segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

... E O Que Eu Nunca Soube, Eu Vi Passar Por Mim:

Esperar. To wait. Aspettare. Warten. Attendre.


É cansativo olhar para o teto sem saber o que fazer.

Talvez o cansaço advenha da ciência de não estar esperando por absolutamente nada conhecido – como respostas. Não se está à espera de respostas. Espera-se ansiosamente por algo desconhecido e dolorosamente sentido. Espera-se com a boca seca e a garganta ardida. Espera-se com o coração na mão. Espera-se com uma lágrima continuamente em formação no canto interno da cor que não está no olho, mas na imagem que permanece lá embora não esteja. Espera-se com uma íngua inflamada e doída no meio do peito que só inflama e só dói e ainda mais inflama e ainda mais dói agarrada no tempo que passa. Espera-se, e só. Às cegas. Impotente. Com o corpo amolecido e quase anestesiado sobre o colchão atapetado com as perguntas que a razão já desistiu de fazer. Chutando paredes imaginárias. Com as mãos interpostas entre um “fica” e um “vá embora”. Espera-se com o desespero mais resignadamente desassossegado que possa existir: o de estar ali sem saber por que ou até quando, mas sabendo que é inútil rebelar-se contra essa permanência já que a hora de partir ainda não chegou.

Espera-se, porque esperar faz parte. Do quê, é irrelevante.


sábado, 21 de novembro de 2009

Quando O Que Se Tem É Tudo Que Se Tem

Pensei: vou morrer.

Porque acreditei que não agüentaria esperar o minuto seguinte, eu que deliberadamente não aprendi a ser paciente, eu que não compreendo nem faço questão de crer nessa coisa misteriosa e absolutamente incerta e abstrata chamada futuro. Porque eu respirei e o ar me fazia doerem os ossos e a minha cabeça pesava sobre as idéias que eu tivera e ainda mais sobre as que eu não tivera, a minha cabeça pesava pendular e disciplinada e era como se naufragasse sem resistência entre os meus passos, eu andando em círculos sobre o tapete da sala, indo e vindo, e indo e vindo, e indo e vindo, indo, aonde eu jamais saberia dizer. A mim, talvez. Eu que há tanto tempo apenas desejo meu coração em paz, e não me lembro onde nem em que momento ele ficou para trás. Eu que sofro e choro e rio e me maltrato e me desfaço em rotas internas de complexidade irremediável, eu, intratável, eu que tenho tanto fascínio por profundezas e que, por isso mesmo, agonizo naquilo que é raso, pensei: vou morrer. Hoje. E não desejei que fosse diferente, mas morrer de uma morte macia, embora contundente, sem impressionismos. Nada disrítmico. Nada que me fizesse sentir entorpecida; desejei, exigi, uma morte consciente, assim, meio amarelada, do tom exato das serenidades antigas. E morri. Eu, a intratável de coração perdido num dia que ainda não chegou. Sem pedir licença para ir embora. Sem traje bonito, sem óbolo sobre a língua, sem arrependimento ou confissão. Sem documentar a minha morte, com a discrição elegante dos que jamais perdem a hora da chegada ou da partida. Morri dispensando boas intenções e ladainhas e sinos e beatitudes e o sétimo dia, e tão definitiva e imperceptivelmente que ninguém percebeu, além de mim, que eu já havia nascido de novo.


sábado, 24 de outubro de 2009

Entropia

Cansei de me esconder no topo da vida. Às vezes eu preciso mesmo de um pouco de sombra, dessa umidade reluzente que protege os meus braços do calor imposto pelo desejo de abraçar o mundo como se abraça um ente querido às vésperas de partir. Com amor. Com fúria. Com a saudade antecipada e incontida de quem não compreende paciência. Com a patética falta de jeito de quem necessita urgentemente e a todo instante se sentir arrebatado pelo próprio coração e há de ser hoje, há de ser agora. Às vezes eu preciso submergir. Eu preciso me esgotar. Eu preciso despencar em queda livre e cair com o peito desprotegido e arrebentar as mãos abertas contra as minhas feridas e ficar ali, exausta, até parar de respirar e então perceber num fôlego só que eu estou viva e que aquela dor mesquinha não é nada, é só mais uma dor mesquinha e inútil que, mais hora menos hora, irá se revolver sozinha na sua pobre e mesquinha e inútil condição de dor. Às vezes eu preciso daquela coisa de puxar o gatilho e disparar cautela contra a minha própria metralhadora giratória, e de ficar calada para ouvir o estampido que finalmente me convencerá de que aquilo que me tolhe definitivamente morreu. E, às vezes, eu preciso apenas ficar quieta, muito quieta, numa quase imobilidade absoluta, e nessa quase imobilidade absoluta sentir que as existências todas vibram frenéticas dentro de mim e me transbordam e não me cabem e estão ali, explodindo nos meus olhos: eles brilham.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

01:01:01 (ou A Variável Oculta Atrás da Porta)



Eu tenho medo de ouvir qualquer som; é como se a vida falasse pela tua boca e não se engane, não é de ti que tenho medo e sim da angústia que me fala aos ouvidos quando o mundo vibra dentro da minha cabeça, é quase uma afronta essa continuação indiferente das coisas. Sempre ouvi dizer que paz fosse uma coisa escassa. A paz, talvez, esteja justamente na ausência, nesse não-estar tão premente e solícito, avesso à insistência de toda presença que não seja a sua própria. Mas sim, eu falava dos sons e igualmente não falava, falava de coisa diversa, provavelmente da eternidade em que se transformou cada minuto, anoitece e amanhece e anoitece e amanhece e a história parece se esparramar inteira no assoalho gelado de um tempo que anda em círculos e eu ando, vê bem, eu ando tentando encontrar uma rota de fuga mas é tudo tão hermético, tão hermético, tudo, tu, eu, não escapo de mim, eu quero, eu avanço e retrocedo e colho razões ácidas e as quero doces na minha boca, como pode. É o som do tempo que não passa o que definitivamente me assusta. Hoje alguém telefonou e perguntou por ti; o que eu diria? Acabei não dizendo muita coisa, apenas um “está bem” que poderia ser “não sei”, ou “queira saber de mim que sou quem está aqui do outro lado da linha, mas queira saber apenas do que me fere e que não consigo dizer porque me espeta a garganta e não sai, e me afoga e me faz morrer de várias formas menos daquela que realmente me aliviaria, portanto tire isso de mim”. Já tentei todo tipo de promessa. E pare de dizer que eu faço drama, que eu minto: isso é o teu orgulho te consumindo como a lança que transpassa o lado são de uma vaidade adoecida, não existo para ser teu oponente. Mas ando evitando ter juízo, é verdade.


domingo, 18 de outubro de 2009

Pedido

Decidi quebrar minhas próprias regras e trazer para cá esse texto da Tati Bernardi porque, ultimamente, não ando mesmo dizendo coisa com coisa. Talvez a necessidade de ficar calada seja o que preciso, enfim, para me dizer com mais propriedade.


Sem risinho eu mantive o pedido, fazendo dele algo mesmo. Um murro, você escolhe o lugar. É isso mesmo? Claro que não, seria terrível conviver com isso. Então espero do fundo da minha alma que você possa continuar ouvindo isso sem jamais me saciar. Mas era um minuto tão escuro de uma hora que nem existe, então, quis te dar essa honestidade que nem poderia ser contada pra não perder seu caráter. Eu queria mesmo era um murro. Não o dado porque se ama, o dado com a secura e a realidade de não significar nada. Pra ver se mata ou acorda isso que, também em nome da realidade e da secura, não vou significar.

Isso que queria um murro pra doer onde se fala tanto de uma dor que não se sabe ao certo onde bate. Um murro na boca. Isso que precisa do limite da força pra suportar caber em alguma aresta que sou eu mesma. Isso de doer pra ser bom, que podemos fazer se no fundo funciona também assim?

Isso de apenas ser um murro, algo tão absurdo. Algo que acaba sendo alguma verdade nunca dita causando assim tantos problemas ditos até que todos não se suportem mais. Se as pessoas simplesmente pudessem pedir, assim, vai, me dá um murro, quantos jantares e viagens e noites e festas e conversas e histórias seriam salvas.

Tá, eu vou metaforizar, afinal, é assim que acabo cabendo no que sinto ou ao contrário. Eu queria um murro massagem cardíaca. Queria um murro reboot de cabeça. Um murro pra sentir aquele salgado quente azedo doce na boca, pra ser vampira de mim, fome de mim, um murro pra me sentir e a violência que me amedronta tanto não ser culpa minha. Um murro para eu amar o mal fora de mim, mas sempre precisando dele. Sempre lutando pra segurar o sangue na boca ainda que seja inevitável me escorrer vermelha em cima de qualquer coisa que me faça precisar de ar. O mal arrebentando minha boca e dentes e cordas vocais sempre segurando tanto potencial pra dizer e estragar tudo e ficar livre e querer dizer pra resgatar tudo e ficar livre. E nunca se fica livre porque nunca se fica bem. Um murro pra ter o que cuspir, o que costurar, o que esperar. Pra ver a ferida e não ser a ferida. Pra cuidar de uma ferida que pode se ver e esperar. Pra poder ficar quieta. É isso. Um murro na boca. Bem dado. Para eu ficar quieta. É isso. Eu sou um marido que não agüenta mais sua mulher. Eu não agüento mais a minha mulher. Cala a boca!

