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sexta-feira, 13 de março de 2009

Indulgência

Assim como nós perdoamos a quem nos têm.

Soundtrack: Garbage - Medication




Ele me perguntou se você me faria feliz. Respondi que não sabia, apesar de ter a certeza de que a resposta correta era "não". Então, ele sorriu, um sorriso cheio de dor - e me perguntou se era isso mesmo o que eu queria. E outra vez respondi que não sabia, e também na confissão dessa dúvida não fui sincera: se os meus sentimentos fossem lógicos, e o meu coração se acomodasse em coerências e acertos, seria ele quem eu escolheria. Eu apagaria você das linhas do meu corpo, eu ficaria atenta para o instante no tempo em que permiti que você se tornasse quem se tornou - a presença mais forte e mais instável dos meus dias, o foco dos meus absurdos, você é a minha cruz e a minha hóstia e eu me purifico nos seus pecados pois me entrego ao seu desejo quase com beatitude apesar da consciência do meu erro. E ele estava ali na minha frente com o coração queimando nos olhos ainda vermelhos das lágrimas que a minha leviandade lhe impusera mas de braços abertos para mim, e eu via refletido naqueles olhos o amor que jamais vi nos seus. E percebi que para ele sim, que, mesmo tendo errado tanto, eu era única e insubstituível, e confesso que me senti pequena e suja por machucar assim quem só me queria bem, e menor e mais suja ainda por não conseguir me odiar por isso.

Tão pequena e tão suja, eu, ele de braços abertos à minha espera, você em algum lugar do corpo de outras, eu nem única nem insubstituível, mais uma apenas, o que eu fiz? O que foi que eu fiz? Ele perguntando por quê, eu quieta, muda, fragmentada por dentro, você inabalável nos seus pés de barro, querido, você não é deus e um dia chega em que tudo vira pó, o meu dia é hoje, foi, será. Eu não sei o que eu fiz, ou sei, eu criei você e acreditei que era real quando soprei meu amor nas suas narinas e o seu primeiro fôlego bafejou morno e ondulante na minha pele mas foi você quem me ensinou a respirar, criatura que eu criei. Eu me moldei à sua imagem e semelhança, sou a estranha que me sorri no espelho, criatura que eu criei. Você em algum lugar do corpo de outras se derramando sobre elas, eu amanhecida, seca, marcada, você ainda deitado sob as minhas unhas, vá embora, não vá, fique, não sei mais o que estou dizendo. Vá. Vá, corra que o mundo é fora daqui. Ele me perguntou se você me faria feliz, eu sei que não mas ainda assim o deixei partir, e ele partiu, se foi; eu, ao menos uma vez, não fui egoísta. Eu o deixei partir. Um dia chega em que tudo, querido, tudo, tudo vira pó, criatura que eu criei, você não é maior que eu, ora, não é. Você ainda está aqui comigo mas amanhã restará menor, o meu dia é hoje, foi, será, eu te deixo aqui e te presenteio com a indulgência que é esquecer, que toda hora é para o fim quando é preciso renascer.

______________

Eternizando um trecho de uma conversa entre mim e a Sun a respeito dos fatídicos fatos verídicos ( e pretéritos) que deram origem a esse post:

Fla: - eu não me arrependo, porque fui honesta.
Sun: - então pronto.
Fla: - sou um caramujo que tem coração.
Sun: - quem não é, nesse mundo esquizofrênico, que pelo restinho da sua sanidade não rasteja atrás da felicidade?
Fla: - meu, que coisa linda isso.
Sun: acho que viajei fumando Lukcy Strike.

(Minha amiga, além de Uma Menina Com Uma Frô, é phylosopha.)

Beijos a todos!


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O Engolidor de Sonhos

Onde os seus sonhos vão parar?

Soundtrack: Smashing Pumpkins - Tonight, Tonight




- Eu não queria acordá-la mas a senhora sabe como é: se a gente não chamar o doutor eles ficam nervosos e aí, bem, e ele trouxe a família toda, a senhora sabe como é esse tipo de paciente...

Saber, saber, eu não sabia. A mensagem subliminar no rosto da técnica de enfermagem, para mim, era quase esfíngica: meio ressabiada, meio assustada – e o ligeiro ar de riso contido seria real ou mera e capciosa invenção da minha cabeça sonolenta? Olhei no relógio: quinze para as quatro. Madrugada alta, gelada. Densa. Dessas em que a última coisa que se pensa em fazer é levantar da cama para ir a um hospital, só em caso de morte iminente e olhe lá. Se ele estava ali – e com a família toda – só poderia ser mesmo uma intercorrência que merecesse a minha atenção. Calcei os sapatos, arrumei os cabelos num coque e, em companhia da técnica, desbravei os então silenciosos corredores do Pronto Atendimento até o consultório 2. O que era silêncio absoluto principiou a virar um burburinho que logo se transformou em uma sucessão de vozes atropeladas, femininas e masculinas, enoveladas em um sem-fim de “ai” e “ui” e “oh” e “aaaah” cujo nascedouro era uma aglomeração de cinco ou seis parentes desesperados em volta de um homem cuja aparência, cansada, fazia aparentar bem mais que os 36 anos informados na ficha de admissão. O homem, ofegante, com a mão sofregamente massageando o lado esquerdo do tórax e com o rosto contraído de aflição, se sentara na cadeira em frente à minha mesa e era abanado freneticamente por uma senhora corpulenta que depois se identificou como “a irmã” e desatou a dissecar o mal-estar do rapaz; pedi delicadamente que o deixasse falar e, quando as vozes sossegaram, ele finalmente respirou fundo como se para tomar fôlego e disse:

- Ah, doutora. É um negócio aqui no peito, sabe? Uma coisa. Uma coisa no peito, uma coisa.

Suspirei. Mais um para testar meus conhecimentos em “coisologia”.

- Uma coisa no peito?
- É.
- E como é essa coisa? Aponta para mim onde fica.
- Aqui.
- Ok. E como é a coisa?
- Ah, doutora, é assim um negócio, me tranca o peito e faz uma bola que vai rasgando entre as costelas, sabe?
- Não, ainda não sei. É uma pontada? Uma latejada, uma dor cansada, o que é?
- Não é dor, doutora. É uma coisa, uma coisa.
- Tá bem, uma “coisa”. Certo. Mas como foi que a “coisa” começou?

Nesse momento todos se entreolharam. O rapaz ficou em silêncio. A “irmã” fez menção de falar, mas antes que pudesse abrir a boca pedi que aguardassem do lado de fora enquanto eu colhia a história. Quando finalmente ficamos a sós e fechei a porta, ele deu um suspiro de alívio, me fitou diretamente nos olhos e soltou a bomba.

- É que foi assim: eu estava dormindo, e sonhando. E aí de repente, minhanoss’inhora... uma coisa, doutora! Eu senti aquela bola descendo... e o sonho foi parar no estômago.
- Hum?!
- O sonho, doutora. Eu engoli.
- O que foi que você comeu no jantar?
- Não foi o jantar. Foi o sonho.
- Um sonho recheado, certo? Desses de padaria?
- Não, doutora. Desses que a gente sonha.

Meu Deus. Eu, que pensava já ter ouvido de tudo, não estava preparada para aquilo.

- E sonhou com o que?
- Não me lembro.

Era preciso ser profissional, mas eu não lembrava de ter lido em lugar nenhum qual era a conduta a ser adotada em caso de sonhos acidentalmente deglutidos. O que é que se faz quando alguém engole um sonho e o danado, imprudente, vai parar justamente no estômago? Antiácido? Sal de frutas? Lavagem gástrica? Procinético e laxativos, para o sonho desentalar e sair sozinho pelas vias naturais? Esperar passar? Vai saber! Engolir o espanto, executar o exame físico e continuar tentando identificar qual era o problema dele era o tudo o que eu podia fazer no momento.

- Você tem gastrite?
- Não, senhora.
- Problema de coração? Pressão alta? Diabetes?
- Não, senhora.
- Toma algum remédio?
- Não sou louco.
- Não disse que é.
- Mas pensou. Desculpe.
- Na boa. Você toma?
- Não.
- Teve algum aborrecimento?
- Não.
- Isso já aconteceu antes?
- Com sonho sonhado, foi a primeira vez.

Larguei o estetoscópio sobre a mesa e decidi prescrever um antipsicótico, mas a caneta vacilou sobre o papel – ou fui eu que vacilei? Fosse como fosse, ele percebeu, e na sua voz transparecia um quê de orgulho ferido.

- A senhora não está me acreditando. Estou lhe dizendo, engoli um sonho. E estou com uma coisa no peito e eu só queria que a senhora me ajudasse a fazer isso passar.

