terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Você


soundtrack: Lorene Scafaria - We Can't Be Friends


Você, aquele seu olhar de pureza, sempre me desnorteou. Você tinha nos olhos aquela coisa de pureza, uma coisa muito louca, eu olhava pra você e pensava que parecia um anjo, e eu, que nunca acreditei em Deus, flagelava minha descrença até ela quase se transformar em fé, e deve ter se transformado, por alguns segundos, algumas vezes, desconfio. Não o suficiente para que eu desejasse o paraíso, nessas horas eu desejava apenas que você jamais deixasse de olhar para mim daquele jeito, mesmo quando você me beijava a boca, a nuca, e as suas mãos seguravam os meus seios com uma delicadeza morna e úmida, uma delicadeza desistindo de ser lúcida, e a minha pele quase virava a sua – eu aceitava o fim do mundo e o meu próprio sem receio ou barganha porque aqui, nesse lapso efêmero onde somos carne e sangue e osso entremeados de absurdas repercussões sensoriais, eu pertencia a você e você e você a mim, ninguém sendo dono de ninguém, nós apenas nos descobrindo, redescobrindo. Cobrindo-nos de profundidades. Ainda durmo sem travesseiro e com os pés para fora da cama – mas, desde que você se foi, minha pele não se acostuma, e os cantos da casa me olham inquisitivos, atônitos, eu, blasé, mentirosa, respondo: é a vida. Não é a vida, meu amor, não é. Não é a vida, é a minha descrença despencando em queda livre na vontade reprimida de que exista de fato um Deus, uma força, uma entidade que faça todo o transitório ser menos hostil sem você. Porque a vida é transitória, relapsa e insinuadora de desvios. E a minha descrença, permanente e vígil como qualquer promessa de eternidade, se fere inteira em cada “e se”, e eu não consigo mais secar suas feridas. Ou, talvez, não queira.


A verdade é que não acredito em paraíso. Mas em nós, eu acreditava. 



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Enquanto Você Dormia


Um dia você acorda. Acorda pra vida. Acorda de um sono que nem sabia que estava dormindo. Você, que sempre se gabou de ter sono leve, dormiu demais, perdeu a hora, mas antes tarde do que nunca. Você acorda com o rosto inchado e a boca seca, lava o rosto com água gelada, lava a boca pra tirar aquele gosto ruim de boca adormecida – fechada por tanto tempo para aquilo que você não disse, não provou, não riu. Acorda com a dor de cabeça típica de quem dormiu demais e com o corpo dolorido, entrevado, castigado pela lembrança de todas as danças que você não dançou, de todos os lugares que você não visitou, de todas as vezes que você não mergulhou no mar, na vida, na panela de brigadeiro – mergulhar vale a pena até quando a gente toma um caldo aqui e ali. É. É, eu concordo com você: dormir demais dá uma ressaca dos infernos. Pior que misturar cerveja com vinho doce. Pior que vodca vagabunda. Muito pior. 

Aí você acorda e tenta se atualizar, liga a tevê, lê os jornais, pega uma revista, feicebuque, uatisápi, bate um papo com aquele pessoal que sempre sabe tudo o que está rolando – e percebe que, enquanto você dormia, tanta gente casou, nasceu, morreu, aconteceu uma revolução, brincadeira virou trollagem, o que era sério virou brincadeira, o que era legal virou crime e vice-versa, o salário, ó, a moda ficou muito estranha e as pessoas mais ainda, o preço do quilo do tomate disparou, o dos imóveis nem se fala, o Rio de Janeiro continua sendo mas o ser humano nem tanto, e o mais inquietante: percebe que uma boa parte da sua vida passou. Acontece. Você acordou, é o que interessa. 

Agora é vencer a inércia, levantar, tomar um banho (de chuveiro, de sal grosso, de sete ervas, de coragem, sobretudo), chutar pra longe o travesseiro e os lençóis, chutar uma parede imaginária, chutar o pau da barraca, chutar o balde, chutar que é macumba. E, por fim, chutar a gol. Dá tempo. 



Vai um café?


Imagem: DeviantArt