"Then share thy pain, allow that sad relief; Ah, more than share it! give me all thy grief."
(Então compartilha a tua dor, permita que se alivie a tristeza; Ah, mais que compartilhá-la! dá-me todos os pesares.)
Alexander Pope - Eloisa to Abelard
Soundtrack: Russian Red - Gone, Play On
Hoje, estranhamente, eu quereria sofrer.
Quereria uma dor que me cortasse a carne. Dilacerante. Súbita. Agônica. Feita de infinitas dores menores, aquelas todas que teimei um dia em não sentir ou em não vivê-las com a entrega que mereciam de mim. Uma dor implacável, uma dor agigantada pelo meu próprio medo de sentir dor.
Hoje eu quereria uma dor de coração em frangalhos e choro devastado, de mãos e pernas trêmulas e espasmos de corpo inteiro e joelhos feridos da queda – sem lenços, sem consolações, sem ofertas de ombros ou amparo, sem, sem, sem. Pelo chão, um a um, crises existenciais, mecanismo de luta e fuga, papéis em branco e rabiscos imaginários. Uma dor egoísta: inteira minha. Uma dor que me possuísse com a fúria das dores rejeitadas e menosprezadas que vêm para cobrar seu tributo quando a fragilidade nos assola e não me atreveria novamente a escorraçá-la, venha, eu te acolho nos meus braços suados; apenas me esgote e me anestesie até que eu nada sinta e, então, se despeça com um beijo torto e saciado e vá embora exatamente como veio. De uma vez.
Soundtrack: Iron and Wine - The Sea and the Rhythm
Hoje, por um momento, pensei mesmo em lhe telefonar.
Eu, que algumas vezes mal me lembro da sua voz e, noutras, me espanto com a nitidez do seu timbre a invadir meu esquecimento e se aninhar nos meus ouvidos em minhas noites de insônia, pensei mesmo em lhe telefonar. Não me agrada nem um pouco dizer “oi”, nem perguntar trivialidades, nem me despedir; então, em resumo, nem sei por que motivo lhe telefonaria. A verdade é que senti que lhe devia isso: confessar que a tal foto – a mesma que lhe afirmei, com o rosto anuviado por um quase orgânico impulso de fingir a indiferença que nunca fui capaz de representar sequer razoavelmente, ter perdido num surto de voluntária displicência – ainda existe. A parte estranha é que, de fato, não senti necessidade de falar com você: a necessidade era de dizer nada e estar, beber esse tempo partilhado num copo de prata, sentir seu sabor encorpado no vermelho da língua. E, se tivesse de dizer alguma coisa, diria somente que aquela vontade que um dia senti de nunca soltar a sua mão ainda está acima dessa desfeita que você me fez: de arrancar de mim a parte sua que me fazia mais eu, eu era mesmo mais forte quando meu olhar desfalecia enxergando além do que jamais vi antes de aprender a observar o seu sorriso surgindo para se espraiar em todos os lugares que minha mente alcança. Ausente, sua boca ainda me fala daquelas histórias contadas com suave saliva que me partiam e partem ao meio, e se funde comigo, e vai virando esse instante que engole as horas e as cores daquela fotografia que tiramos no único dia que, para nós, não terminou, porque era feito das verdades que nunca nos dissemos; então, alheios a nós, intimamente desconhecidos de nós, naquele dia fomos felizes. Mas não ligue, nem se assuste e nem se impressione – a foto vai ficar exatamente onde está e o telefone também, isso logo passa, quem sabe é apenas melancolia. Ou saudade com meio palmo de língua para fora, cansada de ser.
"As cartas não eram para olhos profanos. Não interessavam a mais ninguém.Queimei tudo na lareira da sala, quando não havia ninguém em casa. Cartas em fundo de gaveta podem ser perigosas. Basta um desenho antigo, já amarelado, um perfil marcante como uma figura de proa avançando pelo grande mar onde para sempre nos perdemos."
Lia Luft - Adria
Soundtrack: Coco Rosie - Not For Sale
Eu ouço a última frase fechar silenciosa a porta e caminhar sozinha rua abaixo, ainda meio atordoada por se saber inútil. Não tive coragem de dizê-la. A mim, parece ser meu coração pulsando na ponta da língua que evito pronunciar, prefiro deixar meu coração em segredo. E, das coisas todas que eu disse até aqui, nenhuma me revela tanto quanto essa omissão, que então me torna uma incógnita como o tal raio que não cai duas vezes no mesmo lugar e veja só, ele cai. Mas a frase, essa se foi sem beijo nem insistência, se foi apática e vagarosa, quase autômata, eu era uma sua desconhecida e era impossível nos reconhecermos, nós que alguns poucos momentos antes ainda nos pertencíamos. Ela não cabia, não cabe, na minha voz – a minha voz tampouco cabe no seu sentido, eu não me encaixo mais porque se dissipou de mim a tal da idéia, e o fez com uma velocidade inesperada como esse vento quente que sopra do lado de fora e corta ao meio a rigidez do inverno. Da última vez que lhe escrevi fazia um vento assim, não sei se você se recorda – e as palavras se balançavam alvoroçadas nos meus cílios fingindo-se de borboletas, que as palavras criam asas, sim, e frágeis nascem e frágeis morrem, e inocentes se atiram em vôos cegos, as minhas, cílios pesados de verbo eu sempre tive. Olhos verborrágicos. Meio por insolência, meio por descuido. Mas não é disso que falo hoje, eu hoje não falo nada. Eu hoje chão, calçada, jardim, almoço, varal, música, fé, ponta de pé, corpo de bailarina assim no espaço solto, palavra deixo ir que não me pertence. Não essa. Ou aquela; não aquela. E já não é coragem que me falta, é coragem que cultivo. Prefiro deixar meu coração em segredo.
Entre todas as estranhezas que me fizeram te amar, eu talvez tenha amado demasiadamente mais a mais banal – aquela de cuidar a urgência como se fosse uma tua velha amiga que se achegava a ti mordendo o lábio provocativa, e que quase infantil deitava-se no teu colo e abraçava-se ao teu pescoço e se confundia inteira contigo a ponto de não se saber onde um começava e o outro terminava, a tua urgência sempre foi uma fêmea voraz. Eu, por isso, talvez, a tenha amado. Eu talvez a tenha amado porque ela te possuía, era incontida e maior que tu, era ela quem falava pela tua boca quando a tua língua se descontrolava e galopava frenética em frases despedaçadas por pequenas pausas delituosas – e, nesses silêncios pontuais, era a tua meteórica paciência pensando, pesando-me, eu sabia, eu sempre soube. Eu sempre soube que a tua pretensa força era o que te fazia sofrer. O que eu não soube, e sequer poderia – porque o caótico desalinho entre nossas expectativas nos fez verter dias afins em tempos antagônicos – é que o teu pretenso sofrimento era também o que te fazia forte.