Ele me olhava com os olhos muito abertos. E eu, não sei bem o porquê, nessa troca de olhares – ou melhor, nessa súbita invasão de mim pela angústia daquele homem que tão sinceramente procurava alívio para o seu mal – comecei a acreditar que ele, por que não?, havia sim engolido um sonho, eu que de repente me lembrava em cores vivas dos muitos sonhos que também engolira, acidentalmente ou nem tanto, ao longo da vida. E agora eu entendia, entendia perfeitamente. Sonho engolido faz um mal danado – sonho é pra ser sonhado até o fim, ora; sonho engolido, não vivido, só pode mesmo fazer mal à saúde. Eu não podia tirar o sonho de lá: o homem teria de digeri-lo até que não houvesse lembrança dele, ou que lhe nascesse outro sonho na cabeça. Mas eu podia tentar explicar a ele o jeito mais ameno, já que, tantas vezes, passara pela mesma experiência terrível. O que se sucedeu não me compete contar aqui; o fato é que ele melhorou e deixou o consultório bem mais aliviado e com um sorriso largo no “muito obrigado” repetido umas três ou quatro vezes enquanto ele percorria o caminho até a porta de saída, acompanhado por sua comitiva.

Voltei para o dormitório pensando no engolidor de sonhos. Um homem com "uma coisa no peito". Que sonho afinal fora aquele que, ao ser interrompido, provocara tamanho mal-estar? Será que ele, um dia, finalmente o sonharia inteiro ou o sonho permaneceria eternamente a mesma vagueza interminada e abrupta, translúcida, para sempre perdida perdida a meio caminho entre corpo e espírito? Há tantos sonhos que nascem com esse destino triste, e há tanto males nascidos dessa condição. Engolidores de sonhos, quem diria. “Onirófagos”. Talvez no dia em que alguém se dedicar a escrever um Tratado Geral Sobre os Males da Alma essa curiosa onirofagia seja finalmente compreendida e adequadamente diagnosticada, quem sabe até combatida profilaticamente – porque o tratamento, algo me diz que esse sempre será difícil: engolir sonhos, definitivamente, é prejudicial à saúde. Madrugada alta, gelada, densa. Apaguei as luzes e espichei o corpo sobre a cama com a cabeça cheia de ideias e uma estranha comichão no peito, deitei a cabeça no travesseiro e, instintivamente, adormeci.


_____________________

Queridos meus: por mais estranho que pareça, esse conto foi construído a partir de um relato real, colhido em um dos meus plantões de urgência e emergência. Agradeço aqui a um certo jornalista de Minas Gerais que, em uma conversa despretensiosa, me fez ver o quanto de lirismo existia na história. O próximo post que vocês lerão por aqui também é fruto das descobertas que tenho feito na minha vida nova no Paraná - e nele, lhes apresentarei uma pessoa muito especial. :)

Beijos!


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

13º Andar

Publicado originalmente no
Novas Visões,
em junho de 2008.


Soundtrack: The Doors - The End




Entrou em pânico quando percebeu que ela, de fato, não respirava. A flacidez fria daquele rosto pequeno, de traços levemente orientais, subitamente assumira uma assustadora lividez, anúncio de uma realidade tão inesperada quanto irremediável. Morta. Sentiu o sangue congelando de imediato nas veias ao contato daquele corpo inerte, o coração prestes a se despedaçar tão descompassado se havia tornado. Adormecera bêbado ao lado de uma desconhecida no quarto mofento de um hotel vagabundo e acordava desagradavelmente sóbrio, nu, dividindo a cama com um cadáver – circunstância que o nauseava, embora não conseguisse se afastar dali nem desviar os olhos da mulher. Que teria acontecido? Perplexo, imerso numa desorientação que o mantinha preso ao colchão desarrumado com cheiro de bebida, observou o terrível contraste entre os cabelos escuros e a pele muito clara já vencida pela palidez mórbida da morte, os seios pequenos e rijos repousando sobre o peito imóvel. Morta. Não ouvira gritos, não notara quaisquer indícios de suicídio – ela não parecia mesmo o tipo de mulher disposta a se matar. Sem sinais de violência, sem marcas de qualquer natureza, sem nada. Absolutamente nada. Apenas morta.

Como se chamava mesmo, Virgínia? Vanessa? Valéria? Bianca? Nem guardara o nome, não o ouvira mais de uma vez desde que se haviam encontrado naquela boatezinha chinfrim de periferia. Ela era bonita, parecia uma índia de pele branca, o corpo apertado num vestido transpirando vulgaridade e luxúria, o desejo queimando nos olhos oblíquos semi-ocultos pelos cílios pesados de rímel. Fora dela a sugestão do hotel, fizera o convite em meio a beijos lascivos regados a muito álcool. Abriram a porta do quarto cambaleando, às gargalhadas, ela segurando nas mãos uma garrafa de tequila, ele já demasiadamente tonto, tentando arrancar-lhe o vestido. Beijos, carícias, goles, goles, goles. Depois mais nada, lembrança alguma. Apagara. Esforçava-se para compreender o que teria acontecido, o suor escorrendo pela testa gelada, a respiração ofegante e curta, o olhar acorrentado a um ponto situado entre o coerente e o inverossímil em qualquer lugar no encardido da parede, que teria acontecido? Tudo era confuso, borráceo, esdrúxulo, aquela mulher morta, aquela droga de hotel, aquele embrulho no estômago, mistura de náusea, ressaca e medo, aquele silêncio de tumba violentado pelo som da sua própria respiração, que teria acontecido? O medo maior era de tê-la matado. Tornado-se um assassino. Por que mataria aquela mulher? Matara aquela mulher? Aquela merda de silêncio. Aquela merda de silêncio e de repente trrrrrrim! – chicoteando-lhe os ouvidos, sacudindo-lhe o corpo num pulo, a mão indo parar sobre o seio já semi-enrijecido, ele se assustando com a textura do corpo, nojo, náusea, medo, a bola no estômago irrompendo garganta afora, vou vomitar, banheiro, merda de telefone. Tarde demais, o peito sujo, o colchão sujo. Fétido, tudo fétido, o quarto, ele, ela, a situação, tudo fétido, tudo sujo. Tudo demasiadamente sujo.

Banheiro. A água escorrendo pelo corpo, gelada como aquele cadáver. Tão gelada. Merda de telefone, quem teria ligado, alguém procurando por ela? Depois perguntaria à recepcionista. Tentou relaxar um pouco durante o banho, era boa aquela sensação dolorosa de frio – estava tão entorpecido que precisava sentir alguma coisa. A água escorrendo pelo corpo, o seu. Era bom. Acabou perdendo a noção do tempo absorvido no banho, a sensação já não era de dor, transformara-se em quase redenção. Fechou as torneiras, apanhou a toalha já usada, enxugou lentamente o rosto, a toalha pouco a pouco desnudando os olhos em frente ao espelho, o interior do quarto se esgueirando na sua superfície lisa. E o coração descompassado outra vez, o sangue congelando, o medo, o impossível estampado naquele reflexo – a cama desarrumada, a sujeira, a bagunça, e só. Ela havia desaparecido.

Ela havia desaparecido. O corpo havia desaparecido.

Largou a toalha no chão e, atônito, as pernas trêmulas, verificou a porta do quarto: trancada. A chave permanecia intocada sobre o criado-mudo. Entrar pela janela e carregar um cadáver através dela? Impossível, era o 13º andar. Nada fora mexido; as coisas da morta continuavam espalhadas pelo piso do cômodo. O telefone tocando novamente. Atendeu, do outro lado da linha só o silêncio, desligou, precisava se acalmar, onde afinal teria ido parar aquele maldito corpo? Outro trrrrrrim irritante e fora de hora, atendeu, outro silêncio. Palhaçada. Discou para a recepção.

- Olha, não sei o que está acontecendo aqui. Mas há um engraçadinho testando a minha paciência ao telefone, então não transfira mais chamada nenhuma para o 1303, entendeu?

- Desculpe, senhor, mas não houve nenhum chamado para o 1303.

- Escuta, querida, acabei de atender ao telefone pela terceira vez. Não estou louco.

- Lamento, senhor, realmente não houve nenhum chamado. Se o senhor preferir, podemos...

Desligou com ódio da recepcionista, nem esperou que concluísse a frase. Confuso, apavorado, perdido, a mulher praticamente o chamara de louco, se queixaria ao gerente daquela vagabunda. O corpo. Que acontecera ao corpo? Outra vez, trrrrrrrrim, trrrrrrrrim, muitas vezes, não atenderia, atendeu: uma gargalhada... seria possível? Ele vira, tocara, ela estava morta – mas era ela, conhecia aquela gargalhada... era ela, sim, era ela! Como podia? Sentiu o corpo desfalecer e desabar sobre o chão, a mão direita procurando aflita pelo gancho do telefone que rolara para baixo da cama, precisava falar com ela, balbuciou um “alô” quase inaudível, tarde demais: a chamada fora interrompida. Precisava falar com alguém ou ficaria louco de verdade, discou para a polícia, desistiu, discou para a esposa, desistiu, falaria o quê? Que uma desconhecida com quem havia transado durante a noite e que supostamente fora morta por ele o estava assombrando ao telefone? Agora ouvia passos no corredor, lentos, ritmados, batidas na porta, não abriria, queria sumir, o peito explodindo, a bola no estômago voltando a crescer, o telefone, trrrrrrrrim, o chuveiro ainda aberto, a água escorrendo gelada como aquele cadáver, passos, trrrrrrrrim, toc-toc, passos, trrrrrrrrim, toc-toc, passos, trrrrrrrrim, toc-toc... trrrrrrrrim, toc-toc...

