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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Algo Sobre Minha Mãe




Das raízes. As minhas.



Observo minha mãe e meu filho adormecidos ao meu lado no sofá. É quase meia-noite. Ele nos braços dela. Minha mãe e meu filho ressonam enquanto permaneço de olhos abertos diante da tevê, aguardando pacientemente que a insônia que me visita todas as noites se exaspere da minha monótona companhia e se vá – e me deixe descansar, enfim. Tranquilos, minha mãe e meu filho dormem. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos. Minha mãe e meu filho estão ali, e ignoram a noite e seus pequenos ruídos, e me ignoram e ignoram o velho filme policial e minha insônia fiel. Estão ao meu lado e, apenas, dormem.

Observo minha mãe com meu filho nos braços e imagino quantas noites essa mesma cena deve ter se repetido comigo. Eu me orgulho de ter boa memória, mas, confesso, as primeiras lembranças que tenho de minha mãe datam do nascimento da minha irmã caçula (quando eu tinha por volta de quatro anos), ou seja: quando ela tinha a idade que tenho hoje eu contava apenas seis anos, portanto, não recordo assim tanta coisa. Lembro, contudo, dos olhos, que sempre foram impressionantes e, àquela época, eram marcantes mesmo para mim – uns olhos profundos, inquisitivamente melancólicos, que pareciam trespassar a tudo e a todos com sua languidez misteriosamente castanha. Não sei se ela percebia, mas um de meus passatempos preferidos era, sempre foi, observá-la. Ela era bonita, muito bonita, com uma pele muita branca sem nenhuma mancha ou imperfeição e um corpo miúdo e ágil como o de uma bailarina – e aquele corpo pequeno se movimentava tão rápido que eu tinha certeza de que, se quisesse, ela poderia ficar parada no ar, como um beija-flor. Às vezes parecia caminhar na ponta dos pés – como se, a cada passo, dançasse pelo mundo uma valsa suave. Fisicamente sempre fui mais parecida com meu pai, e essa semelhança era algo que realmente me desgostava – não porque não gostasse de meu pai ou porque sua aparência fosse desagradável, ao contrário: meu pai havia sido um homem muito bonito em sua juventude. O que me desagradava não era a semelhança com ele, mas a falta de semelhança com ela. Eu era forte e robusta, e cresci bem rápido: mal entrara na adolescência e meu corpo, já sinuoso e efervescido pelos hormônios, havia ultrapassado o porte de minha mãe, o que me deixou triste porque sua pequenez delicada de bailarina era até ali (como sempre seria) meu ideal de beleza e feminilidade.

Minha mãe nunca passou despercebida: estava sempre muito bem arrumada e com os cabelos dourados e lisos muito bem cortados, invariavelmente na altura da nuca. Era uma daquelas pessoas para quem o tempo não ousava passar: eu ouvia as histórias sobre ela, contadas pelos meus avós e tios, e eram histórias bonitas e comoventes, algumas engraçadas e outras nem tanto, mas todas parecendo ter saído de algum romance – os mesmos romances que eu lia nos livros em cuja contracapa ela rabiscava cartas com sua letra grande e redonda, vigorosa e fluida como ela própria. Minha mãe tinha um cheiro sempre muito bom e peculiar – e não sei se era um cheiro que só eu percebia ou se, quando ela passava, todos sentiam aquele perfume delicado a imiscuir-se descerimoniosamente em todas as superfícies e narinas. Quando ela ria, era impossível não rir também – porque era uma risada sonora e muito diferente das outras, não por ser a risada dela, minha mãe, mas porque o som que nascia através daqueles lábios – os mesmos lábios que, feito róseos e delgados braços de menina, se contraíam levemente quando ela estava triste ou aborrecida – ia tomando conta de tudo em volta como se aquele momento feliz fosse feito para acabar jamais, e o rosto dela corava muito suavemente, tão suavemente que era perceptível apenas porque vê-la rindo nos absorvia de tal maneira que era impossível desviar os olhos para outra direção.

O início da minha vida adulta foi quase um martírio para nós duas. Por algum motivo, na minha cabeça, cortar o cordão significava contrariá-la de todas as formas possíveis. Sinceramente, não me lembro se um dia pedi desculpas por cada uma das dores que lhe causei. Continuo não me parecendo com ela fisicamente, mas me vejo repetindo muito de seus gestos, hábitos e maneiras, como, acredito, meu filho também fará quando tiver a idade que tenho hoje. Um dia direi isso a ela, como também lhe direi que toda a animosidade daqueles anos não significava que eu não a amasse, mas que a amava tanto a ponto de não saber o que fazer. Éramos dois gigantes permanentemente em luta – ela por desvelo, eu por rebeldia. Ambas, por amor. E foi justamente por essa época que aprendi que o amor, sobretudo o amor entre pais e filhos, embora não seja capaz de simplificar as coisas, tem o dom de nos fazer crescer apesar delas – ainda que as diferenças pareçam assustadoramente abissais. 

Observo minha mãe e meu filho, o quanto são parecidos – a mesma pele branca e sem imperfeições, os mesmos olhos melancólicos e misteriosamente castanhos, o mesmo cabelo dourado – e penso que, um dia, daqui a muitos anos, esta cena se repetirá e serei eu adormecida no sofá com meu neto nos braços enquanto meu filho, insone e pensativo, rememorará qualquer coisa marcante a meu respeito. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos, esta segurança morna e adocicada que alisa nossos cabelos enquanto dormimos e que, enquanto dormimos, sussurra aos nossos ouvidos que alcançar a eternidade é, sim, possível – e que nós vivemos para sempre por sermos feitos muito mais de amor do que, meramente, de carma e DNA.


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créditos da imagem: Google (desconheço autoria)



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Onde a Mágica Acontece

Soundtrack: Jim Sturgess - All My Loving

Aí você pensa: por que esses desencontros acontecem justamente na minha vida?

Você está sozinho e, um dia, conhece alguém legal. Legal é pouco: extremamente legal. Além de extremamente legal, a criatura é bonita, simpática, inteligente, divertida, bem-sucedida e compatível com você do ponto de vista intelectual, sexual e até astrológico. Como se não bastasse, move montanhas para estar ao seu lado, ama sinceramente o seu cachorro de estimação, prepara como ninguém o seu prato favorito e, por motivos óbvios, virou o xodó da família. Tudo o que você sempre quis – mas, por algum motivo, depois de algum tempo, você começa a se perguntar se tem algum problema de audição ou se os sininhos realmente não tocaram pois tem a sensação de que, embora não falte nada, falta. Logo você está all by yourself de novo, se perguntando por que esses desencontros acontecem justo na sua vida e as suas borboletas gástricas ignoraram a existência de alguém que, sem dúvida nenhuma, era o seu número. É, colega. Não adianta insistir. A gente não escolhe por quem se apaixonar. É assim: você estava de coração aberto, mas a mágica, simplesmente, não aconteceu.

