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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Você


soundtrack: Lorene Scafaria - We Can't Be Friends


Você, aquele seu olhar de pureza, sempre me desnorteou. Você tinha nos olhos aquela coisa de pureza, uma coisa muito louca, eu olhava pra você e pensava que parecia um anjo, e eu, que nunca acreditei em Deus, flagelava minha descrença até ela quase se transformar em fé, e deve ter se transformado, por alguns segundos, algumas vezes, desconfio. Não o suficiente para que eu desejasse o paraíso, nessas horas eu desejava apenas que você jamais deixasse de olhar para mim daquele jeito, mesmo quando você me beijava a boca, a nuca, e as suas mãos seguravam os meus seios com uma delicadeza morna e úmida, uma delicadeza desistindo de ser lúcida, e a minha pele quase virava a sua – eu aceitava o fim do mundo e o meu próprio sem receio ou barganha porque aqui, nesse lapso efêmero onde somos carne e sangue e osso entremeados de absurdas repercussões sensoriais, eu pertencia a você e você e você a mim, ninguém sendo dono de ninguém, nós apenas nos descobrindo, redescobrindo. Cobrindo-nos de profundidades. Ainda durmo sem travesseiro e com os pés para fora da cama – mas, desde que você se foi, minha pele não se acostuma, e os cantos da casa me olham inquisitivos, atônitos, eu, blasé, mentirosa, respondo: é a vida. Não é a vida, meu amor, não é. Não é a vida, é a minha descrença despencando em queda livre na vontade reprimida de que exista de fato um Deus, uma força, uma entidade que faça todo o transitório ser menos hostil sem você. Porque a vida é transitória, relapsa e insinuadora de desvios. E a minha descrença, permanente e vígil como qualquer promessa de eternidade, se fere inteira em cada “e se”, e eu não consigo mais secar suas feridas. Ou, talvez, não queira.


A verdade é que não acredito em paraíso. Mas em nós, eu acreditava. 



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

DA HABILIDADE HUMANA DE JOGAR PEDRA NA GENI


Tenho visto um auê danado em torno da separação de um casal lindo, bem-sucedido, perfeito e famoso. Segundo a mídia, o motivo da separação seria uma moça igualmente linda, bem-sucedida, perfeita e famosa, mas que, ao contrário da esposa traída - alvo de toda solidariedade por parte da mídia e da opinião pública - é "uma puta rodada". 


Traição é algo desnecessário, doloroso, feio, essa coisa toda? É. Quem já foi traído sabe. Eu sei, porque já fui, então aprendi na pele, como aprendi algumas outras coisinhas:

1) Nenhum casal, mesmo lindo e bem sucedido, é perfeito.

2) Ninguém obriga ninguém a trair seu parceiro. a moça que está sendo chamada de "puta rodada" provavelmente não ameaçou o cônjuge alheio com armas, blackmails ou frases do tipo "transe comigo senão vou matar toda a sua família" a fim de que o rapaz dormisse com ela.

3) Machismo e déja vu caminham de mãos dadas na sociedade brasileira - e, infelizmente, esse "passeio no bosque" está a anos-luz de ter um fim. A esposa traída é sempre a vítima; a amante é sempre a puta desgraçada destruidora de lares; o marido sempre sai à francesa da história sem um arranhão. o homem que trai, trai porque é homem. A mulher que trai, trai porque é vagabunda. e a mulher que se sujeita a ser a outra é nada menos que o anticristo.

4) Nenhum relacionamento termina exclusivamente por causa de uma terceira pessoa. O buraco que mantém - ou deixa de manter - duas pessoas juntas é muito, muito mais embaixo.

Menos hipocrisia aí, sociedade.


(que fique claro que em nenhum momento estou fazendo apologia de traição. já fui traída, e sei que é algo que dá início a um processo muito doloroso de juntar os cacos de tudo o que é destruído dentro de nós quando passamos por isso. só estou dizendo que toda traição é multifatorial, como todo relacionamento também é, como indivíduo também é.)



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Onde a Mágica Acontece

Soundtrack: Jim Sturgess - All My Loving

Aí você pensa: por que esses desencontros acontecem justamente na minha vida?

Você está sozinho e, um dia, conhece alguém legal. Legal é pouco: extremamente legal. Além de extremamente legal, a criatura é bonita, simpática, inteligente, divertida, bem-sucedida e compatível com você do ponto de vista intelectual, sexual e até astrológico. Como se não bastasse, move montanhas para estar ao seu lado, ama sinceramente o seu cachorro de estimação, prepara como ninguém o seu prato favorito e, por motivos óbvios, virou o xodó da família. Tudo o que você sempre quis – mas, por algum motivo, depois de algum tempo, você começa a se perguntar se tem algum problema de audição ou se os sininhos realmente não tocaram pois tem a sensação de que, embora não falte nada, falta. Logo você está all by yourself de novo, se perguntando por que esses desencontros acontecem justo na sua vida e as suas borboletas gástricas ignoraram a existência de alguém que, sem dúvida nenhuma, era o seu número. É, colega. Não adianta insistir. A gente não escolhe por quem se apaixonar. É assim: você estava de coração aberto, mas a mágica, simplesmente, não aconteceu.