Acordou coberto de suor, ainda sob o impacto do sonho; ao fundo, o som estridente do despertador do telefone celular, gritando numa insistência irrequieta. Maldita tequila. A mulher devia estar no chuveiro, podia ouvir o som das torneiras abertas. Olhou em volta: uma garrafa vazia abandonada num vão entre o criado mudo e o guarda-roupa. Ao lado, a carteira. Sentia as pernas bambeando, a cabeça latejante de uma explosão iminente, o estômago embrulhado, um torpor horrível. Horrível. Meio tonto, venceu a resistência do próprio corpo e cambaleou até o interruptor; o súbito clarão amarelo turvou-lhe a vista por alguns segundos, as coisas pouco a pouco assumindo formas inteligíveis. A carteira! Atirou-se a ela num ímpeto, abriu: vazia. A mulher limpara até as moedas. Ela provavelmente pusera a droga na bebida, apagou depois de engolir aquela coisa. Procurou-a no banheiro, em vão – havia desaparecido, àquela hora já estaria longe.

Respirou fundo e, enquanto recolhia seus pertences espalhados pelo quarto, pensava na melhor desculpa que poderia inventar para a esposa e para o gerente daquela espelunca – pagar a conta do hotel era impensável, não tinha dinheiro nem ao menos para tomar um ônibus. Acabou desistindo de registrar queixa na delegacia: seria uma dor de cabeça a mais e ainda teria de agüentar as piadas por ter sido enganado daquela maneira ridícula. Faria daquele subúrbio um lugar de peregrinação, um dia a encontraria pelas ruas. Aí sim, acertariam as contas. Do seu jeito. Lançou um último olhar para o interior do cômodo, a mão direita segurando a maçaneta da porta entreaberta; alguns segundos mais e, após girar a chave, caminhou alguns passos, tomou o elevador e desceu. Ainda acertariam as contas.

Vaca.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sobre Amor e Outras Luzes


Soundtrack: Eels - My Beloved Monster




Ontem, 25 de dezembro, Natal, fui trabalhar como de costume - porque médico não tem feriado nem dia santo e porque eu simplesmente não consigo deixar de passar no hospital para avaliar os pacientes internados. A verdade é que nem precisava ter ido já que o plantonista que segura as pontas nessas datas estava por lá, mas fui - e, depois de passar a visita nas enfermarias, resolvi dar uma esticada até o shopping mais próximo a fim de pegar um cinema, coisa praticamente impossível durante a semana. Nada de filmes-cabeça ou produções oscarizáveis: a idéia era assistir a algo leve e sem grandes pretensões além de entretenimento, e eu já estava quase comprando o ingresso quando vi que Marley & Eu, adaptação para as telas do best-seller homônimo de John Grogan, dirigida por David Frankel (de "O Diabo Veste Prada") e que conta com Owen Wilson e Jennifer Aniston no elenco, estava estreando no circuito e que faltavam apenas alguns minutos para o início da primeira sessão. Li o livro há alguns meses e, coincidentemente, li anteontem a resenha do filme na edição de dezembro de uma das revistas que assino - e já havia mesmo me apaixonado irremediavelmente pelo incontrolável e desastrado labrador cuja história, verídica e contada pelo dono, serve como pano de fundo para uma viagem pelos caminhos e descaminhos que regem as relações entre humanos e animais e, sobretudo, entre humanos e humanos.

Marley & Eu não é um filme sobre cachorros, apesar de o seu protagonista ser um endiabrado porém adorável "bichinho" de 4 patas: o labrador de 50 kg é do tipo que destrói todos os móveis, monta nas pessoas, faz xixi em lugares inapropriados, arrebenta portas por medo de trovões, rompe paredes de compensado, baba nas visitas, arranca roupas de varais vizinhos, come praticamente tudo que vê pela frente - incluindo revestimentos de sofás, jóias, um telefone e uma secretária eletrônica - e que torna todas as tentativas de adestramento um grande fiasco. No entanto, mesmo sendo tão desajustado, Marley está longe de ser - como sugere o subtítulo do filme - o pior cão do mundo: da mesma forma que recusa qualquer limite ao seu comportamento, seu amor e lealdade também são ilimitados. Marley, à medida em que transforma a vida dos Grogan em uma fonte inesgotável de confusões, se torna um devotado membro da família e mostra que o amor incondicional pode vir de várias maneiras - algumas mais estabanadas, é verdade, mas nem por isso menos incondicionais ou menos leais. Marley & Eu, mais do que a história de uma família e seu animal de estimação, é uma história sobre amor, sobre amar alguém cheio de defeitos, como todos nós, e ser amado por esse ser; sobre o quão feliz e rica pode ser essa convivência desde que deixemos os senões de lado. É quase impossível não simpatizar com o grandalhão, não se acumpliciar com suas travessuras e não se deixar cativar por seu coração puro.

Marley & Eu é uma história para todas as idades, lindamente despretensiosa como igualmente o são os amores gratuitos, esses que nascem e independem de razões para existir. É uma história sobre tolerância, comprometimento, amizade e incondicionalidade - que ultrapassa a relação entre homem e animal e estende profundas raízes para o campo das relações interpessoais, que tantas vezes esbarram em reservas tão inúteis quanto castradoras. Uma história, talvez, sobre vida e morte, e sobre os laços que realmente importam nesse percurso que fazemos entre essa existência aqui, tão única com suas alegrias e dores, e o instante de apagar-se dela. Uma história para rir, para chorar, para se emocionar, para pensar e, sobretudo, uma história para não ignorar nem esquecer.

Ainda dá tempo de desejar um Feliz Natal, não? Afinal de contas, Natal é todo dia, desde que estejamos de coração aberto ao verdadeiro significado dessa data... Então Feliz Todo Dia a todos, e um 2009 carregado de 365 dias de boas energias e de amor em overdoses, minha gente, muito amor pra todo mundo!

Beijos!

___________

UPDATE:

Minha mãe, passando por aqui para ler minha opinião sobre o filme - já que a intimei a assisti-lo - deu uma risada e saiu-se com esta: se esse Marley fosse uma pessoa, sem dúvida seria você. Até o olhar é igual. Mães... quem pode com elas?



quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Exercício Para Parar de Pensar

Das lembranças não havidas escorre um resto
de mim;
quase nulo, e pequeno.
Mas, astuto, se agiganta
e vira Eu completo e sem memória,
incoercível e largo Eu.
Escolho-me.


Soundtrack: Black Crows - Sometimes Salvation




Enquanto a memória das inexistências mina pelas torneiras abertas, desligo o telefone e o pensamento para que ninguém chame meu nome em vão – mas é impossível, ao menos hoje, arrancar de mim esse nome amargo pendurado nos lábios, e esses sons hostis cravados na minha língua. Então engulo as letras, e os cacos pontiagudos das palavras trituradas vão ferindo a garganta e regurgitando impacientes, e sempre me enchem a boca e o peito. Falar nunca é fácil. Enquanto o dia borra de tic-tac-tic-tac-tic-tac essa irritação zombeteira repousada sobre meu ventre e os segundos pulsam esparramados sobre o piso frio, quase esqueço. Quase, pois da minha vida inteira eu não me recordo mais e do que não vivi, eu me lembro. Eu me lembro, e como pode essa lembrança se impor assim tão nítida, teimosa e nítida, indesejada e nítida, esvaecendo com um único “click” minha resolução de não lembrar? Aqui estou “sssst, silêncio, beije a minha nuca, Esquecimento, eu te assusto?” – e o pensamento avança nesse desarranjo dual, sssst, click, cheio de vontade própria, eu acreditando e desacreditando nele – sou falha, eis a minha perfeição. Calar nunca é fácil: eu derramo o não-dito coração adentro, um dia me aquieto. Enquanto isso, click, sssst, tic-tac, click, sssst, tic-tac, click, sssst, tic-tac, perfilados, um a um, entre mim e a outra margem do som.


terça-feira, 16 de setembro de 2008

Carta Para P.

Do que é palpável, embora intocável.

Soundtrack: U2 -
One



"Querida P.,

Esta noite sonhei que lhe fazia uma visita. Não me pergunte como cheguei até aí; o fato é que cheguei – e acredite, nunca imaginei que Lorena fosse assim tão perto!

Não me lembro se havia avisado... mas de alguma forma você já sabia, e me aguardava com a porta aberta. O dia era bonito, claro, de céu sem nuvens e aconchego morno. A casa cheirava a lavanda, e era macio caminhar, sobre o chão de tacos encerados, pelos espaços circundados por paredes azuis repletos de livros, papéis e claridade.