Ninguém se apaixona por outra pessoa só porque ela saltou de bungee jump carregando uma faixa com o seu nome. Ou porque ela preenche absolutamente todos os requisitos que você inclui naquela lista enorme repetida à exaustão, durante a sua vida inteira, em cada prece em favor da sua vida amorosa. O pacote completo impressiona à primeira vista, mas os detalhes, ah, os detalhes, essas coisas às vezes inapropriadas que nos saltam aos olhos tão apropriadamente. A gente se apaixona nos detalhes. No detalhe do sorriso, no detalhe do olhar, no detalhe do clichê, no detalhe de alguma frase ridícula. A gente se apaixona no detalhe da camisa fora de moda que não tem nada a ver com a produção mas tem tudo a ver com a sua alma demodê e pode se apaixonar definitivamente no detalhe “não acredito que a gente tem o mesmo filme preferido, cara”. A gente percebe que o estômago virou uma sede de borboletas hiperativas diante da banalidade, porque o “especial” nasce aqui dentro, muito dentro, é algo muito particular: um belo dia, o modo como alguém segura a caneta, diz “oi” ao telefone ou passa a mão nos cabelos ganha um novo significado diante dos seus olhos, e o simples ato de mascar um chiclete pode abrir a porta para uma observação demorada – e enamorada – do quanto os músculos faciais do destinatário da sua paixão ficariam ainda mais bonitos durante o um beijo. Ah, os detalhes. Quem nunca sorriu um sorriso bobo diante do gesto cotidiano de alguém, quem nunca se sentiu andando nas nuvens ao acompanhar alguém em sua caminhada, quem nunca teve certeza de que a terra parou de girar no exato instante em que alguém se sentou ao seu lado puxando conversa, quem nunca se surpreendeu com a própria vulnerabilidade ao ser surpreendido pelo próprio coração me perdoe, mas não sabe o que é se apaixonar.

Não existe a pessoa errada, tampouco a pessoa certa – o que faz a gente se apaixonar depende menos do que o outro nos oferece e mais, infinitamente mais, de quem somos no momento em que encontramos alguém. Na dúvida, a culpa é sempre nos neurotransmissores. Porém, se você não está disposto a se apaixonar, um conselho: ignore os detalhes. Por mais que se diga que a paixão é mera questão de química, os tais detalhes são o mínimo múltiplo comum entre o que acontece mundo afora e tudo o que vivemos coração adentro. Há quem diga que é química, mas, no fundo, é como mágica. E a mágica – por sorte – não tem hora para acontecer.

Imagem: Google

sexta-feira, 16 de março de 2012

Letras, Flores e Solidões


Soundtrack: Schuyler Fisk - Fall Apart Today





Não sei o que dizer. A ideia era lhe escrever um bilhete, mas apago e repenso cada palavra como se fosse igualmente impossível nos reescrever na mesma história. Paredes brancas, papel em branco, alguma coisa vazia indo e vindo, minha ansiedade recorrente, um pouco de raiva misturada a um impulso anacrônico de amor, um bêbado na esquina da rua solitária atirando ao vento flores imaginárias. A certeza de que, quanto mais me esforço para esquecer, mais me lembro de. Tão difícil dizer amor, amor. Tão difícil dizer qualquer coisa sempre que há tanta coisa a ser dita. E eu, odiando te encontrar, odiando não te encontrar, que felicidade e liberdade sempre me pareceram antagônicas e, ao mesmo tempo, sempre me pareceram sonhos viciados de um mesmo coração partido, continuo aqui, guardando na voz e dentro do peito aquilo tudo que um dia fez parte do mundo que eu quis lhe contar – incluindo a rua solitária, o bêbado na esquina, as flores imaginárias, o coração partido e o bilhete de amor que nunca se escreveu.



quinta-feira, 22 de julho de 2010

Aquilo Que Um Dia Você Chamou de Amor

Dos amores idos, nem sempre esquecidos.

Soundtrack :José Gonzalez - Heartbeats



Aquilo que um dia você chamou de amor bateu na minha janela ontem à noite, acometido de uma palidez que me surpreenderia se eu já não o soubesse meio borráceo como um desenho velho de giz, os olhos atônitos desprovidos do brilho que costumavam ter, um desassossego fosco, uma ausência súbita e irreversível. Não sei explicar, mas algo havia de tão comovente ali, naquele conhecido há tanto tempo distante e que reaparecia diante de mim de forma assim inusitada, que eu não soube o que fazer. Desejei convidá-lo a entrar e fazer perguntas calorosamente desnecessárias, um “como vão as coisas” ou “chá ou café?” ou ainda assentir, por educação ou amizade, que sim, me recordo de coisas que absolutamente já não me dizem coisa alguma; ou lhe perguntar se estava tudo bem, se tinha onde ficar, se desejava passar a noite ali pois eu ainda me lembrava: aquilo que um dia você chamou de amor tinha aversão a frio e, de fato, suas mãos tremiam, enluvadas pela temperatura incerta daquele reencontro. Desejei coisas tantas, todas tão cordiais. Aquilo que um dia você chamou de amor estava parado do lado de fora da minha janela no meio da noite e, pasme, embora tão dissolvente, ainda se parecia tanto com você. E eu, que há muito tempo deixara de parecer comigo e me espantara muito com o fato de que ele me reconhecera em meio às tantas outras “eu” que já haviam passado por mim, nada fiz. Nada disse. Apenas o olhei de frente, longamente. Como alguém que oferece, ao punhal, o peito e uma rosa. E anônimo, confuso, quieto, aquilo que um dia você chamou de amor se afastou com a dignidade dos que não pertencem mais ao seu próprio passado e a segurança dos que desconhecem seu próprio destino, sem olhar para trás. E acredite: já não tremia.



sábado, 3 de julho de 2010

Algo Parecido com Você

Cadê eu?

...perguntava-me.

E quem respondia era uma estranha que me dizia fria e
categoricamente: tu és tu mesma.

(Clarice Lispector)

Soundtrack: Natalie Walker - Urban Angel






Fazia tanto tempo que eu não saía para andar à toa. Desde você. Nem lembrava mais como era essa disciplina de um passo de depois do outro sem necessariamente precisar de direção, a cidade estava lá, inteira, eu só lhe roubaria algumas ruas e ela nem daria falta e eu sou ainda muito justa: empresto, devolvo, intacto. Como no dia em que emprestei seu carro e saí sem fazer barulho para comprar cervejas. Dezesseis para as quatro, se não me engano. Descalça. Clichê, enrolada no cheiro do seu sono. Tarde quente aquela, como nunca houve outra desde que descobri que era uma catarse ver você dormir com os lábios quase imperceptivelmente entreabertos de quem balbucia um desejo sonhado. Energia medida em quanta. Ainda hoje eu não teria coragem de interromper seu sono; a gente dorme, acorda, dorme, acorda, dorme e tudo que quer é desentender que a vida é paga com juros e parar de lembrar de despedidas, o sino da igrejinha velha, lembra?, acabou de tocar, sete badaladas – sete horas, sete dias, sete anjos, sete selos, sete palmos, uma alma vai, outra vem; sete e um. Escurece por onde volto sob um tempo que se fecha e fica tão bonito assim, cinza, sempre gostei de exceções. Ouvi dizer que vão cortar o pinheiro da rua de cima porque cresceu demais e pode desabar, tudo o que cresce demais vira uma ameaça – é assim com saudade, raiva, medo, amor. Amor. Você cresceu demais mas não me importo, portanto desabe sobre mim e outra vez me acaricie as costas com o peso de toda história nossa que cabe nas suas mãos sem medo de me machucar, sou forte o suficiente para você. Para nós. Para quem fui, para quem me tornei – algo parecido com você, sempre que me lembro, e me lembro sempre do seu modo de segurar a xícara e de caminhar de manhã e de abrir um livro numa página qualquer e de, e de, e de. E de. Está tão calmo aqui. Volto para casa debaixo de uma chuva fina, abro a porta, olho o relógio na parede, sete e meia, noves fora zero e resta um: eu. Ainda faltam cinco minutos para mim.