Ninguém se apaixona por outra pessoa só porque ela saltou de bungee jump carregando uma faixa com o seu nome. Ou porque ela preenche absolutamente todos os requisitos que você inclui naquela lista enorme repetida à exaustão, durante a sua vida inteira, em cada prece em favor da sua vida amorosa. O pacote completo impressiona à primeira vista, mas os detalhes, ah, os detalhes, essas coisas às vezes inapropriadas que nos saltam aos olhos tão apropriadamente. A gente se apaixona nos detalhes. No detalhe do sorriso, no detalhe do olhar, no detalhe do clichê, no detalhe de alguma frase ridícula. A gente se apaixona no detalhe da camisa fora de moda que não tem nada a ver com a produção mas tem tudo a ver com a sua alma demodê e pode se apaixonar definitivamente no detalhe “não acredito que a gente tem o mesmo filme preferido, cara”. A gente percebe que o estômago virou uma sede de borboletas hiperativas diante da banalidade, porque o “especial” nasce aqui dentro, muito dentro, é algo muito particular: um belo dia, o modo como alguém segura a caneta, diz “oi” ao telefone ou passa a mão nos cabelos ganha um novo significado diante dos seus olhos, e o simples ato de mascar um chiclete pode abrir a porta para uma observação demorada – e enamorada – do quanto os músculos faciais do destinatário da sua paixão ficariam ainda mais bonitos durante o um beijo. Ah, os detalhes. Quem nunca sorriu um sorriso bobo diante do gesto cotidiano de alguém, quem nunca se sentiu andando nas nuvens ao acompanhar alguém em sua caminhada, quem nunca teve certeza de que a terra parou de girar no exato instante em que alguém se sentou ao seu lado puxando conversa, quem nunca se surpreendeu com a própria vulnerabilidade ao ser surpreendido pelo próprio coração me perdoe, mas não sabe o que é se apaixonar.

Não existe a pessoa errada, tampouco a pessoa certa – o que faz a gente se apaixonar depende menos do que o outro nos oferece e mais, infinitamente mais, de quem somos no momento em que encontramos alguém. Na dúvida, a culpa é sempre nos neurotransmissores. Porém, se você não está disposto a se apaixonar, um conselho: ignore os detalhes. Por mais que se diga que a paixão é mera questão de química, os tais detalhes são o mínimo múltiplo comum entre o que acontece mundo afora e tudo o que vivemos coração adentro. Há quem diga que é química, mas, no fundo, é como mágica. E a mágica – por sorte – não tem hora para acontecer.

Imagem: Google

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ao Meu Futuro Amor


Caro futuro amor:

Talvez você esteja achando muito esquisito ser chamado de “caro” pela própria futura amada – mas, como ainda não nos conhecemos, me sinto pouco à vontade para quebrar as formalidades logo de saída. Vai que você seja daquelas pessoas mais tradicionais, que gostam de tudo bem politicamente correto. Nunca me imaginei apaixonada por alguém assim – mas já tive provas mais que suficientes de que o amor é cego, portanto é mais prudente não cuspir para cima. Não briguemos por causa disso. Não agora.

Não sou a mulher mais linda do mundo, é preciso que você saiba. Também não sou a mais legal. Não tenho dinheiro sobrando e, confesso, há dias em que não sobra sequer paciência. Roo as unhas e fico louca com tubo de creme dental aberto, privada com tampa levantada, copos pela casa e panelas dentro da geladeira. Imagino que você também colecione algumas manias, as quais não farão a menor diferença entre nós dois – desde que, entre elas, não esteja a de me pedir para coçar seu pé. Tenho um pé atrás com a coceira de pés alheios. Com cuecas, idem. Passar, até passo; lavar, jamais. Portanto, é bom que você tenha esse hábito ou, na falta dele, um estoque considerável de underware.

Gosto de barba, só que depende. Sobretudo de como você cuida. Crescidinha, charmosinha, cheirosinha, me ganha fácil. Do contrário, futuro amor, pra quê? Vamos facilitar essa maravilha de contato que é ficar de rostinho colado, pele com pele. Deitadinhos no sofá, assistindo a um filme. Aliás, futuro amor, sou partidária de qualquer sistema de revezamento da tevê que nos possibilite interagir pacificamente sem que comece uma guerra mundial porque eu cancelei a programação do futebol para assistir ao meu filme preferido pela sétima vez, ou porque você mudou para o canal de esportes enquanto fui ao banheiro no intervalo de um episódio do Dr. House. Eu não me incomodo se você dormir de meias, como espero que você não se importe com as minhas pantufas do Scooby-Doo. Não durmo com bobes nos cabelos, não babo e nem ronco à noite – e, de coração, se for o seu caso, relax. Faz parte das coisas com as quais convivo bem e até, quase sempre, finjo que não vejo – a não ser com relação aos bobes.