Eu talvez tenha amado demasiadamente a mais banal, e amei em grande parte porque me assustam essas coisas raras que desaparecem com a mesma velocidade com que despontam e deixam esses ecos vazios na memória atônita, essas ranhuras cicatriciais que nunca fecham porque estamos sempre a esgarçá-las com os dedos sujos – de saudade, de desespero ou de algum outro desejo vão escondido sob as unhas, esperando a hora de se disseminar febril. Os meus dedos não conhecem sossego, a minha pele nunca está intacta, eu nunca estou intacta e, de fato, quem está? Eu demasiadamente amei a mais banal embora todas as tuas estranhezas me fizessem sentir uma mulher comum, mas extraordinariamente comum como nunca houve outra, eu era extraordinariamente única porque as minhas próprias estranhezas sobressaíam entre o que eu acreditava ser o meu melhor, embora não fosse – o meu melhor é o que veio depois, o que rasguei na carne quando num acesso de fúria espantei das vértebras as falsas virtudes que, como traças, me roíam os traços mais reais.
Os traços mais reais – embora essa vida seja uma ficção e a verdade se esconda em um canto inviolável da humanidade que nos cumprimenta zombeteira diante do espelho quando esquecemos a porta aberta.
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José González é sueco, filho de argentinos, canta em inglês e sua música lembra o que seria um folk à la Nick Drake com João Gilberto. Suas influências contemporâneas são Elliot Smith, Joe Pernice e Kings Of Convenience, mas sua voz evoca a de cantores clássicos da história da música pop como Mark Eitzel e Mark Kozeleck. A faixa Heartbeats integra o álbum Veneer, lançado na Suécia em 2003, ponto de partida para que González ultrapassasse a fronteira musical da Escandinávia e ganhasse as paradas da Europa.
Quanto ao texto, não custa enfatizar: FICÇÃO. E não tentem se - ou me - convencer do contrário!
Quando foi? Eu nunca aprendi. Soundtrack: Ingrid Michaelson - Breakable
Estou estranhamente calma, tão diferente de antes, quando cada passo meu beijava o chão como um gemido enviesado de dor. Não há falta. O que há eu não sei, talvez de fato nem haja nada para saber e isso não é ruim, é como cair em um precipício em slow motion: não dói nada, não dói, nem cansa. E até já me desafeiçoei àquela mania de catalogar sentimentos por cores porque eles escorregam uns nos outros dentro do coração trespassado por uma flecha desenhado a dedo no espelho embaçado do banheiro, mas lembra, eu te havia mesmo dito que um dia tudo perde a cor - e tu, talvez, não me tenha compreendido porque falei com os olhos marejados de sussurros mas sem arriscar palavra, enquanto teus olhos injetados de algum sentido que eu não alcançava lambiam o dia volátil estendido diante da outra janela. Eu te havia mesmo dito que não precisava de ti para absolutamente coisa alguma mas que essa completa e lúdica inutilidade tua na minha vida só me fazia te querer mais, e era tão pateticamente bom, e foi nessa hora – tenho certeza – que todas as coisas que eu pretendia verbalizar se acotovelaram indóceis na ponta da minha língua e viraram um soluço fosco, e por isso eu disse apenas “me ajuda a te entender”. As perguntas que escondi sob o colchão permanecem lá, as respostas eu não sei; talvez perambulem sem se descobrirem respostas naquele outro caminho, o de antes, o que era meu e teu quando éramos tu e eu, e quando fomos tu e eu? Porque este caminho, este caminho atropelado por pequenos descuidos, este é ou meu, ou teu, ou da mulher que escarra esperanças viciadas na esquina de um amor que não veio, pobre mulher, quem sabe eu tenha te livrado de um mal maior. Porque essa vida, esse lapso de vida que nos ladeia hoje, é uma viela estreita, quase estrangulada, e não cabemos lado a lado sem nos ferir mutuamente – e aquele atalho que um dia risquei com os cabelos no travesseiro enquanto revisitava teu rosto antes de dormir se perdeu, desnorteava um pouco cada vez que outra saliva nutria tua boca e te acomodavas entre outras pernas, e que as minhas próprias pernas conheciam outras posses e eu alimentava ao seio outras sofreguidões, eu nunca aprendi a te ler.
Eu nunca aprendi. Quando foi que nos vimos pela última vez?
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Ingrid Michaelson é uma cantora e compositora nova-iorquina que faz um som indie-pop/folk e tem músicas nas trilhas sonoras de Grey’s Anatomy (olha aí os seriados médicos outra vez) e One Tree Hill. A faixa Breakable faz parte do álbum Girls and Boys, lançado em 2007.
Sou um verbo pagão de carne e osso, de alma púrpura confluente para intenções insones. Este corpo pequeno não me contém; este corpo pequeno se estende além, me escapo e viro um rastro inquieto, crescente em corpos alheios. Necessito invadir e tomar conta e ser eu-embora-noutros, por outros, eu me compartilho inteira com quem couber nessa ciência de partilhar-se descuidando reservas – e só, porque o que sou não cabe em insuficiências, tenho essa natureza que rejeita fragmentos e restrições. Eu me compartilho, egoísta inconformada, quero-me aqui e lá e em qualquer lugar, invado e me deixo invadir numa simbiose quase bélica. Guardo nas dobras da pele os calores de outras peles e minha voz é vincada das inflexões de outras vozes mas, ainda assim, me pertenço, e somente a mim – e sendo dona de mim é que ato as rupturas níveas de solidão rasgadas na minha história, e que desato meus nós com os dedos ágeis de quem tece seus próprios caminhos ainda que às escuras, tenho destinos e sonhos riscados nas digitais. Verbo pagão vertendo alma. Sou imprevisível, não sou consensual: existo litigiosamente.
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Cary Brothers é um compositor e cantor americano de indie rock que ficou conhecido com a canção Blue Eyes, incluída na trilha sonora do filme Garden State. Suas músicas também apareceram em vários seriados como Scrubs, Grey’s Anatomy e ER. A faixa Ride faz parte do CD Who You Are (2007), do EP Waiting For Your Letter (2005) e da soundtrack do filme The Last Kiss (2006). Fica a dica.
