quarto, pensava na melhor desculpa que poderia inventar para a esposa e para o gerente daquela espelunca – pagar a conta do hotel era impensável, não tinha dinheiro nem ao menos para tomar um ônibus. Acabou desistindo de registrar queixa na delegacia: seria uma dor de cabeça a mais e ainda teria de agüentar as piadas por ter sido enganado daquela maneira ridícula. Faria daquele subúrbio um lugar de peregrinação, um dia a encontraria pelas ruas. Aí sim, acertariam as contas. Do seu jeito. Lançou um último olhar para o interior do cômodo, a mão direita segurando a maçaneta da porta entreaberta; alguns segundos mais e, após girar a chave, caminhou alguns passos, tomou o elevador e desceu. Ainda acertariam as contas.

Vaca.


domingo, 9 de novembro de 2008

Desculpe, Foi Engano

O que é a vida para você?

Soundtrack: The Twilight Singers - Powder Burns




- Alô.
- Oi. Quem fala?
- Quer falar com quem?
- Quem é?
- Olha, você me ligou. Quer falar com quem?
- Com você.
- E quem é você?
- Não vale a pena dizer. Só queria falar com alguém. Com você.
- Ok, já falou. Até mais.
- Não desl...

O telefone voltou a tocar, olhei: novamente, número não identificado. Não atendi. Precisava terminar de escrever aquele romance, protelado há semanas – meio por bloqueio criativo, meio por uma vergonhosa e irresistível preguiça. A chuva forte despencando do lado de fora era um convite tentador ao ócio; o telefone, se esgoelando sem parar, ajudava a tirar o pouco de concentração que me restava. Depois da enésima ligação atendi, contrariadíssima, e não disse nada. Esperei. Ele falava em voz baixa e, dessa vez, parecia meio constrangido pela insistência.

- Desculpa. Você não me conhece, eu não te conheço. Disquei ao acaso, você atendeu. Preciso falar com você, por favor, não desliga. Vou me matar daqui a pouco e preciso conversar com alguém.

Ótimo. Um lunático na minha linha no meio da madrugada. Na melhor das hipóteses, um desocupado. Passada a surpresa do primeiro instante e cumprido o inevitável caminho susto-perplexidade-indignação-só-me-faltava-essa, respondi com meu habitual respeito pelas duas condições:

- Você bebeu?
- Pareço bêbado?
- Ok. Você cheirou? Sem ofensas.

Ele riu.

- Você é sempre assim?
- Assim?
- Assim, meio sarcástica. Sem ofensas.
- Ah, não, não. Só quando desconhecidos com idéias suicidas me telefonam no meio da noite. Sabe como é, instinto.
- Você parece ser legal.
- Você fala demais para quem vai se matar.
- Quantos suicidas conhece? Quero dizer, conheceu?
- Nenhum.
- Como pode saber se falam muito ou se falam pouco?
- Como posso saber se vai mesmo se matar ou se é um esquizofrênico a fim de “suicidar” o próprio tédio e a minha noite também?

Silêncio. Do lado de fora, só chuva. Silêncio e chuva, ambos caudalosos. Quase desliguei, ele tornou a falar.

- O que é a vida para você?
- O que é a morte para você?
- Perguntei primeiro.
- Tanta coisa. Nascer, crescer, reproduzir, passando por todos os intermediários, talvez.
- Dá pra ser mais clara?
- Comer, beber, beijar, brigar, ter dor de barriga, arrumar um emprego, pagar contas. Cair da goiabeira e ficar com uma cicatriz no joelho, sexo por amor, sexo sem amor, fazer dieta, sabotar a dieta, tomar uma cerveja gelada num dia quente, tanta coisa, tanto faz, eu não sei. Não interessa o que é a vida para mim. Interessa o que é a vida para você. É VOCÊ quem quer se matar.
- Não quero. Vou.
- Ok, é você quem VAI se matar.
- Isso.