Não me preocupo com provas de amor. Aprendi a sublimar a demasiada relevância que a maioria das pessoas em um relacionamento sério dá a datas, rituais, simbologias, demonstrações sociais de compromisso, alianças, chaves compartilhadas. O que espero mesmo, futuro amor, é que, quando olharmos nos olhos um do outro, a gente se entenda e se reconheça em meio aos nossos silêncios. Porque há coisas, futuro amor, que jamais devemos nos dizer, como também há aquelas que prescindem da necessidade de verbalizar – e eu confio no amor não dito muito mais do que em qualquer palavra. Confio na confidencialidade de mãos que se tocam, de sorrisos que nascem mútuos para se transformarem em um só. Confio na solidez do amor que não exige razões para ser diuturnamente provado. Se é algo a que você não está acostumado, não se preocupe. Eu ensino. Você perceberá: não há prova de amor que nos faça sentir tão amados quando a sensação de abrir o coração despretensiosamente.

Tenho mil defeitos, futuro amor, tenho mil defeitos. E mesmo que você, depois disso tudo, me ache um pouco estranha e até certo ponto complicada, eu lhe peço: não desista de mim. Sobretudo, não desista de você. Jamais deixe de ser você por minha causa. Lembre-se – será por você que eu me apaixonarei. Pelos seus defeitos, pelas suas ideias, pelo seu jeito engraçado de dizer certas coisas. Também não deixarei de ser quem sou para me tornar quem você quiser que eu seja – sejamos nós dois cada um de nós, para que, ao invés de dividir nossas vidas, sejamos capazes de somá-las. Para nos tornarmos maiores e melhores um pelo outro. Para que eu não o exaspere, e nem você a mim, colecionando mágoas, ciúmes, discórdias. Não desista de mim, futuro amor. Não tenho pressa de nós mas, se estiver por aí, a porta está aberta. Meu coração também – entre sem bater. 




sexta-feira, 25 de maio de 2012

Deselegância

"(...) e nunca te falei nisto porque deve ser o mesmo 
quando uma mulher fala de filhos para um rapaz em início
de namoro, mas eu pensei em ter uma filha com você, que
fosse muito parecida com você. Eu pensei, confesso e 
talvez a imagine, a menina, para sempre."
R.



Perdoe minha deselegância.

Essa, de nunca saber o que responder quando você me diz eu te amo, eu e esse medo meu de coisas bonitas. Eu e essa mania minha de achar que tudo o que é bom dura pouco, como um furtivo e efêmero primeiro beijo. Costumo colocar a culpa de deixar a felicidade escorregar por entre os meus dedos nesses calos de desamor que ainda tenho nas mãos e que doem, ah, como doem quando algo os aperta, mesmo que esse algo tenha, seja, a felicidade com sua  maciez de seda  – e eu, que pensei já ter me acostumado à dor, ainda me assusto, e as minhas mãos se abrem abruptas com a involuntariedade da criança amedrontada que confunde a sombra na parede com um monstro à espreita. Relaxe, você diz, me abrace. E ensaio, quero, mas não encontro no meu baú de habilidades esquecidas o abraço que desaprendi – porque é como se abrir os braços fosse a chave para destrancar meu coração e quero mesmo fazer isso? Não sei.

Eu e esse medo meu de coisas bonitas, como você é bonita. Acredito. Seu vinho, minha cerveja, nosso tempo desconstruído, me perdoe a deselegância de fingir que sou forte demais para me apaixonar de novo. O que estou dizendo, e nem sei se digo isso a você ou a mim, é: às vezes tudo parece leve, tudo parece definido, mas me perdoe a deselegância de sumir de repente dentro de mim mesma sem dar satisfações nem a mim e nem a você. E entre nós a conversa flui tão bem e também o riso, e eu me sinto amada, e existe uma certa responsabilidade em ser amada, entende? Porque a gente tem que ter cuidado com o amor que alguém oferece. A gente tem que ter cuidado, a gente tem que ter. Perdoe minha deselegância de não cuidar bem do seu amor.

