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sábado, 5 de novembro de 2016

o controle remoto do ar condicionado

fonte: Google (autoria desconhecida)

            O mundo é pródigo em lugares misteriosos. A colônia de Roanorke. O lago Angikuni. O rio Azul, na China. Quem nunca estremeceu ao ouvir falar, por exemplo, no Triângulo das Bermudas? O mais intrigante, entre todos eles, tem como principal característica fazer as coisas desaparecerem e reaparecerem em datas e locais inesperados – e nisso consiste sua alta periculosidade – e se localiza em território brasileiro, mais especificamente em território paranaense: o buraco negro da minha casa, que já tragou de tudo um pouco e teve como última vítima o controle remoto do ar condicionado.

            Há algumas semanas, aproveitando uma frente fria que baniu temporariamente o calor insano típico do final do ano, meu marido e eu resolvemos fazer um faxinão em casa. Arruma daqui, limpa dali, esvazia acolá, ao fim do dia tínhamos a casa brilhando, todos os músculos e articulações doendo, alguns itens para doação e cinco sacolas imensas de lixo para descarte (eliminamos tantas inutilidades que, ao término do trabalho, era possível ouvir um eco estranho reverberando pelos cômodos, que não sei dizer se desapareceu ou se nos acostumamos com ele). A sensação de dever cumprido era tão boa quanto a de uma massagem nas nossas costas destruídas.

            Frentes frias são como paixões na adolescência: vêm e vão. Interrompidos por um temporal, os dias amenos foram substituídos por outros cada vez mais secos e abafados. Consigo tolerar o calor durante o dia, mas minha ideia de um limbo espiritual pós-morte inclui dormir suada, grudenta e com mosquitos em redor do meu desditoso corpo pelo resto da eternidade. Meu marido, por conta de uma rinite alérgica, não é adepto do uso constante de ar-condicionado; chegou, porém, o inevitável momento em que até ele concordou em pedir uma mãozinha à tecnologia para driblar o imenso desconforto causado pelo mormaço. Vamos ligar, pois, o ar condicionado. Mas, ei, cadê o controle remoto?

            Procuramos em todos os lugares: nas caixas de brinquedos das crianças, nos armários, atrás dos livros da estante, sob as camas, em cada bolsa/mala/mochila, na geladeira (houve um episódio em que o buraco negro sumiu com meu smartphone e o fez ressurgir dentro dela), nas gavetas da cozinha, nos sacos de lixo. Mapeamos a casa inteira, fizemos uma retrospectiva do dia da faxina, identificamos os pontos estratégicos (leia-se: os mais improváveis) e nos dividimos na busca pelo ouro.

– E aí, encontrou?
– Nada. E você?
– Nada.
– Gente.

            Os dias passaram. O calor se impôs com uma intensidade sobrenatural. E o controle remoto havia desaparecido.

– Como está quente hoje.
– Ô.
– Mas e o controle remoto?
– Gente.

            Tinha que estar em algum lugar. TINHA QUE ESTAR EM ALGUM LUGAR.

– O cesto de revistas, o sofá, o cafofo da Sushi. O que ficou faltando?
– Acho que nada. A gente já olhou tudo.
– Gente. Não pode.
– Não faltou nada.
– Gente.
– Uma hora vai aparecer.
– Não adianta nada aparecer só no inverno. Tem que aparecer hoje. Sente só esse calor. Não é de Deus.
– Tá quente, mesmo.

            Demos por encerradas as buscas e decidimos comprar outro controle remoto, o que não saiu necessariamente barato – mas valeu, pois o investimento pouparia uma família de ser carbonizada em uma noite incendiária de verão. Não costumo me lembrar dos meus sonhos; no entanto, docemente embalada pelo ambiente geladinho, devo ter sonhado, nesta primeira noite de frescor após tantas outras de tortura, com anjos tocando flautas e liras ao meu redor. Dia depois veio uma nova frente fria, o calor deu uma trégua e o condicionador de ar ganhou alguns dias merecidos de folga, mas a instabilidade climática provocou uma crise de asma no meu pequeno. Fui até a caixinha de remédios, peguei tudo o que precisava, abri a caixa do nebulizador, retirei o motor, as máscaras, as cânulas – e reluzente, enigmaticamente, o controle remoto perdido.

            Más línguas dirão que o problema da minha casa é falta de organização. Não vou me deter a dar mais explicações na tentativa de convencer os incrédulos, até porque nem tenho tempo hábil para tal: dessa vez, o buraco negro sumiu com o carregador do meu notebook e a bateria está por um fio, mas prometo que, assim que ele reaparecer, eu volto. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Caixa em Forma de Coração

Imagem: weheartit

Quando aquela carta chegou, sem qualquer identificação, o primeiro pensamento foi largá-la junto à confusão de papéis inúteis sobre a mesa. Apanhou o envelope em branco – fechado, mas não lacrado – e o examinou contra a luz: viu apenas um pequenino retângulo de papel que, à primeira vista, parecia igualmente em branco. Ao contrário das demais correspondências, sempre entregues pelo carteiro, esta havia sido passada por baixo da porta, nas primeiras horas da manhã. Cogitou jogá-la fora, a curiosidade foi maior: abriu o envelope cuidadosamente, retirou o retângulo dobrado ao meio e abriu. Nenhuma palavra; apenas um perfume delicado evocando alguma coisa conhecida e, há muito tempo, esquecida. 

Fechou os olhos na tentativa de buscar dentro de si o nome daquela lembrança e, quando tornou a abri-los, estava exultante – o cheiro era idêntico ao de uma boneca que tivera na infância, a boneca favorita, sem um olho e quase sem cabelos, com uma costura torta emendando a cabeça e o corpo. Há quanto tempo não se lembrava dela! A mãe acabou jogando-a fora porque havia ficado muito velha e lhe comprara uma boneca nova, que ficara ignorada em um canto do quarto; sua amiga, sua companheira, mesmo, era a outra. Betina, era o nome dela. O papel, sem dúvida, tinha o cheiro da Betina, o mesmo cheirinho de pano, de suor de criança e da água-de-colônia que a avó usava, e que ficava impregnado na boneca quando a velhinha tomava para si o trabalho de costurá-la. Sorriu encantada com a lembrança e com saudades da avó, que partira há alguns anos, da Betina e até da boneca substituta, dada de presente a uma sobrinha muitos anos depois. 

Fechou os olhos novamente, aproximou o retângulo de papel do rosto e aspirou novamente aquele cheiro – viu novamente a avó sentada na cadeirinha de balanço com o cesto de costura ao lado, a mãe assistindo tevê, o pai tomando um café e lendo um livro antes de deitar. Viu novamente a avó, indo até o seu quarto para lhe devolver a Betina, nova em folha, na hora de dormir, junto com um beijo de boa noite. Abriu os olhos, impressionada. Que coisa esquisita!  A carta seria para ela, sem dúvida; não havia de ter ido parar em suas mãos por engano. Devolveu o papel ao envelope e guardou a cartinha em uma pequena caixa em forma de coração que, até então, existia sem uso no interior de uma gaveta. Ainda com um sorriso no rosto, voltou para os afazeres do dia. E, por algum tempo, não pensou mais no assunto.

A segunda carta chegou dez dias depois. Tinha o mesmo jeito da outra – um envelope branco e bem cuidado, sem remetente ou destinatário, igualmente esgueirada por sob a porta num início de manhã. Tomou-o nas mãos e, ao abri-lo, se espalhou pela sala um cheiro azulado, morno e arenoso, prontamente reconhecido: o cheiro da primeira vez em que vira o mar. Dessa vez, conseguiu sentir até a carícia da água nos pés e um sopro suave de brisa a alisar seus cabelos. Uma após outra, mais cartas foram chegando. Sempre do mesmo jeito. Uma delas tinha o cheiro do primeiro dia de aula. Outra, o do seu aniversário de doze anos. Outra, ainda, o do último Natal. E outras, surpreendentemente, tinham cheiro de coisas que não têm cheiro, como de banho de chuva, do primeiro beijo e de procurar desenhos nas estrelas. Em pouco tempo, a caixa em forma de coração estava tão cheia que começava se deformar; as memórias se acumulavam, e tanto tempo haviam estado misturadas entre si que o cheiro desta era também o cheiro daquela. 

