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sábado, 25 de outubro de 2008

E Hoje, no Novas Visões...

OUTROS DIAS

Às vezes despertamos tarde demais para o fato de que algumas coisas não podem ser recuperadas. Tempo é uma delas; e nenhuma outra perda acontece de forma tão silenciosa, como se nada fosse. O tempo se dilui diante dos nossos olhos e só nos damos conta disso quando, entre surpresos e incrédulos, nos pegamos perguntando a nós mesmos onde foram parar aqueles dias em que a vida era quase leve.


Onde foram parar aqueles dias em que a vida era quase leve? Pessoas chegando, partindo, ficando, a gente correndo, amando, sofrendo, fazendo. Passando. Crescendo. Outra hora eu digo. Outra hora eu faço. Outra hora, que sabe-se lá onde foi parar. O Fulano que morreu, a Cicrana que casou, o filho do Beltrano, que nasceu no ano passado. O Beltrano. O ano passado. A camisa assinada no último dia de aula, há tanto tempo. Tanto tempo. A gente, onde a gente foi parar. (...)


Hoje, 25, é meu dia de bater ponto lá no Projeto Novas Visões. Dessa vez com uma cronicazinha despretensiosa sobre tempo e o que fazemos - ou deixamos de fazer - com ele.

O texto, na íntegra, pode ser conferido aqui (e agora sim, o link está correto). Nos vemos por lá :)

Beijão pra todo mundo e excelente fim de semana!


quarta-feira, 25 de junho de 2008

13º Andar

"Entrou em pânico quando percebeu que ela, de fato, não respirava. A flacidez fria daquele rosto pequeno, de traços levemente orientais, de súbito assumira uma assustadora lividez, anúncio de uma realidade tão inesperada quanto irremediável. Morta. Sentiu o sangue congelando de imediato nas veias ao contato daquele corpo inerte, o coração prestes a se despedaçar tão descompassado se havia tornado. Adormecera bêbado ao lado de uma desconhecida no quarto mofento de um hotel vagabundo e acordava desagradavelmente sóbrio, nu, dividindo a cama com um cadáver – circunstância que o nauseava, embora não conseguisse se afastar dali e sequer desviar os olhos da mulher. Que teria acontecido? Perplexo, imerso numa desorientação que o mantinha preso ao colchão desarrumado com cheiro de bebida, observou o terrível contraste entre os cabelos escuros e a pele muito clara já vencida pela palidez mórbida da morte, os seios pequenos e rijos repousando sobre o peito imóvel. Morta. Não ouvira gritos, não notara quaisquer indícios de suicídio – ela não parecia mesmo o tipo de mulher disposta a se matar. Sem sinais de violência, sem marcas de qualquer natureza, sem nada. Absolutamente nada. Apenas morta.


Como se chamava mesmo, Virgínia? Vanessa? Valéria? Bianca? Nem guardara o nome, não o ouvira mais de uma vez desde que se haviam encontrado naquela boatezinha chinfrim de periferia. Ela era bonita, parecia uma índia de pele branca, o corpo apertado num vestido transpirando vulgaridade e luxúria, o desejo queimando nos olhos oblíquos semi-ocultos pelos cílios pesados de rímel. Fora dela a sugestão do hotel, fizera o convite em meio a beijos lascivos regados a muito álcool. Abriram a porta do quarto cambaleando, às gargalhadas, ela segurando nas mãos uma garrafa de tequila, ele já demasiadamente tonto, tentando arrancar-lhe o vestido. Beijos, carícias, goles, goles, goles. Depois mais nada, lembrança alguma. Apagara. Esforçava-se para compreender o que teria acontecido, o suor escorrendo pela testa gelada, a respiração ofegante e curta, o olhar acorrentado a um ponto situado entre o coerente e o inverossímil em qualquer lugar no encardido da parede, que teria acontecido? Tudo era confuso, borráceo, esdrúxulo, aquela mulher morta, aquela bosta de hotel, aquele embrulho no estômago, mistura de náusea, ressaca e medo, aquele silêncio de tumba violentado pelo som da sua própria respiração, que teria acontecido? O medo maior era de tê-la matado. Tornado-se um assassino. Por que mataria aquela mulher? Matara aquela mulher? Aquela merda de silêncio. Aquela merda de silêncio e de repente trrrrrrim! – chicoteando-lhe os ouvidos, sacudindo-lhe o corpo num pulo, a mão indo parar sobre o seio já semi-enrijecido, ele se assustando com a textura do corpo, nojo, náusea, medo, a bola no estômago irrompendo garganta afora, vou vomitar, banheiro, merda de telefone. Tarde demais, o peito sujo, o colchão sujo. Fétido, tudo fétido, o quarto, ele, ela, a situação, tudo fétido, tudo sujo. Tudo demasiadamente sujo. (...)"