Não é sexual, tapinha, coisa de gente que escuta samba e faz piada com pandeiro. Não é doença protegida por açúcar e língua. É raiz à seco. Não é pra exorcizar a merda e correr pro banho e correr pra festa e correr. É murro de cair no chão e enxergar cantos distorcidos de teto se fechando. É um murro bem dado, numa rua sem árvore com flores amarelas. Em algum lugar onde as pessoas falam sueco e escutam húngaro. Em algum lugar onde o azul defunto e o branco dia nada não seja efeito de cineasta perturbado. Um murro terrível, impossível de perdoar, impossível de ser amor, impossível de continuar. E então eu poderia dormir ao seu lado. Cansada, ensangüentada, sem nenhuma espera, acabada, sem amor, sem dente, sem sangue, sem ser gente, principalmente sem ser mulher. E então eu poderia só porque não correria mais o risco de levar um murro.

domingo, 11 de outubro de 2009

Madrugada

Ele disse que aquilo não se repetiria. Por isso, quando, interrompendo o silêncio sonolento da madrugada, o telefone tocou, senti o corpo estremecido pela sensação brusca da iminência desagradável de nossos pés nos levando em direções opostas.

"Você é a mulher da minha vida."

Esperei que ele não atendesse; ele atendeu. Levantou-se da cama e, em pouco tempo, vestiu-se e apanhou suas coisas. Observei-lhe a movimentação enquanto o ouvia dizer que alguém, um amigo, precisava de uma carona.

- Você volta?
- Preciso saber o que fazer com ele, instalá-lo, essas coisas.
- Você volta?
- Volto. Só não sei a que horas.

"Você tem um rosto lindo. Mas visto daqui, desse ângulo... é o rosto mais lindo que já vi."

- Agora já é 01h30min.
- Não sei quanto tempo vai levar.
- Pra instalar alguém?

"- Escuta, me responde uma coisa.
- Claro.
- Casa comigo.
- Caso.
- Falo sério.
- Eu também. Mas se for pra casar, que seja agora.
- Ok.
- Ok. Dá a sua mão.
- Mas não temos aliança.
- Dá a sua mão."

- Já conversamos sobre isso.
- É.

Já havíamos conversado sobre tanta coisa. A verdade é que nenhuma daquelas tentativas de conciliação de ânsias e gênios nos levara a um entendimento real. Ele jamais cederia. Eu jamais me adaptaria. Conviver se tornara tenso, a lembrança da leveza dos primeiros tempos era tão sufocante quanto a certeza de que as coisas jamais retomariam aquele rumo. Eu não sabia o que ele estava pensando, eu não sabia o que eu estava pensando: o dia fora bom, mas tudo o que eu sentia era uma frustração estranha, cansada. Cansada. Eu estava cansada. Ele estava parado diante da porta, me olhando.

- Você volta?
- Venho de manhã. Cedo. Levo você para o trabalho.
- Não precisa.
- Eu disse que venho.
- Eu ouvi. E disse que não precisa.
- Você está começando tudo de novo.
- Não. Você está começando tudo de novo.
- Eu amo você.
- Você volta?
- Vou dizer pela última vez. Preciso atender o cara. Venho de manhã, tomamos café, levo você para o trabalho. Pode me esperar.
- Não precisa. De manhã, não precisa.

Ele deu meia-volta, entrou no carro e se foi. Eu também já havia partido.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Lista de Compras

"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente
pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou
de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."

C. F. Abreu


Soundtrack: Anna Nalick - Wreck of the Day




Eu sei; não me omiti de mim nas vezes tantas em que deveria tê-lo feito, sempre fui demais obsessiva em amealhar verdades invasoras esculpidas caoticamente sem qualquer critério ou estratégia. Tenho sido cruel comigo. Tenho medido forças com minha sensatez. Não quero mais essa idéia estranha de realidade interposta entre as cores da casa, preciso de um café. Amargo, para adocicar o destino do dia neste copo que me chega macio à boca. Preciso de uma vontade disparatada que perca no beco sem saída velho conhecido as cópias das minhas chaves. Música interior. Desconjunções. Desobrigações. Desfaçatezes, des, des, des; desisti dessa coisa de fazer sentido. Destinos, onde quer que estejam, não tenham pressa: durmam tranqüilos até as dez. Um bunker. Lá fora, a chuva não se decide. Aqui dentro, relógio, tic-tac-tic-tac-tic-tac escorrendo pelas paredes, mais um café, por favor, e um pouco de água tônica, e aquele desejo antigo que eu deixei por aí nem sei se debaixo da cama ou se dentro do armário, enrolado em alguma roupa velha, mas esse armário, esse aí, sim, esse deixe como está: fechado. É melhor assim. Não é bom mexer com aquilo que, após tanto tempo transtornado com os olhos abertos no escuro, finalmente, e ainda com a testa suada, adormeceu.

Preciso ligeiramente desorganizar a minha vida.


domingo, 13 de setembro de 2009

Aquele Dia em Setembro

"Quero te explicar isso, te passar este quarto imóvel com
tudo dentro e nenhuma cidade fora com redes de parentela.
Aqui tenho maquininhas de me distrair, tv de cabeceira,
fitas magnéticas, cartões postais, cadernos de tamanhos variados,
alicate de unhas, dois pirex e outras mais. Não tem nada lá fora
e minha cabeça fala sozinha, assim, com movimento pendular
de aparecer e desaparecer. Guarde bem este quarto parado,
com maquininhas, cabeça e pêndulo no coração.Fiz uma penteadeira
com Bogart e Bacall, très chic. Pronto, acabei esse assunto
de quartinho cultural, mas guarde bem – para mais tarde.
Fica contando ponto."


Ana Cristina César - Luvas de Pelica

Soundtrack: Aqualung - Strange and Beautiful





Não é que eu precise desesperadamente da sua presença, não é isso. Mas é que eu abri a porta do quarto e junto com ela se abriu uma coisa estranha dentro de mim, meio como uma idéia manca, manca e amputada, e eu senti a sua falta ali, naquele vazio recém descoberto. Porque a vida anda, ah, a vida anda; mas às vezes tropeça nas próprias pernas e se aprisiona trôpega nos retornos, ou às vezes se assusta e estanca para respirar ou, às vezes, simplesmente se cansa e se pergunta afinal, o que é que eu estou fazendo. A vida é mesmo assim, esquisita.

A vida é mesmo assim, eu não precisando da sua presença e a sua presença aqui, passeante. Insistente. E, daquilo que apaguei sem querer da minha lista imaginária de pequenas omissões, o que mais me sufocou foi ter dito foi “vai” quando você plantou seus olhos turvos de dúvidas sobre os meus lábios trêmulos, você sabia, você sabe, os meus lábios sempre tremem quando desacreditam do que eu digo. Então era “vai”, mas era “fica”. Ficou essa coisa que ainda não reconheço e que se parece tanto com solidão embora não seja pois, sim, é algo que pesa e respira e projeta sua sombra nas paredes e, seja lá o que for, me faz companhia, você ria, lembra? Você ria da minha imprudência em dizer que gostava de ficar só. Imprudente. Quem sabe seja sina minha esse imaginário ranger de dentes mastigando o real significado do que minha voz pronuncia, minha voz sempre teve gosto de inversões.

Tenho uma nova idéia a respeito de lucidez.


sábado, 5 de setembro de 2009

Entre Tantas, Uma História

Do que existe, e do que não se vê.

Soundtrack: Suzanne Vega - Luka


Ao me ouvir chamá-lo, o menino de sete anos abriu a porta do consultório feito uma ventania e se atirou no meu pescoço, “oi, tia”. Estava mais corado e bem mais desenvolto que na ultima consulta. Contou-me animado a respeito da escola nova; mostrou com orgulho a ponta de um dentinho permanente rasgando a gengiva, diminuindo o perímetro da janelinha sobre a qual eu brincara quando nos conhecemos. Foi essa a quarta vez que vi A.; na terceira eu lhe havia solicitado uns exames de rotina e, na segunda, ele comparecera para realizar uma lavagem de ouvido.

O tio de A. o levara até mim porque o menino, além de queixar-se de dor nos ouvidos, parecia ter um certo grau de hipoacusia – era preciso que o chamassem várias vezes até que ele atendesse aos comandos e, na casa dos avós, onde ele passara a morar desde que a mãe perdera sua guarda, os familiares, atentos, perceberam que o que parecia teimosia ou distração poderia, ao invés de algo puramente comportamental, ter uma causa orgânica. A palidez de A. me impressionou tanto quanto seu silêncio; segundo o tio, ele sempre fora uma criança quieta, mas, para mim, acostumada que sou com crianças de todas as idades e classes sociais, aquela inatividade toda era mais do que uma questão de temperamento – certamente havia por trás algo que ia muito além da dor física ou da contenção de travessuras infantis. A. não me olhava nos olhos, e respondia minhas perguntas com gestos e acenos de cabeça. O exame físico me deixou assustada: alguns hematomas e cicatrizes pelo corpo, e uma quantidade de cerúmen nos condutos auditivos que eu jamais havia visto sequer em ouvidos de adultos. Fiz a prescrição do medicamento a ser usado durante a semana, marquei a lavagem para dali a cinco dias e fui pra casa com aquilo no pensamento.