Coincidentemente, quando a caixa ficou cheia, as cartas cessaram – um período muito triste, pois a destinatária se havia apegado tanto a recolher suas lembranças que o presente se tornara irrelevante: simplesmente, não sabia mais o que fazer com ele. Recordou-se do dia em que chegara a primeira carta, do quanto a vida era ágil e o passado, fugaz. Há tanto tempo não se lembrava mais de tudo aquilo; espantoso não haver percebido o quanto lhe fazia falta, como espantosa era a absoluta insignificância do que não dizia respeito ao conteúdo de sua caixa. Naquela noite, dormiu abraçada a ela – como se, assim, o cheiro de todas aquelas memórias pudesse penetrar definitivamente em suas narinas, e definitivamente alcançar cérebro e coração para jamais tornar a se apagar. Quando acordou, tinha no pensamento, além das memórias, a imagem da mulher que vivia solitária em um apartamento a dois andares do seu – se esbarravam, volta e meia, no elevador, mas nunca haviam conversado. Na verdade, nunca prestara mesmo muita atenção na vizinha; mas, naquele momento, enquanto se lembrava dela, via seus olhos melancólicos perdidos em meio à confusão dos dias que se ocupavam em nascer e morrer sem que, de fato, sua existência significasse alguma coisa. Compreendeu que as cartas já não lhe pertenciam. Com o coração partido compreendeu o que precisava fazer.

Abriu a caixa, retirou uma das cartinhas, sentiu seu cheiro – longínquo, mas ainda inebriante – pela última vez. Fechou o envelope sem lacrar e, ainda de pijamas, tomou o elevador, apertou o cinco e, segundos depois, estava diante do apartamento da vizinha solitária. Sem hesitar, deslizou o envelope por sob a porta e partiu. Em breve, a caixa em forma de coração ficaria vazia, mas isso já não lhe importava; por algum motivo, estava feliz. Tomou novamente o elevador, apertou o sete e, em casa outra vez, tornou a adormecer. A poucos metros dali, um par de olhos melancólicos, surpreso, também se fechava, admirando, por sob as pálpebras, a inesperada lembrança misteriosamente resgatada pelo terno cheiro de uma certa saudade.


terça-feira, 1 de novembro de 2016

Toda Mãe é um Ser Imaginário



Ois! Tudo bem com vocês?


Faz tempo que não dou as caras por aqui, mas minha ausência se justifica: com dois filhos pequenos, encontrar tempo e disposição para fazer, nos intervalos dedicados a eles, qualquer outra coisa que não seja comida-cama-banho é um desafio. A maternidade é uma epopeia. A mais árdua e recompensadora delas. Hoje, estou aqui justamente para falar sobre maternidade - a respeito de todas as coisas que imaginamos a respeito das mães e nos fazem esquecer de quem elas são realmente. A respeito das nossas mães, de nós, quando mães, de quem somos além de mães, em quem a maternidade nos transforma. 

O texto é fresquinho, inédito, foi escrito por esta que vos fala e está lá no blog Lado Mãe, no qual participo, a partir de hoje, como colaboradora mensal. Convido vocês a ler aqui, e os desafio a resistir a chamegar muito as mamães após a leitura :)

Beijos com o carinho de sempre!

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Trivialidade.






Há alguns dias eu estava com um amigo na livraria de um shopping center, em busca de um presente para um outro amigo. Loja cheia, com mezaninos cheios e com a cafeteria igualmente lotada, coisa que definitivamente não é empecilho para dois alucinados por café. Escolhemos nossos livros, nos dirigimos até o balcão, fizemos nosso pedido e, enquanto esperávamos, Juliano avistou uma mesa com três lugares ocupada por apenas uma pessoa.

- Com licença. Você se importa de dividir a mesa com a gente?

O rapaz olhou para a cara do meu amigo um tanto surpreso, não sei se pela naturalidade com que a pergunta havia sido feita ou se por ser uma vítima estreante naquele tipo de abordagem – afinal, basta olhar para o lado onde quer que se esteja para reconhecer uma infinidade de “solitários por força do hábito”: no cinema, nos restaurantes, lanchonetes, ônibus, bancos de praça... o fato é que, refeito da surpresa, o tal rapaz concordou em dividir conosco sua mesa-para-três-ocupada-por-um.

Confesso que me sinto pouco à vontade de me sentar com desconhecidos, e costumo resolver esse pequeno problema da forma mais simples possível. Apresentando-me. Foi exatamente o que fiz.

- Muito prazer, Flávia. E este é Juliano – e ambos, meu amigo e eu, estendemos a mão com um sorriso. O rapaz retribuiu na mesma moeda e, como há poucas coisas no mundo que um sorriso genuinamente simpático não resolva, em poucos minutos a conversa fluía como se fôssemos três velhos conhecidos. Entre goles de café, biscoitinhos amanteigados, gargalhadas, dicas gastronômicas, impressões sobre viagens e afins, 50 minutos se passaram num piscar de olhos. Nos despedimos de Elias – esse era o nome do moço – com abraços e satisfeitos por tê-lo conhecido, ainda que de forma tão inusitada.

- Cara bacana, né?

- É.

- Será que a gente ainda se vê?

- Não sei, quem sabe... o mundo é pequeno, né?

- É... – e, de braços dados, também deixamos a livraria, com a sensação de que levávamos conosco muito mais do que livros na sacola e um bom café no paladar.

E o que teima em não me sair da mente desde então é a expressão de surpresa no rosto do Elias, quando nos convidamos para dividir com ele sua mesa-para-três-ocupada-por-um. E me causa um certo desconforto, uma estranheza triste e reflexiva, a conclusão de que somos todos “Elias” em graus variáveis de solidão por opção. Talvez a correria do cotidiano tenha feito germinar nas pessoas um instinto subliminar de autopreservação diante da alucinada existência contemporânea, e isso tenha nos afastado uns dos outros a ponto de nos transformar em ilhas cercadas de ilhas por todos os lados. E nos esbarramos sem nos tocar, e nos olhamos de soslaio sem nos enxergar, e nos falamos sem nos dizer coisa alguma.

E assim, sem perceber, nos distanciamos de nossa essência gregária, e convivemos pacificamente com a ausência do outro, sem atentar para o fato de que essa é também uma espécie de “auto-ausência” – pois, ainda que neguemos consciente ou inconscientemente, carregamos conosco, ao longo da vida, a necessidade atávica de compartilhar, de dividir. A questão do espaço é relativa e, de certa forma, insignificante: há quem viva sua “vida-para-vários-ocupada-por-um” até mesmo no ambiente familiar.

Quem sabe um dia eu reencontre o nosso Elias em uma dessas esquinas da cidade – ou no cinema, ou num restaurante, ou num banco de praça, ou quem sabe naquela mesma livraria. Se o mundo é mesmo pequeno como dizem, não duvido que tornemos a dividir uma mesa e alguns bons minutos de nossas vidas. Enquanto isso, continuo acreditando que todo e qualquer lugar vazio é candidato em potencial para ser preenchido. E, igualmente, continuo acreditando que vale a pena preencher os meus – e os dos eventuais “Elias” que aceitarem dividir comigo suas tantas “coisas-para-muitos-ocupadas-por-um”.