Perdoe minha deselegância de não saber o que quero da vida. Às vezes confundo mesmo vontades com pássaros em alvoroço, voando em bando para o nada mais próximo mas que faça recordar em algo o aconchego de um ombro morno. Tenho estado fora do lugar ultimamente. Não peço que você me entenda, só peço que você me perdoe a deselegância de ter medo e de raciocinar demais quando o que eu deveria fazer era sentir, e mais nada. E não pense que estou fugindo, apenas não estou aqui e digo, sei o caminho, só não tenho certeza se já é hora de voltar.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um Beijo. Outro


Não chamei, mas vi que era você. Reconheci seu modo de andar, de parar em frente às vitrines, de atravessar a rua depois de olhar duas vezes em cada direção. Pé direito na frente, sempre. Prudência, seu nome do meio. Já foi o meu – hoje sigo anônima por entre transeuntes e carros e luzes, buscando um novo signo, quem sabe. Buscando nada, talvez, que às vezes o próprio caminho é o destino. Houve um tempo em que caminhávamos os dois a esmo, de mãos dadas, chutando poças de água. Um beijo. Outro. Preferíamos assim, sem motivo. Não acredito em amor, mas era quase isso. Não éramos um, éramos eu e você, e isso era bom e soava como se o mundo continuasse girando a toda velocidade e atirássemos no espaço tudo o que não era nosso, que a vida é veloz e queríamos viver, e vivemos. E no dia em que soltamos nossas mãos, confesso: chorei – por mim, por você, pelo mundo que passou a girar devagar com preguiça de me fazer feliz, pelo dia que haveria de chegar para eu não sentir mais a sua falta. Sentada no chão da cozinha, quieta, sem pressa, limpando os olhos com as costas das mãos e as feridas internas com a saliva que não gastei pedindo coisa alguma. E saí e sequei o choro, e caminhei, e caminhei, e caminhei, e hoje vi você.

Mas você não me viu e nem atravessou a rua e não chamei seu nome, e seguimos assim, sem mãos dadas, por entre transeuntes e carros e luzes, buscando qualquer coisa que seja leve nesse mundo de passos pesados, buscando qualquer mínima doçura que não rejeite nossa estranha condição de sermos cada um ao invés de nós dois. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Letras, Flores e Solidões


Soundtrack: Schuyler Fisk - Fall Apart Today





Não sei o que dizer. A ideia era lhe escrever um bilhete, mas apago e repenso cada palavra como se fosse igualmente impossível nos reescrever na mesma história. Paredes brancas, papel em branco, alguma coisa vazia indo e vindo, minha ansiedade recorrente, um pouco de raiva misturada a um impulso anacrônico de amor, um bêbado na esquina da rua solitária atirando ao vento flores imaginárias. A certeza de que, quanto mais me esforço para esquecer, mais me lembro de. Tão difícil dizer amor, amor. Tão difícil dizer qualquer coisa sempre que há tanta coisa a ser dita. E eu, odiando te encontrar, odiando não te encontrar, que felicidade e liberdade sempre me pareceram antagônicas e, ao mesmo tempo, sempre me pareceram sonhos viciados de um mesmo coração partido, continuo aqui, guardando na voz e dentro do peito aquilo tudo que um dia fez parte do mundo que eu quis lhe contar – incluindo a rua solitária, o bêbado na esquina, as flores imaginárias, o coração partido e o bilhete de amor que nunca se escreveu.



segunda-feira, 26 de julho de 2010

Polaróide

tudo dito,
nada feito,
fito e deito.

(Paulo Leminski)

Soundtrack: Iron and Wine - The Sea and the Rhythm






Hoje, por um momento, pensei mesmo em lhe telefonar.

Eu, que algumas vezes mal me lembro da sua voz e, noutras, me espanto com a nitidez do seu timbre a invadir meu esquecimento e se aninhar nos meus ouvidos em minhas noites de insônia, pensei mesmo em lhe telefonar. Não me agrada nem um pouco dizer “oi”, nem perguntar trivialidades, nem me despedir; então, em resumo, nem sei por que motivo lhe telefonaria. A verdade é que senti que lhe devia isso: confessar que a tal foto – a mesma que lhe afirmei, com o rosto anuviado por um quase orgânico impulso de fingir a indiferença que nunca fui capaz de representar sequer razoavelmente, ter perdido num surto de voluntária displicência – ainda existe. A parte estranha é que, de fato, não senti necessidade de falar com você: a necessidade era de dizer nada e estar, beber esse tempo partilhado num copo de prata, sentir seu sabor encorpado no vermelho da língua. E, se tivesse de dizer alguma coisa, diria somente que aquela vontade que um dia senti de nunca soltar a sua mão ainda está acima dessa desfeita que você me fez: de arrancar de mim a parte sua que me fazia mais eu, eu era mesmo mais forte quando meu olhar desfalecia enxergando além do que jamais vi antes de aprender a observar o seu sorriso surgindo para se espraiar em todos os lugares que minha mente alcança. Ausente, sua boca ainda me fala daquelas histórias contadas com suave saliva que me partiam e partem ao meio, e se funde comigo, e vai virando esse instante que engole as horas e as cores daquela fotografia que tiramos no único dia que, para nós, não terminou, porque era feito das verdades que nunca nos dissemos; então, alheios a nós, intimamente desconhecidos de nós, naquele dia fomos felizes. Mas não ligue, nem se assuste e nem se impressione – a foto vai ficar exatamente onde está e o telefone também, isso logo passa, quem sabe é apenas melancolia. Ou saudade com meio palmo de língua para fora, cansada de ser.



sábado, 3 de julho de 2010

Algo Parecido com Você

Cadê eu?