Em sonhos, você sabe, tudo é possível e, em se tratando dos meus, então... pasme: você tinha, além das duas cachorrinhas, cinco – isso mesmo, cinco – macaquinhos-de-cheiro que seu pai havia lhe levado de presente de Tucuruí, um deles grande, gordo, peludo, branco, com uma cara bem suspeita de cachorrinho maltês (e estou literalmente às gargalhadas lembrando desse tal bichinho de espécie duvidosa), cada um com um nome tirado daqueles romances que você adora, embora não tivesse nenhum Aureliano no meio... Todos moravam em um viveiro imenso, cheio de plantas e orquídeas (não sei se macaquinhos-de-cheiro comem orquídeas, mas o fato é que os seus eram “gentlemen” e cuidavam muito bem delas) e um deles, preto, tão pequeno que cabia na palma da mão, de vez em quando virava um gato...

E passamos a manhã (e sei que era manhã, embora não houvesse relógios para marcar o tempo) conversando sobre aquelas trivialidades que fazem especiais as conversas de amigos que se querem bem, entre brigadeiros de colher e sonhos de padaria, que a sua empregada chamada Tamires, linda, simpaticíssima e que passava os dias cantarolando Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, havia ido comprar em uma bicicleta vermelha enfeitada com flores amarelas. E no fundo do saco de papel pardo que trouxera os doces havia um biscoito da sorte – e, embora eu não me lembre da mensagem, sei que era alguma coisa muito boa, porque nos olhamos, aos risos, e dissemos “éééééééé!”...

E assim foi o dia. Leve, leve, leve. Só não sei por onde andava o nosso B., que se recusou a dar o ar da graça nesse sonho maluco, é verdade, mas lindo. Ainda nos perguntamos, várias vezes, onde ele estaria, que não aparecia nunca – dizíamos “o sonho vai terminar e o danado não aparece”... Pena. Ele teria se divertido, tenho certeza. Devia estar fotografando flores, crianças ou outras coisas bonitas em algum outro sonho por aí...

Esses são os detalhes de que me lembro. Lembro ainda de que não houve uma despedida – simplesmente me vi, de uma hora para outra, dentro de um banheiro de avião que se abria não para o avião (afinal estamos falando de um sonho meu), mas para o meu quarto, onde eu encontrava a mim mesma dormindo! E então, calmamente, deitei ao meu lado e acordei – e cá estou eu, transcrevendo tudo isso pra você.

E nem sei mesmo se tudo isso aconteceu aí na sua Lorena. Talvez tenha se passado nesse lugar onde você tanto deseja estar para começar a existir... só sei que esse sonho me deu a certeza ainda mais certeza de que estamos sempre ao lado uma da outra, embora as geografias teimem em dizer o contrário. E de que a vida é mais doce e mais vida simplesmente por saber que você está por perto.

Amo você infinito.

Beijos, queijos, cafunés e brigadeiros,

F.

18 de dezembro de 2007, exatamente às 13:55h."


Amiga-metade, publicar essa carta, coisa tão nossa, aqui, quase um ano depois, foi um jeito de não me perder desse lugar onde existir é possível. Desse lugar porto-seguro que está lá desde que acreditemos nele. Obrigada por segurar a minha mão nesse vendaval que tem varrido minhas forças, por não me deixar cair nem desacreditar que isso tudo passa, por ler o meu silêncio e me acolher no seu abraço, você que a vida inteira sempre esteve tão próxima. Amo você.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Confissão

Dos segredos não tão secretos.

Soundtrack: Led Zeppelin - All My Love




De mim escorrem veneno e bálsamo. Fecha os olhos: sou teu fim e teu começo, vês? Cala-te, escuta o som que despedaça tua ignorância: é o pulsar das minhas veias a gritar que és tu o sangue que as alimenta.

Do meu silêncio escorrem palavras que antes jamais ousei proferir. Nascem de mim, de um canto obscuro no meu coração – coração que interpreta a vontade das deusas que fiam o desejo dos amantes. Ouve. Ouve, e não me condenes por te ver além dos olhos.

Toca meu corpo: ele queima. Incendeia-se em uma fúria doce e se desfaz como nuvem ao contato das tuas carícias imaginárias. Agita-se em uma inquietação trêmula, quase febril, diante da iminência de cruzar o exíguo espaço que se interpõe entre a tua boca e a minha. Toca meu corpo, e deixa que tuas mãos me revelem sôfregas o que sentes.

És capaz de sentir-me perto de ti? Pois ouve: é assim que te sinto – presença, cheiro, gosto, respiração, pulsação. Pele, fluidos, alma, som, música. Invasão, delírio, sentidos, turbilhão, avassalamento. Destilo tua essência para que te embriagues com o sabor insensato da minha. Fecha teus olhos: verás minhas formas surgirem sinuosas nos teus devaneios mais secretos; verás meus anseios e desejos confluírem submissos na tua direção... e verás o que jamais viste, mas que nesse instante é tão absurdamente ostensivo que já não se deixa ocultar: verás que sou tua, incondicional e irremediavelmente, inteira e confessa, absorvida pela loucura estranhamente lúcida de te pertencer antes mesmo que me possuas.

Vê quem eu sou. Vê o que sou: pão, vinho, leito, mulher. Vê o Tudo que te ofereço. Toma-me. Bebe-me. Embebe-me de ti. Multiplica-me. Ama-me.

Ouve, toca, cheira, sente, devora. Olha minha face – a face desarmada e limpa que te confronta em confissão. Olha minha face, e além dela, e além de mim, e além de ti. Olha-me: vês? És tu...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

(P) Rumo

E crendo.

E sendo.

E indo.

Soundtrack: Pink Floyd - Fearless



E se está sempre a um passo de, e a vida anda em círculos, eu sei, eu acredito; e que é o destino senão uma gigantesca e imprevisível esfera? Vão-se as pernas parindo caminhos interminados sempre, calcados na sinuosidade serpenteada das cogitações, na constância insistente das transitoriedades; vai-se o coração desnorteando humores, e esperando, e desesperando, e certo, e incerto, e ainda assim esmagadoramente coração que pulsa, e vai – entidade diversa e voluntariosa, excêntrica e ignorante de riscos ou culpas. Insensato, pobre coração. À beira de uma desconjunção qualquer. À beira de si, tão doce abismo, margeado por ânsias cujo hálito cheira a calor de braços e apaga da boca o gosto amarelo das reticências engolidas a seco. Insensato, pobre coração.

Vão-se as pernas no ritmo do bater dos cílios, fiando um rosário de despertares iminentes, pés lavados de horas e quase-fé – e há sempre um segundo onde o impossível se esquece de sê-lo e um suspiro guardado no peito, e é tanto o que cabe num suspiro. Vai-se o corpo gravitando rumo a um lugar ainda por haver num deslizar ondulante entre as mãos espalmadas do infinito: hoje. Vão-se os dedos desenhando quimeras na pele, vão-se os lábios desferindo impropérios na carne, vão-se os dentes devorando famintos os dias, vai-se o coração, insensato e pobre, descuidado de si, ocupado em apenas ir. Vão-se as pernas, os dedos, os lábios, os dentes, vai-se o corpo, eu sei, eu acredito, coração sempre a um passo de. À beira de uma imolação qualquer. Desaprumado, indo, sendo, somente e então. Pobre, insensato, universo-coração.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Correspondência

R.S.V.P.
Soundtrack: Rita Lee - Cartão Postal


Quando aquele cartão escorregou pelo vão da porta – sem remetente, mensagem ou assinatura – a intenção primeira foi largá-lo ignorado em meio à confusão de papéis sobre a mesa. Ela então não sabia que algumas pessoas tinham o poder de, disfarçadas de postais, cruzar o espaço para se materializar diante de outras; se deu conta disso quando, ao reter nas mãos aquele pequenino retângulo de papel, se surpreendeu com a nítida sensação do corpo arrepiando-se, solicitado pela carícia inusitada das mãos do outro. Sorriu diante da sua momentânea ingenuidade – ele, que tanto já se metamorfoseara em música, intenção e memória, por que não haveria de chegar até ali sob aquela forma tão insuspeita e, ao mesmo tempo, tão incontestavelmente característica? Estava lá, se impondo sobre o que, à primeira vista, era não mais que uma reprodução da paisagem do Jardim Botânico, os detalhes inconfundíveis lhe saltando aos olhos, tomando corpo, criando covinha no queixo, barba por fazer, camiseta branca, tatuagem no peito. Sardas, muitas sardas, nos ombros, nas costas, como pequeninos beijos fincados na pele. A risada contida e o meio-sorriso. Despropósito dos despropósitos, mas perfeitamente possível.