(texto escrito em algum dia perdido de fevereiro de 2008. a lição da história, porém, permanece muito bem guardada comigo e ficará, ad eternum.)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Enquanto Você Dormia


Um dia você acorda. Acorda pra vida. Acorda de um sono que nem sabia que estava dormindo. Você, que sempre se gabou de ter sono leve, dormiu demais, perdeu a hora, mas antes tarde do que nunca. Você acorda com o rosto inchado e a boca seca, lava o rosto com água gelada, lava a boca pra tirar o gosto ruim de boca adormecida – fechada por tanto tempo para aquilo que você não disse, não provou, não riu. Acorda com a dor de cabeça típica de quem dormiu demais e com o corpo dolorido, entrevado, castigado pela ausência de todas as danças que você não dançou, de todos os lugares que você não visitou, de todas as vezes que você não mergulhou no mar, na vida, na panela de brigadeiro – mergulhar vale a pena até quando a gente toma um caldo aqui e ali.Concordo com você: dormir demais dá uma ressaca dos infernos. Pior que misturar cerveja com vinho doce. Pior que vodca vagabunda. Pior que visualizar e não responder. Muito pior. 

Aí você acorda e tenta se atualizar, liga a tevê, lê os jornais, pega uma revista, feicebuque, uatisápi, bate um papo com o pessoal que sempre sabe tudo o que está rolando – e percebe que, enquanto você dormia, tanta gente casou, nasceu, morreu, aconteceu uma revolução, brincadeira virou trollagem, o que era sério virou brincadeira, o que era legal virou crime e vice-versa, o salário, ó, a moda ficou muito estranha e as pessoas mais ainda, o preço do quilo do tomate disparou, o dos imóveis nem se fala, o Rio de Janeiro continua sendo mas o ser humano nem tanto, e o mais inquietante: percebe que uma boa parte da sua vida passou. Acontece. Você acordou, é o que interessa. 

Agora é vencer a inércia, levantar, tomar um banho (de chuveiro, de sal grosso, de sete ervas, de coragem, sobretudo), chutar pra longe o travesseiro e os lençóis, chutar uma parede imaginária, chutar o pau da barraca, chutar o balde. E, por fim, chutar a gol. Dá tempo. 



Vai um café?




Imagem: DeviantArt


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Cultura do Jeitinho

Dia desses, em meio a uma polêmica suscitada por uma discordância entre condutas profissionais, ouvi de uma colega de trabalho a assertiva “pode ser ilegal, mas não é imoral”. A discórdia que deu origem às discussões era, basicamente, o quanto um determinado hábito, arraigado há muito e perpetuado a fim de facilitar algumas coisas, pode ser nocivo mesmo que sua intenção seja dar um jeitinho de resolver eventuais problemas. Passei dias matutando a frase da moça. E não consegui chegar a outra conclusão senão esta: em tudo se pode dar jeito – mas nem tudo se resolve dando um “jeitinho”.

Diz-se que o Brasil é o país do jeitinho – e é verdade: dá-se um jeitinho para fazer um favor, para sair de um aperto ou, mais frequentemente, em causa própria. Há quem dê jeitinho por compulsão – de fato, deve haver quem seja viciado em jeitinho. Não se sabe como começou, mas o jeitinho virou uma coisa tão tradicional para o brasileiro quanto a feijoada dos fins de semana, a camisa verde e amarela da seleção ou errar a letra do Hino Nacional. Quem renega o jeitinho é chato, caxias, maniqueísta. Quem pratica é querido, esperto, prestativo. Fazemos parte de uma cultura na qual quem se nega a dar um jeitinho nas coisas frequentemente é interpretado como disfuncional e antipático. O jeitinho brasileiro é conhecido mundo afora. Quem tem DNA brazuca faz, e isso tem seu lado bom – o jeitinho brasileiro é uma das maiores expressões da criatividade que nos permite dar a volta por cima em situações altamente desfavoráveis, e isso é necessário e saudável, e tão automático que, embora seja quase sempre uma atitude lúcida, às vezes acontece de maneira até inconsciente. O lado ruim do jeitinho é que, cada vez mais, se cruza uma fronteira delicada quando a prática deixa ser exceção para se tornar a regra: seja por comodismo, viés de planejamento ou porque “isso aqui não dá nada”, entre jeitinhos e “jeitinhos”, o que é lícito e ético, e o que deixa de ser?

Dar um “jeitinho” – assim mesmo, entre aspas e com jeitão de gambiarra – não é simplesmente feio. Soltar um pum e colocar a culpa no cachorro é feio. Quando, ao dar um “jeitinho”, há a intenção de obter alguma vantagem, paralela ao fato de que alguém, direta ou indiretamente, em diferentes escalas, arcará com o prejuízo – seja financeiro, moral ou emocional, consciente ou não – o “jeitinho” deixa de ser inócuo e vira uma praga. Senão ilegal, no mínimo, imoral. Sendo assim, não há diferença entre quem sonega impostos ou o centavo de troco daquilo que custa 1,99, ou entre aquele que chega atrasado e fura a fila para ser atendido primeiro e quem rouba no peso do quilo da cebola, ou quem superfatura nota fiscal, ou quem adultera atestado documentos, ou quem finge doença pra passar uns diazinhos em casa. Dá um “jeitinho” quem faz gato na rede elétrica, quem rouba o sinal da tevê a cabo do vizinho, quem delega suas responsabilidades a terceiros com o objetivo de tirar vantagem. E dá um “jeitinho” quem se acumplicia com o jeitinho alheio, mesmo ciente de que sempre haverá alguém para pagar o pato. Ninguém conseguiu, até hoje, foi dar um jeitinho para acabar com o “jeitinho”. E, embora tantas discussões, cada vez mais calorosas, a respeito de moral e ética, a prática segue inversa à teoria.

Diz-se que o Brasil é o país do jeitinho – e é verdade. O que não quer dizer que, individualmente, o brasileiro não tenha solução: aquilo que praticamos no dia a dia e o quanto somos capazes de nos portar corretamente quando ninguém está olhando dá o tom de quem realmente somos. Que o jeitinho brasileiro, um dia, deixe de ser sinônimo de gambiarra e passe a ser visto como uma das nossas qualidades mais notáveis. Até lá, o jeito é praticar o desapego do tal “jeitinho” e demonstrar que sabemos arrumar a casa sem jogar a sujeira debaixo do tapete. Porque pode até ser que ninguém saiba que ela está lá – mas sempre existe um dia de ventania, e aí...


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A PEC da Mulher Maravilha

Há alguns anos, abri mão de ter empregada doméstica porque não vi muita razoabilidade em pagar uma pessoa para fazer algo que eu mesma faço, e tão bem quanto.

Mentira. Ficar sem empregada doméstica, àquela altura do campeonato – com uma rotina de trabalho insana, um filho de três anos, um cachorro indomesticável e um corpo a caminho dos quarenta, que pode até ter boa vontade, mas, indiscutivelmente, já não tem o mesmo pique de alguns anos atrás – foi uma questão de caixa. Não que a mudança na legislação trabalhista das domésticas tenha me surpreendido: assinar carteira, pagar hora extra, recolher FGTS e combater a informalidade eram rotina na minha vida muito antes da PEC que regulamentou os direitos dos trabalhadores domésticos. A verdade é que, mesmo exercendo uma função pela qual sou relativamente bem remunerada, o amontoado de contas a pagar no início de cada mês fazia meu salário se transformar rapidamente em nada mais que uma vaga lembrança na minha conta bancária; colocadas todas as despesas na ponta do lápis, abrir mão da funcionária me renderia uma economia mensal de quatro dígitos, e anual de cinco. Analisei todos os prós e contras e cheguei à conclusão de que seria perfeitamente possível dar conta do serviço da casa já que, trabalhando fora o dia inteiro e com o filho na creche, não nos sobraria muito tempo (nem energia) para fazer tanta bagunça; a rotina seria, mais ou menos, chegar em casa, passar uma vassoura, lavar uma loucinha, colocar a roupa na máquina para lavar e deixar o “grosso" para o fim de semana. Tudo muito harmônico. Até cheguei a pensar duas vezes, mas a possibilidade de ter um dinheirinho sobrando venceu. E a minha vida, que já não era lá um exemplo de calmaria, ao contrário do que eu imaginava, virou definitivamente de pernas para o ar.