Das verdades relativas, talvez seja essa a mais pródiga em polimentos auto-sujestionantes nem sempre condizentes com a complexidade dos fatos – ao menos com aqueles relacionados às pequenas mortes disfarçadas do dia-a-dia, dessas que nos roem os ossos com tanta sutileza que mal deixam entrever que, em pouco tempo, não haverá sobrado muita coisa para fortalecer.
Pequenas mortes são persuasivas e dissimuladas, é difícil lhes dizer “não”. Pegam-nos desprevenidos, talvez porque surjam das pequenas dores cotidianas para as quais raramente estamos preparados, tão ocupados somos sempre em nos blindar seletivamente para sofrimentos gigantescos, lancinantes. Pequenas mortes nos interceptam pelas frestas abertas em nossas frágeis armaduras de isolamento emocional e, nos espaços deixados por entre os reveses da vida, vão se entalhando, se infiltrando no inconsciente até se tornarem um estilo de viver – ou de quase-viver. Porque pequenas mortes aprisionam justamente o que caracteriza a vida em sua acepção menos fisiológica, porém mais importante: ter – ou buscar – um motivo lúcido pelo qual seguir vivendo. Pequenas mortes têm mãos geladas que nos esmorecem os ímpetos do espírito e nos fazem reféns de nosso próprio medo – medo de sentir, medo de sofrer, medo. Medo.
Pequenas mortes são paradoxais – insidiosas, morre-se de dentro para fora. Testam os limites do coração, desafiam a perseverança humana em se permitir acreditar que ainda vale a pena acreditar, mesmo sem saber exatamente em quê. Tolhem o livre arbítrio dos nossos sentimentos, porque pequenas mortes são egoisticamente racionais: se não há o que sentir, não há pelo que sofrer, e já se sofreu tanto nessa vida, qual o sentido em sofrer mais, não é mesmo? Trancamos-nos em esquifes de ceticismo indiferente e seguimos assim, no piloto automático, levando. Apenas levando. Simplesmente porque é mais fácil – embora, na verdade, o mais fácil seja indiscutivelmente o mais difícil.
E apesar de tudo algumas dessas pequenas mortes, por incrível que pareça, podem ser a tábua de salvação capaz de nos resgatar da castração emocional imposta pelo medo do sofrimento. A capacidade de sentir talvez seja a moeda mais real nesse mundo de valores a cada dia mais irreais, e alguns sofrimentos são inevitáveis e até mesmo necessários para que não nos desumanizemos por completo. São as pequenas coisas que fazem a vida doer, mas a dor existe para gritar que algo não vai bem – e, certas horas, para matar a dor, é preciso morrer com ela. E são essas, as pequenas mortes deliberadas no intuito de matar o que nos faz morrer, os ritos de passagem que proporcionam os grandes renascimentos pessoais. São essas as pequenas mortes que podem salvar uma vida – aquela vida que, muitas vezes, nem lembramos que ainda temos.
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Intervalo mais curto do que eu planejava, ok, minha força de vontade beira o negativo, mas a verdade é que eu adoro isso aqui e morri de saudade de todo mundo nesse tempinho out-blogger... muito obrigada à galera toda que me mandou e-mails de protesto e, ao mesmo tempo, de apoio e cheios de mensagens legais e de votos de boa sorte, aos que o fizeram lá no MSN e aos amigos que estão comigo independentemente das minhas loucuras, me senti muito querida!
Pra comemorar, tem postagem minha também lá no Espasmos, uma dessas histórias que só acontecem comigo, dessa vez dentro de uma agência bancária. Nos vemos por lá.
Tento me persuadir de que toda essa urgência em te alcançar, toda essa vontade do teu toque – vontade que me acelera a respiração, e me intumesce e preenche úmida a boca quando tento adivinhar o gosto do teu beijo – eu inventei. Inventei o arrepio insolente, rebelde a contenções, que me eriça cada centímetro de pele quando minha memória, desavisada, pronuncia teu nome; inventei meu corpo dolorido, tenso, ansioso por ti, e esse rosto que teima em sorrir com as tuas tolices, e esse descompasso no peito em sincronia com o sangue que lateja nas minhas veias e corre lânguido quando dizes “vem”, ou quando escancaras teus instintos. Tento me persuadir de que esse encanto que faz os meus olhos escuros se inundarem das tuas cores, essa paixão que rejeita limites, esse ímpeto de conhecer cada mínimo detalhe teu, eu inventei.
Tento me persuadir e falho, e sempre falho; ao contrário, me convenço de que meu espaço é qualquer um onde eu esteja embebida da tua saliva e dos teus olhares – e meus lábios estremecem ligeiramente, cúmplices da certeza de que tudo o que um dia foi medo é hoje vontade de estar contigo. Porque eu necessito dessa imprudência de te querer sem medida, eu necessito da doce violência dos teus desejos, eu necessito estar nas tuas mãos, pequena e entregue, entrelaçada nas tuas carícias e nos teus dedos longos, eu necessito beber gota a gota a tua presença e tatuar o teu cheiro nos timbres que vibram desse querer-te ora vertigem, ora mansidão.
Pois quer meu corpo respingue desejo ou transborde ternura eu estou sempre em ti, querido, em algum lugar fora de mim.
Soundtrack: Clap Your Hands and Say Yeah! - Let the Cool Godess Rust Away
Quando digo eu acredito, o que sai da minha boca subverte o óbvio e dá as mãos a uma pluralidade surpreendente, às vezes ininteligível, de sentidos; e entre não duvido e tenho fé cabem várias de mim, todas carregadas dos meus sotaques, e vícios, e signos, todas entrelaçadas ao que sinto cada vez que respiro fundo e me reconheço – e me recomeço.
Eu acredito pode ser calado: abraço quente de calor colado ao corpo, ou um silêncio pontuado de pequenos gestos apaziguando as exacerbações da minha alma anárquica. Eu acredito pode ser calado, nunca mudo, nem cego – pois eu acredito pode ser, também, eu vejo e eu desacredito em quem diz que não vê. Eu acredito pode ser os meus olhos cheios de riso ainda que eu chore – pois eles não se turvam e sempre brilham, e vêem através. Eu acredito pode ser eu amo, assim, um amor intransitivo. Um amor intransitivo e, apesar de uno, um amor plural, desses que desobedecem as semânticas, transcendem aforismos, rejeitam silogismos: meu amor é linguagem outra, própria.
