sexta-feira, 16 de março de 2012

Letras, Flores e Solidões


Soundtrack: Schuyler Fisk - Fall Apart Today





Não sei o que dizer. A ideia era lhe escrever um bilhete, mas apago e repenso cada palavra como se fosse igualmente impossível nos reescrever na mesma história. Paredes brancas, papel em branco, alguma coisa vazia indo e vindo, minha ansiedade recorrente, um pouco de raiva misturada a um impulso anacrônico de amor, um bêbado na esquina da rua solitária atirando ao vento flores imaginárias. A certeza de que, quanto mais me esforço para esquecer, mais me lembro de. Tão difícil dizer amor, amor. Tão difícil dizer qualquer coisa sempre que há tanta coisa a ser dita. E eu, odiando te encontrar, odiando não te encontrar, que felicidade e liberdade sempre me pareceram antagônicas e, ao mesmo tempo, sempre me pareceram sonhos viciados de um mesmo coração partido, continuo aqui, guardando na voz e dentro do peito aquilo tudo que um dia fez parte do mundo que eu quis lhe contar – incluindo a rua solitária, o bêbado na esquina, as flores imaginárias, o coração partido e o bilhete de amor que nunca se escreveu.



quarta-feira, 14 de março de 2012

Rito


"voz que nunca desiste, na mais negra
das águas da mais longa das noites."

Lya Luft


escrevo um poema como quem derrota
o impulso de não
se admitir.


[como quem se desorganiza escrevo, e como quem
se desarruma e se eleva e se 

d e s f r a g m e n t a

em ritos contínuos derramados pelos cantos
de cada (re)verso.]


escrevo um poema como quem se atira na sagrada
e ancestral memória da primeira palavra sentida:


escrevo um poema como quem corrompe uma antiga
solidão:


escrevo um poema como quem morre
[um pouco a cada dia]
de qualquer demasia pela qual valha a pena morrer
de amor
para viver mais



terça-feira, 13 de março de 2012

Do Desejo.


no canto úmido do olho que geme lembranças 
e permeios por entre mornos
ângulos, beijos trêmulos
límpidos



[há um pouco de mim escorrendo ainda por entre as tuas mãos]



e pousa-se túrgido querendo do corpo a nudez
e da alma a nudez



[há um pouco de ti trespassando desejo sob meu ventre]



essa liberdade, esse vício
que a vontade do teu corpo ruboriza
e vívida admite:
não é afeto, é
c i o



quinta-feira, 8 de março de 2012

Coisas de Mulher


A todas as mulheres maravilhosas que, com suas lutas, histórias e 
exemplos, fazem desse mundo um lugar melhor para se viver.
E a todos os homens especiais que fazem a nossa vida valer mais a pena.




Soudtrack: Barão Vermelho - Por Você



Há quem faça uso da expressão “coisa de mulher” como se a coisa em questão fosse algo tão tenebroso e incompreensível que realizá-las, ou pensá-las, ou dizê-las, ou querê-las, ou conjugá-las sob qualquer outro verbo só poderia mesmo ser exclusividade da ininteligível condição feminina. Medo de barata? Coisa de mulher. Demorar no banho? Coisa de mulher. Experimentar todas as roupas do armário e não curtir nenhuma? Coisa de mulher. Assistir ao mesmo filme água-com-açúcar pela centésima nonagésima sétima vez e chorar copiosamente como se fosse a avant premiére? Coisa de mulher. Ok, mulheres realmente fazem isso – o que não quer dizer que alguns homens também não façam, o que não vem ao caso, por enquanto. O que realmente interessa são as coisas de mulher que costumam passar despercebidas, ou nem tanto. E que todas as mulheres gostariam que fossem lembradas como genuínas coisas de mulher.

Coisa de mulher é ter peito, muito além do volume delimitado pelo sutiã. E mangas, arregaçadas diariamente na lavra da parte que lhes cabe no latifúndio da vida. Foi-se o tempo em que coisa de mulher era esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque. Embora muitas vezes ainda façam tal percurso, esse não é mais o único caminho a seguir: mulheres têm a liberdade de pavimentar seu chão com suas próprias escolhas e conquistas.

Casar talvez ainda seja coisa de mulher. Mas, muito mais do que casar, coisa de mulher é amar e ser feliz. Coisa de mulher é beijar, abraçar, fazer amor ou sexo segundo sua vontade. Gozar. Curtir seu corpo e sua feminilidade. Orgulhar-se de sua sexualidade. Porque ser mulher nada tem a ver com orientação sexual, assim como passa longe de ser dependente da genética – a fêmea vem ao mundo e se faz mulher à proporção de suas vivências. Construir-se – e reconstruir-se – é coisa de mulher.

Chorar é coisa de mulher. E mulher chora fácil, e por tudo – pois, para um coração de mulher, nada há que não mereça pelo menos uma lágrima (até prova em contrário). Mas coisa de mulher, mesmo, é sorrir. O meio sorriso de Monalisa, o riso escancarado de Joana, a gargalhada cristalina de Carolina... as risadas todas, de todos os timbres, com e sem motivo. Coisa de mulher é parir. Filhos, sonhos, ideias, pensamentos, tendências – e alimentar esses frutos com o leite de seu corpo e de sua alma. Estar a postos para vê-los crescer, se agigantar, frutificar – e, dia após dia, se surpreender, orgulhosa, a lamber a cria que concebeu.

Coisas de mulher são aquelas coisinhas peculiares e encantadoras que fazem das mulheres criaturas ímpares. O encanto, a sedução, a imprevisibilidade, a altivez, o endurecer sem perder a ternura. Coisa de mulher é entender que homens e mulheres são diferentes, e que as diferenças aproximam e engrandecem as semelhanças entre ambos. Coisas de mulher não se entendem, não se enumeram, não se questionam – é sentir, e o resto flui. Ser mulher é coisa que vem do útero. Ah, benditas coisas de mulher.





quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quarta-feira de cinzas

Quanto riso! Oh! quanta alegria! 
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando 
Pelo amor da Colombina 
No meio da multidão

(Zé Keti e Pereira Matos - Máscara Negra)



A magia acabou.
A festa acabou.
O amor acabou.


Nem alegria, nem ilusão.
Nem euforia, nem emoção.

[e aquele sonho alegórico de fantasia, sem eira, nem beira,
se foi de olhos vermelhos nas cinzas da quarta-feira]