...perguntava-me.

E quem respondia era uma estranha que me dizia fria e
categoricamente: tu és tu mesma.

(Clarice Lispector)

Soundtrack: Natalie Walker - Urban Angel






Fazia tanto tempo que eu não saía para andar à toa. Desde você. Nem lembrava mais como era essa disciplina de um passo de depois do outro sem necessariamente precisar de direção, a cidade estava lá, inteira, eu só lhe roubaria algumas ruas e ela nem daria falta e eu sou ainda muito justa: empresto, devolvo, intacto. Como no dia em que emprestei seu carro e saí sem fazer barulho para comprar cervejas. Dezesseis para as quatro, se não me engano. Descalça. Clichê, enrolada no cheiro do seu sono. Tarde quente aquela, como nunca houve outra desde que descobri que era uma catarse ver você dormir com os lábios quase imperceptivelmente entreabertos de quem balbucia um desejo sonhado. Energia medida em quanta. Ainda hoje eu não teria coragem de interromper seu sono; a gente dorme, acorda, dorme, acorda, dorme e tudo que quer é desentender que a vida é paga com juros e parar de lembrar de despedidas, o sino da igrejinha velha, lembra?, acabou de tocar, sete badaladas – sete horas, sete dias, sete anjos, sete selos, sete palmos, uma alma vai, outra vem; sete e um. Escurece por onde volto sob um tempo que se fecha e fica tão bonito assim, cinza, sempre gostei de exceções. Ouvi dizer que vão cortar o pinheiro da rua de cima porque cresceu demais e pode desabar, tudo o que cresce demais vira uma ameaça – é assim com saudade, raiva, medo, amor. Amor. Você cresceu demais mas não me importo, portanto desabe sobre mim e outra vez me acaricie as costas com o peso de toda história nossa que cabe nas suas mãos sem medo de me machucar, sou forte o suficiente para você. Para nós. Para quem fui, para quem me tornei – algo parecido com você, sempre que me lembro, e me lembro sempre do seu modo de segurar a xícara e de caminhar de manhã e de abrir um livro numa página qualquer e de, e de, e de. E de. Está tão calmo aqui. Volto para casa debaixo de uma chuva fina, abro a porta, olho o relógio na parede, sete e meia, noves fora zero e resta um: eu. Ainda faltam cinco minutos para mim.

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Depois de um hiato de 4 meses - em que estive ausente curtindo a gravidez e tocando projetos profissionais - eis que o "Sabe de uma Coisa?" está de volta. Agradeço a todos que permaneceram visitando este espaço mesmo durante o tempo de quiescência, aos que mandaram mensagens de "volta, Flávia!" e àqueles que, mesmo distantes, sempre curtiram este blog tanto quanto eu. Obrigada, e bem-vindos todos!


domingo, 10 de janeiro de 2010

Porta-Retratos

"Que te dizer? Que te amo, que te
esperarei um dia numa rodoviária,
num aeroporto, que te acredito, que
consegues mexer dentro-dentro de mim?"


(Caio Fernando Abreu)

Soundtrack: Maxi Priest - Fields of Gold





Lembro de quando decidimos reinventar essa coisa toda de destino e, sem resistência, encantados com a idéia de domar o incerto, redesenhamos o imprevisível a lápis numa cartolina branca imaginária. Foi o desenho mais bonito que fizemos juntos, porque o fizemos de lábios colados naquela noite onde o que não era sonho era cumplicidade – e apenas a paixão adormecendo satisfeita entre as minhas pernas e os seus quadris quase tirava nosso sossego, num murmúrio de não necessidade de palavra, você e eu formados por um pedaço de cada atordoamento de amor errado que amamos nessa vida e, no entanto, tudo tão perfeitamente certo. Eu, enfiando o rosto no seu peito, encontrando ali a segurança do instante único em que o mundo para inteiro a fim de caber na palma da nossa mão; você, de olhos fechados e com o polegar me acariciando com suavidade uma unha – não o dedo, a unha, tão engraçado achei aquilo, e tão bom. Era a sua forma de declarar presença dentro da vida que eu ainda nem sabia que, dali em diante, seria a minha, e que nascia em silêncio enquanto eu observava o quanto o seu rosto ficava bonito daquela maneira, rasgando a penumbra como um facho de claridade de longos cílios. Lembro de como foi surpreendente nada mais ter importância. Foi a primeira vez em que não me desagradou não pensar e que acreditei que podíamos, sim, gozar esse mistério que é a felicidade absoluta, eu nem sabia se o que senti enquanto abracei o seu corpo morno e nu era mesmo felicidade mas era quase uma invulnerabilidade o que eu sentia; então acho que naquele instante eu completamente fui feliz, sim. Morno e nu, seu corpo. Escudo. Altar. Eu soube, ali. E nem precisaria muito mais para que aquele instante se perpetuasse, mas, confesso, guardei – num canto da minha memória que é o mais belo e enfeitado com o melhor que jamais houve mim – a tal cartolina imaginária e o desenho rabiscado, justamente o mais bonito, feito a quatro mãos, a lápis, a salvo do tempo, dos esmorecimentos e das desatenções.