Eu acredito pode ser eu vou – me dou o direito de não renunciar ao próximo passo. Eu acredito pode ser eu posso. Eu acredito pode ser eu quero. Eu acredito pode ser é meu. Eu acredito sou eu parada no meio da rua observando rostos desconhecidos que jamais esquecerei, sou eu rabiscando no ar as palavras que invento, sou eu aqui e ali, particulada, sem me perder de mim, sem me negligenciar ou diminuir – pois eu acredito, antes de qualquer coisa, é sempre eu acredito em mim. Eu acredito sou eu cansada, ferida, coberta de receios, às voltas com meus descontroles, e cruzes, e monstros, mas de pé. Eu acredito pode ser – e invariavelmente é – eu vivo. E, seja como for, eu acredito.
- Oi. Quem fala? - Quer falar com quem? - Quem é? - Olha, você me ligou. Quer falar com quem? - Com você. - E quem é você? - Não vale a pena dizer. Só queria falar com alguém. Com você. - Ok, já falou. Até mais. - Não desl...
O telefone voltou a tocar, olhei: novamente, número não identificado. Não atendi. Precisava terminar de escrever aquele romance, protelado há semanas – meio por bloqueio criativo, meio por uma vergonhosa e irresistível preguiça. A chuva forte despencando do lado de fora era um convite tentador ao ócio; o telefone, se esgoelando sem parar, ajudava a tirar o pouco de concentração que me restava. Depois da enésima ligação atendi, contrariadíssima, e não disse nada. Esperei. Ele falava em voz baixa e, dessa vez, parecia meio constrangido pela insistência.
- Desculpa. Você não me conhece, eu não te conheço. Disquei ao acaso, você atendeu. Preciso falar com você, por favor, não desliga. Vou me matar daqui a pouco e preciso conversar com alguém.
Ótimo. Um lunático na minha linha no meio da madrugada. Na melhor das hipóteses, um desocupado. Passada a surpresa do primeiro instante e cumprido o inevitável caminho susto-perplexidade-indignação-só-me-faltava-essa, respondi com meu habitual respeito pelas duas condições:
- Você bebeu? - Pareço bêbado? - Ok. Você cheirou? Sem ofensas.
Ele riu.
- Você é sempre assim? - Assim? - Assim, meio sarcástica. Sem ofensas. - Ah, não, não. Só quando desconhecidos com idéias suicidas me telefonam no meio da noite. Sabe como é, instinto. - Você parece ser legal. - Você fala demais para quem vai se matar. - Quantos suicidas conhece? Quero dizer, conheceu? - Nenhum. - Como pode saber se falam muito ou se falam pouco? - Como posso saber se vai mesmo se matar ou se é um esquizofrênico a fim de “suicidar” o próprio tédio e a minha noite também?
Silêncio. Do lado de fora, só chuva. Silêncio e chuva, ambos caudalosos. Quase desliguei, ele tornou a falar.
- O que é a vida para você? - O que é a morte para você? - Perguntei primeiro. - Tanta coisa. Nascer, crescer, reproduzir, passando por todos os intermediários, talvez. - Dá pra ser mais clara? - Comer, beber, beijar, brigar, ter dor de barriga, arrumar um emprego, pagar contas. Cair da goiabeira e ficar com uma cicatriz no joelho, sexo por amor, sexo sem amor, fazer dieta, sabotar a dieta, tomar uma cerveja gelada num dia quente, tanta coisa, tanto faz, eu não sei. Não interessa o que é a vida para mim. Interessa o que é a vida para você. É VOCÊ quem quer se matar. - Não quero. Vou. - Ok, é você quem VAI se matar. - Isso.
Silêncio. Para mim ainda parecia um trote mas, de repente, começou a me incomodar MESMO a possibilidade de que aquele sujeito fosse realmente se suicidar. Não sei se o incômodo era saldo da proximidade da vida ou da morte dele; o fato é que de repente aquilo tudo ficou muito desconfortável, principalmente porque eu não fazia idéia de quem era o fulano que me escolhera como ouvinte das suas – até prova em contrário – últimas palavras. Ele parecia tão próximo. Talvez estivesse esperando que eu dissesse “não faça isso” ou coisa parecida, ou algum tipo de discurso sobre como a vida é bela e a morte é negra, mas o insólito da situação tirara de órbita minha capacidade de raciocínio lógico. Ainda assim, foi minha vez de quebrar o gelo.
- E afinal, vai se matar por quê? - Pensei que não fosse perguntar. - Não ia. Perguntei porque acabou o assunto. - E por que não desligou? - Prefere que desligue? - Você é estranha. - Você ainda não viu nada. - Não vejo sentido em continuar vivendo. - Hã? - Não vejo sentido em continuar vivendo. - Isso é clichê. Não acredito que vai se matar por um clichê. - A vida é um clichê. - Não acredito que vai se matar por um clichê. - No que você acredita? - Agora? Acredito que você deve estar doidão. - Não me mataria se estivesse doidão. Poderia me arrepender depois. - É, poderia. - Sua voz é bonita. Você deve ser bonita. Já pensou em se matar? - A bola da vez é a sua morte, não a minha. - Pensou, não pensou? - Sei lá, todo mundo pensa nisso uma vez na vida. - Por que não se matou? - Porque não queria morrer de verdade. E acho que você também não quer. Quem quer morrer não fica de conversa fiada ao telefone. - Uma contradição. - Quê? - A vida. É uma contradição. A gente nunca sabe mesmo quando está vivo e quando já está morto. - Não prefere falar de amenidades? Sei lá, filmes. Batman. Você viu Batman? - Não gosta de falar disso, não é? - Estou tentando te distrair. Sei lá, pra você ter uma pré-morte mais legal. Aliás, como pretende, desculpe, como vai se matar? - Você vai saber. Leia os jornais amanhã. - Por que me ligou, afinal? - Precisava falar com alguém. Fico feliz que tenha sido você. Se não fosse me matar, te convidaria para um cinema. Ou para uma cerveja. Enfim, fica para a próxima. Vou nessa, se cuide. Obrigado pela conversa.
Ele desligou. Só ele: eu fiquei subitamente atônita, com o telefone na mão. Não podia retornar a ligação, não podia nada a não ser esperar. Esperar. Esperar. Esperar. A madrugada passou lenta, se arrastando, eu rolando na cama, com o telefone na mão. Sempre com o telefone na mão. No dia seguinte devorei os noticiários e jornais em busca de algum sinal: nada. Uma semana mais tarde encontraram o corpo de um homem boiando no rio, sem marcas de violência ou qualquer outro indicativo de homicídio – segundo as informações, provavelmente o homem se suicidada. Não me contive: chorei. Depois disso a vida quase voltou ao normal. Quase, pois eu não conseguia esquecer o telefonema nem me convencer de que, mesmo que quisesse, eu não poderia ter impedido – cada pessoa segue seu próprio destino: o meu era atender a um telefonema, o dele terminara naquele leito de rio. “Você parece legal”, eu me sentia péssima, de qualquer jeito.
