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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Caixa em Forma de Coração

Imagem: weheartit

Quando aquela carta chegou, sem qualquer identificação, o primeiro pensamento foi largá-la junto à confusão de papéis inúteis sobre a mesa. Apanhou o envelope em branco – fechado, mas não lacrado – e o examinou contra a luz: viu apenas um pequenino retângulo de papel que, à primeira vista, parecia igualmente em branco. Ao contrário das demais correspondências, sempre entregues pelo carteiro, esta havia sido passada por baixo da porta, nas primeiras horas da manhã. Cogitou jogá-la fora, a curiosidade foi maior: abriu o envelope cuidadosamente, retirou o retângulo dobrado ao meio e abriu. Nenhuma palavra; apenas um perfume delicado evocando alguma coisa conhecida e, há muito tempo, esquecida. 

Fechou os olhos na tentativa de buscar dentro de si o nome daquela lembrança e, quando tornou a abri-los, estava exultante – o cheiro era idêntico ao de uma boneca que tivera na infância, a boneca favorita, sem um olho e quase sem cabelos, com uma costura torta emendando a cabeça e o corpo. Há quanto tempo não se lembrava dela! A mãe acabou jogando-a fora porque havia ficado muito velha e lhe comprara uma boneca nova, que ficara ignorada em um canto do quarto; sua amiga, sua companheira, mesmo, era a outra. Betina, era o nome dela. O papel, sem dúvida, tinha o cheiro da Betina, o mesmo cheirinho de pano, de suor de criança e da água-de-colônia que a avó usava, e que ficava impregnado na boneca quando a velhinha tomava para si o trabalho de costurá-la. Sorriu encantada com a lembrança e com saudades da avó, que partira há alguns anos, da Betina e até da boneca substituta, dada de presente a uma sobrinha muitos anos depois. 

Fechou os olhos novamente, aproximou o retângulo de papel do rosto e aspirou novamente aquele cheiro – viu novamente a avó sentada na cadeirinha de balanço com o cesto de costura ao lado, a mãe assistindo tevê, o pai tomando um café e lendo um livro antes de deitar. Viu novamente a avó, indo até o seu quarto para lhe devolver a Betina, nova em folha, na hora de dormir, junto com um beijo de boa noite. Abriu os olhos, impressionada. Que coisa esquisita!  A carta seria para ela, sem dúvida; não havia de ter ido parar em suas mãos por engano. Devolveu o papel ao envelope e guardou a cartinha em uma pequena caixa em forma de coração que, até então, existia sem uso no interior de uma gaveta. Ainda com um sorriso no rosto, voltou para os afazeres do dia. E, por algum tempo, não pensou mais no assunto.

A segunda carta chegou dez dias depois. Tinha o mesmo jeito da outra – um envelope branco e bem cuidado, sem remetente ou destinatário, igualmente esgueirada por sob a porta num início de manhã. Tomou-o nas mãos e, ao abri-lo, se espalhou pela sala um cheiro azulado, morno e arenoso, prontamente reconhecido: o cheiro da primeira vez em que vira o mar. Dessa vez, conseguiu sentir até a carícia da água nos pés e um sopro suave de brisa a alisar seus cabelos. Uma após outra, mais cartas foram chegando. Sempre do mesmo jeito. Uma delas tinha o cheiro do primeiro dia de aula. Outra, o do seu aniversário de doze anos. Outra, ainda, o do último Natal. E outras, surpreendentemente, tinham cheiro de coisas que não têm cheiro, como de banho de chuva, do primeiro beijo e de procurar desenhos nas estrelas. Em pouco tempo, a caixa em forma de coração estava tão cheia que começava se deformar; as memórias se acumulavam, e tanto tempo haviam estado misturadas entre si que o cheiro desta era também o cheiro daquela. 