É esse o quadro que beijo com carinho todas as noites antes de dormir.

Para L.


terça-feira, 20 de outubro de 2009

01:01:01 (ou A Variável Oculta Atrás da Porta)



Eu tenho medo de ouvir qualquer som; é como se a vida falasse pela tua boca e não se engane, não é de ti que tenho medo e sim da angústia que me fala aos ouvidos quando o mundo vibra dentro da minha cabeça, é quase uma afronta essa continuação indiferente das coisas. Sempre ouvi dizer que paz fosse uma coisa escassa. A paz, talvez, esteja justamente na ausência, nesse não-estar tão premente e solícito, avesso à insistência de toda presença que não seja a sua própria. Mas sim, eu falava dos sons e igualmente não falava, falava de coisa diversa, provavelmente da eternidade em que se transformou cada minuto, anoitece e amanhece e anoitece e amanhece e a história parece se esparramar inteira no assoalho gelado de um tempo que anda em círculos e eu ando, vê bem, eu ando tentando encontrar uma rota de fuga mas é tudo tão hermético, tão hermético, tudo, tu, eu, não escapo de mim, eu quero, eu avanço e retrocedo e colho razões ácidas e as quero doces na minha boca, como pode. É o som do tempo que não passa o que definitivamente me assusta. Hoje alguém telefonou e perguntou por ti; o que eu diria? Acabei não dizendo muita coisa, apenas um “está bem” que poderia ser “não sei”, ou “queira saber de mim que sou quem está aqui do outro lado da linha, mas queira saber apenas do que me fere e que não consigo dizer porque me espeta a garganta e não sai, e me afoga e me faz morrer de várias formas menos daquela que realmente me aliviaria, portanto tire isso de mim”. Já tentei todo tipo de promessa. E pare de dizer que eu faço drama, que eu minto: isso é o teu orgulho te consumindo como a lança que transpassa o lado são de uma vaidade adoecida, não existo para ser teu oponente. Mas ando evitando ter juízo, é verdade.


domingo, 18 de outubro de 2009

Pedido

Decidi quebrar minhas próprias regras e trazer para cá esse texto da Tati Bernardi porque, ultimamente, não ando mesmo dizendo coisa com coisa. Talvez a necessidade de ficar calada seja o que preciso, enfim, para me dizer com mais propriedade.


Sem risinho eu mantive o pedido, fazendo dele algo mesmo. Um murro, você escolhe o lugar. É isso mesmo? Claro que não, seria terrível conviver com isso. Então espero do fundo da minha alma que você possa continuar ouvindo isso sem jamais me saciar. Mas era um minuto tão escuro de uma hora que nem existe, então, quis te dar essa honestidade que nem poderia ser contada pra não perder seu caráter. Eu queria mesmo era um murro. Não o dado porque se ama, o dado com a secura e a realidade de não significar nada. Pra ver se mata ou acorda isso que, também em nome da realidade e da secura, não vou significar.

Isso que queria um murro pra doer onde se fala tanto de uma dor que não se sabe ao certo onde bate. Um murro na boca. Isso que precisa do limite da força pra suportar caber em alguma aresta que sou eu mesma. Isso de doer pra ser bom, que podemos fazer se no fundo funciona também assim?

Isso de apenas ser um murro, algo tão absurdo. Algo que acaba sendo alguma verdade nunca dita causando assim tantos problemas ditos até que todos não se suportem mais. Se as pessoas simplesmente pudessem pedir, assim, vai, me dá um murro, quantos jantares e viagens e noites e festas e conversas e histórias seriam salvas.

Tá, eu vou metaforizar, afinal, é assim que acabo cabendo no que sinto ou ao contrário. Eu queria um murro massagem cardíaca. Queria um murro reboot de cabeça. Um murro pra sentir aquele salgado quente azedo doce na boca, pra ser vampira de mim, fome de mim, um murro pra me sentir e a violência que me amedronta tanto não ser culpa minha. Um murro para eu amar o mal fora de mim, mas sempre precisando dele. Sempre lutando pra segurar o sangue na boca ainda que seja inevitável me escorrer vermelha em cima de qualquer coisa que me faça precisar de ar. O mal arrebentando minha boca e dentes e cordas vocais sempre segurando tanto potencial pra dizer e estragar tudo e ficar livre e querer dizer pra resgatar tudo e ficar livre. E nunca se fica livre porque nunca se fica bem. Um murro pra ter o que cuspir, o que costurar, o que esperar. Pra ver a ferida e não ser a ferida. Pra cuidar de uma ferida que pode se ver e esperar. Pra poder ficar quieta. É isso. Um murro na boca. Bem dado. Para eu ficar quieta. É isso. Eu sou um marido que não agüenta mais sua mulher. Eu não agüento mais a minha mulher. Cala a boca!