Voltei a trabalhar no romance e tentei esquecer o episódio, embora volta e meia ele me voltasse à memória. E, numa noite em que as nuvens anunciavam uma chuva tão torrencial quanto à da noite em que ele telefonara, ouvi o toque insistente da campainha. “Algum chato”, pensei, enquanto me encaminhava para a porta e espiava através do olho mágico. Não havia ninguém. Entreabri a porta com cuidado e olhei através da pequena fresta: nada, a não ser um pequeno envelope pardo depositado sobre o batente da porta. Apanhei-o e me tranquei em casa novamente e, ainda de pé junto à entrada, rasguei uma das bordas, verifiquei o conteúdo e senti o coração bater de alívio e de felicidade – como tinha me encontrado? Não importava: eram duas entradas para o cinema, a última sessão daquela noite. E um bilhete: “desculpe, foi engano.”
"Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, não podemos voltar."
(F. Kafka)
Soundtrack: Beck - Chemtrails
Quero aquela dose de impaciência há tanto tempo relegada em nome de uma pretensa e discutível sobriedade. Pura, sem gelo. Amarga. Concentrada e envelhecida. Ácida, de uma acidez áspera e transgressora, dessas que inundam a garganta abruptamente sem lhe dar chance de recusa. Dessas que subvertem as boas maneiras e enxovalham as mesuras nascidas no ambiente duvidoso de uma serenidade já desbotada. Aquela dose, pura e sem gelo, aquela dose cujo sabor é o da minha boca hostil à constrangedora vulgaridade das palavras cuidadosamente pensadas. Então sente-se aí, e brinde, e beba comigo e não me estranhe a súbita vontade – que hoje também o dia nasceu estranho e é provável que sempre tenha sido assim e que sua verdade me tenha sido negada por estes olhos completamente bons, livres do filtro venenoso da fúria, e quem saberá dizer se estes olhos ainda são os mesmos que vermelhos e ligeiramente turvos me obscurecem o rosto. Sente-se, e beba. E veja, não é realmente estranho perceber que as coisas sempre foram como jamais ousaram ter sido?
E veja, não é realmente estranho? Esta abdicação súbita das incorrupções há pouco fervorosamente praticadas. Esta senescência das ingenuidades, estas nodosas incoerções, esta devastadora incongruência entre o real e o crido. Olhos completamente bons agora vermelhos e ligeiramente turvos por uma indiferença furtiva, que a indiferença usualmente se oculta sob a máscara das paixões pródigas. E compreenda, não é descrença ou embrutecimento ou sequer desesperança, é apenas e paradoxalmente um pouco mais de complacência para com as minhas imperfeições, e as suas, e as de tantos, então sente-se e brinde e beba comigo esta dose pura e sem gelo de impaciência tão necessária, num último ato de contrição.
Transcrição de um breve diálogo passado no interior de um automóvel entre 12 e 13h de um dia deveras escaldante no trânsito caótico de uma capital do norte do país, entre os personagens por hora identificados como O Caozeiro e A Caozável, respectivamente.
O Caozeiro: Que som é esse?
A Caozável: Peter, Bjorn and John.
O Caozeiro: Não tem The Who?
A Caozável: Noup.
O Caozeiro: Cadê o Led?
A Caozável: Deixei em casa. Desde quando você ouve Led?
O Caozeiro: Desde sempre, ué.
A Caozável: Sempre é muito tempo, cara. E você nem existe há tanto tempo assim.
O Caozeiro: Hahaha. Não vi a graça.
Breve silêncio. Brevíssimo.
O Caozeiro: Por que não trouxe Who e Led?
A Caozável: Nada demais, só não lembrei. Pode mudar se quiser.
O Caozeiro: Tudo bem, deixa rolar o Peter Bjorhahuhohae.
Pausa reflexiva.
O Caozeiro: Não lembrou de trazer Who e Led?
A Caozável: Ninguém é perfeito.
O Caozeiro: A Análise é perfeita. ("Análise": codinome dado pelo Caozeiro a uma menininha, depois de descobrir que "analisar" significa "examinar detalhadamente, parte a parte")
A Caozável: A Análise ainda nem tem peito, guri.
O Caozeiro: Ela tem peito sim. Só que não dá pra comparar o peito dela com o seu. Você é muito mais velha que ela.
A Caozável: Ei, garotinho, aprende uma coisa básica. Não se diz pra uma mulher que ela é muito mais velha que outra; se diz que ela é mais experiente, mais madura, mais qualquer coisa que não seja “velha”.
O Caozeiro: Por que?
A Caozável: Eufemismo.
O Caozeiro: Que é eufeminismo?
A Caozável: EU-FE-MIS-MO. É quando a gente diz alguma coisa de um jeito sutil. Tipo trocar “velho” por “pessoa de idade”, “feio” por “simpático”, “gordo” por “forte” ou “fofinho” e por aí vai.
O Caozeiro: Se eu te chamar de pessoa de idade?
A Caozável: Aí não é eufemismo, é sacanagem.
O Caozeiro: Rá.
A Caozável: Humpf.
O Caozeiro: Viu o desenho que te deixei em cima da cama hoje de manhã?
A Caozável: Vi. Tá pronto?
O Caozeiro: Quase. Faltam uns retoques só.
A Caozável: Por que os olhos são tão grandes?
O Caozeiro: É um mangá. Tem que ser grande.
A Caozável: Sim, ok. É “saponeiz”, certo?
O Caozeiro: Certo.
A Caozável: “Saponeiz” tem olho puxado. Olhinho. Por que no mangá eles têm o olhão?
O Caozeiro: Que é que você entende de mangá?
A Caozável: O mesmo que entendo da plantação de nabos brancos do Afeganistão: nada. Por isso a pergunta.
O Caozeiro: Não sei. Mas nada a ver. Olha você: os seus olhos são puxados e são grandes.
A Caozável: Aff, agora sou olhuda e peituda.
O Caozeiro: Não disse isso. Disse que você é igual a um mangá.
A Caozável: Olhuda e peituda.