A primeira semana sem a funcionária não foi tão ruim – eu estava sob efeito da empolgação inicial e a casa ainda permanecia razoavelmente organizada, a ponto de me fazer acreditar que tinha me preocupado à toa. Chegava do trabalho, fazia o jantar, lavava a louça, varria a casa e passava uma flanelinha nos móveis para tirar o pó, e a máquina dava conta da roupa suja da semana. Nem percebi que, pouco a pouco, as roupas começavam a se acumular à espera de que eu me encorajasse a encarar um ferro de passar somado a algumas horas de pé, e que meus armários, estantes e banheiros, em questão de dias, pareciam ter sido varridos pelo furacão Katrina. Intensifiquei o ritmo e passei a limpar, limpar, limpar – mas, se minha boa vontade era grande, a falta de jeito e familiaridade era infinitamente maior, e eu tinha a impressão de que tudo estava sempre caótico. Precisava dividir meu pouco tempo extra entre cozinhar, limpar, lavar, passar, ser mãe, estudar e, ainda, encontrar alguns minutos para cuidar de mim – o que foi me deixando cansada e mal-humorada porque, afinal de contas, mesmo acostumada a fazer várias coisas ao mesmo tempo, não fiz curso de Mulher Maravilha. Pegar o jeito das coisas não foi fácil; foi um típico “caminho das pedras”, que me fez ter certeza de que a mudança na legislação dos trabalhadores domésticos já veio tarde (e que eu gostaria de de ganhar, além de um cachorro autolimpante e de um robô igual àquele da família Jetson, uma PEC que, diante de tanto esforço, legalizasse, como um direito “politrabalhista” legítimo e inalienável de toda Mulher Maravilha diplomada ou não, meu lugarzinho no paraíso). E, passado o primeiro mês, e o segundo, e o terceiro, finalmente, vi minha vida sem empregada doméstica entrar nos eixos e passar de caos a uma experiência enriquecedora e (pasmem) prazerosa, até.

Hoje, além de cumprir minha jornada profissional formal de 40 horas por semana, sou minha “personal” faxineira, cozinheira, office boy e, muitas vezes, cabeleireira e manicure (porque o tempo que eu dedicava indo ao salão duas vezes por semana, agora,  é dedicado a preciosas, merecidas e ansiosamente aguardadas horas de descanso, leitura, lazer e mimos pessoais). Se compensa? Compensa, quando vejo que o gás de cozinha dura mais, a conta de energia caiu em mais de 30% e a do supermercado também diminuiu consideravelmente depois que aprendi a comprar os produtos certos e a utilizá-los sem desperdício – eu não fazia ideia de quanto podia durar um frasco de detergente de louças, ou um litro de amaciante de roupas, ou um quilo de sabão em pó, até essas coisas passarem a fazer parte da minha rotina. Nem sempre consegui guardar a grana, mas ninguém pense que torrei o dinheiro com futilidades – ao longo desse tempo all by myself (que deixou de ser all by myself depois que conheci meu atual marido, o qual se mostrou, além de um príncipe encantado, a mola mestra no que se refere aos cuidados com as crianças e com as tarefas do lar), consegui, entre outras coisas, trocar o sofá, comprar a mesa de jantar dos meus sonhos, refazer a cozinha, investir em um carro melhor, financiar parte da nossa casa própria, quitar várias continhas e investir em uma série de itens que fazem a vida de qualquer dona de casa parecer um comercial de Veja.

Apesar de não ser a Mulher Maravilha, nesses anos sem empregada doméstica, acredito que tenho me virado muito bem. Estou pensando em me dar de presente uma folguinha para voltar a malhar em uma academia, e não apenas entre baldes, panelas e produtos de limpeza. Ao contrário do que algumas pessoas podem imaginar, não encaro ter que arrumar minha própria bagunça como castigo: cuidar da casa virou quase uma terapia. E aprendi a organizar não só o meu espaço físico, mas também meu tempo, meu dinheiro, minhas prioridades e, por tabela, até minha própria vida. Ficar sem empregada doméstica, longe do que muita gente supõe, não foi o fim do mundo, e sim o começo de uma rotina que me ensinou, entre outras coisas, a otimizar meu tempo e a ser ainda mais prática e independente. Porque nos dias de hoje, se duvidar, até a Mulher Maravilha deve ter um pezinho na cozinha – e insistir em manter os pés fora do chão pode custar muito caro. Em todos os sentidos. 



terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Algo Sobre Minha Mãe




Das raízes. As minhas.



Observo minha mãe e meu filho adormecidos ao meu lado no sofá. É quase meia-noite. Ele nos braços dela. Minha mãe e meu filho ressonam enquanto permaneço de olhos abertos diante da tevê, aguardando pacientemente que a insônia que me visita todas as noites se exaspere da minha monótona companhia e se vá – e me deixe descansar, enfim. Tranquilos, minha mãe e meu filho dormem. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos. Minha mãe e meu filho estão ali, e ignoram a noite e seus pequenos ruídos, e me ignoram e ignoram o velho filme policial e minha insônia fiel. Estão ao meu lado e, apenas, dormem.

Observo minha mãe com meu filho nos braços e imagino quantas noites essa mesma cena deve ter se repetido comigo. Eu me orgulho de ter boa memória, mas, confesso, as primeiras lembranças que tenho de minha mãe datam do nascimento da minha irmã caçula (quando eu tinha por volta de quatro anos), ou seja: quando ela tinha a idade que tenho hoje eu contava apenas seis anos, portanto, não recordo assim tanta coisa. Lembro, contudo, dos olhos, que sempre foram impressionantes e, àquela época, eram marcantes mesmo para mim – uns olhos profundos, inquisitivamente melancólicos, que pareciam trespassar a tudo e a todos com sua languidez misteriosamente castanha. Não sei se ela percebia, mas um de meus passatempos preferidos era, sempre foi, observá-la. Ela era bonita, muito bonita, com uma pele muita branca sem nenhuma mancha ou imperfeição e um corpo miúdo e ágil como o de uma bailarina – e aquele corpo pequeno se movimentava tão rápido que eu tinha certeza de que, se quisesse, ela poderia ficar parada no ar, como um beija-flor. Às vezes parecia caminhar na ponta dos pés – como se, a cada passo, dançasse pelo mundo uma valsa suave. Fisicamente sempre fui mais parecida com meu pai, e essa semelhança era algo que realmente me desgostava – não porque não gostasse de meu pai ou porque sua aparência fosse desagradável, ao contrário: meu pai havia sido um homem muito bonito em sua juventude. O que me desagradava não era a semelhança com ele, mas a falta de semelhança com ela. Eu era forte e robusta, e cresci bem rápido: mal entrara na adolescência e meu corpo, já sinuoso e efervescido pelos hormônios, havia ultrapassado o porte de minha mãe, o que me deixou triste porque sua pequenez delicada de bailarina era até ali (como sempre seria) meu ideal de beleza e feminilidade.