Silêncio. Para mim ainda parecia um trote mas, de repente, começou a me incomodar MESMO a possibilidade de que aquele sujeito fosse realmente se suicidar. Não sei se o incômodo era saldo da proximidade da vida ou da morte dele; o fato é que de repente aquilo tudo ficou muito desconfortável, principalmente porque eu não fazia idéia de quem era o fulano que me escolhera como ouvinte das suas – até prova em contrário – últimas palavras. Ele parecia tão próximo. Talvez estivesse esperando que eu dissesse “não faça isso” ou coisa parecida, ou algum tipo de discurso sobre como a vida é bela e a morte é negra, mas o insólito da situação tirara de órbita minha capacidade de raciocínio lógico. Ainda assim, foi minha vez de quebrar o gelo.

- E afinal, vai se matar por quê?
- Pensei que não fosse perguntar.
- Não ia. Perguntei porque acabou o assunto.
- E por que não desligou?
- Prefere que desligue?
- Você é estranha.
- Você ainda não viu nada.
- Não vejo sentido em continuar vivendo.
- Hã?
- Não vejo sentido em continuar vivendo.
- Isso é clichê. Não acredito que vai se matar por um clichê.
- A vida é um clichê.
- Não acredito que vai se matar por um clichê.
- No que você acredita?
- Agora? Acredito que você deve estar doidão.
- Não me mataria se estivesse doidão. Poderia me arrepender depois.
- É, poderia.
- Sua voz é bonita. Você deve ser bonita. Já pensou em se matar?
- A bola da vez é a sua morte, não a minha.
- Pensou, não pensou?
- Sei lá, todo mundo pensa nisso uma vez na vida.
- Por que não se matou?
- Porque não queria morrer de verdade. E acho que você também não quer. Quem quer morrer não fica de conversa fiada ao telefone.
- Uma contradição.
- Quê?
- A vida. É uma contradição. A gente nunca sabe mesmo quando está vivo e quando já está morto.
- Não prefere falar de amenidades? Sei lá, filmes. Batman. Você viu Batman?
- Não gosta de falar disso, não é?
- Estou tentando te distrair. Sei lá, pra você ter uma pré-morte mais legal. Aliás, como pretende, desculpe, como vai se matar?
- Você vai saber. Leia os jornais amanhã.
- Por que me ligou, afinal?
- Precisava falar com alguém. Fico feliz que tenha sido você. Se não fosse me matar, te convidaria para um cinema. Ou para uma cerveja. Enfim, fica para a próxima. Vou nessa, se cuide. Obrigado pela conversa.

Ele desligou. Só ele: eu fiquei subitamente atônita, com o telefone na mão. Não podia retornar a ligação, não podia nada a não ser esperar. Esperar. Esperar. Esperar. A madrugada passou lenta, se arrastando, eu rolando na cama, com o telefone na mão. Sempre com o telefone na mão. No dia seguinte devorei os noticiários e jornais em busca de algum sinal: nada. Uma semana mais tarde encontraram o corpo de um homem boiando no rio, sem marcas de violência ou qualquer outro indicativo de homicídio – segundo as informações, provavelmente o homem se suicidada. Não me contive: chorei. Depois disso a vida quase voltou ao normal. Quase, pois eu não conseguia esquecer o telefonema nem me convencer de que, mesmo que quisesse, eu não poderia ter impedido – cada pessoa segue seu próprio destino: o meu era atender a um telefonema, o dele terminara naquele leito de rio. “Você parece legal”, eu me sentia péssima, de qualquer jeito.

Voltei a trabalhar no romance e tentei esquecer o episódio, embora volta e meia ele me voltasse à memória. E, numa noite em que as nuvens anunciavam uma chuva tão torrencial quanto à da noite em que ele telefonara, ouvi o toque insistente da campainha. “Algum chato”, pensei, enquanto me encaminhava para a porta e espiava através do olho mágico. Não havia ninguém. Entreabri a porta com cuidado e olhei através da pequena fresta: nada, a não ser um pequeno envelope pardo depositado sobre o batente da porta. Apanhei-o e me tranquei em casa novamente e, ainda de pé junto à entrada, rasguei uma das bordas, verifiquei o conteúdo e senti o coração bater de alívio e de felicidade – como tinha me encontrado? Não importava: eram duas entradas para o cinema, a última sessão daquela noite. E um bilhete: “desculpe, foi engano.”


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Intermezzo Noturno

Publicado originalmente no blog Cotidianidades em um dia
perdido de agosto de 2007. Há muito mudei de endereço,
real e virtualmente. Mas a cidade, essa continua a mesma.

