quarta-feira, 23 de maio de 2012

Status de Relacionamento: Mãe Solteira

Soundtrack: Ludov - Princesa



- Essa aí. Cuidado com essa aí que é mãe solteira.

Uma vez ouvi essa frase da mãe de um amigo de faculdade. Tínhamos acabado de passar no vestibular e ele estava de namorinho com uma menina do curso de Farmácia; a mãe soube do relacionamento e, como qualquer boa mãe, tomou para si a missão de advertir o filho sobre o perigo daquele envolvimento. Afinal, a menina era mãe solteira: saíra de outro relacionamento com mais experiência e um filho pequeno para criar.  A menina era legal, divertida, inteligente, mas o namoro não durou muito, não sei por que – embora sempre tenha desconfiado que a tal advertência materna tenha sido mesmo o começo do fim. O tempo passou e nunca mais me lembrei dessa história. Até o dia em que fui convidada para um passeio por um dos meus pacientes e ele, muito educadamente, complementou o convite:

- A senhora não deixe de levar seu marido.

Confesso que na hora me bateu um constrangimento. Sincronicamente, ele baixou os olhos para minha mão esquerda: nada de aliança. Fez-se um breve e pesado silêncio, tradutor de centenas de perguntas (da parte dele, tenho certeza) e de algumas possíveis justificativas (não sei explicar porque, mas REALMENTE fiz uma revista mental em busca de algumas), seguido de um fôlego curto, de coragem ou de alívio, não sei, mas que foi o abre-alas para a frase que escapou da minha boca e, também para mim, foi a constatação de um status do qual nem eu havia me dado conta: SOU MÃE SOLTEIRA.

Sou mãe solteira. E daí? Sou legal, divertida, inteligente - como a menina do meu amigo de faculdade. Tenho um bom emprego, nome limpo na praça, bons antecedentes, nada de ficha na polícia. Limpinha, todos os dentes na boca. Porque meu estado civil deveria importar? Porque meu estado civil importa tanto? E o termo, “mãe solteira”, pesa, infinitamente mais do que a responsabilidade de ser uma delas. É como se a mãe solteira estivesse sempre à espreita de uma oportunidade de se dar bem à custa de algum bobão que leve para casa o “kit” de que outro abriu mão. Ou como se fosse alguém tão emocionalmente vulnerável a ponto de aceitar migalhas de afeto por pura carência. Ou, ainda, como se fossem mulheres sem sorte, renegadas: coitada, essa aí não tem sorte com homem: é mãe solteira. Ninguém nunca parou para pensar no quanto uma mãe solteira pode ser sortuda? Há bem pouco tempo atrás, a mulher separada e a mãe solteira eram párias – não havia desgraça maior para uma família do que ter entre os seus uma mulher largada do marido ou uma moça com um filho sem pai. Hoje, felizmente, a mulher aprendeu a exigir ser respeitada independente de véu, grinalda, papel passado e de como administra sua cama e sua vida. E conciliar um filho e liberdade para ir e vir não é coisa de gente azarada, mas de gente inteligente e bem resolvida.

Mães solteiras são mulheres flex – trabalham, criam seus filhos, estudam, criam seus filhos, pagam suas contas, criam seus filhos, cuidam de si, criam seus filhos, (às vezes) namoram, criam seus filhos. Esquecem (às vezes) de si, criam seus filhos. Aprendem a equilibrar nos ombros problemas, angústias, iminências, esperanças, devaneios, alegrias, tempo. Sobretudo tempo. Tempo é a coisa mais relativa na vida de uma mãe solteira. Sempre falta mas, no fim das contas, a gente sempre encontra. Aliás, somos especialistas nisso de achados e perdidos, porque a rotina, ao contrário de nós, está sempre de pernas para o ar – e é preciso muita habilidade para não desaparecer em meio ao de-tudo-um-pouco. É claro que é difícil. É claro que há dias em que a sobrecarga é tanta que a única vontade é largar tudo, trocar de identidade e correr pro mundo, mas é uma vontade que nasce para morrer logo em seguida – porque logo ali, pertinho, sorrindo, existe um rostinho lindo dizendo “eu te amo, mamãe” que faz tudo, absolutamente tudo valer a pena. Eu não me orgulho de muitas coisas nessa vida, mas de ser mãe solteira eu me orgulho, sim.

Mães solteiras merecem respeito. Mais do que isso: merecem aplausos. É coisa para mulheres valentes, que têm a coragem de dar à luz seus filhos e de conduzir sua vida sem se submeter a convenções meramente sociais. Não é feio ser mãe solteira. Feio é ter preconceito e mente pequena, julgar o livro pela capa e o caráter pelo estado civil. Feio é ser infeliz. E felicidade, certamente, é algo que nunca nos falta.



18 comentários:

Alicia disse...

A sociedade é mesmo muito besta.

O pior de tudo é quando a gente percebe não questionar algumas coisas.