Minha mãe nunca passou despercebida: estava sempre muito bem arrumada e com os cabelos dourados e lisos muito bem cortados, invariavelmente na altura da nuca. Era uma daquelas pessoas para quem o tempo não ousava passar: eu ouvia as histórias sobre ela, contadas pelos meus avós e tios, e eram histórias bonitas e comoventes, algumas engraçadas e outras nem tanto, mas todas parecendo ter saído de algum romance – os mesmos romances que eu lia nos livros em cuja contracapa ela rabiscava cartas com sua letra grande e redonda, vigorosa e fluida como ela própria. Minha mãe tinha um cheiro sempre muito bom e peculiar – e não sei se era um cheiro que só eu percebia ou se, quando ela passava, todos sentiam aquele perfume delicado a imiscuir-se descerimoniosamente em todas as superfícies e narinas. Quando ela ria, era impossível não rir também – porque era uma risada sonora e muito diferente das outras, não por ser a risada dela, minha mãe, mas porque o som que nascia através daqueles lábios – os mesmos lábios que, feito róseos e delgados braços de menina, se contraíam levemente quando ela estava triste ou aborrecida – ia tomando conta de tudo em volta como se aquele momento feliz fosse feito para acabar jamais, e o rosto dela corava muito suavemente, tão suavemente que era perceptível apenas porque vê-la rindo nos absorvia de tal maneira que era impossível desviar os olhos para outra direção.

O início da minha vida adulta foi quase um martírio para nós duas. Por algum motivo, na minha cabeça, cortar o cordão significava contrariá-la de todas as formas possíveis. Sinceramente, não me lembro se um dia pedi desculpas por cada uma das dores que lhe causei. Continuo não me parecendo com ela fisicamente, mas me vejo repetindo muito de seus gestos, hábitos e maneiras, como, acredito, meu filho também fará quando tiver a idade que tenho hoje. Um dia direi isso a ela, como também lhe direi que toda a animosidade daqueles anos não significava que eu não a amasse, mas que a amava tanto a ponto de não saber o que fazer. Éramos dois gigantes permanentemente em luta – ela por desvelo, eu por rebeldia. Ambas, por amor. E foi justamente por essa época que aprendi que o amor, sobretudo o amor entre pais e filhos, embora não seja capaz de simplificar as coisas, tem o dom de nos fazer crescer apesar delas – ainda que as diferenças pareçam assustadoramente abissais. 

Observo minha mãe e meu filho, o quanto são parecidos – a mesma pele branca e sem imperfeições, os mesmos olhos melancólicos e misteriosamente castanhos, o mesmo cabelo dourado – e penso que, um dia, daqui a muitos anos, esta cena se repetirá e serei eu adormecida no sofá com meu neto nos braços enquanto meu filho, insone e pensativo, rememorará qualquer coisa marcante a meu respeito. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos, esta segurança morna e adocicada que alisa nossos cabelos enquanto dormimos e que, enquanto dormimos, sussurra aos nossos ouvidos que alcançar a eternidade é, sim, possível – e que nós vivemos para sempre por sermos feitos muito mais de amor do que, meramente, de carma e DNA.


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créditos da imagem: Google (desconheço autoria)



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Onde a Mágica Acontece

Soundtrack: Jim Sturgess - All My Loving

Aí você pensa: por que esses desencontros acontecem justamente na minha vida?

Você está sozinho e, um dia, conhece alguém legal. Legal é pouco: extremamente legal. Além de extremamente legal, a criatura é bonita, simpática, inteligente, divertida, bem-sucedida e compatível com você do ponto de vista intelectual, sexual e até astrológico. Como se não bastasse, move montanhas para estar ao seu lado, ama sinceramente o seu cachorro de estimação, prepara como ninguém o seu prato favorito e, por motivos óbvios, virou o xodó da família. Tudo o que você sempre quis – mas, por algum motivo, depois de algum tempo, você começa a se perguntar se tem algum problema de audição ou se os sininhos realmente não tocaram pois tem a sensação de que, embora não falte nada, falta. Logo você está all by yourself de novo, se perguntando por que esses desencontros acontecem justo na sua vida e as suas borboletas gástricas ignoraram a existência de alguém que, sem dúvida nenhuma, era o seu número. É, colega. Não adianta insistir. A gente não escolhe por quem se apaixonar. É assim: você estava de coração aberto, mas a mágica, simplesmente, não aconteceu.

Ninguém se apaixona por outra pessoa só porque ela saltou de bungee jump carregando uma faixa com o seu nome. Ou porque ela preenche absolutamente todos os requisitos que você inclui naquela lista enorme repetida à exaustão, durante a sua vida inteira, em cada prece em favor da sua vida amorosa. O pacote completo impressiona à primeira vista, mas os detalhes, ah, os detalhes, essas coisas às vezes inapropriadas que nos saltam aos olhos tão apropriadamente. A gente se apaixona nos detalhes. No detalhe do sorriso, no detalhe do olhar, no detalhe do clichê, no detalhe de alguma frase ridícula. A gente se apaixona no detalhe da camisa fora de moda que não tem nada a ver com a produção mas tem tudo a ver com a sua alma demodê e pode se apaixonar definitivamente no detalhe “não acredito que a gente tem o mesmo filme preferido, cara”. A gente percebe que o estômago virou uma sede de borboletas hiperativas diante da banalidade, porque o “especial” nasce aqui dentro, muito dentro, é algo muito particular: um belo dia, o modo como alguém segura a caneta, diz “oi” ao telefone ou passa a mão nos cabelos ganha um novo significado diante dos seus olhos, e o simples ato de mascar um chiclete pode abrir a porta para uma observação demorada – e enamorada – do quanto os músculos faciais do destinatário da sua paixão ficariam ainda mais bonitos durante o um beijo. Ah, os detalhes. Quem nunca sorriu um sorriso bobo diante do gesto cotidiano de alguém, quem nunca se sentiu andando nas nuvens ao acompanhar alguém em sua caminhada, quem nunca teve certeza de que a terra parou de girar no exato instante em que alguém se sentou ao seu lado puxando conversa, quem nunca se surpreendeu com a própria vulnerabilidade ao ser surpreendido pelo próprio coração me perdoe, mas não sabe o que é se apaixonar.

Não existe a pessoa errada, tampouco a pessoa certa – o que faz a gente se apaixonar depende menos do que o outro nos oferece e mais, infinitamente mais, de quem somos no momento em que encontramos alguém. Na dúvida, a culpa é sempre nos neurotransmissores. Porém, se você não está disposto a se apaixonar, um conselho: ignore os detalhes. Por mais que se diga que a paixão é mera questão de química, os tais detalhes são o mínimo múltiplo comum entre o que acontece mundo afora e tudo o que vivemos coração adentro. Há quem diga que é química, mas, no fundo, é como mágica. E a mágica – por sorte – não tem hora para acontecer.

Imagem: Google

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O Sonho


O que me lembro é de ver muita, muita água.  E de ver aquela água toda subindo muito, muito rápido.

Eu estava de pé em frente à máquina de lavar roupas e, de repente, um cano estourou. Nem sei bem se foi um cano mesmo, não vi nada nem ouvi ruído nenhum; na verdade não me recordo bem do que realmente aconteceu na hora, só de subitamente sentir os pés molhados para, logo depois, entrar em pânico ao perceber que a água já estava pelos joelhos e, sem que eu tivesse tempo de piscar os olhos, pouco acima da minha cintura. Sei que não havia paredes porque, de onde estava, enxergava com nitidez a laranjeira e a casinha do cachorro – mas, espantosamente, a coluna de água se elevava à minha volta autônoma e faminta, senhora de si, como se eu fosse não mais que uma insignificância a ocupar seu território. Foi um sonho – mas, ao acordar, eu podia sentir meu corpo úmido e o pavor a me fazer respirar fundo, pelo nariz e pela boca e com a boca muito aberta, pronta para trocar qualquer pedido de socorro por todo o ar capaz de manter viva. É um sonho recorrente este, como se a ira divina, volta e meia, me observasse pelo buraco da fechadura. Os detalhes diferem grandemente entre si; o cerne, porém, é sempre o mesmo – água que surge de repente, imprevisível, e vai subindo, subindo, engolindo tudo enquanto eu, impotente e assustada, vejo minha existência inteira diluída, escorrendo pelos meus dedos em gotas miúdas.