O que encontrei durante o procedimento nos ouvidos de A. me deixou chocada. Era realmente uma quantidade inimaginável de cerúmen, mas não apenas isso: ele tinha pequenos fragmentos de plástico e papel em ambos os condutos auditivos. Para quem não sabe, a lavagem otológica é realizada com soro fisiológico aquecido – ou seja, a temperatura do líquido deve ser rigorosamente monitorada a fim de retirar o cerúmen sem provocar queimaduras; é praticamente impossível um paciente não esboçar reações caso ela esteja ao menos ligeiramente acima do tolerável, lembrando que o epitélio do ouvido interno é extremamente sensível a variações térmicas. Apesar disso, A. não mexeu sequer um músculo da face. Cheguei a pensar que a indiferença dele se devesse a algum provável problema neurológico, o que justificaria o comportamento quase glacial mas, ao ser indagado se o líquido estava quente demais, ele respondeu “sim”.

- E porque você não disse nada?

Ele baixou a cabeça e pareceu receoso de responder alguma coisa. Por fim, balbuciou “eu posso?”, e isso me desnorteou. Pedi ao tio de A. que me dissesse afinal o que era que estava acontecendo ou eu teria de chamar o Conselho Tutelar; o rapaz, então, contou que o menino fora retirado do convívio com a família por ser vítima de abusos constantes por parte do padrasto e que, muitas vezes, era espancado apenas por ter feito alguma pergunta ou mínima queixa. Nas últimas semanas, A. levava surras constantes porque não atendia aos chamados, o que era classificado como rebeldia e desobediência pelo agressor – e isso causara no menino um pavor que ele transferia inconscientemente aos outros adultos de seu convívio: A. não se queixava para não ser agredido, mesmo que se encontrasse no limite da dor física ou psicológica. As feridas emocionais de A. eram tão profundas que anestesiavam sua capacidade de expressar reações comuns às outras crianças.

Há 5 meses A. é meu paciente. Hoje, o garoto é uma criança diametralmente oposta à de antes: brinca, tagarela e o mais importante, se sente seguro e amado por aqueles que assumiram a responsabilidade de cuidá-lo. O final feliz da história de A., no entanto, é exceção – a regra continua a ser a existência dolorosa e anônima de um número incontável de crianças vítimas de toda sorte de abusos físicos e psicoafetivos. Tão frágil quanto essas pequenas vítimas é a efetividade com que é combatida a violência infantil no país; apesar de patente, as estatísticas relacionadas ao assunto estão muito aquém do real. A distorção no registro desses números está diretamente relacionada ao velho conceito, ainda em voga, de que é melhor fechar os olhos para o que acontece na casa do vizinho e fazer de conta que F. realmente quebrou o braço porque tropeçou no carrinho e caiu da escada, ou que os hematomas nos braços e pernas de N. surgiram de um tombo de bicicleta, ou que foi o próprio A. quem picou os pedaços de plástico e os inseriu dentro dos ouvidos. É mais fácil, é mais confortável acreditar que o que não se vê, não existe. Só que violência infantil existe, e não é prerrogativa apenas de quem a executa com as próprias mãos: é de quem silencia diante dela também.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A Saga do Peixe Frito

**Texto publicado originalmente no Espasmos de Riso Descontrolado, blog de humor escrito em parceria com as "comparsas" Anne e Mila, trazido hoje para cá com algumas pequenas modificações. Anne e Mila, saudades!**


Alguém aí conhece outro alguém traumatizado com peixe frito?

Caso sua resposta seja negativa, muito prazer, Flávia. A origem do drama vem de longa data: no auge dos meus singelos nove anos, quase fui brutalmente assassinada por uma posta (eu disse Posta) de peixe frito. Era domingo e a família estava toda reunida em um restaurante lotadérrimo. E eu era uma garotinha fresca: sempre tive aversão a tocar a comida com os dedos, o que significa que até mesmo o peixe era cuidadosamente destrinchado com garfo e faca (uma prévia das minhas habilidades com o bisturi). As reuniões da minha família nunca foram exatamente um mar de tranqüilidade: silogisticamente, levando em consideração que cada um de nós, Amaral que se preze, vale por seis, e de que à época éramos uma grande população completamente obstinada em congregar todos os ramos vivos da nossa vasta árvore genealógica em quaisquer eventos familiares – fossem estes almoços, batizados, formaturas, aniversários ou hospitalizações por diarréia – é fácil compreender porque, em todas as ocasiões, havia sempre uma situação propícia para a instalação do caos. Foi em meio à barulheira de vozes e talheres que senti aquele troço, que mais parecia um vergalhão de aço, estacionar na minha garganta. Esbugalhei os olhos e, com as mãos agarradas ao pescoço, tentei me fazer entender em meio à confusão.

- Gá... gá... gáááá... aa...

- Fala, minha filha. O que foi? – e mamãe continuava distraída com a história de não-sei-quem-fazendo-não-sei-quê-não-sei-onde que meu tio animado, contava entre uma e outra garfada generosa de moqueca com arroz.

- Gáááááááá...

- O que foi, meu amor? Quer mais um golinho de refrigerante, quer?

- Gáááááááá...

Eu gesticulava feito uma louca com as mãos ora agarradas no pescoço, ora abanando-se furiosamente no ar, o corpo sacolejando espasmodicamente na cadeira, o rosto vermelho de desespero e raiva por estar morrendo daquela forma tão idiota – assassinada por uma espinha de peixe. A essa altura os “gááááááá” haviam já se transformado em um misto de indignação e luta pela sobrevivência. Eu tinha nove anos e estava prestes a esticar as canelas pagando o mico do ano no meio de um restaurante abarrotado de gente. Ridículo. Mais ainda do que morrer atropelada pela enferrujadíssima Caloi Barra Forte ano 75 do padeiro Moacir (meu conceito maior de morte vexatória e dolorosa até aquele momento). Não sei quanto tempo levei naquela mímica bizarra – o fato é que mamãe percebeu que não era firula e que, definitivamente, aquilo não era vontade de tomar refrigerante: ela olhou para mim e o instinto de preservação da espécie foi incontrolável, assim como o grito que irrompeu assustador da sua goela maternal.

- Socooooooooooooorro! Minha filha está morrendo! Acudaaaaaaaam!

A hecatombe que se seguiu foi o equivalente microcósmico do apocalipse (o que quer que isso signifique). Apareceu gente de todos os lados, incluindo família, garçons, gerentes e curiosos mórbidos doidos pra acompanhar a novela mexicana da “menina que estava morrendo engasgada, tadinha”. As soluções para me resgatar da morte iminente eram mais apavorantes do que a possibilidade de passar desta para melhor.

- Dá farinha para ela, minha filha – e vovó dizia isso despejando uma chuva de farinha de mandioca dentro da minha boca pateticamente aberta.

- Faz ela comer banana.

- Tragam mais água. Tem que beber água gute-gute!

E foi uma avalanche interminável de água gute-gute, farinha de mandioca, banana e “gááááááá”... Davam-me tapinhas nas costas na tentativa de me desentalar. O barulho era tanto que não duvido que tenha inclusive corrido um bolão por ali (porque em todas as situações existe mesmo a torcida do contra). Felizmente havia por perto alguém sensato o suficiente que se lembrou de chamar os paramédicos, que me enfiaram um troço na garganta e retiraram a espinha-vergalhão-pseudo-assassina.

O gerente, com medo de que o incidente manchasse a reputação do restaurante, deixou nosso almoço fatídico por conta da casa. Passei uns longos dias com a goela dolorida, e uns longos anos sem conseguir me aproximar de peixe frito, farinha de mandioca e banana; continuo destrinchando ainda mais meticulosamente a comida com os talheres. A lição? Nunca, jamais, subestime o significado oculto de um “gáááááá”!


domingo, 16 de agosto de 2009

Sobre Plágio e Outras Incivilidades

Uma vez, quando eu era apenas uma menininha, minha mãe me deu uma chinelada em cada mão porque eu havia surrupiado brigadeiros que ela havia feito para a minha própria festa de aniversário. Tecnicamente os brigadeiros eram meus e eu poderia dispor deles como bem entendesse, mas ela me fez compreender, à base de muita argumentação - tanto a argumentação verbal, que nem sempre dá certo, quanto a argumentação sempre infalível das legítimas Havaianas, porque eu apanhei pouco antes de os convidados chegarem e foi por um triz que escapei de passar um grande vexame, mas ainda assim tiver de escorregar dos que me perguntavam por que eu estava com as mãos vermelhas e um tanto inchadas - que o que PARECE nosso nem sempre é, e que deve existir uma coisinha chamada bom-senso piscando dentro da cabecinha da gente para nos lembrar sempre que não precisa existir uma plaquinha neon com o nosso nome escrito a fim de identificar o que é de um e o que é de outrem. Esse pequeno contratempo, apesar de vexatório, serviu para me ensinar a reconhecer sem margem de erro não apenas o que é de César, ou de Maria, ou de Joana, ou de Aderbal, mas, principalmente, para reconhecer o que é meu e não deixar que ninguém surrupie meus brigadeiros, sejam eles de chocolate, de papel, de pixels ou sob a forma de propriedade intelectual.

À Srta. Gabi Argolo e a todos os outros que ainda copiam trechos de determinados textos e não citam seus autores: não me importo que reproduzam o que escrevo, mas citar a autoria é questão de educação, ética e inteligência. Citem, ou não copiem. Copiar sem creditar a autoria é mais do que falta de educação: é PLÁGIO. E plágio, só pra lembrar aos que fazem questão de esquecer, é crime.




sábado, 11 de julho de 2009

Com o Tempo a Gente Esquece

Esquecer é um aparte,
é uma morte,
é uma arte.

