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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Carta Para Minha Mãe

"Te guardei nove meses dentro de mim.
Te desejei... te planejei... e, enfim, você chegou.
Te vejo nos teus dez anos de idade e vejo agora
que meu sonho é uma doce, bela realidade:
sou sua mãe.
E te desejo um futuro num mundo melhor,
onde os homens se amem bem mais e
onde você também tenha direito ao seu espaço,
onde você possa ser feliz
com suas esperanças e realizações.
Seja feliz, minha filha.
Todo amor de sua mãe,
Graça Brito. "


Escrito pela minha minha mãe há 20 anos
numa página de diário que me acompanha vida afora,
porque carrego o amor como amuleto.


Soudtrack: Elis - Como Nossos Pais

Oi, mãe.

Não se preocupe comigo, cheguei bem. A viagem foi longa e cansativa, mas você conhece a sua filha e sabe que ela aguenta qualquer tranco, a sua filha aprendeu direitinho as lições que você ensinou – a sua filha só não aprendeu ainda a contar moedas e a não aceitar doces de estranhos mas um dia, quem sabe, ela aprende.

Eu juro que estou me alimentando direito e cuidando de mim e das minhas coisas como você recomendou, você ficaria orgulhosa de me ver, tenho certeza, nem pareço aquela coisica destrambelhada que só não largava a cabeça pelo meio da casa porque está grudada no pescoço, e que esquecia de comer e trocava o dia pela noite, agora até dormir eu durmo. E vou lhe dizer uma coisa, a senhora deve ter muito prestígio lá com Deus: ficaria feliz em ver o quanto estou sendo bem tratada, as pessoas todas são muito gentis e me ajudam de um jeito que só você vendo mesmo, mãe, contando ninguém acredita, mas eu digo pra você, eu sei que cada uma dessas mãos que me afaga é você cuidando de mim. Eu sei. Eu sinto, eu sinto você aqui comigo, mãe, segurando a minha mão pelas ruas dessa cidade linda. Aqui é lindo, mas aí é muito mais bonito e sabe por quê? Porque aí tem você, e eu sinto tanta falta de olhar para o seu rosto miúdo, mãe, eu sinto tanta falta, e nessas horas eu percebo o quanto estou longe de casa e quase me desespero e não consigo não chorar, e me sinto tão, tão pequena. Eu sinto falta do seu radinho ligado todas as manhãs e do pleque-pleque-pleque macio e ritmado dos seus chinelos, do seu cheirinho bom de lavanda, mãe, e até das coisas que eu pensava que não gostava mas que descobri que fazem parte do amor imenso que eu carrego por você nesse peito meu que é chão de fazer amor crescer. Eu me sinto tão pequena, mas aí eu me lembro do quanto você é grande e entendo que não posso ser pequena sendo você gigante assim, e é quando crio forças pra me agigantar também.

E há tanta coisa ainda que eu queria dizer, mãe, mas você conhece a sua filha: sabe que ela, nessas horas, tropeça nos próprios sentimentos e o que deveria ser palavra vira uma boca muda e dois olhos úmidos, eu queria mesmo te abraçar e aí, eu sei, você entenderia tudo que eu estou sentindo. Mas não se preocupe, a sua filha está bem e feliz, e cheia de novidades e surpresas, e de histórias também. Eu já conheço muita gente, você sabe, eu falo muito, e o trabalho é tão bom que nem vejo o tempo passar, e aqui é bem diferente, mas veja só!, é ao mesmo tempo tão parecido com a nossa cidade... e tomei chimarrão e comi umas coisas que não sei o nome, mas vou descobrir pra lhe contar. Essa é uma fase de descobertas, mãe, e você sabe: a sua filha não tem medo de nada e aguenta qualquer tranco. Ainda não sei se esse aqui é o meu lugar, mas sei que algo me trouxe para essa terra e eu preciso descobrir por quê, e é por isso que eu não vou voltar, mãe. Eu vou ficar aqui, mas cada dia que estiver aqui eu vou estar aí também. Porque o mundo é grande, mãe, mas eu sou maior.

A benção, mãezinha. Amo você.

Todos os beijos do mundo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Acordes

Tuns e tás, blins e blens.

Soundtrack: Lucas Santana - Mensagem de Amor



Tu, longe, tão longe. E há um violão desafinado aqui, ao meu lado.

Arrisco um acorde, ouço meu coração que bate meio rock, meio bossa, meio qualquer coisa assim sem jeito, meio sem saber o que fazer com as mãos – e minhas mãos transpiram, suam frias, escorregam macias e sem pressa entre tantos tuns e tás e blens e blins, quase toco teu rosto com esses meus dedos úmidos desajeitados. Há um beijo tímido na ponta do meu indicador, leva contigo; é teu, e todos os outros que por descuido ficaram por aqui, nos dedos, nos lábios ou na intenção. Arrisco um acorde, blins e blens, as cordas riscam na minha pele as notas do teu nome; eu me deito sobre esse leito de sons, acorde-me para os teus sonhos. As notas que vibram nesse espaço vêm do meu desejo pelo teu ritmo, abre os braços, sentes? É a minha respiração repousada na tua, suave, feito canção que espera para nascer. Dedos úmidos desajeitados, meus, escorrego macia entre os teus tantos; vem. Tuns e tás, blens e blins, meio-rock-meio-bossa, coração, eu assim meio sem jeito – descompassada, ora aguda ora grave, ora certa ora inversa, blins e blens, ouves? Eu te amo.