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Depois de um hiato de 4 meses - em que estive ausente curtindo a gravidez e tocando projetos profissionais - eis que o "Sabe de uma Coisa?" está de volta. Agradeço a todos que permaneceram visitando este espaço mesmo durante o tempo de quiescência, aos que mandaram mensagens de "volta, Flávia!" e àqueles que, mesmo distantes, sempre curtiram este blog tanto quanto eu. Obrigada, e bem-vindos todos!


domingo, 10 de janeiro de 2010

Porta-Retratos

"Que te dizer? Que te amo, que te
esperarei um dia numa rodoviária,
num aeroporto, que te acredito, que
consegues mexer dentro-dentro de mim?"


(Caio Fernando Abreu)

Soundtrack: Maxi Priest - Fields of Gold





Lembro de quando decidimos reinventar essa coisa toda de destino e, sem resistência, encantados com a idéia de domar o incerto, redesenhamos o imprevisível a lápis numa cartolina branca imaginária. Foi o desenho mais bonito que fizemos juntos, porque o fizemos de lábios colados naquela noite onde o que não era sonho era cumplicidade – e apenas a paixão adormecendo satisfeita entre as minhas pernas e os seus quadris quase tirava nosso sossego, num murmúrio de não necessidade de palavra, você e eu formados por um pedaço de cada atordoamento de amor errado que amamos nessa vida e, no entanto, tudo tão perfeitamente certo. Eu, enfiando o rosto no seu peito, encontrando ali a segurança do instante único em que o mundo para inteiro a fim de caber na palma da nossa mão; você, de olhos fechados e com o polegar me acariciando com suavidade uma unha – não o dedo, a unha, tão engraçado achei aquilo, e tão bom. Era a sua forma de declarar presença dentro da vida que eu ainda nem sabia que, dali em diante, seria a minha, e que nascia em silêncio enquanto eu observava o quanto o seu rosto ficava bonito daquela maneira, rasgando a penumbra como um facho de claridade de longos cílios. Lembro de como foi surpreendente nada mais ter importância. Foi a primeira vez em que não me desagradou não pensar e que acreditei que podíamos, sim, gozar esse mistério que é a felicidade absoluta, eu nem sabia se o que senti enquanto abracei o seu corpo morno e nu era mesmo felicidade mas era quase uma invulnerabilidade o que eu sentia; então acho que naquele instante eu completamente fui feliz, sim. Morno e nu, seu corpo. Escudo. Altar. Eu soube, ali. E nem precisaria muito mais para que aquele instante se perpetuasse, mas, confesso, guardei – num canto da minha memória que é o mais belo e enfeitado com o melhor que jamais houve mim – a tal cartolina imaginária e o desenho rabiscado, justamente o mais bonito, feito a quatro mãos, a lápis, a salvo do tempo, dos esmorecimentos e das desatenções.

É esse o quadro que beijo com carinho todas as noites antes de dormir.

Para L.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Lista de Compras

"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente
pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou
de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."

C. F. Abreu


Soundtrack: Anna Nalick - Wreck of the Day




Eu sei; não me omiti de mim nas vezes tantas em que deveria tê-lo feito, sempre fui demais obsessiva em amealhar verdades invasoras esculpidas caoticamente sem qualquer critério ou estratégia. Tenho sido cruel comigo. Tenho medido forças com minha sensatez. Não quero mais essa idéia estranha de realidade interposta entre as cores da casa, preciso de um café. Amargo, para adocicar o destino do dia neste copo que me chega macio à boca. Preciso de uma vontade disparatada que perca no beco sem saída velho conhecido as cópias das minhas chaves. Música interior. Desconjunções. Desobrigações. Desfaçatezes, des, des, des; desisti dessa coisa de fazer sentido. Destinos, onde quer que estejam, não tenham pressa: durmam tranqüilos até as dez. Um bunker. Lá fora, a chuva não se decide. Aqui dentro, relógio, tic-tac-tic-tac-tic-tac escorrendo pelas paredes, mais um café, por favor, e um pouco de água tônica, e aquele desejo antigo que eu deixei por aí nem sei se debaixo da cama ou se dentro do armário, enrolado em alguma roupa velha, mas esse armário, esse aí, sim, esse deixe como está: fechado. É melhor assim. Não é bom mexer com aquilo que, após tanto tempo transtornado com os olhos abertos no escuro, finalmente, e ainda com a testa suada, adormeceu.

Preciso ligeiramente desorganizar a minha vida.


domingo, 13 de setembro de 2009

Aquele Dia em Setembro

"Quero te explicar isso, te passar este quarto imóvel com
tudo dentro e nenhuma cidade fora com redes de parentela.
Aqui tenho maquininhas de me distrair, tv de cabeceira,
fitas magnéticas, cartões postais, cadernos de tamanhos variados,
alicate de unhas, dois pirex e outras mais. Não tem nada lá fora
e minha cabeça fala sozinha, assim, com movimento pendular
de aparecer e desaparecer. Guarde bem este quarto parado,
com maquininhas, cabeça e pêndulo no coração.Fiz uma penteadeira
com Bogart e Bacall, très chic. Pronto, acabei esse assunto
de quartinho cultural, mas guarde bem – para mais tarde.
Fica contando ponto."


Ana Cristina César - Luvas de Pelica

Soundtrack: Aqualung - Strange and Beautiful





Não é que eu precise desesperadamente da sua presença, não é isso. Mas é que eu abri a porta do quarto e junto com ela se abriu uma coisa estranha dentro de mim, meio como uma idéia manca, manca e amputada, e eu senti a sua falta ali, naquele vazio recém descoberto. Porque a vida anda, ah, a vida anda; mas às vezes tropeça nas próprias pernas e se aprisiona trôpega nos retornos, ou às vezes se assusta e estanca para respirar ou, às vezes, simplesmente se cansa e se pergunta afinal, o que é que eu estou fazendo. A vida é mesmo assim, esquisita.

A vida é mesmo assim, eu não precisando da sua presença e a sua presença aqui, passeante. Insistente. E, daquilo que apaguei sem querer da minha lista imaginária de pequenas omissões, o que mais me sufocou foi ter dito foi “vai” quando você plantou seus olhos turvos de dúvidas sobre os meus lábios trêmulos, você sabia, você sabe, os meus lábios sempre tremem quando desacreditam do que eu digo. Então era “vai”, mas era “fica”. Ficou essa coisa que ainda não reconheço e que se parece tanto com solidão embora não seja pois, sim, é algo que pesa e respira e projeta sua sombra nas paredes e, seja lá o que for, me faz companhia, você ria, lembra? Você ria da minha imprudência em dizer que gostava de ficar só. Imprudente. Quem sabe seja sina minha esse imaginário ranger de dentes mastigando o real significado do que minha voz pronuncia, minha voz sempre teve gosto de inversões.

Tenho uma nova idéia a respeito de lucidez.


sábado, 5 de setembro de 2009

Entre Tantas, Uma História

Do que existe, e do que não se vê.

Soundtrack: Suzanne Vega - Luka


Ao me ouvir chamá-lo, o menino de sete anos abriu a porta do consultório feito uma ventania e se atirou no meu pescoço, “oi, tia”. Estava mais corado e bem mais desenvolto que na ultima consulta. Contou-me animado a respeito da escola nova; mostrou com orgulho a ponta de um dentinho permanente rasgando a gengiva, diminuindo o perímetro da janelinha sobre a qual eu brincara quando nos conhecemos. Foi essa a quarta vez que vi A.; na terceira eu lhe havia solicitado uns exames de rotina e, na segunda, ele comparecera para realizar uma lavagem de ouvido.