Soundtrack: Skank - Vamos Fugir




Com o tempo a gente esquece que a toalha molhada sobre a cama deixou úmido o lençol recém-trocado e se lembra de como foi delicioso tomar um banho demorado depois do dia mais cansativo da semana, porque a toalha molhada sobre a cama é apenas e tão somente uma toalha molhada sobre a cama. Com o tempo a gente esquece a janela aberta, e a porta fica apenas encostada – e por aí vão entrando novas idéias e saindo posturas viciosas, que é preciso mesmo arejar os ambientes e tirar o mofo da vida. A gente esquece as chaves no bolso e desiste de trancar o riso. E, às vezes, também se esquece de lembrar o próprio nome e passa a se chamar Passarinho, Correnteza ou Ventania. Ou Céu.

Com o tempo a gente esquece a reserva que fez no restaurante mais badalado da cidade e passa a tarde no quintal chupando fruta do pé. Com o tempo a gente se esquece de como é que se fuma, e de como é que se bebe, e respira fundo a sobriedade de estar com a cabeça fresca e o corpo pronto para o que der e vier. A gente esquece que acabou a margarina e que faltou sal no feijão, a gente esquece que adoçou o café com açúcar ao invés de adoçante, a gente esquece que o arroz cozinhou demais – e dá de ombros porque nem dá nada passar um dia sem margarina, e sal demais aumenta a pressão, e comer açúcar uma vez na vida não vai fazer disparar o ponteiro da balança, e qual o problema de comer arroz um pouco mais molinho? Com o tempo a gente se esquece de ligar o celular, a tevê e o computador – e dá vontade de encontrar alguém pra jogar conversa fora ou de ficar em casa com o corpo largado no sofá e os pés sobre a mesa, curtindo um abraço e uma caneca de chocolate quente. A gente esquece o guarda-chuva em cima da mesa da cozinha e vê que bom mesmo é sacar fora os sapatos e se enfiar por entre os pingos d’água, bom mesmo é lavar a alma numa chuva inesperada. A gente esquece o relógio e as chaves do carro, e sai a pé e vai lá fora viver sem hora pra voltar.

Com o tempo a gente esquece como é que se faz as malas, porque tudo que se pretende é ficar. A gente se esquece de que tudo tem um preço, e quer mais é pagar pra ver. Com o tempo a gente esquece também de que amanhã é segunda-feira e deixa o corpo se lembrar, com toda a preguiça do mundo, de que hoje é domingo e o hoje está aí pra isso. A gente, com o tempo, até esquece que o filme é dublado, e entra no clima da interpretação canastrona da versão aportuguesada porque o filme é o mesmo, e a gente já viu, e vale a pena ver de novo de qualquer jeito porque o John Malkovich está matando a pau ou a Bette Davis nunca esteve tão malvada. Com o tempo a gente se esquece do bicho-papão, do boi da cara preta, da vaca que foi pro brejo e entende que o que era doce está muito longe de acabar. Com o tempo a gente esquece que cresceu e vê que o tempo que passou não faz tanta diferença assim, e que sempre é hora de esquecer muita coisa para lembrar-se do que realmente importa. É que, com o tempo, a gente se lembra da gente. E disso, quando a gente lembra, a gente nunca mais se esquece.


Com o Tempo a Gente Esquece

Esquecer é uma arte.



Com o tempo a gente esquece que a toalha molhada sobre a cama deixou úmido o lençol recém-trocado e se lembra de como foi delicioso tomar um banho demorado depois do dia mais cansativo da semana, porque a toalha molhada sobre a cama é apenas e tão somente uma toalha molhada sobre a cama. Com o tempo a gente esquece a janela aberta, e a porta fica apenas encostada – e por aí vão entrando novas idéias e saindo posturas viciosas, que é preciso mesmo arejar os ambientes e tirar o mofo da vida. A gente esquece as chaves no bolso e desiste de trancar o riso. E, às vezes, também se esquece de lembrar o próprio nome e passa a se chamar Passarinho, Correnteza ou Ventania. Ou Céu.

Com o tempo a gente esquece a reserva que fez no restaurante mais badalado da cidade e passa a tarde no quintal chupando fruta do pé. Com o tempo a gente se esquece de como é que se fuma, e de como é que se bebe, e respira fundo a sobriedade de estar com a cabeça fresca e o corpo pronto para o que der e vier. A gente esquece que acabou a margarina e que faltou sal no feijão, a gente esquece que adoçou o café com açúcar ao invés de adoçante, a gente esquece que o arroz cozinhou demais – e dá de ombros porque nem dá nada passar um dia sem margarina, e sal demais aumenta a pressão, e comer açúcar uma vez na vida não vai fazer disparar o ponteiro da balança, e qual o problema de comer arroz um pouco mais molinho? Com o tempo a gente se esquece de ligar o celular, a tevê e o computador – e dá vontade de encontrar alguém pra jogar conversa fora ou de ficar em casa com o corpo largado no sofá e os pés sobre a mesa, curtindo um abraço e uma caneca de chocolate quente. A gente esquece o guarda-chuva em cima da mesa da cozinha e vê que bom mesmo é sacar fora os sapatos e se enfiar por entre os pingos d’água, bom mesmo é lavar a alma numa chuva inesperada. A gente esquece o relógio e as chaves do carro, e sai a pé e vai lá fora viver sem hora pra voltar.

Com o tempo a gente esquece como é que se faz as malas, porque tudo que se pretende é ficar. A gente se esquece de que tudo tem um preço, e quer mais é pagar pra ver. Com o tempo a gente esquece também de que amanhã é segunda-feira e deixa o corpo se lembrar, com toda a preguiça do mundo, de que hoje é domingo e o hoje está aí pra isso. A gente, com o tempo, até esquece que o filme é dublado, e entra no clima da interpretação canastrona da versão aportuguesada porque o filme é o mesmo, e a gente já viu, e vale a pena ver de novo de qualquer jeito porque o John Malkovich está matando a pau ou a Bette Davis nunca esteve tão malvada. Com o tempo a gente se esquece do bicho-papão, do boi da cara preta, da vaca que foi pro brejo e entende que o que era doce está muito longe de acabar. Com o tempo a gente esquece que cresceu e vê que o tempo que passou não faz tanta diferença assim, e que sempre é hora de esquecer muita coisa para lembrar-se do que realmente importa. É que, com o tempo, a gente se lembra da gente. E disso, quando a gente lembra, a gente nunca mais se esquece.


segunda-feira, 29 de junho de 2009

(A)Parte

"As cartas não eram para olhos profanos.
Não interessavam a mais ninguém.Queimei
tudo na lareira da sala, quando não havia
ninguém em casa. Cartas em fundo de gaveta
podem ser perigosas. Basta um desenho antigo,
já amarelado, um perfil marcante como uma
figura de proa avançando pelo grande
mar onde para sempre nos perdemos."


Lia Luft - Adria

Soundtrack: Coco Rosie - Not For Sale




Eu ouço a última frase fechar silenciosa a porta e caminhar sozinha rua abaixo, ainda meio atordoada por se saber inútil. Não tive coragem de dizê-la. A mim, parece ser meu coração pulsando na ponta da língua que evito pronunciar, prefiro deixar meu coração em segredo. E, das coisas todas que eu disse até aqui, nenhuma me revela tanto quanto essa omissão, que então me torna uma incógnita como o tal raio que não cai duas vezes no mesmo lugar e veja só, ele cai. Mas a frase, essa se foi sem beijo nem insistência, se foi apática e vagarosa, quase autômata, eu era uma sua desconhecida e era impossível nos reconhecermos, nós que alguns poucos momentos antes ainda nos pertencíamos. Ela não cabia, não cabe, na minha voz – a minha voz tampouco cabe no seu sentido, eu não me encaixo mais porque se dissipou de mim a tal da idéia, e o fez com uma velocidade inesperada como esse vento quente que sopra do lado de fora e corta ao meio a rigidez do inverno. Da última vez que lhe escrevi fazia um vento assim, não sei se você se recorda – e as palavras se balançavam alvoroçadas nos meus cílios fingindo-se de borboletas, que as palavras criam asas, sim, e frágeis nascem e frágeis morrem, e inocentes se atiram em vôos cegos, as minhas, cílios pesados de verbo eu sempre tive. Olhos verborrágicos. Meio por insolência, meio por descuido. Mas não é disso que falo hoje, eu hoje não falo nada. Eu hoje chão, calçada, jardim, almoço, varal, música, fé, ponta de pé, corpo de bailarina assim no espaço solto, palavra deixo ir que não me pertence. Não essa. Ou aquela; não aquela. E já não é coragem que me falta, é coragem que cultivo. Prefiro deixar meu coração em segredo.



quinta-feira, 18 de junho de 2009

Presente

Assim que vi o envelope pardo deslizar sob o vão da porta, instintivamente eu soube que era coisa sua, não me pergunte por quê. Mas ali, ainda ali, as minhas mãos tremeram. Eu sempre me encantei com a aura meio ritualística das correspondências tradicionais, e folhear meu presente soava como se um pedaço seu tivesse deixado a capital para cruzar o estado a fim de me encontrar na minha bucólica e gelada cidadezinha do interior sulista. Eu, saudosista que sou, dona dessa memória diante da qual minha serenidade jamais passa incólume, a cada página lida retornava a determinado dia perdido entre os tantos vividos desse ano que passou – alguns leves, felizes, outros áridos, difíceis. E me pergunto se, caso tivéssemos conseguido dar uma rasteira nas armadilhas ora do destino, ora da nossa natureza humana, a nossa história ter-se-ia escrito diferente, menos turbulenta. A verdade é que, apesar dos desencontros tantos, aquilo que a vida nos permitiu encontrar um no outro, dia após dia, preserva intacto seu valor, prerrogativa reservada apenas ao que nasce para ser especial e, por ser especial, jamais se vai – permanece pulsante embora metamorfoseada em coisa outra, tão única quanto; e que você e eu seremos sempre nós, com nossas rusgas e desejos, com nossas diferenças e dissoluções, com nossas semelhanças e grandes, imortais paixões.