Não é sexual, tapinha, coisa de gente que escuta samba e faz piada com pandeiro. Não é doença protegida por açúcar e língua. É raiz à seco. Não é pra exorcizar a merda e correr pro banho e correr pra festa e correr. É murro de cair no chão e enxergar cantos distorcidos de teto se fechando. É um murro bem dado, numa rua sem árvore com flores amarelas. Em algum lugar onde as pessoas falam sueco e escutam húngaro. Em algum lugar onde o azul defunto e o branco dia nada não seja efeito de cineasta perturbado. Um murro terrível, impossível de perdoar, impossível de ser amor, impossível de continuar. E então eu poderia dormir ao seu lado. Cansada, ensangüentada, sem nenhuma espera, acabada, sem amor, sem dente, sem sangue, sem ser gente, principalmente sem ser mulher. E então eu poderia só porque não correria mais o risco de levar um murro.

domingo, 11 de outubro de 2009

Madrugada

Ele disse que aquilo não se repetiria. Por isso, quando, interrompendo o silêncio sonolento da madrugada, o telefone tocou, senti o corpo estremecido pela sensação brusca da iminência desagradável de nossos pés nos levando em direções opostas.

"Você é a mulher da minha vida."

Esperei que ele não atendesse; ele atendeu. Levantou-se da cama e, em pouco tempo, vestiu-se e apanhou suas coisas. Observei-lhe a movimentação enquanto o ouvia dizer que alguém, um amigo, precisava de uma carona.

- Você volta?
- Preciso saber o que fazer com ele, instalá-lo, essas coisas.
- Você volta?
- Volto. Só não sei a que horas.

"Você tem um rosto lindo. Mas visto daqui, desse ângulo... é o rosto mais lindo que já vi."

- Agora já é 01h30min.
- Não sei quanto tempo vai levar.
- Pra instalar alguém?

"- Escuta, me responde uma coisa.
- Claro.
- Casa comigo.
- Caso.
- Falo sério.
- Eu também. Mas se for pra casar, que seja agora.
- Ok.
- Ok. Dá a sua mão.
- Mas não temos aliança.
- Dá a sua mão."

- Já conversamos sobre isso.
- É.

Já havíamos conversado sobre tanta coisa. A verdade é que nenhuma daquelas tentativas de conciliação de ânsias e gênios nos levara a um entendimento real. Ele jamais cederia. Eu jamais me adaptaria. Conviver se tornara tenso, a lembrança da leveza dos primeiros tempos era tão sufocante quanto a certeza de que as coisas jamais retomariam aquele rumo. Eu não sabia o que ele estava pensando, eu não sabia o que eu estava pensando: o dia fora bom, mas tudo o que eu sentia era uma frustração estranha, cansada. Cansada. Eu estava cansada. Ele estava parado diante da porta, me olhando.

- Você volta?
- Venho de manhã. Cedo. Levo você para o trabalho.
- Não precisa.
- Eu disse que venho.
- Eu ouvi. E disse que não precisa.
- Você está começando tudo de novo.
- Não. Você está começando tudo de novo.
- Eu amo você.
- Você volta?
- Vou dizer pela última vez. Preciso atender o cara. Venho de manhã, tomamos café, levo você para o trabalho. Pode me esperar.
- Não precisa. De manhã, não precisa.

Ele deu meia-volta, entrou no carro e se foi. Eu também já havia partido.

domingo, 22 de março de 2009

O Grande Mundo das Pequenas Coisas

"Guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta.
Guarde sem dor, embora doa, e em segredo."

C. F. Abreu em Existe Sempre Uma Coisa Ausente

Soundtrack: Glen Hansard & Marketa Iglova - Once



Talvez seja na beirada de um sonho que o mundo acaba, eu não sei. Talvez não acabe e vire coisa diversa, como quando a gente fecha os olhos e descobre uma esquina no canto das pálpebras, é ali que tudo começa mesmo quando termina e cada chance laceia a vida pelos ombros como quem diz “fica, que eu vou cantar pra te fazer dormir enquanto lá fora ainda faz frio, deita aqui”. Talvez, e só talvez, haja pintado em alto-relevo sobre a palma da nossa mão um instante onde viver não sangre, e seja leve carregar nas costas cada pequena fome de amor, e aquele destino parado diante do portão de casa, aquele que um dia foi possível, ainda esteja lá à tua espera, e quem sabe à minha espera, em silêncio, deitando os olhos sobre o ruído das palavras caídas sobre o batente. Eu queria, sim, voltar no tempo e quem sabe cruzar contigo no meio da rua, e te convidar para um café num dia frio e adocicado como aquele do primeiro inverno em que nevou flores, eu guardo ainda algumas pétalas entre as páginas do livro que nunca escrevi. Eu guardo, ainda, mas é um passo em falso quem me leva para casa, onde fica o nosso lugar eu me lembro e não alcanço mais. Talvez seja na beirada de um sonho que o mundo acaba; talvez, e só talvez, não acabe e vire coisa diversa e se incorpore no corpo feito cicatriz, volátil imprecisão é o destino. Eu só preciso aconchegar os pés um pouco mais nessa certeza enevoada que saber demais é desvantagem, e quem sabe o mundo não acabe e sim comece quando a gente abre os braços e enfim se atira.