O tio de A. o levara até mim porque o menino, além de queixar-se de dor nos ouvidos, parecia ter um certo grau de hipoacusia – era preciso que o chamassem várias vezes até que ele atendesse aos comandos e, na casa dos avós, onde ele passara a morar desde que a mãe perdera sua guarda, os familiares, atentos, perceberam que o que parecia teimosia ou distração poderia, ao invés de algo puramente comportamental, ter uma causa orgânica. A palidez de A. me impressionou tanto quanto seu silêncio; segundo o tio, ele sempre fora uma criança quieta, mas, para mim, acostumada que sou com crianças de todas as idades e classes sociais, aquela inatividade toda era mais do que uma questão de temperamento – certamente havia por trás algo que ia muito além da dor física ou da contenção de travessuras infantis. A. não me olhava nos olhos, e respondia minhas perguntas com gestos e acenos de cabeça. O exame físico me deixou assustada: alguns hematomas e cicatrizes pelo corpo, e uma quantidade de cerúmen nos condutos auditivos que eu jamais havia visto sequer em ouvidos de adultos. Fiz a prescrição do medicamento a ser usado durante a semana, marquei a lavagem para dali a cinco dias e fui pra casa com aquilo no pensamento.

O que encontrei durante o procedimento nos ouvidos de A. me deixou chocada. Era realmente uma quantidade inimaginável de cerúmen, mas não apenas isso: ele tinha pequenos fragmentos de plástico e papel em ambos os condutos auditivos. Para quem não sabe, a lavagem otológica é realizada com soro fisiológico aquecido – ou seja, a temperatura do líquido deve ser rigorosamente monitorada a fim de retirar o cerúmen sem provocar queimaduras; é praticamente impossível um paciente não esboçar reações caso ela esteja ao menos ligeiramente acima do tolerável, lembrando que o epitélio do ouvido interno é extremamente sensível a variações térmicas. Apesar disso, A. não mexeu sequer um músculo da face. Cheguei a pensar que a indiferença dele se devesse a algum provável problema neurológico, o que justificaria o comportamento quase glacial mas, ao ser indagado se o líquido estava quente demais, ele respondeu “sim”.

- E porque você não disse nada?

Ele baixou a cabeça e pareceu receoso de responder alguma coisa. Por fim, balbuciou “eu posso?”, e isso me desnorteou. Pedi ao tio de A. que me dissesse afinal o que era que estava acontecendo ou eu teria de chamar o Conselho Tutelar; o rapaz, então, contou que o menino fora retirado do convívio com a família por ser vítima de abusos constantes por parte do padrasto e que, muitas vezes, era espancado apenas por ter feito alguma pergunta ou mínima queixa. Nas últimas semanas, A. levava surras constantes porque não atendia aos chamados, o que era classificado como rebeldia e desobediência pelo agressor – e isso causara no menino um pavor que ele transferia inconscientemente aos outros adultos de seu convívio: A. não se queixava para não ser agredido, mesmo que se encontrasse no limite da dor física ou psicológica. As feridas emocionais de A. eram tão profundas que anestesiavam sua capacidade de expressar reações comuns às outras crianças.

Há 5 meses A. é meu paciente. Hoje, o garoto é uma criança diametralmente oposta à de antes: brinca, tagarela e o mais importante, se sente seguro e amado por aqueles que assumiram a responsabilidade de cuidá-lo. O final feliz da história de A., no entanto, é exceção – a regra continua a ser a existência dolorosa e anônima de um número incontável de crianças vítimas de toda sorte de abusos físicos e psicoafetivos. Tão frágil quanto essas pequenas vítimas é a efetividade com que é combatida a violência infantil no país; apesar de patente, as estatísticas relacionadas ao assunto estão muito aquém do real. A distorção no registro desses números está diretamente relacionada ao velho conceito, ainda em voga, de que é melhor fechar os olhos para o que acontece na casa do vizinho e fazer de conta que F. realmente quebrou o braço porque tropeçou no carrinho e caiu da escada, ou que os hematomas nos braços e pernas de N. surgiram de um tombo de bicicleta, ou que foi o próprio A. quem picou os pedaços de plástico e os inseriu dentro dos ouvidos. É mais fácil, é mais confortável acreditar que o que não se vê, não existe. Só que violência infantil existe, e não é prerrogativa apenas de quem a executa com as próprias mãos: é de quem silencia diante dela também.


quarta-feira, 10 de junho de 2009

Romaria

De volta à velha forma.



Foi então que eu desisti de caminhar no encalço das horas.

Eu ora preferia aquela quietude de coisa não dita, ora encharcava-me de alma de verbo vertendo sangue até desfalecer de tanto viver. Foi então que eu vi, na palidez da sensação que se esboçava ainda ambígua, de pernas trêmulas, no esquivo e pequeno espaço compreendido entre o meu coração e a minha razão, que o sentido que eu buscara para a minha solidão rasgara voluntariamente o peito em algum espinho trôpego esquecido sob a sombra do meu corpo ainda quente das lembranças do dia seguinte. É que o dia seguinte lega lembranças mais vívidas do que todos os dias que se foram; é que a hora passada morre e leva consigo todo e qualquer fogo. Do que não havia, nem jamais houvera, restava uma iminência pesando-me sobre os ombros; do que não havia, nem jamais houvera, restava um instante sufocado sob o que de fato foi – mas ora, o que, de fato, foi? Do que não havia restava tanto, eu nunca contente com meio-parte-nada-quase, eu nunca contente com menos que tudo, eu sempre engolindo faíscas do mundo e devolvendo-me inteira em permuta, eu que não barganho indulgência nem coisa alguma e me permito a cega inocência das paixões sem culpa, eu que já não me sabia, eu não me sabia: eu era a gota de caos a me fazer falta enquanto a vida seguida dolorosamente plácida, eu que não tenho sossego, eu não tenho sossego, eu não quero sossego, eu que já não me cabia, eu não me cabia. Mas era a vez de me recolher no calor de novos planos e de aquecer as mãos entre os dedos longos do tempo nascente, que o tempo sempre chega e parte e castiga e abençoa e pede perdão, que o tempo sempre morre e nasce de mãos enlaçadas às de quem lhe perdoa os desatinos.

sábado, 4 de abril de 2009

Para Quando Você For Embora de Mim

"Perdi um saco de cacos.
Quem encontrar, não precisa me devolver."

Patrícia Lage

Soundtrack: Duffy - Warwick Avenue





Para quando você for embora de mim eu guardei um tom lilás de mudança - qualquer coisa entre o azul e o vermelho, nem feliz nem triste, calmo. Tranquilo. Eu guardei uma paz sutil como a lucidez que se insinua cuidadosa entre as pulsações de um coração agressivamente cego, coração ferrão de vespa que investe e fere e se deixa ficar e nem sabe que é ele a causa e o efeito da própria dor. Eu não tenho mais sonhos de vidro, os deixei por aí - para que, quando você for embora de mim, eu não mais fira meus dedos com tantos cacos. Eu guardei, para quando você for embora, um sorriso intacto, de mim para mim, desmemoriado, de existência presente e egoisticamente apenas minha - que o que passou não existe mais; eu guardei, em algum lugar entre o azul e o vermelho da mudança lilás derramada sobre o dia, um instante que me revelaria ao pé do ouvido quando você já não estivesse aqui, e hoje eu ouço esse sussurro suave e lento feito canção.

Para quando você for embora de mim eu me guardei, inteira.

domingo, 22 de março de 2009

O Grande Mundo das Pequenas Coisas

"Guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta.
Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."