Sempre tive medo de água. Nos pesadelos de infância o bicho-papão era sempre um rio, um mar, uma lagoa, até mesmo uma banheira. Água, só no chuveiro ou na geladeira. Um medo incoerente, reconheço. Nascemos da água: passamos 280 dias mergulhados em líquido amniótico no calor do útero materno. Nós, seres humanos, somos, em média, 70% água. Dizem os evolucionistas que foi na água que a vida começou – num caldo quente e multivitaminado onde o que não virou sopa se transformou em tudo o que nasce, cresce, reproduz e morre sobre a Terra, e há quem diga que é debaixo d’água que o mundo se acabará. A onipresença da água é inconteste mesmo quando não nos damos conta disso. Quando, por exemplo, nos resignamos diante das dificuldades pensando: depois da tempestade vem a bonança, água mole em pedra dura tanto bate até que fura (ou não, pois dar com os burros n’água é sempre uma possibilidade). E que expressão define melhor a deliciosa sensação de leveza e bem estar que sobrevém após a tempestade do que “alma lavada”? Chamamos “líquidas” às coisas perfeitamente determinadas e “liquidado” àquilo que já chegou ao seu fim. As emoções humanas, quando em sua máxima potência, são expressas por água – damos vazão a elas através de lágrimas, desarranjos intestinais ou até xixi nas calças. Água, água, água. Potável, boricada, de melissa, tônica, com gás, sem gás, aquela que passarinho não bebe. Assumo com a cara mais lavada que tenho medo de água e, se você não tem, lavo minhas mãos. Somos água e óleo, fazer o quê.


Digo, porém: apesar do medo, admiro a água. Admiro sua força, sua fluidez e capacidade transformadora. A água, como raros agentes nesse mundo, percorre o quer que seja em toda a sua intimidade. Respeito a água porque a água – como a vida –  não respeita o caos. Diante do caos, ou até mesmo por causa dele, a vida resiste sem remorso. E a água, aos poucos, após o caos, a sujeira e o pânico, vai recolocando cada coisa em seu devido lugar.




imagem: Google

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

E se a sua vida for mesmo um conto de fadas?



"- Você poderia me dizer, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
- Isso depende bastante de onde você quer chegar (...).
- Eu não me importo muito com isso (...).
- Oh, então pouco importa que caminho você irá tomar."

(L. Carrol em Alice no País das Maravilhas)



Problemas. Sempre eles.

Atire o primeiro livro de contos de fadas quem nunca desejou ter uma varinha de condão capaz de solucionar qualquer transtorno com dois ou três plim, plim. Ou quem nunca se sentiu virando a abóbora mais murcha da paróquia muito antes da meia-noite. A vida não é fácil. Mas se a sua for mesmo um conto de fadas, aí sim, você está definitivamente em maus lençóis.

A heroína que sofre durante toda a história para ter direito a ser feliz no fim, ou aquela que passa a vida inteira encastelada aguardando que um príncipe encantado a resgate da maldição que a impede de viver além dos muros do quarto mais alto da torre, costuma não enxergar as coisas como elas realmente são. Sorte que qualquer miopia existencial pode ser perfeitamente corrigida com as maravilhosas lentes do bom senso, as quais nos permitem não somente enxergar a realidade como também auxiliam a modificá-la de maneira que ela passe de masmorra a céu aberto – pois liberdade, mais do que se atirar de cabeça no que a gente quer, é não se deixar acorrentar por aquilo que a gente pode até querer, mas não nos serve.

A vida se torna especialmente difícil justamente quando se está feliz: sempre aparece alguém oferecendo uma maçã envenenada. A parte boa é que a gente sempre pode recusá-la. Ou, na pior das hipóteses – quando a mordemos por descuido, por ingenuidade ou por birra, mesmo – ainda dispomos da prerrogativa de vasculhar nossos confins interiores em busca de um antídoto ao invés de simplesmente adormecer para o que se interpõe no caminho a fim de nos fazer mal. Descalçar os sapatinhos de cristal, arregaçar as mangas e ir à luta. Trocar o choramingo de acreditar que a vida é a madrasta malvada que nos obriga a perder o melhor da festa pela consciência de que cada um de nós é sua própria fada-madrinha: somos o que nos permitimos ser e, sobretudo, o que trabalhamos para nos tornar. Abrir os olhos para a trilha de migalhas de pão que a intuição deixa em certos trechos do caminho, a não ser que a ideia seja mesmo virar comida de lobo.

E, porque verdades não são relativas – verdades são verdades, relativo é o que fazemos com elas – não custa lembrar: sapos não viram príncipes, e príncipes, além do potencial de se transformarem em sapos, não são garantia de felicidade. Será mesmo vantagem passar a vida esperando por um ser encantado que só aparece no fim da história, depois que você, sozinha, matou dragões, salvou a vovozinha, se livrou do caçador, deu uma lição na bruxa má – tudo isso, sem dúvida, perdendo um pouco da elegância e muito da paciência em inúmeras situações, mas igualmente sem dúvida, dando conta do recado magna cum laude? A gente anda tão dependente de relacionamentos que muitas vezes confunde se apaixonar com querer se apaixonar - por um medo irracional da solidão ou do preconceito subliminar que determina ser socialmente inaceitável estar só e ser feliz assim. Amor só rima com dor enquanto a gente permite. E nos empenhamos tanto em procurar a pessoa certa, e queremos tanto reconhecê-la em meio aos demais, que nos esquecemos de nos tornar a pessoa certa para nós mesmos.

Moral da história: cada pessoa é autora de seu próprio roteiro, e ninguém precisa esperar até a última página para ser feliz. O País das Maravilhas é um estado de espírito permanentemente em construção, e a melhor varinha de condão se chama “mãos à obra”. Ser capaz de enfrentar a vida como ela é, com todos os seus problemas, reveses e imprevisibilidades, sem perder o brilho nos olhos também é um jeito, quem sabe o mais lúcido, de ser feliz para sempre.


Imagem: Google


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Feridas, Suturas e Cicatrizes

O menino chegou pouco antes do meio-dia com aquele corte na testa, resultado de uma brincadeira malsucedida entre amigos. Pequeno, agarrado a uma das pernas da mãe, choramingava menos de dor que de medo da agulha e de toda aquela gente vestida de branco. Quietinho, até, dado o contexto da situação. Não pude deixar de pensar no porquê de as crianças só ficarem quietas quando se machucam (e penso nisso sempre porque já fui uma e, embora tendo sido uma, a questão continua a ser um mistério para mim). 

- Oi.

Nada.

- Oi. Qual o seu nome?

Ele continuou me ignorando. Mas eu conhecia um truque que, até aquele momento, era infalível.

- Puxa. Parece que você se machucou, né? Eu também tenho um desses. Veja aqui.

Ele se virou, ressabiado mas curioso – porque nas crianças, ainda bem!, a curiosidade supera a desconfiança com anos-luz de vantagem. Mostrei-lhe a cicatriz que tenho próxima à sobrancelha direita, estrategicamente disfarçada pelo desenho dos pelinhos. Ele olhou, olhou, deslizou o dedo indicador com a minúcia de quem analisa uma novidade. Estava ganho.

- Como foi?

- Eu caí. Devia ter a sua idade. Quantos anos você tem?

- Cinco. 

- Doeu?

- Deve ter doído um pouco. Mas, sinceramente, não me lembro.

- Levou ponto?