Parabéns e obrigada – por tudo.

Pra você, toda felicidade e sucesso do mundo.

Um beijo,


quarta-feira, 10 de junho de 2009

Romaria

De volta à velha forma.



Foi então que eu desisti de caminhar no encalço das horas.

Eu ora preferia aquela quietude de coisa não dita, ora encharcava-me de alma de verbo vertendo sangue até desfalecer de tanto viver. Foi então que eu vi, na palidez da sensação que se esboçava ainda ambígua, de pernas trêmulas, no esquivo e pequeno espaço compreendido entre o meu coração e a minha razão, que o sentido que eu buscara para a minha solidão rasgara voluntariamente o peito em algum espinho trôpego esquecido sob a sombra do meu corpo ainda quente das lembranças do dia seguinte. É que o dia seguinte lega lembranças mais vívidas do que todos os dias que se foram; é que a hora passada morre e leva consigo todo e qualquer fogo. Do que não havia, nem jamais houvera, restava uma iminência pesando-me sobre os ombros; do que não havia, nem jamais houvera, restava um instante sufocado sob o que de fato foi – mas ora, o que, de fato, foi? Do que não havia restava tanto, eu nunca contente com meio-parte-nada-quase, eu nunca contente com menos que tudo, eu sempre engolindo faíscas do mundo e devolvendo-me inteira em permuta, eu que não barganho indulgência nem coisa alguma e me permito a cega inocência das paixões sem culpa, eu que já não me sabia, eu não me sabia: eu era a gota de caos a me fazer falta enquanto a vida seguida dolorosamente plácida, eu que não tenho sossego, eu não tenho sossego, eu não quero sossego, eu que já não me cabia, eu não me cabia. Mas era a vez de me recolher no calor de novos planos e de aquecer as mãos entre os dedos longos do tempo nascente, que o tempo sempre chega e parte e castiga e abençoa e pede perdão, que o tempo sempre morre e nasce de mãos enlaçadas às de quem lhe perdoa os desatinos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

De Uma Carta

"(...)O que me traz a ti, Flavitcha. Eu conheço os homens (não todos, é verdade). Então há uma micro-chance de eu estar errado), eu converso com eles, e escuto suas idéias ridículas e covardes. Na verdade, eu não deveria criticá-los dessa maneira. Afinal, eles são apenas humanos. Os humanos e seus temores insuportáveis. E como humanos, eles estão preparados apenas para se relacionar com humanas, que possuem as mesmas fraquezas deles.

Você, porém, minha criança, não é humana. Você é algo além. Desconfio, e apenas desconfio, que você seja um anjo. Como eu sei disso? Pelos sentimentos com que temperas as tuas palavras. Veja bem, há pessoas que sabem fingir, mas você não finge. Você é autêntica... e bela, como eu nunca vi.

Eu sei que já deves ter ouvido isso milhares de vezes, e provavelmente perdeu o valor, mas não há como te dizer isso de outra forma simplesmente porque é a mais pura verdade: És especial !

Por isso mereces alguém tão especial quanto. Não vai ser C. quem saberá captar o teu espírito, tampouco qualquer outro humano, com exceção de um que treinou a vida inteira para encontrar um anjo parecido contigo.

Esses encontros de fato acontecem. São como colisões no vasto espaço. Improváveis, mas vez ou outra, acontecem sim. O problema é que nem sempre eles encontram condições de liberar sua energia, e então precisam ser reprimidos. (...) E a vida segue assim, minha querida. Nós com os nossos "companheiros", vivendo e fingindo que escapamos da solidão. E na barriga aquela fome por algo inenarrável: o acontecimento único de um encontro de asteróides..."


Ao remetente do texto - que não sabe que leio tudo
o que me escreve, mas que ficará sabendo agora que
cada linha que chega fica gravada na minha memória
e faz meu dia incomparavelmente melhor: obrigada.

Muito. Mesmo. Por tanta, tanta coisa.

Um beijo.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Constatação

Estou aqui parada diante dessa tela branca pensando, resvalando entre esboços de palavras. Sentindo. Eu não sei o que te dizer. Eu só sei que eu quero você, já.

Para sempre, quem sabe.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sobre Febres e Antitérmicos

Mens sana in corpore sano.

Soundtrack: Chico e Lucinha - História de uma Gata











Tenho um gato vira-lata.
Eu estava realmente planejando ter um gato, mas um de raça, peludo, de pedigree assepticamente puro - só que esse bendito gatinho vira-lata atrapalhou meus planos quando cruzou o meu caminho feito a pedra do Drummond. Feio. Microscopicamente feio, com uma crosta antiga de sujeira sobre a pelagem branca, sujeira velha mesmo para um animal com menos de duas semanas de vida. Manco. Olhudo. Levei-o comigo enrolado numa camisa e dei casa, comida, roupa lavada, CPF, RG, uma vida dentro das CNTP e amor desbalanceado, pendendo sempre para a ultrapassagem do limite superior da normalidade (mas reza a lenda que amor que é amor é sempre plus ultra). Em troca, ele usurpou a minha família, meu iogurte desnatado e o meu coração. E o último item, o tal que para ser o que é deve ser plus ultra, ele retribuiu, como retribui até hoje, igualmente sem medida, e o até então pretendido gato de pedigree asséptico virou poeira cósmica sapecada em algum lugar da minha memória de peixe.
Pois bem: há um tempo, coisa de um mês, minha irmã caçula me telefonou preocupada e meio chorosa para contar que o gato estava doente e que veterinário algum descobrira o mal de que o bichano padecia. Não comia. Não miava. Não brincava (sim, meu gatinho brinca e pasmem, abana o rabo, convencido talvez de que, equivocadamente ou nem tanto, existe um gene canino no seu DNA). Não "nada". Mas o que mais impressionava era a febre: um febrão digno de uma legião de microvilões estafilocócicos destruidores de gatinhos, no mínimo uma nada inofensiva sepse. S-E-P-S-E. Meu gatinho vira-lata, o tal que com duas semanas de vida sobrevivera no mundo em condições inóspitas e se salvara graças a seu charme e inteligência, estava prestes a ser derrotado por uma bacteriazinha chinfrim. Corre que corre com ele de veterinário em veterinário, vão-se amostras de sangue, vêm hemogramas e... surpreendentemente nada, nadinha, nem um leucócito a mais, nem a menos. O veterinário, então, bateu o martelo: febre emocional. A prescrição: atenção, em altas doses, seguida à risca, e em menos de 48 horas o animalzinho estava serelepemente curado.
E se alguém estiver se perguntando "e o que é que eu tenho a ver com isso?" eu respondo: nada. Mas quem é que que nunca teve uma febre emocional na vida, uma febrícula que fosse? Quem é que nunca se deixou atingir pelo tal virusinho ou bacteriazinha que deixa a gente com aquela terrível sensação de sei-lá-o-quê? Não existe influenza que seja páreo para a melancolia, porque tristeza não é imunomodulada - a gente não produz anticorpos contra ela, mas é cientificamente comprovado que a severa inflamação espiritual decorrente desses estados sorumbáticos é perfeita e eficazmente combatida com outro tipo de manifestação flogística: o calor humano. É uma delícia ser lembrado e receber um carinho apenas porque batatinha-quando-nasce-se-esparrama-pelo-chão. É bom, é inexplicavelmente bom ouvir um inesperado "te gosto", ou "que saudade de você", ou aquele mutismo de olhos derramados com cara de cafuné, ou sentir o toque daquela mãozinha - ou mãozona - pousando na pele ou nos cabelos apenas porque deu vontade. É inexplicavelmente bom mas não apenas inexplicavelmente bom: é necessário. Porque cada um de nós é, no fundo, aquele fulano que passa distraído e sem querer querendo se deixa cativar pelas surpresas do caminho. E cada um de nós, no fundo, é exatamente como um gatinho vira-lata, com nódoas no pedigree, cruzando o caminho de alguém para carinhosamente lhe atrapalhar os planos, olhudo, manco e faminto, esperando para ser enrolado numa camisa e num coração. Plus ultra.
Você já abriu seu coração hoje?


P.S.: pessoas, esse é meu Theo.
P.S. 2: vocês se lembram o que são as tais CNTP, não lembram? ;)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

terça-feira, 5 de maio de 2009

Saudade

Onde?

Soundtrack: Paralamas - Busca Vida




Eu não sabia. Mas era alguma coisa assim meio pela metade, com olhos cor de rua - densos, coisa que não se acaba e que a gente vai olhando para ver se enxerga o fim e o fim, onde? Eu não sabia. Soube quando me faltou um pedaço e eu parecia tão maior, agigantada em meio à sobra de mim, com os meus braços ondulando em torno de uma nostalgia doce, dulcíssima, exata medida do que deveria estar e, à revelia, se ausenta. Onde? Eu não sabia, ouvi de leve um rumor de passos perdidos e era ela, a vontade que eu tinha de afagar o que me faltava. E dessa vez eu não a espantei: apenas deixei que se aproximasse naquela cadência de vontade tímida querendo crescer e tomar conta, e lhe beijei a testa, e a deixei seguir seu destino de Vontade, como é destino da Saudade apenas ser. Assim, meio pela metade. Com olhos cor-de-rua. E essa nostalgia doce, dulcíssima.