C. F. Abreu em Existe Sempre Uma Coisa Ausente

Soundtrack: Glen Hansard & Marketa Iglova - Once



Talvez seja na beirada de um sonho que o mundo acaba, eu não sei. Talvez não acabe e vire coisa diversa, como quando a gente fecha os olhos e descobre uma esquina no canto das pálpebras, é ali que tudo começa mesmo quando termina e cada chance laceia a vida pelos ombros como quem diz “fica, que eu vou cantar pra te fazer dormir enquanto lá fora ainda faz frio, deita aqui”. Talvez, e só talvez, haja pintado em alto-relevo sobre a palma da nossa mão um instante onde viver não sangre, e seja leve carregar nas costas cada pequena fome de amor, e aquele destino parado diante do portão de casa, aquele que um dia foi possível, ainda esteja lá à tua espera, e quem sabe à minha espera, em silêncio, deitando os olhos sobre o ruído das palavras caídas sobre o batente. Eu queria, sim, voltar no tempo e quem sabe cruzar contigo no meio da rua, e te convidar para um café num dia frio e adocicado como aquele do primeiro inverno em que nevou flores, eu guardo ainda algumas pétalas entre as páginas do livro que nunca escrevi. Eu guardo, ainda, mas é um passo em falso quem me leva para casa, onde fica o nosso lugar eu me lembro e não alcanço mais. Talvez seja na beirada de um sonho que o mundo acaba; talvez, e só talvez, não acabe e vire coisa diversa e se incorpore no corpo feito cicatriz, volátil imprecisão é o destino. Eu só preciso aconchegar os pés um pouco mais nessa certeza enevoada que saber demais é desvantagem, e quem sabe o mundo não acabe e sim comece quando a gente abre os braços e enfim se atira.

Eu aprendi a me atirar quando te dei as minhas asas.


terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Até Que A Sorte Nos Separe

Afinal, ninguém precisa ser perfeito para ser o par perfeito.

Soundtrack: Ingrid Michaelson - The Way I Am



Eu lhe prometo ser fiel na alegria, na tristeza e em todas as rodadas do Brasileirão mesmo que o seu time 6 vezes campeão nacional seja hipoteticamente rebaixado para o grupo B – mas aviso logo: vai ser difícil segurar as piadinhas e eu sei que no meu lugar você faria o mesmo, então não fique rebelde caso um dia isso realmente venha a acontecer. Aliás, falando em vir, da próxima vez que convidar seus amigos para assistir aos jogos em casa, diga ao Betão que a mesinha da sala não é depósito de lixo tóxico e que todos nós teríamos mais qualidade de vida se ele lavasse aquele tênis horroroso de sujo pelo menos uma vez por semana, como é que pode um homem daquele tamanho ser assim desleixado, cruzes, mas enfim, esse assunto fica pra outro dia, o que era que eu estava dizendo mesmo?

Ah, sim, falando em prometer... eu ia dizer que de bom grado prometo, sim, segurar a sua mão naquelas noites em que o mundo inteiro vira chuva e desaba sobre o telhado porque sei que você tem medo de trovões, e deixar você dormir do lado direito da cama, e dividir com você as minhas batatinhas fritas e a pipoca do cinema – mesmo que você teime em comprar entradas para um desses filmes toscos em que voam socos, pontapés e gente morta ou estropiada por todos lados, fazer o quê. Eu prometo te emprestar o meu xampu e (eventualmente) não deixar calcinhas no box. Eu prometo estar com você quando Maomé não for à montanha mas a montanha for a Maomé, ou quando Judas finalmente encontrar as botas que perdeu, ou quando o mar virar sertão, o sertão virar mar e o camelo passar pelo buraco de uma agulha e, sobretudo, eu prometo ficar ao seu lado e sorrir o seu sorriso preferido quando a vida parecer ter se transformado em uma grande piada de mau gosto e as coisas podem até pecar no quesito leveza, mas estaremos juntos e descobriremos juntos que o diabo não é tão feio quanto parece.

E não lhe ofereço nem aliança nem nada de tão específico como prova do meu amor e da minha fidelidade porque você sabe, eu fico tiririca com esse negócio de ter que provar amor. E, como mentira me dá urticárias, ui, não posso nem pensar, deixo claro que vou continuar reclamando da toalha molhada sobre a cama e da tampa levantada do vaso sanitário, e também da louça acumulada na pia nos dias em que a diarista não vem, e dos copos que você larga em qualquer lugar, custa passar uma água?, e sem dúvida eu vou continuar reclamando (e muito) da cara esfomeadamente terrorista que você faz quando olha pros peitos da filha do aposentado do 612, aquela que usa uns vestidos tão curtos que deixam ver até a consciência se é que ela existe – pensou que eu não tinha percebido, hein, mas sobre a mocréia a gente conversa baixinho depois.

E certamente vou continuar me fazendo de surda quando você insistir que eu pare de falar com aquele ex-namorado lindo, charmoso, inteligente e bem-sucedido no ramo de empreendimentos imobiliários, mas quer saber? Nada disso faz a menor diferença. Talvez eu nem tenha tido alternativa, o meu coração leva tão a sério essa coisa de livre arbítrio que não me deixou dar muito palpite quando escolheu amar você pela vida inteira. E eu, que às vezes acho que ele não poderia ter sido mais irresponsável, quando olho para o lado e vejo você dormindo, tranquilo, com a cara feliz de quem está sonhando não com os anjos mas com um séquito de coelhinhas da Playboy, tenho certeza de que ele acertou em cheio. Porque você está longe de ser um príncipe encantado. Mas só você é você, e eu gosto assim.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Obscurinfinitomeu

"Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, então nossas
vidas contrapõem-se a ele em toda a sua esplêndida leveza.

Mas será o peso de fato deplorável, e esplêndida a leveza?"

Milan Kundera, em A insustentável Leveza do Ser

Soundtrack: Vienna Teng - Gravity




Eu me lembro da primeira vez que lhe disse “acredite” – e os seus olhos deitados sobre o meu pedido eram tão nus e esquálidos que desejei vesti-los com os milagres guardados no fim de alguma estória contada pela metade, mas o fim não chegou porque a vida o partiu ao meio e o milagre ficou por acontecer, e quem sabe ele lhe servisse alvo e quente como uma luva. Quem sabe, é tarde, mas ainda há tanto chão sob essa paz esgazeada e nodosa que não é paz, é quase como o reflexo dos pecados do mundo nas contas de vidro do terço da mulher que, de joelhos, reza todas as tardes da boca para fora, é algo faltando, uma coisa mal expiada, fermentada, um jeito subalterno de ser feliz. O que, de fato, acaba não sendo jeito algum, acaba sendo só mais uma dolorosa iminência, e é aí que nos falta o ar porque a superfície se escondeu além das nossas, das suas narinas trôpegas, eu não me afogo nessa ausência, então você decide se vem comigo ou não – mas decida agora pois o instante seguinte não pode esperar. Porque eu guardo dentro do peito um lugar que até para mim é obscuro e onde cabemos os dois mas eu não vou pedir que você venha, eu não vou pedir nada, é a sua vez de cortar os pulsos e perceber que a dor não mata nem cega, tudo se refaz. É a sua vez de rasgar as próprias roupas e se cobrir das próprias nódoas e descobrir que elas já lhe não servem e sequer mascaram as suas aflições, elas apenas ditam roucas e obsoletas tendências, elas acanham e mutilam a sua necessária e mais íntima nudez, mas tem de ser agora. Tem de ser agora, que o instante seguinte não pode esperar. Eu poderia, eu posso, carregá-lo nos meus ombros quando você desfalecer de cansaço nesse caminho que é longo e demais acidentado, eu poderia, eu posso, subverter essa insegurança queimosa que lhe fere a boca de bolhas e não o deixa falar mais alto que a inércia. Mas sentar aqui nesse chão atapetado de juízos-perfeitos inodoros como flores de plástico, isso eu não poderia, não posso, é insalubre. É como correr em volta do passo em falso alheio, é estéril. Eu não respiro esse cheiro artificial de dia que se esconde supersticioso sob os degraus cobertos de pó por medo de estilhaçar o espelho e ferir-se todo com os cacos da própria imagem há tempos banida e enfim libertada, ainda prefiro meu peito rasgado sem dó, jorro vermelha e sangro até viver. Porque algumas delicadezas, na verdade, não passam de dissimuladas agressões.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A Última.