Seus fantasmas, infelizmente, também.



Era noite alta e eu ainda estava ali, sentada diante do computador, fitando pateticamente o documento em branco no qual eu havia escrito e deletado, incontáveis vezes, dezenas de inutilidades literárias. Depois de ouvir o repertório inteiro da Janis, eu já praticamente mergulhava, de cabeça, no desespero de um escritor que simplesmente não sabe o que escrever... Meu vazio mental, invariavelmente, me leva no mesmo rumo: uma xícara transbordante e quente de café. Diante desse pensamento convidativo e da minha momentânea incompetência criativa, me espreguicei languidamente como um felino e tomei o rumo da copa – já que a cabeça se recusava a funcionar, o paladar, ao menos, sairia no lucro.

Eu disse sair no lucro? Engano: para minha surpresa e indignação, não havia sequer um mísero pote de capuccino vagando pelo meu reino. Lembrei-me da loja de conveniência anexa ao posto de gasolina localizado em frente ao prédio onde moro; paciência, era sair no meio da madrugada para satisfazer minha vontade sobrenatural – afinal, não há empecilhos para deter um dileto e fervoroso apreciador de cafeína. Enfie-me na minha batida calça de moletom, tão cinza quanto o céu de uma cidade grande na hora do rush, arrumei os cabelos em um coque preguiçoso, enfiei uns trocados no bolso – o suficiente para comprar o que desejava, pois não pretendia ser chamariz para os gatunos notívagos – e parti em busca do meu tesouro. O frio da noite entorpecia meu corpo e aquecia ainda mais a vontade de uma bebida fumegante; apressei os passos e, quando já tocava a porta de vidro da loja, ouvi aquela voz.

- Dá uma moeda, tia.

Virei-me em câmera lenta; era um menino. A sujeira e o corpo mirrado tornavam impossível precisar a idade; porém, havia um quê de ladino nos olhos, alguma coisa sugerindo que eu não me deixasse enganar pelo aspecto frágil... ignorar seria a melhor opção – além do mais, eu só tinha dinheiro para o café. Fiz menção de entrar na loja. Ele foi rápido.

- Só uma moeda tia. Pra comer. Faz dois dias que eu não como nada.

Ele talvez não soubesse, mas havia acabado de enfiar o dedo na minha ferida de boa menina cristã. Minha mãe costumava dizer que não se deve negar comida pra ninguém... E, se ele realmente estava faminto como parecia, eu iria para o inferno de primeira classe e sem escalas caso negasse aquela bendita – ou maldita – moeda. Bosta.

- Escute: isso é fome mesmo ou você vai torrar a moeda comprando cigarro?

Ele me olhou quase com uma auréola de santidade.

- Eu juro, tia. Não quero cigarro, não. Faz dois dias que não como nem um sanduba. Minha barriga tá roncando, pega aqui, ó.

- Tá, tá. Não precisa exagerar. Mas se estiver com fome, mesmo, compro um lanche pra você – e eu confesso que esperava como réplica uma enxurrada de palavrões e xingamentos. Vi em seu rosto que não era exatamente o que ele pretendia, mas era a minha vez de dar o xeque-mate.

- É pegar ou largar.

Ele aquiesceu, por fim.

- Tá bom, tia...

- Então vamos ali no boteco do Careca. E pode parar com esse negócio de tia.

Ele me acompanhou com muita naturalidade; eu é que não me sentia nem um pouco à vontade com aquele acompanhante inusitado. “Se esse garoto estiver noiado, é capaz de me matar”. Pedi que o Careca lhe trouxesse um sanduíche de mortadela, mas o menino me interrompeu a frase na metade, “não tem arroz com feijão?” – e a ansiedade era gritante nos olhos dele. O dono do boteco sorriu, sem dizer nada, e se retirou como uma sombra, retornando, dentro de alguns minutos, com um prato considerável onde, quentinhos, arroz, feijão, bife e batata frita aguardavam serenamente o momento de serem devorados por aquela boquinha faminta.

- Sobrou um pouco do jantar, esquentei no microondas.

O dono do bar havia realmente se superado.