Observou o cartão com minúcia desapressada, deixou que os dedos deslizassem com carinho pela superfície lisa, uma, duas, três, muitas vezes. Nenhuma frase, nenhuma palavra. Desnecessárias, ambas; o que havia de ser dito, fora dito naquela fotografia – uma cidade, um destino. Sem carimbo do correio. Sem intermediários, entremeios, entrelinhas, subterfúgios, subliminariedades, mas com endereço certo: ele. Sentou-se diante do computador, ensaiou escrever um e-mail, desistiu logo em seguida, tantas coisas queria dizer e as palavras parecendo inapropriadas, insossas, furtivas. Então rabiscou um bilhete imaginário, perfumou-o, beijou-o demorada e cuidadosamente – para que nele ficasse o desenho dos lábios pintados com o batom preferido – e lançou ao vento a inusitada correspondência onde se lia, em letras caprichadas: “Sabe vontade? Além.”

domingo, 25 de maio de 2008

In Media Res

Eu sou este instante que me preenche os olhos.
E este mundo que me preenche o peito.

Soundtrack: Smashing Pumpkins - Landslide



A cada dia me convenço mais e mais de que eu não sei sentir. Talvez porque as emoções se apossem do meu espírito de maneira tão exacerbada que se acotovelam em completa desordem dentro de mim, em um crescente disrítmico e irrefreável. É esse o meu estado natural, portadora resignada de uma bola no peito, imensa e quase asfixiante – meu coração, talvez, cansado de tentar conter o incontinente. Carrasco da minha paciência pergaminhada desabando exausta num leito quieto de intenções cheirando à iminência de rompantes, vitimada por uma angústia que não é angústia e nem deve ter nome de tão particularmente sentida.

Fome, talvez, de vontades. A vontade coibida é uma rosa murcha – o azedume do cheiro, a aparência macerada de coisa cuja hora passou, o rubro virado em tom-qualquer-um, a aversão completa, quase com um quê de piedade, provocada por essa visão de quase-morte, ou quase-vida. E a bola no peito crescendo, crescendo, crescendo, crescendo. Crescendo. E eu fico quieta, muito quieta, naquela imobilidade agressivamente vigil de quem espreita a urgência de um grito, e, de repente, zás! – aquela explosão de sempre, tão destrutiva quanto regeneradora, caos restabelecendo a ordem e o peito serenando, serenando, serenando, serenando... serenando... porque sou aquela intenção de sempre, aquela tensão de sempre, aquela vazão de sempre. Aquela, de sempre.

Não sei sentir, talvez nunca saiba. E minha resignação diante dessa falta é a prova cabal de que tal aprendizado se opõe diametralmente à minha natureza de criatura exacerbada, se debatendo contínua e violentamente dentro de um corpo frágil e limitado até a completa exaustão – derramada inteira nos próprios olhos, estremecida, ávida de sentires caudalosos e irreprimidos. Não sei sentir – e me entrego sem resistências a esse não saber. Desisto de tentar ser quem não sou, de ignorar que carrego no peito o que me pertence. Ninguém consegue medir forças consigo mesmo por tanto tempo.


*In Media Res: expressão latina que significa literalmente "no meio dos acontecimentos".

E tem post novo lá no Espasmos de Riso. A história de como uma menina indefesa - eu - foi transformada em um cogumelo cabeludo por uma bruxa malvada. Duvidam? Pois passem lá e conheçam detalhes do "causo"...

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Crisálida

Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida.

(Carlos Drummond de Andrade)

Soundtrack: Rose Hill Drive - It's Simple


Despertou por volta do meio-dia. A cabeça, pesada, pulsava latejante como um ferimento aberto... O olhar ainda meio desfocado procurou preguiçoso pela garrafa de vinho na qual mergulhara na noite anterior. Vazia, abandonada ao pé da cama. Por que não estava surpresa? Não fora a primeira vez que uma garrafa de vinho lhe servira como companhia em uma noite solitária; provavelmente não seria a última.

Enfiou novamente a cabeça debaixo dos lençóis na tentativa de voltar para o sono letárgico do qual despertara a contragosto; o quarto, mergulhado na penumbra proporcionada pelas cortinas cerradas e janelas fechadas, lhe parecia atraente demais para que ela ensaiasse qualquer tentativa de levantar e encarar o mundo lá fora. Foi necessário um grande esforço para que, finalmente, decidisse se desencasular de sua crisálida de cetim e voltar à realidade, embora esta não fosse exatamente a melhor opção segundo seu confuso e peculiar ponto de vista.

Levantou-se lentamente e caminhou, ainda cambaleante, até a janela; experimentou entreabrir as cortinas escuras. Um facho de luz quente e sufocante atingiu-lhe em cheio o rosto que, acostumado à escuridão das últimas horas, contorceu-se em uma careta. “Mais tarde”, ponderou. Agora precisava de um café. Forte, bem forte. Bem quente, para incendiar todo aquele torpor que a envolvia como tentáculos de polvo. Amargo, como o gosto teimoso e impertinente de não sei o quê a habita-lhe permanentemente a boca. Precisava de um café. Colocou a água para ferver, imaginando as moléculas do líquido a se agitarem com o calor do fogo; a idéia de uma ducha morna brotou, lhe parecendo a chance de uma carícia para o corpo martirizado pelo vinho, pelas contrariedades, pela solidão tão odiada e companheira... Sim, tomaria um bom banho e depois, com corpo e alma limpos, sorveria a negra bebida dos deuses.

Abriu as torneiras, regulou a temperatura e, como de costume, observou a água fluir, por alguns segundos desejando que o curso dos acontecimentos que permeavam seus caminhos fosse assim cristalino e previsível. Deixou-se molhar, se permitindo a sensação reconfortante e há tanto ignorada de extirpar tudo o que a incomodava – ao menos por breves instantes – apenas para entregar-se ao prazer de pensar em absolutamente nada. A água quente a escorrer pela pele funcionava como um resgate de si própria. Ouviu o ruído da chuva anunciando-se do lado de fora, o burburinho tímido e sussurrado crescendo e se transformando no majestoso som dos pingos desabando sobre ruas, telhados e paredes. Água, por todos os lados. Água. Como a que lhe inundava os poros. Revisitou os últimos acontecimentos de sua vida: estava cansada desse dormir e acordar sem expectativas, cansada do trabalho desempenhado maquinalmente, cansada dos relacionamentos infrutíferos, cansada, cansada, cansada. O banho lhe trouxera mais do que relaxamento: suscitara o questionamento de estar protagonizando uma existência que não era a sua. Uma idéia louca ecoou em sua mente: se aquela não era a sua vida, qual seria, e quem a estaria vivendo em seu lugar? Quem estaria morando na sua casa, amando o seu amor, passeando com o seu cachorro e fazendo todas as coisas que ela certamente faria, não fosse aquela despropositada troca?

Fechou as torneiras e olhou-se no espelho embaçado com o corpo ainda molhado. Limpou suavemente a superfície de vidro com as mãos; viu um rosto igual ao seu, porém, sob algum aspecto, diferente, a fitá-la com olhos inquiridores. Castanhos como os seus, mas vívidos, curiosos, contemplativos. Pela primeira vez não enxergou as cicatrizes que as tristezas e aborrecimentos haviam entalhado em sua pele clara. Percebeu um esboço de sorriso no rosto à sua frente, retribuiu a gentileza, o rosto lançou-lhe então um dos sorrisos mais bonitos que já havia visto. Decidiu que aquele rosto seria seu a partir daquele momento, o rosto que se havia perdido por tanto tempo mas que reencontrara na água, no espelho, em si mesma, talvez.

Lembrou-se da garrafa de vinho. Não fora a primeira, provavelmente não seria a última. Já não importava; a cabeça não pesava mais. Corpo e alma limpos. O gosto amargo da boca desaparecera como por encanto. Foi até as janelas, abriu as cortinas, deixou que o cheiro bom da rua molhada invadisse o quarto, desistiu do café. Escolheu o vestido mais bonito, justamente o que ficara esquecido no canto do armário por tanto tempo que ela nem conseguia lembrar quando o usara pela última vez. Vestiu, nunca parecera tão bonito quanto agora, percebeu que a lagarta finalmente se havia tornado borboleta. Desceu as escadas correndo, cantarolando uma música antiga, fechou a porta e partiu sem hora para voltar. Saía em busca da sua vida.


Texto publicado originalmente no extinto blog Cotidianidades, em algum dia perdido de junho de 2007. E quem gosta de rock - daquele rock mais puro, com uma levada meio setentista - e ainda não conhece Rose Hill Drive, ouça o álbum de estréia dos caras, intitulado apenas Rose Hill Drive (2006). Vale a pena.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Milagreiro

"Um dos maiores milagres de Deus é permitir
que pessoas comuns façam coisas incomuns."

(H. Jackson Brown)

Soundtrack: Jeff Buckley - Hallelujah*


Ninguém jamais soube ao certo qual a origem daquele menino. Não veio de lugar algum; apareceu, apenas. Foi Zé da Pedra quem o encontrou ali, nas proximidades da Pedra do Arco, brincando de enterrar os pés na areia sem se importar com a madrugada fria anunciando o nascimento de mais uma manhã, o corpo resguardado somente por uma bermuda rota de chita. O velho pescador não entendia como uma criança tão mirrada podia suportar assim o frio se ele, homem feito e acostumado com intempéries, sentia doerem os ossos com aquele tempo terrível. Zé da Pedra aproximou-se do pequeno, perguntou-lhe o nome. O menino, alheio, continuava a brincar na fina areia branca. O pescador insistiu; o garoto buscou com o olhar os olhos do velho, o mutismo se transformando em um sorriso doce e desconcertante, sorriso de quem é imune aos males do mundo, invadindo o coração do homem como uma lufada de serenidade branda e sem pressa. Zé da Pedra observou cuidadoso que o menino tinha o corpo úmido; preocupado, decidiu levá-lo para casa e deixá-lo nas mãos de dona Teresa, até que um adulto aparecesse para buscá-lo.