Quando o que não se diz é o que fala mais alto.

Soundtrack: Noa - Eye in the Sky



Eu gostaria que esta fosse uma carta de amor. Gostaria de te escrever para contar da minha vida; para dizer que ontem entrei naquela velha loja de discos – aquela ao lado da padaria onde compraríamos pães de queijo e biscoitos de nata nas manhãs de sábado e domingo – e ouvi incontáveis vezes a música que escutaríamos juntos e que talvez embalasse nosso sono, nossas tardes de preguiça fazendo nada, fazendo tudo. Ou para dizer que, entre duas páginas do meu livro preferido, pude ver – em meio aos parágrafos e aos hiatos brancos, tímidos, do papel escorregado sob a negra tinta – as entradas do filme a que assistiríamos na noite em que o carro pifaria sem gasolina na esquina da tua rua e caminharíamos até a tua casa debaixo de chuva, de mãos dadas e rindo, brincando de chutar as poças de água, e estaria frio, muito frio, e nos aqueceríamos entre beijos macios e lençóis quentes, entre beijos quentes e lençóis macios. Para, talvez, te contar do meu emprego novo ou que me mudei outra vez – agora para a tal casinha pequena por fora e grande por dentro, com teto alto e janelões azuis encimando as jardineiras, do jeito que eu sempre quis – e que os móveis, surpreendentemente, chegaram na data prevista, uma segunda-feira, e que não precisei passar o resto da semana fazendo as refeições numa lanchonete embora não goste de cozinhar somente para mim.

Eu talvez te contasse que o cachorro enfim desistiu de esconder os chinelos inadvertidamente esquecidos pela casa e que, finalmente, as roseiras que plantei me deram alguns botões de rosa; vi essa manhã que haviam nascido, quem sabe se encorajem e virem flor – nunca soube quanto tempo levam para desabrochar, não sei se um dia ou dois, ou mais. Ou que o carteiro continua entregando minha correspondência na casa do vizinho – mesmo em novo endereço, algumas coisas nunca mudam. Ou que o médico indicado, naquele churrasco, pelo rapaz de óculos com cara de adolescente cujo nome não me recordo acertou em cheio no tratamento da minha insônia embora não seja neurologista ou psiquiatra, e sim cardiologista, e que não bebo mais tanto café. Ou que ganhei uma festa surpresa no meu último aniversário com direito ao bolo de nozes de que tanto gosto e velas assopradas num só fôlego depois de fazer um pedido, que não posso contar ou não se realiza e que eu, que tanto gosto de bolo de nozes mas não como doces, saí da dieta porque seria uma tremenda indelicadeza não provar um pedaço do meu próprio bolo de aniversário.

E nem sei quantas outras banalidades eu contaria; só sei que gostaria de não estar chorando dessa maneira enquanto te escrevo esta carta. E te escrever esta carta é tão doído porque, mesmo não sendo uma carta de amor, não deixa de sê-lo – e eu, que tanto te amei, e talvez siga te amando enquanto viver apesar de todos os amores que ainda virão, nem melhores nem piores, apenas outros amores com outras músicas e filmes e livros, e outras lembranças e nomes, gostaria de te pedir “fica”, mas não o farei. Eu gostaria que esta fosse uma carta de amor, mas esta carta – que nunca vais ler, pois a escrevo muito mais em mim do que para ti – é a maneira que encontrei de me despedir da parte tua que permanece comigo, pois nunca deixei que partisses completamente. E, agora, preciso que vás. Eu abdico do futuro que jamais teremos em nome de um presente que é apenas meu. A tua história já não cabe na minha; a minha história precisa voltar a caber em mim. Esta é a última carta de todas aquelas que nunca te enviei e que nunca lerás, a não ser no meu silêncio e nessa distância continental que se inscreve entre o que nunca nos dissemos, entre o que nunca faremos. Preciso que vás; eu fico – e, de certa forma, em outra direção, eu vou também.


______________

Um pequeno P.S. para o Sr. Anônimo que, nos comentários do post anterior, declarou que me adora mesmo com tudo que vem na mala (e eu espero que a "mala" não seja eu): a mesma curiosidade que matou o gato pode, fácil fácil, matar uma blogueira sem poderes adivinhatórios. Que tal voltar e revelar pra nós sua identidade secreta, hein? ;)

Ótimo fim de semana pra todo mundo!

E Edu, obrigada pela música :)


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Um Breve Olhar Mememizado Sobre F. em 52 Frases de D.


Sountrack: Edwin Collins - A Girl Like You


1 - F. é magra mas (sempre) acha que está acima do peso.
2 - Em 2008 passamos 43 horas juntos. (vc contou??)
3 - Dessas horas mais falávamos do que prestávamos atenção na aula.
4 - Por causa disso levei uma bronca, estávamos discutindo a reforma gramatical (que ela acha besteira) da língua portuguesa (mas Günter, era ela quem estava falando).
5 - F. tem um segundo nome que começa com D., será coincidência?
6 - eu criei uma personagem chamada F., na verdade era a própria F.
7 - 7 era o número dela na chamada da turma, sei porque eu era o 6 querendo ser 7.
8 - também criei duas outras personagens baseadas em F.: uma maga curandeira chamada de Tesra e uma moça capaz de criar sonhos e atrair as pessoas para eles chamada de Caliopede.
9 - Chamo-a particularmente de musa.
10 - ela é canhota (me too).
11 - ela é a melhor escritora que já li.
12 - fumamos um cigarro juntos, eu não sabia que ela fumava. (aquele foi o primeiro e último cigarro, D.)
13 - ela não vive sem rock.
14 - todos os perfumes se acomodam perfeitamente a ela.
15 - Koray já a conheceu e Páris se apaixonou por ela.
16 - vivemos marcando encontros irrealizados.
17 - ela tem compulsão por tirar fotos, estou eu lá parado e lá vem ela com um flash.
18 - F. e eu somos contemporâneos um do outro ( que sorte a minha).
19 - Se ela fosse um animal seria um gato.
20 - se ela fosse um ser místico seria uma bruxa ou uma fada, mas quem sabe os dois juntos?
21- a conheci quando eu tinha 21 anos ou era 20?
22 - ela detesta rpg (por enquanto).
23 - já a retrataram em um mangá.
24 - ela é médica. Pena que não seja cardiologista...
25 - ela não gosta de médicos ou de ir a médicos.
26 - ela tem a aparência da mulher paraense, as mulheres mais lindas são as paraenses.
27 - F. é linda.
28 - F. é cafeínômana/cafecólatra, mas só os grandes são.
29 - Ela trabalha na cidade em que moro.
30 - ela mora na cidade em que eu estudo.
31 - ela ainda não me devolveu o Drummond.
32 - ela é a mulher mais inteligente que conheço pessoalmente.
33 - F. ama os animais, gosta de ler e tem cultura.
34 - F. é para casar.
35 - F., quer casar comigo?
36 - imagina só, F.D.B esposa de D.J.V.
37 - esquece os dois últimos, F.
38 - eu já a cantei com Eduardo e Mônica.
39 - aliás, uma vez a chamei de Mônica e ela achou que eu tinha errado o nome.
40 - Um dia vamos ter um filho ( um labrador ou um são bernardo) chamado de Procópio Ferreira (F., diz que sim, diz que sim, vai.)
41 - F. detesta neurologia, eu amo neurologia.
42 - Já a compararam a Clarice Lispector.
43 - Acho Clarice uma boa escritora, mas Clarice faz eu me perder. F. tem seu próprio estilo.
44 - Lendo F. eu me descubro, eu me encontro para poder então me perder e me reencontrar.
45 - Sou viciado no que F. escreve.
46 - Sou fã de F.
47 - Ela não gosta de literatura apenas, ela entende.
48 - F. nunca acabou de escrever aquilo que eu comecei.
49 - Ela tem preguiça de escrever as coisas manualmente.
50 - é melhor web designer que eu (olha que estudei pra isso).
51 - a conheci em uma segunda-feira.
52 - a última vez que a vi foi em uma quinta feira.