Se aquele garoto queria dinheiro para comprar cigarros, isso eu não soube e talvez não saiba nunca. O fato é que ele se atirou à refeição, a princípio um tanto constrangido, depois com um ímpeto que eu sequer havia imaginado. Enquanto o observava, senti um certo remorso pela comida que havia deixado sobre a mesa naquele mesmo dia, apenas por uma indisposição blasé. Não sei se percebeu ou se era simples vontade de puxar conversa; entre uma garfada e outra, ele, finalmente, voltou a usar a boca para falar.

- Qual o seu nome?

Apenas olhei. Inexplicavelmente eu não conseguia dizer nada.

- Não posso te chamar de tia, não é?

- Chame como quiser – e, nesse ponto, me surpreendi com o sorriso que começava a nascer nos meus lábios.

-Tá bom. Vou chamar você de Maria.

- Ok, Maria está ótimo. E o seu?

- Na rua me chamam de Robinho. Por causa do jogador, sabe. Quero ser jogador também – e ele dizia isso com um orgulho solene.

A conversa prosseguiu nesse ritmo. Não sabia o nome, nem a idade, nem quem eram os pais... Uma história comum, como a de tantos moleques que vivem como fantasmas pelas ruas da cidade. Mas, naquele momento, um daqueles fantasmas estava à minha frente materializado em um metro e meio de sujeira, penúria e cheiro de cola e abandono, devorando um prato de arroz, feijão, bife e batata frita que havia sido pago com os trocados do meu café. A refeição finalmente terminou; ele agradeceu, se despediu com um sorriso feliz e desapareceu na madrugada fria, tão silenciosamente quanto havia surgido. Ainda fiquei ali parada por alguns segundos; então respirei fundo, enfiei a mão nos bolsos agora vazios e voltei para meu apartamento.

O desejo de um café havia sumido. O de escrever, idem. A cabeça não estava mais vazia, contudo passara a acumular mais pensamentos do que eu poderia organizar. Nessa noite fui para cama me sentindo um pouco como aquele garoto de pele suja e idade indefinida, para quem a fome física era apenas mais uma entre tantas outras. Talvez não nos encontremos mais; porém, acredito que não nos esqueceremos um do outro, talvez até nos reconheçamos em alguma esquina dessa metrópole de fantasmas. E talvez eu até o convide para tomar um café comigo.


quarta-feira, 25 de junho de 2008

13º Andar

"Entrou em pânico quando percebeu que ela, de fato, não respirava. A flacidez fria daquele rosto pequeno, de traços levemente orientais, de súbito assumira uma assustadora lividez, anúncio de uma realidade tão inesperada quanto irremediável. Morta. Sentiu o sangue congelando de imediato nas veias ao contato daquele corpo inerte, o coração prestes a se despedaçar tão descompassado se havia tornado. Adormecera bêbado ao lado de uma desconhecida no quarto mofento de um hotel vagabundo e acordava desagradavelmente sóbrio, nu, dividindo a cama com um cadáver – circunstância que o nauseava, embora não conseguisse se afastar dali e sequer desviar os olhos da mulher. Que teria acontecido? Perplexo, imerso numa desorientação que o mantinha preso ao colchão desarrumado com cheiro de bebida, observou o terrível contraste entre os cabelos escuros e a pele muito clara já vencida pela palidez mórbida da morte, os seios pequenos e rijos repousando sobre o peito imóvel. Morta. Não ouvira gritos, não notara quaisquer indícios de suicídio – ela não parecia mesmo o tipo de mulher disposta a se matar. Sem sinais de violência, sem marcas de qualquer natureza, sem nada. Absolutamente nada. Apenas morta.