Coincidentemente, quando a caixa ficou cheia, as cartas cessaram – um período muito triste, pois a destinatária se havia apegado tanto a recolher suas lembranças que o presente se tornara irrelevante: simplesmente, não sabia mais o que fazer com ele. Recordou-se do dia em que chegara a primeira carta, do quanto a vida era ágil e o passado, fugaz. Há tanto tempo não se lembrava mais de tudo aquilo; espantoso não haver percebido o quanto lhe fazia falta, como espantosa era a absoluta insignificância do que não dizia respeito ao conteúdo de sua caixa. Naquela noite, dormiu abraçada a ela – como se, assim, o cheiro de todas aquelas memórias pudesse penetrar definitivamente em suas narinas, e definitivamente alcançar cérebro e coração para jamais tornar a se apagar. Quando acordou, tinha no pensamento, além das memórias, a imagem da mulher que vivia solitária em um apartamento a dois andares do seu – se esbarravam, volta e meia, no elevador, mas nunca haviam conversado. Na verdade, nunca prestara mesmo muita atenção na vizinha; mas, naquele momento, enquanto se lembrava dela, via seus olhos melancólicos perdidos em meio à confusão dos dias que se ocupavam em nascer e morrer sem que, de fato, sua existência significasse alguma coisa. Compreendeu que as cartas já não lhe pertenciam. Com o coração partido compreendeu o que precisava fazer.

Abriu a caixa, retirou uma das cartinhas, sentiu seu cheiro – longínquo, mas ainda inebriante – pela última vez. Fechou o envelope sem lacrar e, ainda de pijamas, tomou o elevador, apertou o cinco e, segundos depois, estava diante do apartamento da vizinha solitária. Sem hesitar, deslizou o envelope por sob a porta e partiu. Em breve, a caixa em forma de coração ficaria vazia, mas isso já não lhe importava; por algum motivo, estava feliz. Tomou novamente o elevador, apertou o sete e, em casa outra vez, tornou a adormecer. A poucos metros dali, um par de olhos melancólicos, surpreso, também se fechava, admirando, por sob as pálpebras, a inesperada lembrança misteriosamente resgatada pelo terno cheiro de uma certa saudade.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Com Amor, F.



Soundtrack: Allie Moss - Corner


Então: lembre aquilo que eu lhe disse. A razão das coisas é serem imperfeitas. Imperfeitas como meu café sempre mais forte ou mais fraco ou mais doce ou mais amargo do que deveria.  Imperfeitas, e ponto final. Como minhas cartas: sem cabeçalho e repletas de incorreções e autenticidades desnecessárias. É assim. Portanto vamos às notícias, que é o que interessa.

As notícias são as mesmas de sempre, não fosse o ineditismo de meu primeiro fio de cabelo branco – há quem insista para que eu o arranque mas o deixo ali entre os outros, único e reluzente, quase como uma coroa. A parte minha mais parecida comigo, esse inevitável fio de cabelo branco. Que fique aí e, insidiosamente, se multiplique – porque nunca temi velhice e meu grande medo sempre foi, e ainda é, perceber ser inconveniente para mim mesma. Vou mudar outra vez – de cidade, de casa, de vida. Encontrei um apartamento não tão grande mas espaçoso, com jeito de antigo e cheiro de dias melhores se aproximando, com muitas e amplas janelas, dessas que  permitem à luz entrar também dentro de nós. Ficará ainda melhor com um pouco de cor. Ainda não decidi onde vou arrumar os livros e discos e você sabe, gosto deles um tanto desarrumados porque assim me parecem mais interessantes; as fotos, inclusive aquelas que você achava estranhas por se assemelharem demais a sentimentos desconhecidos se aproximando íntimos o suficiente para desvendar nossos segredos, creio que gostarei delas pelas paredes, perscrutadoras dos meus tons de vida. Ando em busca de olhos fiéis.

Troquei novamente o número do meu telefone. E confesso: não me lembro do seu. Preciso de uma agenda telefônica daquelas antigas, de papel mesmo – nada dessas geringonças eletrônicas que parecem fantásticas mas que, de uma hora para outra, se tornam mais inúteis que uma pilha gasta. Eu costumava ter boa memória antes dessas coisas virarem rotina; a rotina, hoje, é não recordar sequer o que comi no café da manhã. Faz parte. Não faz parte é esperar, isso ainda não aprendi. Mas pratico – diária e diligentemente, porque o erro maior é não procurar saber. Portanto, quando precisar de mim, ou quando quiser falar comigo, estou todos os dias, à mesma hora, na esquina daquela rua inventada onde o tempo não passa porque ali é sempre quando fui mais feliz nessa vida, e eu não me lembro quando foi, mas sei que foi um dia muito, muito suave, como uma canção de ninar na boca de uma mãe ou um par de mãos dadas. Passo, paro, respiro, observo, sigo adiante – mas sempre volto. Sempre.