Leia o final dessa história aqui, em Novas Visões. A gente se vê por lá ;)


E falando em ler, hoje tem postagem da Van lá no Palavras Para Aquecer. Uma linda reflexão cheia de delicadeza, sobre os pequenos milagres de cada dia - esses que nos aparecem disfarçados de pessoas, de acontecimentos, de momentos... sobre as chances que damos (ou não) ao nosso coração quando a vida nos coloca diante delas. Edu, Van e eu esperamos por vocês com um café quentinho para acompanhar mais essa fornada de palavras fresquinhas, desmanchando na boca e no coração de tão gostosas. ;)



Aproveitando pra agradecer à Aline pelo selinho LINDO, criado por ela própria, com o qual me presenteou: Este Blog É Estampado de Idéias Criativas. Muito obrigada, adorei a lembrança!

Repasso para: Lomyne, Ingrith, Ceisa, Rê e Nathália.





Beijos!

domingo, 25 de maio de 2008

Nobreza

"Entrou no ônibus semivazio dividindo o equilíbrio entre o filho de colo e uma sacola plástica abarrotada de cacarecos; era tão esquálida que parecia na iminência de vergar sob o peso da criança que trazia nos braços. O arranque displicente do veículo quase a derrubou no chão, teve de largar a sacola para proteger a si e ao menino da queda. Nem esperou que alguém se oferecesse para ajudá-la: abaixou-se, as pernas ligeiramente afastadas, o bebê colado ao seu tronco com firmeza cuidadosa por uma das mãos enquanto a outra se espichava, elástica, para recuperar o objeto momentaneamente perdido. Ergueu-se com cuidado, o corpo se apoiando nos assentos, pagou a passagem, cruzou a roleta e, a passos vagarosos, acompanhados pelos olhares dos outros passageiros, se dirigiu a um lugar próximo à saída.

Acomodou-se como pôde, quase desaparecendo sob a montanha formada pela sacola e pela criança, esta já se agitando num choramingo de impaciência faminta. Ajeitou com capricho a manta e touca do filho, lhe ofereceu o seio, deixou que o menino abrandasse sua fome naquele peito magro. O calor do meio-dia transformava o coletivo em uma estufa; o ar quente e em movimento inundava-lhe as narinas de odores, despertando a fome naquele corpo tão acostumado a privações. O garoto sardento de óculos e uniforme escolar, sentado no banco paralelo ao seu, a observava fixamente desde que ela pusera os pés naquele ônibus. Estava acostumada a ser alvo de análises e observações; gostar, não gostava, mas fazer o quê, era ignorar e pronto. Aquele garoto acabaria encontrando distração melhor.

O bebê, faminto, lhe abocanhava o mamilo com voracidade, as gengivas comprimindo a aréola dolorosamente, sensação que se traduzia na expressão de seu rosto contraído. O coletivo corria aos solavancos; mais de uma vez teve de se agarrar ao assento da frente para não se machucar. Onde será que aquele motorista havia aprendido a dirigir? Tornou a arrumar as roupinhas do filho, vestido com capricho apesar da pobreza; o pequeno era cuidado com todo seu esmero de mãe. Preocupava-lhe o futuro do menino – e o futuro, no caso dos dois, era o dia seguinte, tão próximo e, ao mesmo tempo, tão incerto. Tão incerto."


Essa história continua aqui, em Novas Visões. Espero vcs por lá!


P.S.: ainda tem post da Mila no Espasmos. Quem curte escatologia e ainda não leu, não perca.

Beijos!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Intermezzo Noturno

Era noite alta e eu ainda estava ali, sentada diante do computador, fitando pateticamente o documento em branco no qual eu havia escrito e deletado, incontáveis vezes, dezenas de inutilidades literárias. Depois de ouvir o repertório inteiro de Aretha Franklin, eu já praticamente mergulhava, de cabeça, no desespero de um escritor que simplesmente não sabe o que escrever… Meu vazio mental, invariavelmente, me leva sempre no mesmo rumo: uma xícara transbordante e quente de café. Diante desse pensamento convidativo e da minha momentânea incompetência criativa, me espreguicei languidamente como um felino e tomei o rumo da copa – já que a cabeça se recusava a funcionar, o paladar, ao menos, sairia no lucro.

Eu disse sair no lucro? Engano: para minha surpresa e indignação, não havia sequer um mísero pote de capuccino vagando pelo meu reino. Lembrei-me da loja de conveniência anexa ao posto de gasolina localizado em frente ao prédio onde moro; paciência, era sair no meio da madrugada para satisfazer minha vontade sobrenatural – afinal, não há empecilhos para deter um convicto apreciador de cafeína. Enfie-me na minha batida calça de moletom, tão cinza quanto o céu de uma cidade grande na hora do rush, arrumei os cabelos em um coque preguiçoso, enfiei uns trocados no bolso – o suficiente para comprar o que desejava, pois não pretendia ser chamariz para os gatunos notívagos – e parti em busca do meu tesouro. O frio da noite entorpecia meu corpo e aquecia ainda mais a vontade de uma bebida fumegante; apressei os passos e, quando já tocava a porta de vidro da loja, ouvi aquela voz.

- Dá uma moeda, tia.


Essa história continua aqui, em Novas Visões. Espero vcs! :)))

Bom fim de semana pra todo mundo!

Beijo, beijo, beijo.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Hoje - e até segunda ordem - estou aqui.

Beijos a todos e excelente semana!