Dona Teresa o recebeu como a um filho, o menino era um anjo, o sorriso tranqüilo pairando no rosto feito maresia. Mas estranho, não falava sequer uma palavra, apesar de compreender absolutamente tudo que lhe diziam. Ainda mais estranha era sua capacidade de se fazer entender apenas com o olhar, suas maneiras delicadas, sua serenidade inexplicavelmente contagiante... a mulher arrumou-lhe roupas e um lugar para dormir; como os dias se passassem sem que ninguém surgisse à sua procura, Zé da Pedra e dona Teresa não viram mal em ficar com ele, a quem já havia se apegado irremediavelmente. Porque não sabiam seu verdadeiro nome, e porque sua aparição se dera justo no dia desse santo, passaram a chamá-lo de Jerônimo.

Jerônimo era o sol que aquecia o casebre do pescador e sua esposa. Acompanhava o velho Zé da Pedra todas as manhãs até a Pedra do Arco e aguardava seu retorno à tardinha. Permanecia sentado sobre as rochas, observando os barcos de pescadores em seu balé sobre as ondas; às vezes fechava os olhos e, como que absorvido pelo cheiro do mar, parecia hipnotizado por uma espécie de transe. Foi assim que dona Teresa o encontrou no dia em que descobriu que o menino mudo sabia cantar. E cantava bonito de se ouvir, bonito de se sentir... Cantava e seu canto ecoava pelo mundo levando consigo a pureza da alma do menino. Dona Teresa o ouvia estática, silenciosa, entre lágrimas. Ele calou, abriu os olhos, sorriu para ela, a envolveu em um abraço terno. Voltaram para casa e as palavras eram desnecessárias.

As coisas estavam diferentes desde que Jerônimo chegara, dona Teresa agora percebia. Os homens voltavam do mar com as redes transbordantes de peixe; há tempos ninguém caía enfermo, as desavenças, outrora corriqueiras, faziam parte do passado. As crianças nasciam saudáveis, as mulheres tinham bons partos, os homens andavam apaziguados. Até o tempo, tão atroz naquela época do ano, subitamente se transmutara. Diariamente Jerônimo presenteava a vila com sua voz encantada – e era ele, dona Teresa tinha certeza, o responsável por aquela enxurrada de bênçãos. O dom do menino igualmente não passara despercebido aos demais habitantes do povoado – as pessoas afluíam à casa de dona Teresa à sua procura, muitas das vezes apenas para serem tocadas por ele. Seguiam-no até a Pedra do Arco para se embriagarem com seu canto feiticeiro – e choravam diante dele, se abraçavam uns aos outros, sentiam o amor fluir por entre seus corpos de gente crédula.

Houve dias a fio, porém, em que o pequeno silenciou. As redes retornavam vazias do mar; a discórdia insinuava-se sorrateira no coração das gentes, as moléstias ressurgiam impiedosas, tornando a castigar a carne de moços e velhos. O povo, possuído por uma irritação nervosa e insana, não compreendia o porquê daquele mutismo – e, em uma tarde de incontido desespero, invadiram a casa de Zé da Pedra em busca do menino milagreiro. Dona Teresa insistia em dizer que Jerônimo desaparecera, o choro lhe embotando a voz e as idéias, o nervosismo se agigantando diante da fúria dos invasores. E, de repente, o canto... o arrebatamento indescritível se apossando de suas almas através daquela voz devastadoramente bela.

Guiadas pelos sons as pessoas o encontraram na Perda do Arco, os olhos fixos no mar, os últimos raios do sol que se deitava no horizonte refletindo-se na sua tenra e alva pele de criança. Zé da Pedra fez menção de aproxima-se; o menino, com o rosto transfigurado por uma expressão de bondade infinita, sinalizou para que o velho pescador permanecesse onde estava. Um misto de medo, respeito e encantamento tomara conta daquela gente. O menino fechou os olhos e, instintivamente, todos os outros repetiram o gesto. E então Jerônimo cantou... doce, sublime como jamais havia cantado, sua voz lhes invadindo corações e mentes, mudando suas vidas para sempre. Durante uma fração incalculável de tempo permaneceram entorpecidos por aquele encanto; ao abrirem os olhos, porém, perceberam que o menino havia desaparecido.

Foram dias, semanas, meses de incessante e vã procura. Dona Teresa amofinou, quase morreu de tristeza; Zé da Pedra, melancólico, atracou o barco na praia e deliberou não mais entrar no mar. O povo da vila se uniu nas promessas, orações e nos desvelos com o velho casal. As coisas lentamente entravam nos eixos; as pessoas, aos poucos, percebiam a herança do menino. Era a solidariedade a semente que aquela criança havia plantado, e que só agora, na sua ausência, começava a dar os primeiros frutos.

Jerônimo jamais tornou a ser visto. Uns diziam que era anjo; outros diziam que era sonho. E aquela vila de pescadores jamais tornou a ser a mesma: seus habitantes haviam, finalmente, aprendido a se amar. A vida havia se tornado próspera, o mar era pródigo e farto, Deus os abençoara pela generosidade que agora era autêntica e gratuita. Quem passa por lá ainda ouve falar nos milagres do menino – e na doce voz que, todas as noites, acalenta o sono daquele povoado.


* Jeff Buckley (1966- 1997) foi um cantor, compositor e guitarrista norte-americano. Conhecido por seus dotes vocais, foi considerado pelos críticos umas das mais promissoras revelações musicais de sua época. Seu trabalho e seu estilo único continuam sendo admirados por fãs, artistas e músicos no mundo todo e, apesar da morte prematura, Jeff Buckley vem cada vez mais conquistando novos admiradores. "Grace" - o primeiro e único álbum de estúdio oficial e completo de Jeff Buckley, lançado em 1994, da qual faz parte a faixa Hallelujah, composta por Leonard Cohen em 1984 e considerada a melhor composição canadense da história - é constantemente citado como um dos melhores álbuns de todos os tempos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Vampiros


“Era a sensação de algo gelado, um abatimento,
um aperto no coração, uma irremediável aridez
de pensamento que nenhum estímulo da
imaginação seria capaz de elevar ao sublime.”

(Edgar Allan Poe em A Queda da Casa de Usher)

Soundtrack: Bauhaus - Bela Lugosi's Dead*






O mundo está infestado por vampiros.

E essa não é uma afirmação fundamentada em terrores noturnos originários da infância, nem a verbalização de uma realidade alternativa resultante de histórias sanguinolentas bombardeadas sobre um indivíduo influenciável aficionado por horror tales. É um alerta sobre uma praga recalcitrante e dissimulada que, há séculos, vem fazendo vítimas entre a humanidade desavisada. Vampiros. Por toda parte.

Engana-se, porém, quem acredita que os sugadores do novo milênio perambulam por aí com os caninos perfurantes e retráteis à mostra ou com sua sede de sangue escancarada na palidez mortiça do rosto, esgueirados nas sombras sob pena de morrerem estorricados ao sol. Nada. Os congêneres contemporâneos de Drácula e cia. desfilam entre nós em plena luz do dia – alguns bronzeadíssimos, com dentes de fazer inveja a qualquer modelo de propaganda de aparelho ortodôntico. Dormem em camas confortáveis (há, inclusive, os que preferem os modelos Box) e muitos deles são alucinados por torradinhas de alho, brócolis ao alho e óleo e outras iguarias preparadas com esse elemento outrora visceralmente abominado. Desenvolveram imunidade completa e permanente à antes tão temida água benta: alguns são batizados e, sacrilégio dos sacrilégios, até comungam nas missas dominicais.

Os vampiros do século XXI perderam a prerrogativa da imortalidade e tiveram sua expectativa de vida drasticamente reduzida – hoje vivem tanto quanto qualquer ser não-vampiresco e morrem, também, pelas mesmas causas. Talvez por isso sejam infinitamente mais vorazes que seus antepassados e tenham modificado os próprios hábitos alimentares ao longo da sua evolução. Já não vivem à caça de pescoços indefesos e suas carótidas palpitantes, túrgidas de sangue quente – se tornaram mais discretos e perspicazes e, em razão disso, muitíssimo mais perigosos: os neovampiros são, por excelência, exímios praticantes do predatismo de energia vital. E não o fazem metamorfoseados em morcegos ou cadáveres andantes, mas disfarçados sob carapaças aparentemente inócuas, acima de qualquer suspeita: alguns são capazes de mimetizar um pseudo-halo de santidade e, quase sempre, vampirizam um indivíduo – ou um grupo inteiro, dependendo da periculosidade do predador em questão – por longos períodos, sem que as vítimas se apercebam de sua triste condição de base da cadeia alimentar. E vampiros, quanto melhor nutridos, mais prazer têm em se refestelar no menu: a vítima vai ficando pálida, enfermiça, magricela, feridenta, azarada, neurastênica – e o vampiro em cima, porque vampiro que se preza rói o osso até o fim. Vampiro que é vampiro moderno não sai por aí arrebentando o pescoço de ninguém: ele arrebenta os bolsos, a saúde, a paciência, a sanidade da pobre criatura que escolheu para parasitar.