Quando escrevi o post dos 101, meu amigo Diego (o linkzinho tá aí no nome) protestou: "não vale você escrever sobre você mesma" - e se dispôs a fazer um Top 77 a meu respeito. MAS, como D. é "ligeiramente" hiperativo e não ficaria em hipótese nenhuma sentado numa cadeira pensando em 77 itens para escrever (pensar até pensaria, porque a cabeça dele também trabalha na velocidade da luz; o difícil seria ficar parado fazendo isso), o Top 77 se transformou em um Top 52, que eu roubei lá do blog dele e trouxe pra cá. Os (poucos) grifos em itálico são meus; tudo mais é obra do rapaz.

Esclarecendo: as aulas em questão eram as aulas do nosso curso de criação, lá no Instituto de Artes; Günter era o nosso professor "alemón"; eu REALMENTE detesto passar da condição de médica à de paciente, é um contra-senso, eu sei, mas é a verdade; nosso filho Procópio Ferreira está definitivamente nos meus planos; somos dois hiperativos de gogó hiperfuncionante, deve ser terrível ficar perto da gente quando estamos juntos; é fato, tenho preguiça de escrever - o PC foi a grande invenção do século na minha humilde opinião.

D., te amo (mesmo depois de vc ter dado um bolo em mim e no Drummond no último encontro irrealizável, ok?). Obrigada :)

Beijos a todos e excelente fim de semana!

domingo, 23 de novembro de 2008

Menininhas

Para Flá. Não eu - ela.

Soundtrack: Cyndi Lauper - Girls Just Wanna Have Fun



Não me lembro de como comecei a falar com ela. Mas lembro que achei o máximo aquela menina que era um abuso de legalzice ter o mesmo nome que eu – sem contar o fato de ser igualmente primogênita, e de que suas duas irmãs mais novas tinham os mesmos nomes das minhas. Foram outras as coincidências que nos fizeram parar, no finzinho dos anos oitenta, numa vilazinha bucólica com jeito de casinha de bonecas encravada no meio da Floresta Amazônica – um lugar mágico, capaz de proporcionar aos pequenos uma infância igualmente mágica – junto com tantas outras crianças cujos pais, como os nossos, eram “ciganos de hidrelétricas”, transferidos de tempos em tempos e com as respectivas famílias a tiracolo por esse Brasilzão continental, a serviço do progresso da nação. Fosse qual fosse o presumível elo cármico determinante para o encontro de duas menininhas tão parecidas, embora tão diferentes, ali naquele paraíso perdido, indiscutivelmente a similaridade de histórias e nomes nos aproximou.

Eu, quando nos conhecemos, tinha nove ou dez anos; ela, dez ou onze. Eu tímida, calada, um perfeito caranguejinho canceriano de casca dura e coração mole; ela, um rojãozinho extrovertido e tagarela, do tipo que dava nó no juízo de quem tentava acompanhar aquele pensamento frenético. Eu mais gestual, já nesse tempo falava mais com os olhos que com a boca; ela mais verbal, falando com as mãos e pelos cotovelos. Ela, um ano mais velha, virou quase o meu guru particular e parceira de longos passeios de patins pelas ruas da Vila, duas menininhas on the road. Barbie e bolhinhas de sabão. Piscina, festinha no clube no sábado à noite, São João. Temporada de ingás, a polpa branquinha e doce, branquinha como algodão, doce como aquela vida. Goiabeiras carregadas de goiaba e menino, canelinhas dependuradas exibindo algumas ferroadas e arranhões. Colégio, sonho recheado na hora do recreio, medo da mulher de branco, campainha e a volta para casa cortando caminho pelo hotel ou pelos alojamentos. Não tenho a menor idéia do conteúdo das nossas conversas na época; não me lembro se partilhávamos sonhos malucos ou se, além de papéis de carta, trocávamos também confidências. Também não me lembro se alguma vez fizemos aquela promessa de nunca nos perder uma da outra, não sei, não sei mesmo. O que sei é que o que nos unia devia ser um monte de bobagens, mas bobagens tão sinceramente compartilhadas que, quando ela mudou de cidade – ela tinha doze anos e eu onze – me vi inconsolável. E, entre tantas memórias subliminares, sobressaiu nítida a da despedida, materializada nas letrinhas de criança, dela, desenhadas sobre uma página cor-de-rosa do meu diário, “não se esqueça de mim”. Fiquei, ela foi. Mas, de certa forma, ficou também.

E dá-lhe tempo passando, a gente crescendo, a vida seguindo, eu deixando a vila três anos depois pra morar na capital, aprendendo a me virar na “selva de pedra”, a adolescência se estatelando dentro de mim com seus hormônios e inquietações, inúmeras mudanças de colégio, inúmeros primeiros dias de aula, inúmeros “oi, de onde você veio mesmo?”, espinhas, cólicas, primeiro namorado, segundo, terceiro, cabelos coloridos e descoloridos, rebeldia, TPM, vestibular, faculdade e um monte de eteceteras, incluindo todos os gerúndios e futuros-do-presente capazes de nos fazer deixar bagagem mnemônica para trás por falta de espaço ou por pura negligência mesmo. Eu ainda levando muito a sério aquilo de “não se esqueça de mim”, ela indo e vindo no meu pensamento. Cinco, oito, dez, quinze, dezoito anos passados. E dezenove anos depois, com uma ajudinha providencial dessa geringonça fantástica e sem fronteiras que é a Internet, surpresa: entre tantos e-mails, um “você não é a Flávia assim, assim e assado?” – sim, eu era a Flávia, uma Flávia já balzaquiana e de canelas impecáveis, mas a tal "Flávia assim, assim e assado", de olhos arregalados, respiração suspensa e danada de feliz porque ela, a querida tagarela que não perdia a chance de me azucrinar dizendo que o nome era sua propriedade e que ela apenas fizera a gentileza de me emprestá-lo, havia me encontrado.