- Minha mãe diz que sim. Uns três. Vê como ficou legal? A gente nem enxerga. Só enxerga se olhar bem de perto, como você fez agora.

- É.

Ele ficou quieto por alguns segundos. Alguns.

- Vou ter que levar ponto também?

- De verdade? Acho que vai, sim. Você é muito bonito pra ficar com essa ferida aberta. A gente faz uns pontinhos, ela sara mais rápido, para de sangrar. Daqui a um tempo vai estar igual à minha e você nem vai lembrar que ela estava aí. Prometo que não vai doer. Tenho aqui uma pomadinha mágica que tira a dor. Você só precisa fechar os olhos. Abra os olhos só quando eu mandar. Certo?

- Tá bom.

Ele finalmente deitou na maca. Pedi que me trouxessem o fio mais fino e apliquei sobre o ferimento um pouco de gel de lidocaína para amortecer a dor, cobri seu rosto com um campo estéril e, quando infiltrei o anestésico local com a agulha de insulina, ele já estava tranquilo e seguro, e não precisou permanecer imobilizado. Os três pontinhos necessários para aproximar as bordas do ferimento foram feitos sem dificuldade embora minuciosamente – pois qualquer tração desnecessária na delicada pele da face pode deixar uma cicatriz esteticamente desagradável. O resultado me deixou feliz: bordas aproximadas e pele sem retrações. Em algum tempo restaria apenas uma linha esbranquiçada e tênue como lembrança. Sua memória de criança de cinco anos não seria páreo para novas aventuras – e ele, quando chegasse à minha idade, provavelmente teria algumas outras marcas além daquela, a primeira, que mesmo discreta e inaparente nunca deixaria de ser uma cicatriz e o acompanharia para toda a vida. Não doeria. Não arderia. Não sangraria. Mas talvez, provavelmente, até, incomodaria somente por estar ali. São assim as cicatrizes: quem sabe incomodem tanto porque, ao olhar para elas, imaginamos que, se tivéssemos feito as coisas de um jeito diferente, com mais cuidado, elas não estariam ali para nos lembrar de algo que deu errado.

São assim as cicatrizes. E são assim as feridas. Evitáveis – mas quem as evita? A gente quer mais é correr o risco. A emoção, a adrenalina, as surpresas do caminho entre partida e chegada. E aí vem o susto quando a gente se machuca, mesmo quando se está ciente de que havia grandes chances de as coisas terminarem assim. Fechar o corte é quase um rito de passagem. E, quando cada ponto já está em seu devido lugar, percebemos que a dor não mata nem dura para sempre, e que há vezes em que a tal sutura é mesmo a solução, embora, num primeiro momento, pareça aviltar ainda mais o que já está suficientemente ressentido – porque ferida aberta, além de doer pra burro, sangra e pior: infecciona. Por mais feio, inchado e roxo que possa parecer, os pontos caem, a vida passa e a gente esquece. A gente aprende, cedo ou tarde, que é preciso ter cuidado para não se machucar e que todo o cuidado do mundo nem sempre dá certo, e que as cicatrizes fazem parte.  Não posso deixar de pensar no porquê de as pessoas só ficarem quietas quando se machucam. E pensando, bem, ainda bem.


Imagem: Google

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Um Instante de Felicidade



"Capineiro de meu pai
não me cortes meus cabelos.
Minha mãe me penteou;
minha madrasta me enterrou,
pelo figo da figueira
que o passarim beslicou."

(Belchior - Aguapé)




Tenho um bonsai de figo.

A verdade é que, nem sempre, o bonsai me pertenceu; foi, originalmente, um presente dado por mim a meu ex-marido e que ele, quando nos separamos, por motivos que não vem ao caso, não levou consigo. A separação não foi nada amigável, mas seria uma insensatez cruel deixar a plantinha morrer. Fiquei com ela, no início mais por obrigação do que por opção, e passei e cuidá-la com a disciplina de quem cuida de uma criança pequena – eu que, mais do que desacostumada a vasos, terra e outras peculiaridades do reino vegetal, nunca havia cogitado ter uma planta.

O ex-marido se foi, o bonsai ficou. Acomodei-o num canto iluminado e arejado próximo ao que restara de uma begônia tão presente de aniversário quanto e que eu, apesar dos esforços, não conseguira salvar (tempos depois imaginei que a visão de uma begônia agonizante poderia aterrorizar um pouco o bonsaizinho – mas, como ele continuou viçoso mesmo quando sua companheira, dali a poucos dias, morreu definitivamente, não vi razão para mudá-lo de lugar). Dizem que o bonsai é uma planta de um dono só. Tive, por certo período, receio de que ele, com saudades do antigo proprietário, me rejeitasse, e virasse em poucas semanas uma arvorezinha seca. Não virou. Despreocupei-me.

Confesso: os primeiros dias não foram nada fáceis. Havia mesmo certa animosidade entre nós – e, para quem se pergunta como pode existir animosidade entre um ser humano e uma planta eu digo: plantas são seres mais sensíveis do que certas pessoas e percebem nosso estado de espírito. Mais do que isso, demonstram claramente o seu próprio. Nada que eu fazia lhe agradava. Se lhe oferecia menos água, era pouco; se lhe oferecia mais, era muito. Quando a deixava ao sol, era muito quente – e se a levava para dentro de casa era muito escuro, frio, sufocante para uma planta. Fui até a floricultura onde o havia encontrado, comprei o melhor adubo, terra especial, aprendi tudo sobre bonsais de figo: que gostam da vaporização da copa e de ambientes ventilados e arejados, que o sol reduz a folhagem embora os faça crescer mais vigorosamente, que a sombra aumenta o tamanho das folhas e que bonsais de figo não curtem temperaturas muito frias. Que existem figos “femininos” e “masculinos”, que o figo é considerado um fruto sagrado pelos judeus e que na Birmânia e no Ceilão também é venerada com árvore religiosa; que, na Índia, a figueira é a árvore sagrada sob cuja sombra Buda se acomodava para escrever seus manuscritos. Que os astecas e maias usavam a casca do fícus para fazer papel e os gregos e romanos como medicamento, que existem centenas de espécies de fícus e que meu bonsai se chama, cientificamente, Ficus benjamina. Estabeleci rituais de cuidado seguidos à risca quase com a disciplina e espiritualidade de um mestre zen. Independente do que eu fizesse, porém, as folhas continuavam meio encolhidas, com jeito de ressabiadas, e o que dizer daquele verde? Áspero, mal-humorado, com cara de quem estava achando tudo muito monótono. Aquele verde não tinha nenhum brilho nos olhos. Definitivamente, eu não lhe apetecia.

O que veio a seguir aconteceu em uma noite quente de quase verão. Havia uma brisa fresca e, apesar do calor, a noite era agradável; meu filho, que ainda contava poucos meses de nascimento, dormia profundamente no berço, no mesmo quarto onde minha mãe assistia a um programa de tevê. Decidi passear pelo gramado e acabei me sentando sob uma laranjeira, ao lado de onde havia deixado, horas antes, meu bonsai de figo. Comecei a pensar na vida. E, subitamente, me sentia menina demais para compreender que havia ainda uma vida inteira pela frente. Então, naquela noite – que era, como meus pensamentos, morna e imediata, e que parecia tão eterna e estática como se fosse sempre ser noite escura embora eu soubesse que, após ligeira brevidade, seria manhã – sentei-me com os joelhos cerrados entre os braços e precisei me esforçar para conter a primeira lágrima. Eu sabia que minha pequenina figueira estava ali. Então estiquei uma mão em direção a ela e, ainda com os olhos na direção do nada, disse com uma cumplicidade tanta que até me surpreendeu:

- Você sabe. Eu sei que você sabe o que eu estou sentindo.