Vampiro que é vampiro moderno sabe que esse negócio de canino ensangüentado já era: toda a sua fome furiosamente destruidora está concentrada nos olhos. Neovampiros têm o olho gordo. Gordo não. Obeso mórbido, hipercalórico. Toneladas e toneladas de pura sucção espiritual permanentemente irradiadas de suas irisinhas malévolas. Sim, eles secam pimenteiras. Sim, eles são mais eficientes que o mais negro dos vodus ou que qualquer costura “overloque” na boca do sapo. Coisa de aterrorizar até mesmo o próprio Nosferatu e de causar pesadelos regados a vergonhosos litros de xixi na cama a Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro – aquele mesmo, cuja vingança “será malígrina”. Que ninguém duvide de sua existência – eles estão por aí, disfarçados de gente comum, prontinhos da silva para abocanhar o primeiro ingênuo disposto a ignorar sua malignidade potencial. Vampiros não são coisa do outro mundo. São deste aqui, mesmo. O mundo está infestado por vampiros. E quem estiver lendo esse aviso, muito cuidado: neste exato momento, pode haver um deles bem perto de você...


*Bauhaus é uma banda musical fundada em 1978 em Northampton, Inglaterra, composta pelo guitarrista Daniel Ash, o baixista David J e o baterista Kevin Haskins - que atuaram como trio até formarem quarteto com o vocalista Peter Murphy. Inspirados no horror dos filmes de vampiros, criaram a música Bela Lugosi's Dead, a qual acabou fazendo com que fossem considerados um dos fundadores do rock-gótico. Criaram um estilo minimalista e experimental, apoiado em guitarra reverberada e acordes frios e distantes de teclado. Em 2008 os Bauhaus lançaram um novo album de estúdio, "Go Away White", que garantiram ser marco final da banda.

domingo, 6 de abril de 2008

Sobre Amores Possíveis

E quem dirá que existe o sempre?
E quem dirá que não existe?

Ao som de Jim Sturgess - All My Loving
(uma das melhores releituras
desse clássico dos FabFour)




Ah, um amor daqueles.

Amor. Daqueles que a gente sente e não sabe o porquê, só sabe que é bom sentir sem tentar entender o motivo ou a dimensão. Daqueles que a gente respira, pelos quais se perde o fôlego, que fazem cada instante parecer o primeiro – com os mesmos arrepios, o mesmo frio na barriga, o mesmo brilho nos olhos, o mesmo sorriso bobo e gratuito estampado no rosto. Amor. Daqueles.

Você liga a tevê, ouve uma música, encosta o carro em frente à banca de revistas, faz um pit stop para um café ou para uma conversa sobre trivialidades, atravessa a rua. E ele está lá. Ele, o tal do amor, insinuado nas entrelinhas, capcioso, pronto para dar o bote. E é folgado, o bandido. Vai chegando, vai entrando, fazendo de casa da mãe Joana o coração distraído que esqueceu a porta aberta – ou qualquer mínima e incauta fresta por onde ele possa escorregar, pois é ladino e conhecedor de todas as manhas de driblar as vigilâncias. Uma vez que esteja dentro, inútil, completamente inútil pedir ou mesmo esperar que vá embora: vai ficando, fazendo festa, estatelando-se ora ruidoso ora silente no peito que escolheu – e este, sem alternativa, acelera, voa, sonha, deseja, arde, sente. Ama.

E de tão intempestivo e inconseqüente, um amor daqueles, às vezes, enfia os pés pelas mãos, e se machuca, e dói, e descobre que, apesar de imenso e nascido para se doar, não há sentindo em ser Amor sozinho. E o peito-lar-de-amor sofre junto. E o fulano-dono-do-peito-lar-de-amor, esse nem se fala, tão desconcertado fica sem saber o que fazer com tudo o que guarda dentro de si e que existe não para ser guardado, mas para vicejar dentro do outro – e nem sempre o outro distrai o próprio coração a fim de deixar o amor entrar e tomar conta. É assim... nem cego, nem surdo, nem estúpido, mas teimoso e alheio aos riscos, amor e dor caminham paralelos vida afora – e é tamanha a proximidade em algumas vielas estreitas que se torna inevitável darem-se as mãos.

E o coração se fecha. E o amor adormece. Algumas vezes, por tanto tempo que o fulano-dono-do-peito-lar-de-amor até esquece do inquilino outrora tão irrequieto, ou crê que ele se mudou, ou mesmo que morreu. O que ninguém se lembra é que amor doído, machucado, precisa dormir para curar as feridas – mas dorme ali, escondidinho em um canto ignorado do coração, e morrer não morre não. Um belo dia acorda, seja sossegado como um céu sem nuvens, seja incontrolável como um furacão – e tamanha a distração de quem o cria morto, que não há reação diante desse despertar inesperado. O amor está lá novamente, inteiro, pulsante, incontrolável e rebelde. Lindo. Pronto para ser vivido – e sentido – outra vez.

E embora ainda tenha nas pontas dos dedos a textura da pele da dor, o amor é assim. Uma vez que nasça e invada um peito, ali permanece mesmo quando não encontra recíproca – e se metamorfoseia, e se recontextualiza, e se redimensiona sempre e sempre, até que encontre quem o mereça, quem o receba sem reservas ou senões. O amor é assim. Nasce para ser amor, e não sabe ser outra coisa.

Ah, um amor daqueles...

terça-feira, 1 de abril de 2008

CTRL+ALT+DEL

“Não fiz mal algum. Mas agora ocorre-me que
estou neste mundo terreno, onde fazer o mal
é muitas vezes louvável, e fazer o bem, algumas vezes,
foi considerado ato perpetrado por louco perigoso.”

(Lady Macduff em Macbeth – W. Shakespeare)

Ao som de The Flaming Lips - "The Sound od Failure"





Há dias em que eu desejaria deletar alguns dos meus próprios sentimentos. Surpreendentemente, os arquivos destinados à exclusão seriam não aqueles de maior vileza – mas aqueles mais elevados, mais nobres, cuja natureza imaculável se constitui em empecilho moral diante das tentativas de insurreição do meu alterego anárquico, permanentemente em id mode, contra seu arqui-rival: meu imperturbável e quase monástico superego.

Eu deixaria de acreditar. E ir-se-iam as esperas e esperanças, e até mesmo algumas crenças, dissolvidos que estariam seus significados na mais invulnerável das incredulidades – a de quem não acredita por convicção. Poupar-me-ia, benção das bênçãos, de confiar e, finalmente, passaria incólume pelas frustrações e desencantos. Teria, é verdade, de aprender a viver sem a euforia pueril das expectativas, aquelas, as expectativas que são o sentido maior de tudo que diz respeito a elas e, principalmente, do que não diz respeito a elas. Um preço razoável a ser pago para existir intransitivamente.

Eu deixaria de oscilar entre a perplexidade e a ojeriza quando dos inevitáveis confrontos com as grosserias, leviandades, deseducações e outras mediocridades tão características de quem ainda não descobriu que a estupidez é uma viagem sem escalas para a mais completa e amarga solidão. Abster-me-ia de nutrir piedade pelas personalidades turvas e infantilóides e cortaria, de uma vez por todas, os pulsos às obliqüidades; feriria de morte a covardia das indiretas que me são oferecidas aqui e ali – e as abandonaria, moribundas e exangues, ao sabor de sua própria nocividade. Experimentaria uma anérgica indiferença diante das incompreensões, blindar-me-ia com a couraça das distâncias olímpicas para que não mais me alvejassem os egoísmos e egocentrismos daqueles que se ufanam da própria pequenez, full time e loucamente enamorados de seus umbigos.

Eu deixaria de querer bem. Simplesmente deixaria. E pouco me importariam as eloqüências do não dito, não feito, não quisto. Os amigos cuja amizade pontilhada de lenitivos jamais teve fôlego para transcender a infeliz condição de "pseudo". Um estalar de dedos e adeus, saudades, adeus, lembranças, adeus, paixões... Adeus, coração saltando no peito. Adeus, coração. Peito, adeus. Sem mágoas, sem tristezas, sem decepções... e sem alegrias, nem amores, nem todos esses detalhes sentimentalóides, idílicos e nada práticos que eu já não saberia compartilhar e, pensando bem, compartilhar para quê? É certo que eu perderia também as amizades verdadeiras – pois alguém sem coração é incapaz de separar joio e trigo. Paciência – todo remédio tem inevitáveis efeitos colaterais. Ao menos eu já não sofreria.