Fabrício Franco disse...

Tenho pouco a acrescentar, caríssima Fláwer. Uma coisa, porém importante: não bastasse todas as loas para você, que enfrenta todas as barras - sozinha - de ser mãe, ainda há que se lembrar de que - mais importante do que o estado civil - você é gente finíssima. E isso faz A DIFERENÇA. Seja para novos relacionamentos, para questões profissionais, de amizade ou quais sejam. A índole da pessoa é que determina quem ela é.

;)

Beijo!

Flávia disse...

ALICIA,

Confesso que, na minha adolescência, tinha pavor de um dia vir a ser mãe solteira. Hoje me orgulho de ser uma. A gente incorpora preconceitos sem sequer procurar saber de onde vêm.

FABRÍCIO,

você me deixou com o mutismo de quem reconhece que qualquer agradecimento é pouco. Obrigada, de coração!

Patrícia disse...

E meu aplauso para esse lindo texto, meu aplauso para as mães solteiras, que infinitamente merecem meu respeito por tudo isso que você disse e muito mais que vejo por aí e só me fazem admirá-las cada vez mais. Por tudo que são, que passaram e passam e continuam sendo Mães. Solteiras ou não, mas são Mães. E meu aplauso a você Flávia, por ser quem é, é que faz a diferença. Bjsss

Jazz @brabul disse...

machismo, querida, machismo. Como diria Willy Wonka, para um pai solteiro e ausente:

"então você se orgulha de ter um filho e vê-lo somente quando pode?".

Mães PRESENTES SÃO PRESENTES!!! E mais: dádivas!

E ter um filho é mais que isso, é SORTE.

Robson da Silva Belo disse...

Eu tenho orgulho de te chamar de amiga, de poder dividir essas ideias, esse momentos da vida. Ainda no século XXI reprimimos tudo, ainda nos prendemos as convenções normativas, institucionalizadas através de uma razão moral que na verdade é uma insanidade ideológica; continuamos escravos dos dogmas mais arcaícos e defasados e o pior, exaustivamente desmentidos. Parabéns e não sinta constrangida, pois na verdade não exitem mães solteiras ou casadas, todas apenas são MÃES. Bjs!!!

Anne disse...

Eu acho que as mães, independente do status de relacionamento, merecem sempre aplausos. Colocar um filho nesse mundo que temos e colocar-se à disposição de educar, cuidar e ensinar essa pequena alma a crescer sem tantos preconceitos e julgamentos, isso sim é enorme, isso sim é grandioso. Azar o dos pais deles, q não fizeram por onde estar presente. Azar só deles!

Lindo o texto, linda vc. Perfeito!

Bjo grande para vc e para o pequenuxo, mana. Deus abençoe vcs.

Flávia disse...

PATRÍCIA, ROBSON, ANNE, muito obrigada pelas palavras e pelo carinho sempre genuíno - comigo e com o meu pequenininho. Beijos!

JAZZ, há vários tipos de câncer social. O machismo é um deles. Um câncer que mata lentamente e, antes de matar, machuca, humilha e envenena. Beijos!

Flah Queiroz disse...

Flávia, seus textos são sempre (sempre!) deliciosos.

Concordo em gênero, número e grau!

Flávia disse...

FLAVINHA, digo o mesmo sobre os teus. Deliciosos, inteligentes, sem perder a ternura jamais :)

Beijos!

lima1812 disse...

O flavia!!! Parabens pelo seu texto!!! E com pessoas como vc...q um dia a gente acaba com essa doenca chamada preconceito.

lima1812 disse...

O flavia!!! Parabens pelo seu texto!!! E com pessoas como vc...q um dia a gente acaba com essa doenca chamada preconceito.

lima1812 disse...

O flavia!!! Parabens pelo seu texto!!! E com pessoas como vc...q um dia a gente acaba com essa doenca chamada preconceito.

Hope Bhz disse...

Oi Flávia! Sou mãe solteira, e com muito orgulho! Me enxerguei no seu texto e fiquei emocionada de ler!!! Vc está de parabéns!!! Só me resta agradecer pela oportunidade que nos deu de ler esse texto maravilhoso!!! Um bjo grande! 😘 Geórgia

Caroline Bertrand disse...

Definitivamente, esse foi o melhor blog que já visitei.
O modo em que você expõe nos faz viajar em um lugar onde o preconceito não existe.
Sou mãe, não sou solteira mas, a admiração por quem consegue lidar com todas as batalhas de ser mãe e "pai" me fascinam.
Parabéns!!!

Roberta disse...

Lindo
Me emocionei
É como seu mesma tivesse escrito esse texto.
Parabéns !!!!

Roberta disse...

Lindo
Me emocionei
É como seu mesma tivesse escrito esse texto.
Parabéns !!!!

Roberta disse...

Lindo
Me emocionei
É como seu mesma tivesse escrito esse texto.
Parabéns !!!!