Como se chamava mesmo, Virgínia? Vanessa? Valéria? Bianca? Nem guardara o nome, não o ouvira mais de uma vez desde que se haviam encontrado naquela boatezinha chinfrim de periferia. Ela era bonita, parecia uma índia de pele branca, o corpo apertado num vestido transpirando vulgaridade e luxúria, o desejo queimando nos olhos oblíquos semi-ocultos pelos cílios pesados de rímel. Fora dela a sugestão do hotel, fizera o convite em meio a beijos lascivos regados a muito álcool. Abriram a porta do quarto cambaleando, às gargalhadas, ela segurando nas mãos uma garrafa de tequila, ele já demasiadamente tonto, tentando arrancar-lhe o vestido. Beijos, carícias, goles, goles, goles. Depois mais nada, lembrança alguma. Apagara. Esforçava-se para compreender o que teria acontecido, o suor escorrendo pela testa gelada, a respiração ofegante e curta, o olhar acorrentado a um ponto situado entre o coerente e o inverossímil em qualquer lugar no encardido da parede, que teria acontecido? Tudo era confuso, borráceo, esdrúxulo, aquela mulher morta, aquela bosta de hotel, aquele embrulho no estômago, mistura de náusea, ressaca e medo, aquele silêncio de tumba violentado pelo som da sua própria respiração, que teria acontecido? O medo maior era de tê-la matado. Tornado-se um assassino. Por que mataria aquela mulher? Matara aquela mulher? Aquela merda de silêncio. Aquela merda de silêncio e de repente trrrrrrim! – chicoteando-lhe os ouvidos, sacudindo-lhe o corpo num pulo, a mão indo parar sobre o seio já semi-enrijecido, ele se assustando com a textura do corpo, nojo, náusea, medo, a bola no estômago irrompendo garganta afora, vou vomitar, banheiro, merda de telefone. Tarde demais, o peito sujo, o colchão sujo. Fétido, tudo fétido, o quarto, ele, ela, a situação, tudo fétido, tudo sujo. Tudo demasiadamente sujo. (...)"


Leia o final dessa história aqui, em Novas Visões. A gente se vê por lá ;)


E falando em ler, hoje tem postagem da Van lá no Palavras Para Aquecer. Uma linda reflexão cheia de delicadeza, sobre os pequenos milagres de cada dia - esses que nos aparecem disfarçados de pessoas, de acontecimentos, de momentos... sobre as chances que damos (ou não) ao nosso coração quando a vida nos coloca diante delas. Edu, Van e eu esperamos por vocês com um café quentinho para acompanhar mais essa fornada de palavras fresquinhas, desmanchando na boca e no coração de tão gostosas. ;)



Aproveitando pra agradecer à Aline pelo selinho LINDO, criado por ela própria, com o qual me presenteou: Este Blog É Estampado de Idéias Criativas. Muito obrigada, adorei a lembrança!

Repasso para: Lomyne, Ingrith, Ceisa, Rê e Nathália.





Beijos!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Crisálida

Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.

(Carlos Drummond de Andrade)

Soundtrack: Rose Hill Drive - It's Simple


Despertou por volta do meio-dia. A cabeça, pesada, pulsava latejante como um ferimento aberto... O olhar ainda meio desfocado procurou preguiçoso pela garrafa de vinho na qual mergulhara na noite anterior. Vazia, abandonada ao pé da cama. Por que não estava surpresa? Não fora a primeira vez que uma garrafa de vinho lhe servira como companhia em uma noite solitária; provavelmente não seria a última.

Enfiou novamente a cabeça debaixo dos lençóis na tentativa de voltar para o sono letárgico do qual despertara a contragosto; o quarto, mergulhado na penumbra proporcionada pelas cortinas cerradas e janelas fechadas, lhe parecia atraente demais para que ela ensaiasse qualquer tentativa de levantar e encarar o mundo lá fora. Foi necessário um grande esforço para que, finalmente, decidisse se desencasular de sua crisálida de cetim e voltar à realidade, embora esta não fosse exatamente a melhor opção segundo seu confuso e peculiar ponto de vista.

Levantou-se lentamente e caminhou, ainda cambaleante, até a janela; experimentou entreabrir as cortinas escuras. Um facho de luz quente e sufocante atingiu-lhe em cheio o rosto que, acostumado à escuridão das últimas horas, contorceu-se em uma careta. “Mais tarde”, ponderou. Agora precisava de um café. Forte, bem forte. Bem quente, para incendiar todo aquele torpor que a envolvia como tentáculos de polvo. Amargo, como o gosto teimoso e impertinente de não sei o quê a habita-lhe permanentemente a boca. Precisava de um café. Colocou a água para ferver, imaginando as moléculas do líquido a se agitarem com o calor do fogo; a idéia de uma ducha morna brotou, lhe parecendo a chance de uma carícia para o corpo martirizado pelo vinho, pelas contrariedades, pela solidão tão odiada e companheira... Sim, tomaria um bom banho e depois, com corpo e alma limpos, sorveria a negra bebida dos deuses.