Plínio, esse é seu. E de todos, absolutamente
todos os que me são caros nessa vida.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

F.

Acontece que, no meu plantão de sábado à noite no Pronto-Socorro, fui chamada às pressas no meio de um atendimento para socorrer uma garota vítima de agressão física. A moça me aguardava na sala de sutura, trêmula, pálida do susto e da perda sanguínea importante, com as roupas ensanguentadas e a camiseta rasgada, o trapo de pano que envolvera a mão direita largado sobre a maca enquanto os enfermeiros tentavam limpar o ferimento e estancar a hemorragia. Ao me ver, ela esboçou um sorriso e me olhou como se pedisse desculpas por estar ali me dando trabalho, pois ela mesma, uma vez, me disse que eu deveria trabalhar menos e descansar mais - F. é minha paciente no programa Saúde da Família e, aos 17 anos, é mãe de um bebê de 6 meses, de quem também cuido no programa de puericultura. Perguntei-lhe o que havia acontecido; ela contou que fora agredida pelo marido a golpes de facão e, ao tentar se defender, a lâmina atingiu em cheio a mão direita, seccionando vasos, nervos, músculos e tendões do segundo, terceiro e quarto dedos.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Status: Online

O mundo ficou maior ou menor?

Soundtrack: Ludov - Princesa




É assim, Fulano.

Eu não me espanto com quase nada nessa vida. Mas ainda me espanto com essas novidades que não respeitam geografia e ultrapassam os circuitos eletrônicos e cerebrais para se estatelarem nos sentimentos, mesmo sabendo que sentimento é naturalmente wireless – vai e vem num fluxo desordenado que desafia a gente e faz inusitados pontos de acesso sintonizarem na mesma freqüência, isso eu sei. Porém, pense comigo: nessa faixa estreita que afina a freqüência entre transmissor e receptor, quando devidamente sincronizados, o resultado é a manutenção de um único canal lógico, certo? Um único canal lógico. Lógico? Onde a lógica disso, Fulano?

Olhe bem aí para o seu monitor. O que você vê? Eu vejo o seu rosto colorido, pontilhado de infinitos pixels e me custa crer, me custa crer que é tamanha a distância, é um espanto. É difícil ser blasé quando o mundo fica pequeno até caber num www para se espalhar nessa tal de banda larga e, mesmo assim, ainda continuar a ser esse mundão grande de meu Deus. Antes, digital tinha o tamanho das pontas dos dedos; hoje, Fulano, os dedos não cabem mais nas nossas mãos, os dedos criaram olhos e pés que se emaranham alucinados por entre os zeros e uns dessa selva binária. Agora me diga, Fulano, o mundo ficou maior ou menor?

Olhe bem aí para o seu monitor, Fulano. Você me vê? A resposta é: não. O que você vê é uma projeção espectral que alguém inventou para a gente acreditar que não está tão só. O que você vê não respira e não tem cheiro, não sonha e não dá risada. O que você vê, Fulano, o que você lê, são os meus pensamentos convertidos na estática frieza desses signos gráficos, um pobre esboço de mim aí nesse quadradinho no canto da sua tela – por maior e melhor que seja a sua resolução. Os meus olhos são cristal líquido distinto do LCD. Portanto, Fulano, me dê licença de fechar essa janelinha em plano americano e de desconectar essa falta que nos faz um pouco menos de tecnologia, e venha cá me ver – em carne, osso e algo mais. Porque eu não consigo raciocinar em bits e bytes, e o meu coração ainda faz tum-tá.


Outubro de 2008.

Texto antigo, contexto novo,
desconectado para experiências virtuais.



No Creo en Brujas, Pero que Las Hay...

Então, mesmo pra quem não acredita em oráculo, a dica do fim de semana é o site da Revista Planeta. Vejam o que eu encontrei por lá:

Sorte no realejo: "Tua juventude tem sido travessa, sem medires os perigos que te podiam surgir. Mas o tempo passa, e com ele seu siso, o dente do juízo, vai crescer e implantar seriedade na tua cabeça. Nascida sob uma feliz estrela, a tua felicidade será constante, até o ponto de poderes te chamar filha da fortuna. Andarás sempre com gente muito honrada. Viverás muito tempo e gozarás de uma sorte completa."

Vidas Passadas: "É a imagem de uma mulher dando a luz. Indica que em alguma vida anterior você foi um bebê que nunca alcançou a idade adulta.

Missão: trabalhar sua maturidade. Uma atitude que lhe permita tomar decisões equilibradas é o que mais terá que desenvolver.


sábado, 4 de abril de 2009

Para Quando Você For Embora de Mim

"Perdi um saco de cacos.
Quem encontrar, não precisa me devolver."

Patrícia Lage

Soundtrack: Duffy - Warwick Avenue





Para quando você for embora de mim eu guardei um tom lilás de mudança - qualquer coisa entre o azul e o vermelho, nem feliz nem triste, calmo. Tranquilo. Eu guardei uma paz sutil como a lucidez que se insinua cuidadosa entre as pulsações de um coração agressivamente cego, coração ferrão de vespa que investe e fere e se deixa ficar e nem sabe que é ele a causa e o efeito da própria dor. Eu não tenho mais sonhos de vidro, os deixei por aí - para que, quando você for embora de mim, eu não mais fira meus dedos com tantos cacos. Eu guardei, para quando você for embora, um sorriso intacto, de mim para mim, desmemoriado, de existência presente e egoisticamente apenas minha - que o que passou não existe mais; eu guardei, em algum lugar entre o azul e o vermelho da mudança lilás derramada sobre o dia, um instante que me revelaria ao pé do ouvido quando você já não estivesse aqui, e hoje eu ouço esse sussurro suave e lento feito canção.

Para quando você for embora de mim eu me guardei, inteira.

domingo, 22 de março de 2009

O Grande Mundo das Pequenas Coisas

"Guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta.
Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."

C. F. Abreu em Existe Sempre Uma Coisa Ausente

Soundtrack: Glen Hansard & Marketa Iglova - Once



Talvez seja na beirada de um sonho que o mundo acaba, eu não sei. Talvez não acabe e vire coisa diversa, como quando a gente fecha os olhos e descobre uma esquina no canto das pálpebras, é ali que tudo começa mesmo quando termina e cada chance laceia a vida pelos ombros como quem diz “fica, que eu vou cantar pra te fazer dormir enquanto lá fora ainda faz frio, deita aqui”. Talvez, e só talvez, haja pintado em alto-relevo sobre a palma da nossa mão um instante onde viver não sangre, e seja leve carregar nas costas cada pequena fome de amor, e aquele destino parado diante do portão de casa, aquele que um dia foi possível, ainda esteja lá à tua espera, e quem sabe à minha espera, em silêncio, deitando os olhos sobre o ruído das palavras caídas sobre o batente. Eu queria, sim, voltar no tempo e quem sabe cruzar contigo no meio da rua, e te convidar para um café num dia frio e adocicado como aquele do primeiro inverno em que nevou flores, eu guardo ainda algumas pétalas entre as páginas do livro que nunca escrevi. Eu guardo, ainda, mas é um passo em falso quem me leva para casa, onde fica o nosso lugar eu me lembro e não alcanço mais. Talvez seja na beirada de um sonho que o mundo acaba; talvez, e só talvez, não acabe e vire coisa diversa e se incorpore no corpo feito cicatriz, volátil imprecisão é o destino. Eu só preciso aconchegar os pés um pouco mais nessa certeza enevoada que saber demais é desvantagem, e quem sabe o mundo não acabe e sim comece quando a gente abre os braços e enfim se atira.

Eu aprendi a me atirar quando te dei as minhas asas.


terça-feira, 17 de março de 2009

Poema-Gesto



Porque eu choro riso,
E sorrio cor.



Tirinha de Ricardo Liniers, presente da Jazz, que com um gesto despretensioso conseguiu relizar uma missão quase impossível: deixar o meu dia mais leve:)


sexta-feira, 13 de março de 2009

Indulgência

Assim como nós perdoamos a quem nos têm.

Soundtrack: Garbage - Medication




Ele me perguntou se você me faria feliz. Respondi que não sabia, apesar de ter a certeza de que a resposta correta era "não". Então, ele sorriu, um sorriso cheio de dor - e me perguntou se era isso mesmo o que eu queria. E outra vez respondi que não sabia, e também na confissão dessa dúvida não fui sincera: se os meus sentimentos fossem lógicos, e o meu coração se acomodasse em coerências e acertos, seria ele quem eu escolheria. Eu apagaria você das linhas do meu corpo, eu ficaria atenta para o instante no tempo em que permiti que você se tornasse quem se tornou - a presença mais forte e mais instável dos meus dias, o foco dos meus absurdos, você é a minha cruz e a minha hóstia e eu me purifico nos seus pecados pois me entrego ao seu desejo quase com beatitude apesar da consciência do meu erro. E ele estava ali na minha frente com o coração queimando nos olhos ainda vermelhos das lágrimas que a minha leviandade lhe impusera mas de braços abertos para mim, e eu via refletido naqueles olhos o amor que jamais vi nos seus. E percebi que para ele sim, que, mesmo tendo errado tanto, eu era única e insubstituível, e confesso que me senti pequena e suja por machucar assim quem só me queria bem, e menor e mais suja ainda por não conseguir me odiar por isso.