O Caozeiro: Tá, pode ser, também. Mas isso não é ruim. Não complique as coisas. Eu gosto de mangás. Aquele desenho parece com você. e você parece mesmo um mangá, mas as mulheres são bonitas nos mangás. E o desenho ficou bonito, né?
A Caozável: Né. Ficou bem bonito mesmo.
O Caozeiro: Viu? Mangá foi um EU-FE-MIS-MO.
A Caozável: ?
O Caozeiro: Eu quis dizer que você é muito bonita.
A Caozável: eu. O Caozeiro: meu irmão, 12 anos, 7ª série, desenhista, aprendiz de quadrinhista, projeto de web master, filho caçula, único rebento varão da família e indiscutivelmente o mais talentoso da estirpe Brito – nem saiu dos cueiros e já mostra a perigosa e inata habilidade de amolecer indivíduos nascidos sob o determinismo dos cromossomos XX.
Mais quinze minutinhos extra de quase-sono, que o quentinho da cama a essa hora da manhã tem visgo. Um pulo rápido para vencer a inércia, banho frio para espantar a preguiça, dentes escovados, floss, hidratante, tratamento de pele, perfume, filtro solar, rímel, gloss, a leveza florida do vestido cobrindo o corpo que aos poucos entende que o dia começou, cabelo úmido e solto riscando no ar um cheiro bom. Iogurte light de morango, procuro as chaves, não as encontro, procuro as chaves, as encontro na ignição. A benção, mãe, “Deus te abençoe”. Partida. Trânsito.
Calor – que o sol nunca se esquece a que veio nessa cidade. Sinal vermelho, aberto para o menino vendendo balas de goma promoção-leva-quatro-paga-três, Lynard Skynard, be a simple kind of man abafando a histeria das buzinas. Sinal verde, aberto para o trânsito que não anda, não a essa hora; a essa hora tem visgo o asfalto quente lavado de gasolina e pressa. Trabalho. Jaleco branco com cheiro de amaciante de roupas, bom dia Nélio, bom dia Sônia, bom dia Dagmar. Hipertensão. Diabetes. Lúpus. Verminose, esse menino não come nada, queria que a senhora passasse aí uma vitamina. Gravidez – ela que já tem um piá e metade dos meus anos, eu que mal entrei nos trinta. Bebês, muitos bebês. Ácido fólico, omeprazol, pamoato de pirantel, captopril, salbutamol, prednisona, praziquantel, vitamina C, complexo B, amoxacilina 500mg de oito em oito horas sem pular dia nem dose ou os bichinhos não morrem. Exame de sangue, fezes, urina, encaminhamento para o especialista, telefonema para o Doutor Fulano barganhando uma ultra-sonografia na camaradagem porque o neném não pode esperar, vai nascer no mês que vem. Almoço.
Visitas domiciliares e tomo café passado na hora com bolinhos-de-chuva na casa da senhora idosa que cuida dos netos e do marido também idoso que sofreu um AVC no mês passado, e que ainda assim sorri e me chama de menina. Outra casa e ganho um abraço e uma flor imaginária, e bebo água gelada, e como jambos frescos cuja brancura macia me adoça a boca e mais ainda a alma – que a pobreza é coisa tão pequena quando o coração se apraz em dividir. E parto levando a flor que uma mãozinha morena me ajeitou com capricho nos cabelos para que eu ficasse bonita. Trânsito. E a chuva chegando, se insinuando entre as folhas das mangueiras e virando água por todos os lados nessa cidade que se banha todas as tardes.
Consultório médico. A paciente: eu. A impaciente: idem. Ainda bem que o tempo voa. Trânsito.
Pit stop no supermercado mais próximo. Missão: comprar ração para o gato branco. Um dia descubro o motivo de o saco de ração invariavelmente terminar nesses dias de apenas vinte horas.
Curso preparatório. Questões freqüentes em provas de residência. Vasculites, colecistite, pericardite, hepatite, meningite, episclerite, artrite, ite, ite, ite, os olhos fechando, os olhos abrindo, ite, ite, ite, coca-cola zero e sanduíche de peru. Ite, ite, ite. Trânsito.
Casa. Comida. Roupa lavada. O gato branco se aproximando naquele passo ronronante de gato, lhe dou comida e ele me dá um miado de satisfação e desliza o corpo por entre as minhas pernas, feliz. Banho frio para espantar o cansaço, dentes escovados, floss, hidratante, tratamento de pele, cara limpa, cabelo úmido e solto riscando no ar um cheiro bom. E penso em como seria perfeito poder dormir com as janelas abertas nessa cidade onde o sol nunca esquece a que veio e que se banha todas as tardes, e observo com carinho a flor imaginária repousada em seu vaso tão imaginário quanto.
E nem sei se foi a flor, ou o abraço, ou a mãozinha morena, ou a senhora idosa com seus netos e seu marido também idoso, ou a gentileza do Doutor Fulano, ou o gosto dos jambos e dos bolinhos-de-chuva, ou a carícia ronronante do gato branco, ou se foi ou justamente o que não percebi que me atingiu em cheio e me trespassou o peito como o cheiro das cores dessa cidade... o que sei é que foi um dia bom, boa noite, a benção, mãe, “Deus te abençoe” e alguns minutinhos extra de quase-sono, que o quentinho da cama a essa hora da noite tem visgo.
Blog no ar outra vez, galera. E tem atualização lá no Espasmos, com direito a votação. Não poderíamos ficar de fora desse clima de eleições, né? Beijos!
Nada mais havia. O mundo era, então, aquele: o que eu jamais vira, e sempre estivera ali, finalmente se impunha diante de mim transfigurado no reflexo dos meus olhos. Eram os meus pés pisando a leveza daquele espaço cheirando a passado e terra molhada, fertilizada de chuva e de sonhos iminentes nas pontas dos dedos. O mundo era, então, aquele – e nele entranhei minhas raízes e quis, como as árvores que, de braços estendidos, ofereciam à eternidade do céu matizado de mormaço e quase-chuva a verdura dos cabelos, desfazer-me em cores e ressurgir seiva, fruto, Tempo repousando o cansaço do corpo sobre a graníticasinuosidade do velho banco de pedra, esquecido do fardo de ser Tempo. Oferecer meu rosto a cada pequenino diamante de água a escorrer, impune, além da matéria bruta das emoções empedernidas. Mais, muito mais que ver, eu quereria ser. Nada mais havia. O mundo era, tão somente, sons – e meu espírito escorava-se no seu timbre lúdico, harmonizado com o ritmo lânguido e compassado das pálpebras cerradas daquela tarde morna, absorvida em serenidade inviolada. O mundo era não mais que ali: pedras, chão, cores, silêncio e o misterioso sopro de vida a me possuir, gentil, todos os sentidos. E eu, que tanto quereria ser aquele mundo, inteiro recolhido nos meus olhos, enfim me reconheci parte dele – uma vez que o descobrira, definitiva e inquestionavelmente, imiscuído na palma das minhas mãos.