Abriu as torneiras, regulou a temperatura e, como de costume, observou a água fluir, por alguns segundos desejando que o curso dos acontecimentos que permeavam seus caminhos fosse assim cristalino e previsível. Deixou-se molhar, se permitindo a sensação reconfortante e há tanto ignorada de extirpar tudo o que a incomodava – ao menos por breves instantes – apenas para entregar-se ao prazer de pensar em absolutamente nada. A água quente a escorrer pela pele funcionava como um resgate de si própria. Ouviu o ruído da chuva anunciando-se do lado de fora, o burburinho tímido e sussurrado crescendo e se transformando no majestoso som dos pingos desabando sobre ruas, telhados e paredes. Água, por todos os lados. Água. Como a que lhe inundava os poros. Revisitou os últimos acontecimentos de sua vida: estava cansada desse dormir e acordar sem expectativas, cansada do trabalho desempenhado maquinalmente, cansada dos relacionamentos infrutíferos, cansada, cansada, cansada. O banho lhe trouxera mais do que relaxamento: suscitara o questionamento de estar protagonizando uma existência que não era a sua. Uma idéia louca ecoou em sua mente: se aquela não era a sua vida, qual seria, e quem a estaria vivendo em seu lugar? Quem estaria morando na sua casa, amando o seu amor, passeando com o seu cachorro e fazendo todas as coisas que ela certamente faria, não fosse aquela despropositada troca?

Fechou as torneiras e olhou-se no espelho embaçado com o corpo ainda molhado. Limpou suavemente a superfície de vidro com as mãos; viu um rosto igual ao seu, porém, sob algum aspecto, diferente, a fitá-la com olhos inquiridores. Castanhos como os seus, mas vívidos, curiosos, contemplativos. Pela primeira vez não enxergou as cicatrizes que as tristezas e aborrecimentos haviam entalhado em sua pele clara. Percebeu um esboço de sorriso no rosto à sua frente, retribuiu a gentileza, o rosto lançou-lhe então um dos sorrisos mais bonitos que já havia visto. Decidiu que aquele rosto seria seu a partir daquele momento, o rosto que se havia perdido por tanto tempo mas que reencontrara na água, no espelho, em si mesma, talvez.

Lembrou-se da garrafa de vinho. Não fora a primeira, provavelmente não seria a última. Já não importava; a cabeça não pesava mais. Corpo e alma limpos. O gosto amargo da boca desaparecera como por encanto. Foi até as janelas, abriu as cortinas, deixou que o cheiro bom da rua molhada invadisse o quarto, desistiu do café. Escolheu o vestido mais bonito, justamente o que ficara esquecido no canto do armário por tanto tempo que ela nem conseguia lembrar quando o usara pela última vez. Vestiu, nunca parecera tão bonito quanto agora, percebeu que a lagarta finalmente se havia tornado borboleta. Desceu as escadas correndo, cantarolando uma música antiga, fechou a porta e partiu sem hora para voltar. Saía em busca da sua vida.


Texto publicado originalmente no extinto blog Cotidianidades, em algum dia perdido de junho de 2007. E quem gosta de rock - daquele rock mais puro, com uma levada meio setentista - e ainda não conhece Rose Hill Drive, ouça o álbum de estréia dos caras, intitulado apenas Rose Hill Drive (2006). Vale a pena.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Intermezzo Noturno

Era noite alta e eu ainda estava ali, sentada diante do computador, fitando pateticamente o documento em branco no qual eu havia escrito e deletado, incontáveis vezes, dezenas de inutilidades literárias. Depois de ouvir o repertório inteiro de Aretha Franklin, eu já praticamente mergulhava, de cabeça, no desespero de um escritor que simplesmente não sabe o que escrever… Meu vazio mental, invariavelmente, me leva sempre no mesmo rumo: uma xícara transbordante e quente de café. Diante desse pensamento convidativo e da minha momentânea incompetência criativa, me espreguicei languidamente como um felino e tomei o rumo da copa – já que a cabeça se recusava a funcionar, o paladar, ao menos, sairia no lucro.