Tão pequena e tão suja, eu, ele de braços abertos à minha espera, você em algum lugar do corpo de outras, eu nem única nem insubstituível, mais uma apenas, o que eu fiz? O que foi que eu fiz? Ele perguntando por quê, eu quieta, muda, fragmentada por dentro, você inabalável nos seus pés de barro, querido, você não é deus e um dia chega em que tudo vira pó, o meu dia é hoje, foi, será. Eu não sei o que eu fiz, ou sei, eu criei você e acreditei que era real quando soprei meu amor nas suas narinas e o seu primeiro fôlego bafejou morno e ondulante na minha pele mas foi você quem me ensinou a respirar, criatura que eu criei. Eu me moldei à sua imagem e semelhança, sou a estranha que me sorri no espelho, criatura que eu criei. Você em algum lugar do corpo de outras se derramando sobre elas, eu amanhecida, seca, marcada, você ainda deitado sob as minhas unhas, vá embora, não vá, fique, não sei mais o que estou dizendo. Vá. Vá, corra que o mundo é fora daqui. Ele me perguntou se você me faria feliz, eu sei que não mas ainda assim o deixei partir, e ele partiu, se foi; eu, ao menos uma vez, não fui egoísta. Eu o deixei partir. Um dia chega em que tudo, querido, tudo, tudo vira pó, criatura que eu criei, você não é maior que eu, ora, não é. Você ainda está aqui comigo mas amanhã restará menor, o meu dia é hoje, foi, será, eu te deixo aqui e te presenteio com a indulgência que é esquecer, que toda hora é para o fim quando é preciso renascer.

______________

Eternizando um trecho de uma conversa entre mim e a Sun a respeito dos fatídicos fatos verídicos ( e pretéritos) que deram origem a esse post:

Fla: - eu não me arrependo, porque fui honesta.
Sun: - então pronto.
Fla: - sou um caramujo que tem coração.
Sun: - quem não é, nesse mundo esquizofrênico, que pelo restinho da sua sanidade não rasteja atrás da felicidade?
Fla: - meu, que coisa linda isso.
Sun: acho que viajei fumando Lukcy Strike.

(Minha amiga, além de Uma Menina Com Uma Frô, é phylosopha.)

Beijos a todos!


terça-feira, 3 de março de 2009

Vale a Pena Ler de Novo

E está lá, no E-Blogue.

De todos os contos que escrevi, o meu preferido.

Aquele que trata do meu tema mais presente: amor. Amor genuíno.

Aquele que, até hoje, mais me emociona e mais parece ter vida própria.

Aquele que muita gente já leu - lá atrás, no antigo Cotidianidades, ou aqui, neste blog, em algum dia perdido desse um ano e pouco de postagens. Mas que muita gente não leu e, tenho certeza, os que ainda não conhecem vão gostar quase tanto quanto eu.

E que, claro, não poderia vir sozinho: pra quem curte Travis, uma revisitação de River, gravada originalmente por Joni Mitchell em 1971 e regravada pela banda escocesa não me lembro quando mas isso não vem ao caso - vale a pena ouvir de novo, também.

De que texto estou falando? Ora, deste aqui - basta seguir o link ;)

Vejo vocês por lá, e recomendo a leitura dos demais textos da Edição 7, todos high quality. Deixem seus palpites, suas impressões, suas críticas, suas sugestões... E você, você mesmo, você que curte escrever e está a fim de participar mas ainda não o fez, está esperando o quê pra mandar seu material para nós?! O espaço é seu também!

Beijos a todos!


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Engolidor de Sonhos

Onde os seus sonhos vão parar?

Soundtrack: Smashing Pumpkins - Tonight, Tonight




- Eu não queria acordá-la mas a senhora sabe como é: se a gente não chamar o doutor eles ficam nervosos e aí, bem, e ele trouxe a família toda, a senhora sabe como é esse tipo de paciente...

Saber, saber, eu não sabia. A mensagem subliminar no rosto da técnica de enfermagem, para mim, era quase esfíngica: meio ressabiada, meio assustada – e o ligeiro ar de riso contido seria real ou mera e capciosa invenção da minha cabeça sonolenta? Olhei no relógio: quinze para as quatro. Madrugada alta, gelada. Densa. Dessas em que a última coisa que se pensa em fazer é levantar da cama para ir a um hospital, só em caso de morte iminente e olhe lá. Se ele estava ali – e com a família toda – só poderia ser mesmo uma intercorrência que merecesse a minha atenção. Calcei os sapatos, arrumei os cabelos num coque e, em companhia da técnica, desbravei os então silenciosos corredores do Pronto Atendimento até o consultório 2. O que era silêncio absoluto principiou a virar um burburinho que logo se transformou em uma sucessão de vozes atropeladas, femininas e masculinas, enoveladas em um sem-fim de “ai” e “ui” e “oh” e “aaaah” cujo nascedouro era uma aglomeração de cinco ou seis parentes desesperados em volta de um homem cuja aparência, cansada, fazia aparentar bem mais que os 36 anos informados na ficha de admissão. O homem, ofegante, com a mão sofregamente massageando o lado esquerdo do tórax e com o rosto contraído de aflição, se sentara na cadeira em frente à minha mesa e era abanado freneticamente por uma senhora corpulenta que depois se identificou como “a irmã” e desatou a dissecar o mal-estar do rapaz; pedi delicadamente que o deixasse falar e, quando as vozes sossegaram, ele finalmente respirou fundo como se para tomar fôlego e disse:

- Ah, doutora. É um negócio aqui no peito, sabe? Uma coisa. Uma coisa no peito, uma coisa.

Suspirei. Mais um para testar meus conhecimentos em “coisologia”.

- Uma coisa no peito?
- É.
- E como é essa coisa? Aponta para mim onde fica.
- Aqui.
- Ok. E como é a coisa?
- Ah, doutora, é assim um negócio, me tranca o peito e faz uma bola que vai rasgando entre as costelas, sabe?
- Não, ainda não sei. É uma pontada? Uma latejada, uma dor cansada, o que é?
- Não é dor, doutora. É uma coisa, uma coisa.
- Tá bem, uma “coisa”. Certo. Mas como foi que a “coisa” começou?

Nesse momento todos se entreolharam. O rapaz ficou em silêncio. A “irmã” fez menção de falar, mas antes que pudesse abrir a boca pedi que aguardassem do lado de fora enquanto eu colhia a história. Quando finalmente ficamos a sós e fechei a porta, ele deu um suspiro de alívio, me fitou diretamente nos olhos e soltou a bomba.

- É que foi assim: eu estava dormindo, e sonhando. E aí de repente, minhanoss’inhora... uma coisa, doutora! Eu senti aquela bola descendo... e o sonho foi parar no estômago.
- Hum?!
- O sonho, doutora. Eu engoli.
- O que foi que você comeu no jantar?
- Não foi o jantar. Foi o sonho.
- Um sonho recheado, certo? Desses de padaria?
- Não, doutora. Desses que a gente sonha.

Meu Deus. Eu, que pensava já ter ouvido de tudo, não estava preparada para aquilo.

- E sonhou com o que?
- Não me lembro.

Era preciso ser profissional, mas eu não lembrava de ter lido em lugar nenhum qual era a conduta a ser adotada em caso de sonhos acidentalmente deglutidos. O que é que se faz quando alguém engole um sonho e o danado, imprudente, vai parar justamente no estômago? Antiácido? Sal de frutas? Lavagem gástrica? Procinético e laxativos, para o sonho desentalar e sair sozinho pelas vias naturais? Esperar passar? Vai saber! Engolir o espanto, executar o exame físico e continuar tentando identificar qual era o problema dele era o tudo o que eu podia fazer no momento.

- Você tem gastrite?
- Não, senhora.
- Problema de coração? Pressão alta? Diabetes?
- Não, senhora.
- Toma algum remédio?
- Não sou louco.
- Não disse que é.
- Mas pensou. Desculpe.
- Na boa. Você toma?
- Não.
- Teve algum aborrecimento?
- Não.
- Isso já aconteceu antes?
- Com sonho sonhado, foi a primeira vez.

Larguei o estetoscópio sobre a mesa e decidi prescrever um antipsicótico, mas a caneta vacilou sobre o papel – ou fui eu que vacilei? Fosse como fosse, ele percebeu, e na sua voz transparecia um quê de orgulho ferido.

- A senhora não está me acreditando. Estou lhe dizendo, engoli um sonho. E estou com uma coisa no peito e eu só queria que a senhora me ajudasse a fazer isso passar.

Ele me olhava com os olhos muito abertos. E eu, não sei bem o porquê, nessa troca de olhares – ou melhor, nessa súbita invasão de mim pela angústia daquele homem que tão sinceramente procurava alívio para o seu mal – comecei a acreditar que ele, por que não?, havia sim engolido um sonho, eu que de repente me lembrava em cores vivas dos muitos sonhos que também engolira, acidentalmente ou nem tanto, ao longo da vida. E agora eu entendia, entendia perfeitamente. Sonho engolido faz um mal danado – sonho é pra ser sonhado até o fim, ora; sonho engolido, não vivido, só pode mesmo fazer mal à saúde. Eu não podia tirar o sonho de lá: o homem teria de digeri-lo até que não houvesse lembrança dele, ou que lhe nascesse outro sonho na cabeça. Mas eu podia tentar explicar a ele o jeito mais ameno, já que, tantas vezes, passara pela mesma experiência terrível. O que se sucedeu não me compete contar aqui; o fato é que ele melhorou e deixou o consultório bem mais aliviado e com um sorriso largo no “muito obrigado” repetido umas três ou quatro vezes enquanto ele percorria o caminho até a porta de saída, acompanhado por sua comitiva.