*Quem curte Belle & Sebastian e ainda não conhece The Gentle Waves não deixe de dar um play na música. A banda é um projeto paralelo da vocalista do B&S, Isobel Campbell, e mistura várias influências musicais - inclusive a brasileiríssima bossa nova. O resultado é surpreendente. Fica a dica ;)
Hoje acordei semvontade de trocar as flores na janela. Vejo-as murchar e perder o viço, percebo seu olhar quase como um clamor; ainda assim, permaneço impassível diante da vida que lentamente se esvai diante de mim.
O jardim está cheio de mato, o verde daninho se confundindo com os amarelos, azuis, carmins e violetas que, um dia, fizemos germinar com o calor de nossas mãos. Há beleza mesmo nessa desordem – a mesma desordem que se insinua no meu espírito como um ladrão à noite desde que seu sorriso se transformou em simples e desconcertante lembrança. É a primeira primavera sem borboletas. E, dentro de mim, esse inverno teimoso e interminável me gela a alma.
Desta janela posso observar as roseiras. Não há mais perfume; o aroma fresco e inebriante, aquele aroma adocicado que nos arrebatava para além de nossos sentidos, se foi. Resta um rubor pálido nas pétalas ressequidas pela tua ausência. Teu olhar contemplativo, tua inquietude, tua melancolia adoravelmente única eram o orvalho fértil que as fecundava de amor.
Os espaços parecem multiplicados por dez, por mil. Meu corpo é como um templo vazio: belo, suntuoso, de existência inútil diante do não te haver a me habitar. Que faço com todas as horas, e sonhos, e tesouros que guardei para ti? Que faço com esse jardim que era teu muito mais do que meu, visto que cada botão de flor era nada mais que um sorriso teu a brotar em mim, eu, que sempre fui terra sequiosa de tuas sementes?
Não irei à tua procura. Tampouco espero que retornes. És agora como a sensação leve e palatável de um delírio. És agora minha contradição, minha ausência mais presente, a realidade perfeita como um sonho, o sonho imperfeito como a realidade. As flores na janela, o jardim, a primavera, as borboletas, o inverno, o inverno, o inverno.Não espero teu retorno. Apenas espero.
Publicado originalmente no extinto blog Cotidianidades em setembro de 2007. Ficção. Eu-lírico, gente, só ;)
Seria um dia como todos os outros, mas foi meu dia de arrumar a casa.
Pó e teias de aranha subjugavam todos os meus cantos. Tralhas inúteis acumuladas a perder de vista, engolindo as portas com voracidade, a obstruir implacáveis minhas já débeis ousadias de enxergar que sim, que havia mundo além de mim... um colorido indefinível e carcomido era o triste estado das minhas paredes; ocupando por inteiro a solidão dos meus cômodos, o ar pesado, quente e sufocante que há tanto tempo alimentava meus pulmões.
Mas era meu dia de arrumar a casa. E meu peito se encheu de uma compaixão arrependida, ao ver que ainda havia beleza jazendo sob os destroços do que um dia fora segurança e aconchego. E eu, outrora tão alheia e negligente, não mais conseguia sequer cogitar a idéia de abandoná-la, e percebi, em meio àquela desordem completa e descabida, que era chegado o momento de enfrentar o caos.
Penosa me foi a tarefa de recolher cacos e bugigangas, amontoados que estavam por todos os lados. Esvaziei os armários não sem dificuldade; me desfiz de meu velho e pesado baú de memórias, repleto de mágoas, insensatezes, rancores, frustrações – alguns tão antigos que nem me recordava ainda estarem ali. Feri-me, é verdade, fiz calos nas mãos; contudo, a despeito do corpo alquebrado, sorvi a certeza de me saber mais leve.
Vasculhei todos os cantos em busca de pó e teias de aranha, e vi os raios de sol entrarem tímidos, porém festivos e resolutos, através das frestas diminutas que se revelavam diante da claridade tão desejada e enfim presente. E restaurei minhas paredes rotas, gastas, e as vi ressurgirem vibrantes, imponentes, refletidas com todos os tons que se irradiavam de minhas cores nascentes. E, em um arroubo, abri todas as portas e janelas, e respirei profundamente a pureza do ar que havia banido demim, e que agora me invadia com a benevolência lépida e impetuosa de uma correnteza.
Arranquei sem piedade as ervas daninhas que se haviam multiplicado junto aos meus muros. E até esses fiz virem abaixo – pois para coisa alguma jamais serviram tais muros, afinal. Replantei meu jardim em um pedaço de terra que, de tão esquecido, virara terreno baldio – mas que, embora ignorado, recebeu minhas sementes e as germinou com amor de ventre materno. E me aninhei naquela terra, e a senti cálida e amorosa, e vi como era bonito o nascer dos girassóis... e chorei todas as lágrimas felizes e serenas que havia guardado sem saber para quê, e vi essas gotas de mim serem chuva fecunda para o novo universo que despontava diante dos meus olhos.
E embebida de um cansaço feliz repousei placidamente o corpo sobre aquele chão tão deliciosamente meu, e me deixei ficar a apreciar minha obra, e me permiti ser parte de tudo o que havia brotado da labuta de minha alma.Pois fora meu dia de arrumar a casa. E, enfim, era doce e reconfortante me sentir habitável.
Quando o dia lhe sorriu, ela soube: era chegado o tempo de colher nos lábios o gosto das risadas semeadas durante as longas noites adormecidas em silêncio. Abriu os olhos, cravou os sonhos na palma das mãos abertas para acariciar a manhã. Esqueceu-se das beligerâncias; as casmurrices, as trancou na gaveta de miudezas sem uso e jogou a chave fora. E o riso saiu lépido, batendo portas e escancarando janelas, agitando os varais, pendurando-se nos cílios e nos cantos da boca úmida de acordes inventados.
Enfeitou-se de olhares de seda e voz de veludo, descalçou os pés e os motivos para pisar macio as rotas do pensamento. Misturou-se às gotas de música que sapateavam em passos desmanchados sobre os braços abertos, ofereceu o rosto à vontade mais próxima, fez-se oceano de compassos – seus, inéditos, vibrando no ritmo daquele corpo quente embalado de cor.