Então, eu não vou me despedir de você porque nenhum de nós está partindo. E, em meio a tudo isso, lembre aquilo que eu lhe disse: as coisas são assim, marginais, sabiamente defeituosas. Como a imperfeição dos cafés, cartas, memórias, juízos, com a virtude incógnita de serem certas em seus desvios, tão incógnita quanto amores perfeitos.



 



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Carta a Samuel



Oi, filho.

Eu gostaria de ter-lhe escrito esta carta há mais tempo; desde que soube que você, meu sonho mais bonito e mais ansiosamente sonhado, finalmente, passara a existir. Algumas coisas, no entanto, acabaram por me atropelar e fui involuntariamente protelando a planejada cartinha. Perdoe o relaxamento da sua mãe. Com o tempo, meu querido, você perceberá que essa sua mãe é mesmo assim: meio com a cabeça em todos os lugares, meio em lugar nenhum, tanta coisa para fazer nesse mundo que você ainda não conhece mas que já o espera como se fosse a sua chegada o sentido de tudo que carece de fazer sentido, é assim que parece ser ao menos dentro do coração da sua mãe. Não se assuste com as confusões que este mundo, provavelmente, trará à sua cabecinha: à primeira vista ele parecerá estranho e difícil, mas haverá muita gente ao seu lado para lhe mostrar que, apesar de estranho e difícil, esse mundo o espera com muito amor. Não tenha medo.

A sua mãe, meu querido, veja que coisa, nascerá junto com você; a sua mãe, até hoje, era apenas uma menina crescida, sem grandes pretensões e responsabilidades. É você quem a está transformando na mulher que ela sempre acreditou que fosse capaz de ser. Seja paciente com ela. Não ria do jeito desajeitado que ela tem de demonstrar amor. Ou melhor, ria: a sua mãe, certamente, rirá junto com você e será ainda mais feliz nesse mágico instante de descontração e cumplicidade. A sua mãe espera por você como quem espera pelo momento em que nós, pobres seres humanos, frágeis, fugazes seres humanos, nos damos conta de que tudo o que vivemos, e tivemos, e sofremos nessa vida valeu a pena. E tudo valeu a pena, meu querido, por você.


Amor, da sua mãe.


terça-feira, 26 de maio de 2009

De Uma Carta

"(...)O que me traz a ti, Flavitcha. Eu conheço os homens (não todos, é verdade). Então há uma micro-chance de eu estar errado), eu converso com eles, e escuto suas idéias ridículas e covardes. Na verdade, eu não deveria criticá-los dessa maneira. Afinal, eles são apenas humanos. Os humanos e seus temores insuportáveis. E como humanos, eles estão preparados apenas para se relacionar com humanas, que possuem as mesmas fraquezas deles.

Você, porém, minha criança, não é humana. Você é algo além. Desconfio, e apenas desconfio, que você seja um anjo. Como eu sei disso? Pelos sentimentos com que temperas as tuas palavras. Veja bem, há pessoas que sabem fingir, mas você não finge. Você é autêntica... e bela, como eu nunca vi.

Eu sei que já deves ter ouvido isso milhares de vezes, e provavelmente perdeu o valor, mas não há como te dizer isso de outra forma simplesmente porque é a mais pura verdade: És especial !

Por isso mereces alguém tão especial quanto. Não vai ser C. quem saberá captar o teu espírito, tampouco qualquer outro humano, com exceção de um que treinou a vida inteira para encontrar um anjo parecido contigo.

Esses encontros de fato acontecem. São como colisões no vasto espaço. Improváveis, mas vez ou outra, acontecem sim. O problema é que nem sempre eles encontram condições de liberar sua energia, e então precisam ser reprimidos. (...) E a vida segue assim, minha querida. Nós com os nossos "companheiros", vivendo e fingindo que escapamos da solidão. E na barriga aquela fome por algo inenarrável: o acontecimento único de um encontro de asteróides..."


Ao remetente do texto - que não sabe que leio tudo
o que me escreve, mas que ficará sabendo agora que
cada linha que chega fica gravada na minha memória
e faz meu dia incomparavelmente melhor: obrigada.

Muito. Mesmo. Por tanta, tanta coisa.

Um beijo.