Voltei para o dormitório pensando no engolidor de sonhos. Um homem com "uma coisa no peito". Que sonho afinal fora aquele que, ao ser interrompido, provocara tamanho mal-estar? Será que ele, um dia, finalmente o sonharia inteiro ou o sonho permaneceria eternamente a mesma vagueza interminada e abrupta, translúcida, para sempre perdida perdida a meio caminho entre corpo e espírito? Há tantos sonhos que nascem com esse destino triste, e há tanto males nascidos dessa condição. Engolidores de sonhos, quem diria. “Onirófagos”. Talvez no dia em que alguém se dedicar a escrever um Tratado Geral Sobre os Males da Alma essa curiosa onirofagia seja finalmente compreendida e adequadamente diagnosticada, quem sabe até combatida profilaticamente – porque o tratamento, algo me diz que esse sempre será difícil: engolir sonhos, definitivamente, é prejudicial à saúde. Madrugada alta, gelada, densa. Apaguei as luzes e espichei o corpo sobre a cama com a cabeça cheia de ideias e uma estranha comichão no peito, deitei a cabeça no travesseiro e, instintivamente, adormeci.


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Queridos meus: por mais estranho que pareça, esse conto foi construído a partir de um relato real, colhido em um dos meus plantões de urgência e emergência. Agradeço aqui a um certo jornalista de Minas Gerais que, em uma conversa despretensiosa, me fez ver o quanto de lirismo existia na história. O próximo post que vocês lerão por aqui também é fruto das descobertas que tenho feito na minha vida nova no Paraná - e nele, lhes apresentarei uma pessoa muito especial. :)

Beijos!


sábado, 21 de fevereiro de 2009

Espelho

Soundtrack: The Beatles - Something



E eu não sei quantas vezes meu coração bateu naquele meio segundo, mas nele cabia o dia inteiro e todas as faces que eu vi debruçadas no sobressalto das minhas quase-idas - eu que quase fui tantas vezes e em todas elas me vi fugindo de mim e agora me encontro, e me vejo, e estou comigo e tão docemente me faço companhia quando o mundo se afasta, o mundo não para quieto e veja bem, eu também vivo ciclando interminada e excêntrica. Eu tentei ser fraca e apagar de mim os vícios de superfície mas não sei viver da perfeição, e voltei a ser forte e rasguei com as unhas as virtudes que não eram minhas. Eu piso descalça sobre esses cacos e não mais me contamino: a minha pele é feita das ideias roubadas a esmo em alguma noite estranha, lançadas como semente agonizante numa vontade grávida, é assim a minha pele, se regenera e ignora as velhas feridas.

Ah, as minhas quase-idas. Quando deixei partir o que um dia cri que me fazia viver, foi que vivi.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Carta Para Minha Mãe

"Te guardei nove meses dentro de mim.
Te desejei... te planejei... e, enfim, você chegou.
Te vejo nos teus dez anos de idade e vejo agora
que meu sonho é uma doce, bela realidade:
sou sua mãe.
E te desejo um futuro num mundo melhor,
onde os homens se amem bem mais e
onde você também tenha direito ao seu espaço,
onde você possa ser feliz
com suas esperanças e realizações.
Seja feliz, minha filha.
Todo amor de sua mãe,
Graça Brito. "


Escrito pela minha minha mãe há 20 anos
numa página de diário que me acompanha vida afora,
porque carrego o amor como amuleto.


Soudtrack: Elis - Como Nossos Pais

Oi, mãe.

Não se preocupe comigo, cheguei bem. A viagem foi longa e cansativa, mas você conhece a sua filha e sabe que ela aguenta qualquer tranco, a sua filha aprendeu direitinho as lições que você ensinou – a sua filha só não aprendeu ainda a contar moedas e a não aceitar doces de estranhos mas um dia, quem sabe, ela aprende.

Eu juro que estou me alimentando direito e cuidando de mim e das minhas coisas como você recomendou, você ficaria orgulhosa de me ver, tenho certeza, nem pareço aquela coisica destrambelhada que só não largava a cabeça pelo meio da casa porque está grudada no pescoço, e que esquecia de comer e trocava o dia pela noite, agora até dormir eu durmo. E vou lhe dizer uma coisa, a senhora deve ter muito prestígio lá com Deus: ficaria feliz em ver o quanto estou sendo bem tratada, as pessoas todas são muito gentis e me ajudam de um jeito que só você vendo mesmo, mãe, contando ninguém acredita, mas eu digo pra você, eu sei que cada uma dessas mãos que me afaga é você cuidando de mim. Eu sei. Eu sinto, eu sinto você aqui comigo, mãe, segurando a minha mão pelas ruas dessa cidade linda. Aqui é lindo, mas aí é muito mais bonito e sabe por quê? Porque aí tem você, e eu sinto tanta falta de olhar para o seu rosto miúdo, mãe, eu sinto tanta falta, e nessas horas eu percebo o quanto estou longe de casa e quase me desespero e não consigo não chorar, e me sinto tão, tão pequena. Eu sinto falta do seu radinho ligado todas as manhãs e do pleque-pleque-pleque macio e ritmado dos seus chinelos, do seu cheirinho bom de lavanda, mãe, e até das coisas que eu pensava que não gostava mas que descobri que fazem parte do amor imenso que eu carrego por você nesse peito meu que é chão de fazer amor crescer. Eu me sinto tão pequena, mas aí eu me lembro do quanto você é grande e entendo que não posso ser pequena sendo você gigante assim, e é quando crio forças pra me agigantar também.

E há tanta coisa ainda que eu queria dizer, mãe, mas você conhece a sua filha: sabe que ela, nessas horas, tropeça nos próprios sentimentos e o que deveria ser palavra vira uma boca muda e dois olhos úmidos, eu queria mesmo te abraçar e aí, eu sei, você entenderia tudo que eu estou sentindo. Mas não se preocupe, a sua filha está bem e feliz, e cheia de novidades e surpresas, e de histórias também. Eu já conheço muita gente, você sabe, eu falo muito, e o trabalho é tão bom que nem vejo o tempo passar, e aqui é bem diferente, mas veja só!, é ao mesmo tempo tão parecido com a nossa cidade... e tomei chimarrão e comi umas coisas que não sei o nome, mas vou descobrir pra lhe contar. Essa é uma fase de descobertas, mãe, e você sabe: a sua filha não tem medo de nada e aguenta qualquer tranco. Ainda não sei se esse aqui é o meu lugar, mas sei que algo me trouxe para essa terra e eu preciso descobrir por quê, e é por isso que eu não vou voltar, mãe. Eu vou ficar aqui, mas cada dia que estiver aqui eu vou estar aí também. Porque o mundo é grande, mãe, mas eu sou maior.

A benção, mãezinha. Amo você.

Todos os beijos do mundo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Encontro

"- Na primeira vez que te vi,
sabia que tu ia ficar comigo.
- Sabia como?
- Bah, eu sabia.
- Te contar: eu também sabia.
- Então. Essas coisas a gente sabe."



Eu o conhecia há três dias e de repente estava ali, parada diante do quarto dele, um dos pés na iminência de um recuo e o outro avançando para o interior de uma vontade súbita que não fiz a mínima questão de coibir - a vontade do meu corpo, concentrada nos dedos que escorregavam audaciosos do terreno da razão para confluir num toc-toc-toc rápido, quase tímido, anunciando-me do outro lado da porta. Aquela noite era diferente das outras. Naquela noite, eu queria mais. Mais do que a lembrança enviesada de uma história complicada cujo fim sobreveio antes mesmo do começo. Mais do que alguém inventado. Mais do que um cálice diário de expectativas irreais. Naquela noite, eu queria presença. Toque. Cheiro. Gosto. Cor. Hálito. Queria de um querer súbito e sem polimentos, e eu instintivamente sabia que era dessa forma que ele me queria também. Por isso, quando pretextei sono e inventei que iria dormir, eu sabia que ele não permitiria que eu saísse dali. E, quando ele me segurou forte os braços e me umedeceu deliciosamente a boca com o beijo mais perfeito que eu jamais imaginara, eu sabia que aquela noite estava apenas começando - e que, ao longo dela, não haveria script, nem limites, nem perguntas, nem explicações: haveria apenas dois corpos entregues ao chamado misterioso e quente dessa coisa avassaladora chamada desejo, confundindo-se um no outro entre carícias e suores e gemidos, acumpliciados na intimidade rubra e inteiriça da languidez ofegante que, pouco a pouco, sereniza entre rostos unidos e membros entrelaçados, ambos entorpecidos pela sensação do prazer mutuamente proporcionado, desafiando a exaustão do corpo entre delícias que insistiam em interminavelmente recomeçar. Foi assim que, enquanto o dia amanhecia, adormeci nos braços dele com meus lábios ainda colados aos seus, cada centímetro meu inteiro marcado por cada centímetro daquele homem, minha cabeça repousada no seu peito enquanto meus olhos descansavam embebidos naquele sorriso lindo. "Agora você é minha", a voz preguiçosa brincando nos meus ouvidos, tatuando na minha memória o sotaque gostoso do Rio Grande do Sul. E agora, ainda, as marcas dessa noite perfeita fazem pouso na minha pele e na minha lembrança, e me dizem que as melhores coisas da vida são as inesperadas, aquelas que acontecem sem muito planejamento e que nos levam em determinada direção quando tudo parece nos encaminhar a outra. É essa a matéria do ininteligível. E, igualmente, é essa a matéria do inesquecível.


Primeira postagem diretamente do Paraná,
iniciando a nova temporada em grande estilo ;)