Despediu-se das velhas lembranças com um beijo de gratidão, abraçou-se às notas nascentes no seu coração de gente-quase-nuvem e desceu a rua, bailante por dentro, ao som do sol que girava vermelho na sua saia rodada - ouvinte de cores, amante dos próximos passos, as pernas prenhes de estrada. Sem “entretantos”, que a volta é caminho sem ida; era acordada que sonhava.
E hoje tem novidade no Espasmos de Riso! Tem a estréia do novo layout e, como não poderia deixar de ser, um post da Anne explicando o porquê dessa mudança. Esperamos vocês por lá para um café fresquinho na casinha reformada, acompanhado de boas gargalhadas!
Deitou seu corpo pequeno de mulher sobre a cama atapetada de roupas despidas e lembranças úmidas, desprovidas de pudor ou culpa. De olhos fechados, deixou-se acariciar pelo cheiro dele, cheiro que ficara fresco, atrevido, nas suas pernas e braços, transfigurado em dedos, e afagos, e lábios... o beijo foi inevitável, a língua seguiu tácita e desimpedida tecendo rastros sobre a quentura da pele já ferida de vontades, indo segredar seu gosto rubro em orelhas e boca e nas sinuosidades ofegantes da respiração entrecortada pelas palavras nascidas naquele silêncio de comunhão.
Ele a chamara furacão, ela era brisa se desmanchando naquele peito de ausência tão presente. E havia a necessidade veemente e imediata de se entregar à urgência do corpo que emergia da quietude da noite para, incontido e crescente, apossar-se do seu. Havia a necessidade, e ela não se opôs às mãos imaginárias que vorazes a alcançavam inteira, nem se furtou ao seu ímpeto; ao torpor daquela fúria doce submeteu-se obediente, lânguida, as pernas se entreabrindo submissas, caminho e destino que eram do seu desejo.
Ele a fez sua num possuir de corpo todo, entre membros confundidos e a agonia de prazeres entrelaçados. Exausto, tomou-a nos braços, lhe acariciou o ventre com os dedos ainda trêmulos; a qualquer-coisa dita ao ouvido num sussurrado preguiçoso a fez sorrir. Então aconchegou-se-lhe ao seio e retornou para aquele peito inteiro morada sua. Ela virou-se de lado, se abraçou espreguiçante ao travesseiro e adormeceu. Um beijo invisível lhe veio pousar sobre o suor tranqüilo da face.
Eu sou aquilo que o mundo não vê. Um rosário de brigas compradas, um calhamaço de papéis rabiscados com palavras inventadas, a mensagem na garrafa vagando ao sabor dos caprichos de um mar revolto. Eu sou o mar.
Minhas carnes já não convulsionam diante da dor. A dor é corrosiva, mas necessária – consome, mas alimenta; revolta, mas, por vezes, conforta; implode minhas forças e desatina meus sentidos, mas é da dor que nasce a beleza mais pura, a beleza inimaginável na qual me refugio, na qual busco a matéria de meus sonhos e anseios impronunciáveis, beleza diante da qual me prostro humilde e confessa de meus segredos.
O peso sobre meus ombros me faz cair de joelhos; feneço, me fragmento em incontáveis pedaços, me imolo em sacrifício na pira sagrada e imaginária de minhas verdades relativas – e me redescubro em meio às minhas próprias cinzas, maior, mais forte, mais urgente. Eu sou assim, fênix, meu ponto de partida e de chegada. E meus anseios todos me levam a respirar na superfície tempestuosa de mim mesma.
Eu sou assim, particulada e inteira, enigma e resposta, idas e vindas, vida que anda em círculos na linha reta traçada entre os vértices do infinito. Atemporal, adimensional, de imprecisão incalculavelmente exata. O olho do furacão, o desfiladeiro, o oásis, o estar, o buscar. E me perco em minhas entrelinhas, audaciosa e voluntariamente, leve e tênue, porque nelas sou também o meu reencontro.
de vibração em vibração, sobe do vago ao apogeu. "
(D. H. Lawrence em O Amante de Lady Chatterley)
Ao som de Elliot Smith - Between the Bars
Quando aqueles dedos entrelaçaram-se nos seus cabelos – a princípio hesitantes, confusos, quase a desculparem-se pela invasão súbita e deliciosamente não resistida – o corpo todo estremeceu esparramado em êxtase, macio, como os fios a se impregnarem do cheiro amadeirado daquela mão poderosa; a cabeça, surpreendida pela repentina sensação de repousar nos braços de tão suave toque, derreou-se mais e mais sobre a languidez encantada daquela carícia inesperada.
Permitiu-se encontrar, submissa, pelo dedilhar deslizante a lhe buscar, vez ou outra, os ombros displicentemente resguardados pelo tecido fino da blusa, já completamente entregue à mão que escorregava, sorrateira, enrubescida por ousadia crescente, para a confluência de seus desejos. A cabeleira vasta, densa, assim tão subitamente penetrada, espreguiçada inteira sobre a pele pulsante do outro, ávida daquele contato tão novo e, a despeito disso, tão irracionalmente vital, derramava-se obediente e desapressada por sobre o encosto encarnado da poltrona, rasgando o espaço como um par de olhos em súplica. Nem viu-lhe o rosto, nem viu-se em outro instante a não ser na palma da mão daquele carinho-posse, posse-carinho, corpo e coração sabendo o que era, razão não querendo saber, sintonizada no desalinho dos cabelos dançantes naqueles dedos como encaracolada e castanha ventania.
Deixou-se ficar ali, soçobrante no carinho genuíno e intenso, voluntariamente subjugada pela intimidade despretensiosa nascida de tão simples gesto; até que, em um movimento imprevisível de audácia involuntária, não mais que um dedo pousou-lhe beijo leve na nuca – e o arrepio que se seguiu a esse sutil contato lhe abraçou o corpo inteiro de forma tão violenta, que os músculos todos se contraíram em um espasmo único de indescritível prazer, e os olhos se fecharam umedecidos de larga e confessa ternura. Virou-se em vontade, e vontade tamanha que se impôs sobre a lógica: ali permaneceu sonho interminado, dona de um universo particular e conhecido apenas seu, carícia jamais se desfazendo, olhos jamais se abrindo, sentimento todo do mundo nela enredado, fio a fio atados no sempre, e quem dirá que existe o sempre. E quem dirá que não existe.