E toca a responder o e-mail, e lá vem resposta, e festa, e corre-corre pro MSN... e infinitas histórias pra contar, outras tantas pra lembrar, e gargalhadas, muitas gargalhadas, e saudade, muita saudade, e planos, muitos planos. Minha amiga hoje é jornalista, casada e mãe da Isabela, uma menininha linda. Continua tagarela e com o irritante bordão “como sou mais velha que você o nome é meu, apenas te emprestei” na ponta da língua. Continua rojãozinho, espirituosa e divertida. E o mais importante, continua minha amiga, dessas amizades límpidas e genuínas que se conservam intactas apesar de quase duas décadas de separação. O mundo é realmente muito pequeno quando se está unido a alguém por laços fortes de amizade. E nem é preciso usar botas de sete léguas para chegar até esse alguém; a própria vida, num desses loopings malucos e imprevisíveis, se encarrega de nos reaproximar daqueles que jamais deixamos para trás. O tempo passa, é inevitável, como também são inevitáveis as transformações que o destino e as responsabilidades nos impõem, como são inevitáveis determinadas escolhas e abdicações – mas não se deve abrir mão da própria essência, e uma parte crucial dela vem dessa capacidade intrínseca que nós, seres humanos, temos de amar e de nos permitir ser amados, apesar dos entraves e dos pesares, das distâncias e das discordâncias. É o que nos faz maiores. É o que nos faz, verdadeiramente, melhores.


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Dos Amores. Dos Dias.

"O amor nunca morre de morte natural.
Morre porque nós não sabemos reabastecer sua fonte.
Morre de cegueira e dos erros e das traições.
Morre de doença e das feridas;
morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho."

(Anais Nin)

Soundtrack: Carla Bruni - Qualqu'un m'a a Dit



Ele nunca disse que me amava. Nunca me disse, e também nunca perguntei – não porque tivesse medo da resposta, mas porque instintivamente a conhecia e isso fazia de qualquer prova verbal uma desnecessária redundância, então cada uma daquelas pequenas banalidades diárias soava como amor inequívoco e explicitamente declarado. Como quando me puxava os cabelos de leve para em seguida afrouxar os dedos e escorregá-los pelo meu pescoço, era amor que havia naquele deslizar de dedos. Como quando surgia à porta e ali ficava parado, mudo, e no olhar havia um misto de admiração e desafio e obscenidade carinhosa, e aquilo tudo invariavelmente terminava entre arquejos e suores entrelaçados repousantes na exaustão lânguida das nossas bocas ainda coladas uma na outra. Ou, simplesmente, como quando dizia meu nome – pronunciado em passeios demorados por todas as oscilações de tons, e eu tinha a nítida sensação de ouvir seu coração bater mais doce em cada uma delas. Ele era inteiro um mundo de coisas não ditas que se diziam por si mesmas e eu aprendera a ler naquele silêncio claro e eloqüente, eu embora oposta e dizendo amor com olhos e boca, e corpo, e todo o resto e a todo tempo, e era como se, a cada vez dito, esse amor se superlativasse dentro de mim.

E não sei se foi intencional – se foi justamente a perfeita simbiose entre o seu silêncio e a minha capacidade de traduzi-lo que me fez mergulhar na negação. Mas, naquela tarde, quando ele surgiu à porta – e o rosto que me fitava já não era o mesmo, como para ele já não era a mesma a mulher de pé à sua frente – percebi que era chegada a hora. E dessa vez fui eu quem não disse nada, simplesmente esperei. Foi a minha vez de ficar ali parada, olhando. Apenas e interminavelmente olhando. Porque não havia mais nada a fazer, e eu soube disso no momento em que o ouvi balbuciar meu nome naquela meia-voz reticente, naquele fio de voz. Era outro o bater do coração. Então, pela primeira vez, ele não me pôde olhar nos olhos – e nesse exato instante eu soube que, na cabisbaixeza do olhar que ineditamente evitava o meu, havia um murmúrio dolorido de despedida.

sábado, 21 de junho de 2008

Das Coisas Que Eu Preciso Para Viver

Do (meu) mundo.

Soundtrack: Marisa Monte - Vilarejo



Eu preciso, para viver, morar em uma cidadezinha perdida no meio do nada, dessas com nome de santo, onde haja uma casa ludicamente pequena na qual eu possa criar todos os bichos e sonhos que baterem à minha porta.

Eu preciso, para viver, de um amor que me ame seja dia ou de noite, seja longe ou perto, porém imortal e pleno ao menos durante brevidade de um agora, posto que não existe o depois; um amor que me beije, que me fale, que me ouça, que me saiba; um amor que não adivinhe pensamentos, nem faça promessas, nem beire a loucura, mas que, apenas, seja um amor com a serenidade mágica dos amores cúmplices.

Eu preciso, para viver, de um refúgio seguro para resguardar a imaterialidade dos meus tesouros, de um horizonte no qual eu possa ver muito além do que há em mim, de um mapa em branco onde eu possa riscar um traçado de sonhos que me leve direto ao meu pote de ouro no fim do arco-íris.

Eu preciso, para viver, plantar um livro, escrever um filho, ter uma árvore.

Eu preciso, para viver, reconhecer meu rosto em qualquer espelho teimoso que insista em dizer que não me vê.

Eu preciso, para viver, ter a exata noção do meu lugar do mundo, bem como a dimensão do lugar do mundo em mim; eu preciso perder a noção de espaço, de tempo e de todas as limitações que me cerram os pulsos para, enfim, em um repente louco e há tanto desejado, abrir minhas asas e ganhar os céus.

Eu preciso para viver, que não me chamem anjo nem demônio; preciso apenas que me chamem – pelo que sou e, sobretudo, pelo que ainda posso ser.

Eu preciso, simplesmente, ganhar o mundo. O meu. E, nesse dia, saberei que nada mais me falta, pois terei, pulsando em meu peito, ao invés de um coração, a doce certeza de que tudo possuo, entre todas as coisas de que preciso para viver.


Publicado originalmente no extinto blog Cotidianidades em agosto de 2007.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Quarto Escuro

Eu ali; aqui, quem sabe.

Soundtrack: Herbert Vianna & Zélia Duncan - Partir, Andar*


Nessas horas mortas – quando a única coisa que me conecta à realidade é o rumor da minha própria respiração – sinto que há algo de mim perambulando além dos limites deste quarto escuro.

Nessas horas de pensamentos vazios e espírito repleto, alheado das paredes e cercos, é absoluta minha solidão – pois, aqui, tampouco eu permaneço comigo. E nem sei por onde ando, ou por quanto tempo estarei ausente de mim: sei apenas que é bom estar nesse lugar tão ignorado e de acolhida assim fiel. Abandono-me de tal maneira a esse nada-ser – ocaso das idéias, berço das sensações – que é impossível não crer que o que me falta seja justamente o que me completa.

Abstenho-me de qualquer consciência inclemente, inoportuna, e me permito, assim, caminhar com os pés mergulhados nessa falta dissimulante – a ignorância é, por vezes, alívio, elo das minhas metades desencontradas. E pouco me importa se a letargia que me sobrevém o faz com pretensões felizes ou tristes; a felicidade não é inócua – é provável que fira ainda mais profundamente que a tristeza, e a ambas respeito, e temo. Porém, embora as tema, não as repreendo: a elas me entrego com a mesma devotada e servil docilidade, querendo alcançar-me sem saber onde, como sombra desavisada cujo dono desnorteou-se para rumo não percebido. É esse o meu eu, nessas horas mortas. Perambulante e ignorada, mas inescapável de mim.


*A faixa Partir, Andar, com sua suave quebra bossa, arranjo idem de Eumir Deodato e vocal sóbrio de Zélia Duncan em parceria feliz com Herbert Vianna, integra o disco "O Som do Sim" - lançado em 2000, este trabalho solo de Herbert traz um pop-rock mais grave e circunspecto, com inclinações para a bossa e participações de Fernanda Abreu, Cássia Eller, Érika Martins, Henrique Portugal, Nana Caymmi, Fernanda Takai, Negril, Karnak, Dado Villa-Lobos e Daúde, entre outros.