Continuei a acariciá-la – até que meus dedos esbarraram em uma forma arredondada, de uma textura diferente e suave. Não me contive: saltei em sua direção e estava ali, o primeiro fruto do meu bonsai de figo! E era, eu tinha certeza, um presente seu para mim. Enquanto minha pele era acariciada por suas folhas, eu me entregava à comunhão silenciosa com aquela arvorezinha. Eu a ignorara durante tanto tempo. Tive raiva dela, até. Mas, naqueles dias tumultuados, eu sabia, agora eu sabia, ela também cuidara de mim, a princípio mais por obrigação do que por opção, como eu fizera com ela quando seu legítimo dono se foi. Mas ela também aprendera a gostar de mim. Havia amor, afinal.

Foi, sem dúvida, um instante de felicidade.




terça-feira, 16 de outubro de 2012

Aquelas Coisas da Cabeça


Cheguei, inclusive, a pensar que fosse algum tipo de brincadeira. Na verdade, cheguei a ter certeza – porque, afinal, quem, em sã consciência, procura um médico para pedir uma coisa dessas? Mas olhei para ele, e ele estava muito sério, sentado ali à minha frente batendo as unhas sobre a mesa e esperando que eu lhe desse uma resposta, que substituí pela única palavra que fui capaz de pronunciar após ouvir seu insólito pedido:

- Como?

- Quero um encaminhamento para um médico especialista em doença.

Ok. Um encaminhamento para um médico especialista em doenças. Certo. E não era piada.

- Ok. Certo. De que doença o senhor está falando?

- Não sei. Doença. Qualquer uma.

- É que, senhor, o senhor precisa me dizer de que doença sofre para que eu saiba para que médico preciso lhe encaminhar.

- Eu não sei de que doença sofro. Por isso preciso de um especialista em doença: para que ele descubra o que é que eu tenho.

Sempre tive tato para lidar com toda sorte de pedidos, talvez mais bom humor até do que tato, e era apenas o comecinho da manhã – além de bom humor e tato eu tinha ainda as vantagens de ter tido uma ótima noite de sono e de ainda sentir, fresquinho na minha bochecha esquerda, o beijo de bom-dia do meu filhote. Então, um encaminhamento para um médico especialista em doenças era algo estranho, enigmático, até certo ponto depreciativo – afinal de contas, que tipo de médica sou eu se meus pacientes precisam que eu lhes encaminhe para que outro profissional que lhes descubra e trate a moléstia? – mas, ok, essas coisas a gente supera. Trabalho é trabalho.

- Mas afinal, o que é que o senhor sente? O senhor tem alguma dor, alguma coisa? Se o senhor acredita que está doente a ponto de precisar de um “especialista em doença”, deve estar sentindo alguma coisa. Se me disser o que é, quem sabe eu possa ajudar.

- Não, não sinto nada, quer dizer, né? Eu sinto assim, de vez em quando uma comichão... de vez em quando uma falta de ar... aí quando vem a falta de ar eu não consigo dormir direito, fico me batendo na cama de um lado para o outro. Fico meio sofrido.

- E quando isso acontece? Todas as noites?

- Não, não. Só quando eu como muito antes de deitar.

Continuei olhando para ele. Àquela altura, eu é que estava batendo as unhas da mão direita sobre a mesa – a mão esquerda permanecia apoiada no queixo (e agora, pensando bem, não sei bem certo se a mão estava apoiada no queixo ou se o queixo é que se apoiava obstinadamente sobre minha mão fechada para se resguardar de cair vertiginosamente e rolar pelo chão), toda a parte que me cabe no latifúndio da criatividade vasculhando as profundezas da minha mente em busca de uma frase de efeito, uma pergunta retórica, um conselho sábio, qualquer coisa que não fosse a ridícula continuidade que dei àquela conversa.

- Sei...

“Sei”. Devo ser uma médica muito ruim, mesmo.

- E outras coisas? Dor de cabeça, “batedeira” no peito, tontura?

- Nada.

Empaquei. E éramos dois batendo as unhas sobre a mesa.

- A senhora pode me encaminhar para um clínico geral, não tem problema.

- É que, bem... o clínico geral sou eu, senhor.

Decidi encaminhá-lo ao psiquiatra. Afinal, ele não queria um especialista em doenças? Eu o enviaria a alguém que poderia decodificar a mensagem subliminar daquele pedido, no mínimo, esquisito. Acontece que, sabe-se lá porque, eu me sentia constrangida em mandá-lo ao psiquiatra porque sentia que havia algo de muito lúcido em toda aquela falta de lógica. Decidi baixar a guarda, “tirar o jaleco” e descontrair.

- Seu Fulano, olha, eu entendo que o senhor esteja preocupado com a sua doença, quer dizer, com a sua possível doença. Mas, ao invés de sair por aí procurando coisas no escuro, por que é que a gente não conversa um pouco mais, o senhor me conta mais sobre a sua rotina, a gente vê o que o senhor precisa, vê aí uns exames se for o caso. O senhor não tem necessariamente que procurar um especialista, até porque, até prova em contrário, pode ser que nem precise de um. Entende?

- E se eu tiver algum problema de próstata?

- Aí eu solicito um exame de próstata e, se estiver alterado, eu o encaminho imediatamente ao especialista.

- E se eu tiver um problema no coração?

- Vou saber se é o caso assim que eu examinar seu coração. E, se for o caso, e se eu não tiver condições de resolver, encaminho o senhor ao especialista sem fazer objeção.

- Não, sem injeção. Por favor, injeção eu não gosto.

- Não, não “injeção”. “Objeção”.

- “Objeção” é grave?

- Na verdade, eu quis dizer que, caso encontre alguma coisa, qualquer coisa, que sugira que eu não poderei tratá-lo sem que isso represente risco para a sua melhora, não criarei nenhum obstáculo para encaminhá-lo a outro médico.

- Hum. Entendi. Então a senhora também é especialista em doença, não é?

- De certa forma, sim. Quer dizer, não existe um médico que saia da faculdade especialista em outra coisa, entende? Um médico está para doença assim como o Neymar está para a seleção brasileira de futebol.

- Sei...

Eu havia vencido? Será? Ele ainda me olhava meio desconfiado.

- É que a senhora é escritora, não?

Então era esse o problema? Toda aquela insistência em ser encaminhado para um “especialista em doenças” se devia ao fato de eu ser escritora? Não pude deixar de respirar fundo (de surpresa, de alívio, de compreensão, de magnanimidade diante de uma hesitação que, confesso, eu também teria se tivesse lido, uma vez que fosse, minha coluna no jornal) e de agradecer mentalmente porque a implicância não era com o meu CRM, mas com a minha identidade (não tão) secreta.

- E daí? O Ronald Reagan era ator de filme de faroeste e foi presidente dos Estados Unidos.

- Aquele, da estagiária?

- Não, esse aí era o Clinton. Bom, esquece. Não tem importância. Vamos fazer uns exames?

- Opa, a senhora é que manda.

Conversamos um algo mais, o examinei, solicitei os exames necessários e, ao fim da consulta, ele se despediu visivelmente satisfeito e aliviado. Ah, aquelas coisas da cabeça. Ah, o medo do grave, do inexorável, da fragilidade. Somos sempre levados a acreditar que tudo é pior do que parece. Somos criados com a concepção de que o irremediável chega sem avisar e alimentamos pequenas doses diárias de hipocondria porque nos esquecemos de nos perceber. Ignoramos o diálogo incessante e fecundo com nosso próprio corpo. Com a nossa humanidade. E eu estava imersa nessas elucubrações quando ouvi o ruído manso da porta se abrindo outra vez, muito lentamente.

- Doutora, só mais uma coisa.

- Claro. Pode dizer. Do que o senhor precisa?

- A senhora pode me dar um autógrafo?