Nesse dia, eu deixaria de me importar. Deixaria de me preocupar. Reiniciar-me-ia livre do peso dos tantos arquivos corrompidos e inúteis que abarrotam minha exaustivamente solicitada memória emocional. Quando esse dia chegasse, eu, enfim, seria... seria... eu seria... eu seria?

Por sorte, alguns dias nunca chegam.

terça-feira, 18 de março de 2008

Outros Dias

“Não era ainda o meu nome.
- E agora, José?
Também não era.
- E agora, meu rei?
Adiantava ser rei?”

(Orígenes Lessa em O Mundo é Assim, Taubaté)



Às vezes despertamos tarde demais para o fato de que algumas coisas não podem ser recuperadas. Tempo é uma delas; e nenhuma outra perda acontece de forma tão silenciosa, como se nada fosse. O tempo se dilui diante dos nossos olhos e só nos damos conta disso quando, entre surpresos e incrédulos, nos pegamos perguntando a nós mesmos onde foram parar aqueles dias em que a vida era quase leve.

Onde foram parar aqueles dias em que a vida era quase leve? Pessoas chegando, partindo, ficando, a gente correndo, amando, sofrendo, fazendo. Passando. Crescendo. Outra hora eu digo. Outra hora eu faço. Outra hora, que sabe-se lá onde foi parar. O Fulano que morreu, a Cicrana que casou, o filho do Beltrano, que nasceu no ano passado. O Beltrano. O ano passado. A camisa assinada no último dia de aula, há tanto tempo. Tanto tempo. A gente, onde a gente foi parar.

Onde foram parar os pequenos prazeres. Aquele disco, daquela banda, com aquela música, aquela. Todas aquelas músicas. As cartas – as escritas, as pensadas, as aguardadas. A tranqüilidade cantarolante de dedos sujos de chocolate. A alegria descalça e de cabelos empapuçados d’água da chuva. Os caminhos todos que levavam a lugar algum – não pelo medo de ir, mas porque era seguro ficar. Os dias em que se caminhava contra o vento, sem lenço e sem documento. Aquele vento, ah, aquele vento.

Onde foram parar as promessas. Todas elas.

O dia de fazer as pazes, onde foi parar. As certezas – hoje resquícios enevoados de um discurso cujo sentido se perdeu em alguma esquina turbulenta por aí. Os desejos empoeirados esquecidos em um canto qualquer da lista de prioridades. As intenções: do cinema no fim de semana, do fim de semana na praia, da praia com os amigos, dos amigos no cinema. Onde foram parar todos os paradeiros desconhecidos que, antes, encontraríamos sem a necessidade de trilhar a nós mesmos guiados por instáveis migalhas de pão.

Nem dá para reconhecer, ao certo, como – e quando – deixamos de ser parte daquilo que éramos. Porque uma boa porção de nós mesmos, indiscutivelmente, se vai junto com o tempo; não o tempo cronológico e britanicamente compassado dos ponteiros do relógio, mas o tempo particular de cada um, relacionado com as peculiaridades de cada cotidiano. O Tempo-Instante, muitíssimo mais precioso – e fugaz – que o Tempo-Ampulheta. O Tempo como uma malha de instantes únicos e decisivos para que uma pessoa não se torne pura e simplesmente um esboço de si mesma. Às vezes, ter a exata dimensão dessas perdas assusta mas, no fim das contas, tanta coisa impressiona – e é preciso saber que foi preciso perder para não perder mais. Tanto tempo. A gente, onde a gente foi parar.

A vida era quase leve.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

De Onde Vem o Tiro

“Quer dizer então, Basil, que, para você,
Deus é o único capaz de ver a alma?
Pois puxe a cortina, e verá minh’alma.”

(Dorian Gray em "O Retrato de Dorian Gray" - Oscar Wilde)


Ao som de Simpathy for the Devil - The Rolling Stones

Traição. Do latim traditione – literalmente traduzido como entrega – essa palavrinha foi agraciada com a desagradável incumbência de verbalizar a violação da confiança alheia, coisa que existe desde que o mundo é mundo e que tem a camaleônica capacidade de se personificar sob as mais diversas e insuspeitas formas. Tome-se como exemplo a tal serpente do jardim do Éden, aquele réptil malicioso e escorregadio de discurso aparentemente inocente que, se valendo da singeleza rubra e suculenta de uma humilde maçã, provocou todo o furdunço que resultou na famigerada expulsão de Adão e Eva do paraíso – e, por tabela, toda a humanidade foi despejada dos domínios paradisíacos por conta dessa cobra de espécie desconhecida, mas que, sem sombra de dúvida, era uma completa víbora.

Ledo engano, porém, supor que apenas criaturas assumidamente venenosas dispõem de prerrogativas como presas peçonhentas e bote certeiro. Há traidores acima de qualquer suspeita – haja vista o ataque de Caim, a tesoura de Dalila, a punhalada de Brutus, o beijo de Iscariotis, a pulada de cerca do Sr. Almeida. Há traições para todos os gostos – ou, mais apropriadamente, para todos os desgostos. A pergunta que não quer calar é: o que leva alguém a cometer uma traição? Inveja? Despeito? Desamor? Raiva? Ressentimento? Furor sexual? Ambição? Cinco minutos de estupidez? Cupidez? Questão difícil, porém nem tanto se for analisada sob um ângulo menos emocional e mais racional. Não há dúvida de que todos esses sentimentos “pouco simpáticos” estão envolvidos na gênese da traição mas, partindo do pressuposto de que só é possível ser traído por alguém em quem se confia, a raiz, o cerne, o berço esplêndido desta é, inquestionavelmente, a leviandade.

O leviano transcende essas nódoas da natureza humana. Não precisa ser raivoso, nem ressentido, nem despeitado, nem estar de olho nos peitos da vizinha da frente. Bastam-lhe o caráter turvo e a personalidade adunca. Traz em si a irresponsabilidade inata e destituída de culpas, a incapacidade genuína de se ater aos vínculos e aos sentimentos alheios. A traição vira um mal menor diante da possibilidade de satisfazer seus anseios na exata medida de sua vontade. Há que se diferenciar, no entanto, o leviano puro e simples daquele sujeito cuja consciência do próprio erro, muitas vezes, é o bastante para redimi-lo: ao contrário deste, o leviano jamais se arrepende.

E justiça seja feita: ah, criaturinha difícil de identificar. Ninguém traz na testa inscrições como “aqui há um lobo em pele de cordeiro” ou “afasta de ti esse cálice” – e, se fosse mesmo o caso, talvez esses alertas vermelhos tivessem justamente o efeito contrário, pois a curiosidade humana muitas vezes suplanta o instinto de auto-preservação. Traições existem e continuarão a existir, sem que, na maioria das vezes, se possa antecipar de onde vem o tiro. O negócio é estar “atento e forte”, como já dizia Caetano Veloso, e adotar um desconfiômetro de gato escaldado – aquele mesmo, que tem medo de água fria. E quem nunca teve seu Iscariotis particular que atire a primeira pedra.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Identidade

Ano novo, ainda eu, embora outra.
Ao som de Riders on the Storm - The Doors
Sigo. Distraio o mundo, lhe imprimo minhas pegadas durante meu caminhar silenciosamente turbulento sobre as águas do meu mar interior. Persisto vento, redemoinho, tempestade, pois, sim, sou olho e alma de furacão, força da natureza espraiando-se em ondas indomadas, violentamente arrebatadas pelo anseio de tudo tocar, sentir, possuir. Sou além de mim e me transbordo, incontida, por todos os poros, e assim me agiganto, me reconheço, me reencontro. Sou além em mim.

Beijo meus medos em despedida e prossigo, olhos fixos em meu horizonte interminável de possibilidades, corpo liberto e fluido entregue ao balé desconexo dos segundos, alma buscando-se ávida, imperecível, em meio à significância ilógica da vida, em meio às insensatezes e incompletudes do destino que traço nas linhas das minhas mãos. E, embora múltipla, não renego minha identidade, e faço desta pão e vinho para celebrar a comunhão com as verdades insofismáveis que me afloram à pele. Esgoto-me, e me renovo de meu próprio fim – pois trago, incrustado nas minhas intuições, o gérmen da minha fortaleza.

Invado-me; e me desafio passeando de olhos fechados por minhas beiras de precipício, e ignoro a iminência da queda, e me refaço nessa incursão vertiginosa em meus labirintos, e me permito ser Sol e Ícaro, cuidando para que meu calor não me derreta a cera das asas imaginárias tecidas, dia após dia, com retalhos cuidadosamente recortados dos meus quereres – sem os quais inexisto, sem os quais me reduziria à inexatidão de barro cujo sopro vital lhe foi negado. E me catapulto mais e mais para essa existência superlativa e incondicional, destituída de quiçás e porquês, fundamentada unicamente no desejo de ser, incontestável e desmedidamente, quimera, absurdo, anseio, sangue, célula, universo. Eu.

Cumpro-me.