Eu disse sair no lucro? Engano: para minha surpresa e indignação, não havia sequer um mísero pote de capuccino vagando pelo meu reino. Lembrei-me da loja de conveniência anexa ao posto de gasolina localizado em frente ao prédio onde moro; paciência, era sair no meio da madrugada para satisfazer minha vontade sobrenatural – afinal, não há empecilhos para deter um convicto apreciador de cafeína. Enfie-me na minha batida calça de moletom, tão cinza quanto o céu de uma cidade grande na hora do rush, arrumei os cabelos em um coque preguiçoso, enfiei uns trocados no bolso – o suficiente para comprar o que desejava, pois não pretendia ser chamariz para os gatunos notívagos – e parti em busca do meu tesouro. O frio da noite entorpecia meu corpo e aquecia ainda mais a vontade de uma bebida fumegante; apressei os passos e, quando já tocava a porta de vidro da loja, ouvi aquela voz.

- Dá uma moeda, tia.


Essa história continua aqui, em Novas Visões. Espero vcs! :)))

Bom fim de semana pra todo mundo!

Beijo, beijo, beijo.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Milagreiro

"Um dos maiores milagres de Deus é permitir
que pessoas comuns façam coisas incomuns."

(H. Jackson Brown)

Soundtrack: Jeff Buckley - Hallelujah*


Ninguém jamais soube ao certo qual a origem daquele menino. Não veio de lugar algum; apareceu, apenas. Foi Zé da Pedra quem o encontrou ali, nas proximidades da Pedra do Arco, brincando de enterrar os pés na areia sem se importar com a madrugada fria anunciando o nascimento de mais uma manhã, o corpo resguardado somente por uma bermuda rota de chita. O velho pescador não entendia como uma criança tão mirrada podia suportar assim o frio se ele, homem feito e acostumado com intempéries, sentia doerem os ossos com aquele tempo terrível. Zé da Pedra aproximou-se do pequeno, perguntou-lhe o nome. O menino, alheio, continuava a brincar na fina areia branca. O pescador insistiu; o garoto buscou com o olhar os olhos do velho, o mutismo se transformando em um sorriso doce e desconcertante, sorriso de quem é imune aos males do mundo, invadindo o coração do homem como uma lufada de serenidade branda e sem pressa. Zé da Pedra observou cuidadoso que o menino tinha o corpo úmido; preocupado, decidiu levá-lo para casa e deixá-lo nas mãos de dona Teresa, até que um adulto aparecesse para buscá-lo.

Dona Teresa o recebeu como a um filho, o menino era um anjo, o sorriso tranqüilo pairando no rosto feito maresia. Mas estranho, não falava sequer uma palavra, apesar de compreender absolutamente tudo que lhe diziam. Ainda mais estranha era sua capacidade de se fazer entender apenas com o olhar, suas maneiras delicadas, sua serenidade inexplicavelmente contagiante... a mulher arrumou-lhe roupas e um lugar para dormir; como os dias se passassem sem que ninguém surgisse à sua procura, Zé da Pedra e dona Teresa não viram mal em ficar com ele, a quem já havia se apegado irremediavelmente. Porque não sabiam seu verdadeiro nome, e porque sua aparição se dera justo no dia desse santo, passaram a chamá-lo de Jerônimo.

Jerônimo era o sol que aquecia o casebre do pescador e sua esposa. Acompanhava o velho Zé da Pedra todas as manhãs até a Pedra do Arco e aguardava seu retorno à tardinha. Permanecia sentado sobre as rochas, observando os barcos de pescadores em seu balé sobre as ondas; às vezes fechava os olhos e, como que absorvido pelo cheiro do mar, parecia hipnotizado por uma espécie de transe. Foi assim que dona Teresa o encontrou no dia em que descobriu que o menino mudo sabia cantar. E cantava bonito de se ouvir, bonito de se sentir... Cantava e seu canto ecoava pelo mundo levando consigo a pureza da alma do menino. Dona Teresa o ouvia estática, silenciosa, entre lágrimas. Ele calou, abriu os olhos, sorriu para ela, a envolveu em um abraço terno. Voltaram para casa e as palavras eram desnecessárias.

