terça-feira, 1 de setembro de 2015

Um quarto cor-de-rosa.




Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha sem sequer saber se ela gostará de cor-de-rosa. Eu mesma não gostava. Não sei se fez diferença na minha vida não ter tido meu quarto cor-de-rosa, e também não sei se fará diferença na vida dela. Mas faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque é o que as mães fazem: tentar construir um lugar bonito, seguro e colorido para os filhos, para onde eles possam voltar sempre, mesmo quando alguns sonhos e esperanças desbotarem e a vida parecer um filme melancolicamente preto-e-branco.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque, um dia, ela crescerá – e desejo que jamais se esqueça de que será sempre a minha menina. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque sei que o mundo não o é, e a tratará com rigor e a fará chorar, e desejo que as lembranças de sua cama quentinha, suas bonecas e, sobretudo, do amor incondicional que lhe dedicamos desde o instante em que soubemos que seríamos abençoados com sua chegada sejam como um doce beijo de boa noite a apaziguar diuturnamente seu coração. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque não espero que minha filha seja uma princesa – embora, para mim, seja exatamente o que ela sempre vai ser.

Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha, porque minha filha está construindo um quarto cor-de-rosa dentro de mim, repleto de lindezas e doçuras e sonhos. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque não posso fazer um mundo cor-de-rosa para ela e, mesmo que pudesse, não o faria – o que posso, e farei, é estar ao seu lado e segurar sua mão mesmo quando ela imaginar estar sozinha em sua caminhada, pois há jornadas que não podemos cumprir pelos filhos, ainda que sejamos capazes de dar um braço ou uma perna para poupá-los de certas dores. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque, além de beijá-la, abraçá-la, amá-la e estar/ser com ela incondicionalmente, é o que posso fazer. E porque fazer um quarto cor-de-rosa para minha filha é como erigir um lugar sagrado onde estaremos sempre juntas, resguardadas pelas ternas memórias dos nossos momentos lado a lado nessa existência.

Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha. Não julgue, amigo querido, uma mãe por se esmerar em coisa tão aparentemente inútil e boba. Mães são assim – estão sempre a se esmerar em coisas bobas e inúteis para seus filhos amados. Construímos quartos cor-de-rosa a cada sorriso de um filho, a cada passinho, a cada vitória dele. Somos meninas aprendendo a crescer através do amor que a maternidade nos descortina, dia após dia. Talvez o quarto cor-de-rosa que estou fazendo para minha filha seja, de fato, para mim. Para você. Para todos nós. Como amor de mãe, que se irradia até onde entendimento humano jamais alcançará.

Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha. E se você, querido amigo, um dia tiver a sensação de que não há mais aonde ir, fique à vontade para se aconchegar.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Você


soundtrack: Lorene Scafaria - We Can't Be Friends


Você, aquele seu olhar de pureza, sempre me desnorteou. Você tinha nos olhos aquela coisa de pureza, uma coisa muito louca, eu olhava pra você e pensava que parecia um anjo, e eu, que nunca acreditei em Deus, flagelava minha descrença até ela quase se transformar em fé, e deve ter se transformado, por alguns segundos, algumas vezes, desconfio. Não o suficiente para que eu desejasse o paraíso, nessas horas eu desejava apenas que você jamais deixasse de olhar para mim daquele jeito, mesmo quando você me beijava a boca, a nuca, e as suas mãos seguravam os meus seios com uma delicadeza morna e úmida, uma delicadeza desistindo de ser lúcida, e a minha pele quase virava a sua – eu aceitava o fim do mundo e o meu próprio sem receio ou barganha porque aqui, nesse lapso efêmero onde somos carne e sangue e osso entremeados de absurdas repercussões sensoriais, eu pertencia a você e você e você a mim, ninguém sendo dono de ninguém, nós apenas nos descobrindo, redescobrindo. Cobrindo-nos de profundidades. Ainda durmo sem travesseiro e com os pés para fora da cama – mas, desde que você se foi, minha pele não se acostuma, e os cantos da casa me olham inquisitivos, atônitos, eu, blasé, mentirosa, respondo: é a vida. Não é a vida, meu amor, não é. Não é a vida, é a minha descrença despencando em queda livre na vontade reprimida de que exista de fato um Deus, uma força, uma entidade que faça todo o transitório ser menos hostil sem você. Porque a vida é transitória, relapsa e insinuadora de desvios. E a minha descrença, permanente e vígil como qualquer promessa de eternidade, se fere inteira em cada “e se”, e eu não consigo mais secar suas feridas. Ou, talvez, não queira.


A verdade é que não acredito em paraíso. Mas em nós, eu acreditava.