As coisas estavam diferentes desde que Jerônimo chegara, dona Teresa agora percebia. Os homens voltavam do mar com as redes transbordantes de peixe; há tempos ninguém caía enfermo, as desavenças, outrora corriqueiras, faziam parte do passado. As crianças nasciam saudáveis, as mulheres tinham bons partos, os homens andavam apaziguados. Até o tempo, tão atroz naquela época do ano, subitamente se transmutara. Diariamente Jerônimo presenteava a vila com sua voz encantada – e era ele, dona Teresa tinha certeza, o responsável por aquela enxurrada de bênçãos. O dom do menino igualmente não passara despercebido aos demais habitantes do povoado – as pessoas afluíam à casa de dona Teresa à sua procura, muitas das vezes apenas para serem tocadas por ele. Seguiam-no até a Pedra do Arco para se embriagarem com seu canto feiticeiro – e choravam diante dele, se abraçavam uns aos outros, sentiam o amor fluir por entre seus corpos de gente crédula.

Houve dias a fio, porém, em que o pequeno silenciou. As redes retornavam vazias do mar; a discórdia insinuava-se sorrateira no coração das gentes, as moléstias ressurgiam impiedosas, tornando a castigar a carne de moços e velhos. O povo, possuído por uma irritação nervosa e insana, não compreendia o porquê daquele mutismo – e, em uma tarde de incontido desespero, invadiram a casa de Zé da Pedra em busca do menino milagreiro. Dona Teresa insistia em dizer que Jerônimo desaparecera, o choro lhe embotando a voz e as idéias, o nervosismo se agigantando diante da fúria dos invasores. E, de repente, o canto... o arrebatamento indescritível se apossando de suas almas através daquela voz devastadoramente bela.

Guiadas pelos sons as pessoas o encontraram na Perda do Arco, os olhos fixos no mar, os últimos raios do sol que se deitava no horizonte refletindo-se na sua tenra e alva pele de criança. Zé da Pedra fez menção de aproxima-se; o menino, com o rosto transfigurado por uma expressão de bondade infinita, sinalizou para que o velho pescador permanecesse onde estava. Um misto de medo, respeito e encantamento tomara conta daquela gente. O menino fechou os olhos e, instintivamente, todos os outros repetiram o gesto. E então Jerônimo cantou... doce, sublime como jamais havia cantado, sua voz lhes invadindo corações e mentes, mudando suas vidas para sempre. Durante uma fração incalculável de tempo permaneceram entorpecidos por aquele encanto; ao abrirem os olhos, porém, perceberam que o menino havia desaparecido.

Foram dias, semanas, meses de incessante e vã procura. Dona Teresa amofinou, quase morreu de tristeza; Zé da Pedra, melancólico, atracou o barco na praia e deliberou não mais entrar no mar. O povo da vila se uniu nas promessas, orações e nos desvelos com o velho casal. As coisas lentamente entravam nos eixos; as pessoas, aos poucos, percebiam a herança do menino. Era a solidariedade a semente que aquela criança havia plantado, e que só agora, na sua ausência, começava a dar os primeiros frutos.

Jerônimo jamais tornou a ser visto. Uns diziam que era anjo; outros diziam que era sonho. E aquela vila de pescadores jamais tornou a ser a mesma: seus habitantes haviam, finalmente, aprendido a se amar. A vida havia se tornado próspera, o mar era pródigo e farto, Deus os abençoara pela generosidade que agora era autêntica e gratuita. Quem passa por lá ainda ouve falar nos milagres do menino – e na doce voz que, todas as noites, acalenta o sono daquele povoado.


* Jeff Buckley (1966- 1997) foi um cantor, compositor e guitarrista norte-americano. Conhecido por seus dotes vocais, foi considerado pelos críticos umas das mais promissoras revelações musicais de sua época. Seu trabalho e seu estilo único continuam sendo admirados por fãs, artistas e músicos no mundo todo e, apesar da morte prematura, Jeff Buckley vem cada vez mais conquistando novos admiradores. "Grace" - o primeiro e único álbum de estúdio oficial e completo de Jeff Buckley, lançado em 1994, da qual faz parte a faixa Hallelujah, composta por Leonard Cohen em 1984 e considerada a melhor composição canadense da história - é constantemente citado como um dos melhores álbuns de todos os tempos.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Hoje - e até segunda ordem - estou aqui.

Beijos a todos e excelente semana!