Eu aprendi a me atirar quando te dei as minhas asas.


terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Até Que A Sorte Nos Separe

Afinal, ninguém precisa ser perfeito para ser o par perfeito.

Soundtrack: Ingrid Michaelson - The Way I Am



Eu lhe prometo ser fiel na alegria, na tristeza e em todas as rodadas do Brasileirão mesmo que o seu time 6 vezes campeão nacional seja hipoteticamente rebaixado para o grupo B – mas aviso logo: vai ser difícil segurar as piadinhas e eu sei que no meu lugar você faria o mesmo, então não fique rebelde caso um dia isso realmente venha a acontecer. Aliás, falando em vir, da próxima vez que convidar seus amigos para assistir aos jogos em casa, diga ao Betão que a mesinha da sala não é depósito de lixo tóxico e que todos nós teríamos mais qualidade de vida se ele lavasse aquele tênis horroroso de sujo pelo menos uma vez por semana, como é que pode um homem daquele tamanho ser assim desleixado, cruzes, mas enfim, esse assunto fica pra outro dia, o que era que eu estava dizendo mesmo?

Ah, sim, falando em prometer... eu ia dizer que de bom grado prometo, sim, segurar a sua mão naquelas noites em que o mundo inteiro vira chuva e desaba sobre o telhado porque sei que você tem medo de trovões, e deixar você dormir do lado direito da cama, e dividir com você as minhas batatinhas fritas e a pipoca do cinema – mesmo que você teime em comprar entradas para um desses filmes toscos em que voam socos, pontapés e gente morta ou estropiada por todos lados, fazer o quê. Eu prometo te emprestar o meu xampu e (eventualmente) não deixar calcinhas no box. Eu prometo estar com você quando Maomé não for à montanha mas a montanha for a Maomé, ou quando Judas finalmente encontrar as botas que perdeu, ou quando o mar virar sertão, o sertão virar mar e o camelo passar pelo buraco de uma agulha e, sobretudo, eu prometo ficar ao seu lado e sorrir o seu sorriso preferido quando a vida parecer ter se transformado em uma grande piada de mau gosto e as coisas podem até pecar no quesito leveza, mas estaremos juntos e descobriremos juntos que o diabo não é tão feio quanto parece.

E não lhe ofereço nem aliança nem nada de tão específico como prova do meu amor e da minha fidelidade porque você sabe, eu fico tiririca com esse negócio de ter que provar amor. E, como mentira me dá urticárias, ui, não posso nem pensar, deixo claro que vou continuar reclamando da toalha molhada sobre a cama e da tampa levantada do vaso sanitário, e também da louça acumulada na pia nos dias em que a diarista não vem, e dos copos que você larga em qualquer lugar, custa passar uma água?, e sem dúvida eu vou continuar reclamando (e muito) da cara esfomeadamente terrorista que você faz quando olha pros peitos da filha do aposentado do 612, aquela que usa uns vestidos tão curtos que deixam ver até a consciência se é que ela existe – pensou que eu não tinha percebido, hein, mas sobre a mocréia a gente conversa baixinho depois.

E certamente vou continuar me fazendo de surda quando você insistir que eu pare de falar com aquele ex-namorado lindo, charmoso, inteligente e bem-sucedido no ramo de empreendimentos imobiliários, mas quer saber? Nada disso faz a menor diferença. Talvez eu nem tenha tido alternativa, o meu coração leva tão a sério essa coisa de livre arbítrio que não me deixou dar muito palpite quando escolheu amar você pela vida inteira. E eu, que às vezes acho que ele não poderia ter sido mais irresponsável, quando olho para o lado e vejo você dormindo, tranquilo, com a cara feliz de quem está sonhando não com os anjos mas com um séquito de coelhinhas da Playboy, tenho certeza de que ele acertou em cheio. Porque você está longe de ser um príncipe encantado. Mas só você é você, e eu gosto assim.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sobre Amor e Outras Luzes


Soundtrack: Eels - My Beloved Monster




Ontem, 25 de dezembro, Natal, fui trabalhar como de costume - porque médico não tem feriado nem dia santo e porque eu simplesmente não consigo deixar de passar no hospital para avaliar os pacientes internados. A verdade é que nem precisava ter ido já que o plantonista que segura as pontas nessas datas estava por lá, mas fui - e, depois de passar a visita nas enfermarias, resolvi dar uma esticada até o shopping mais próximo a fim de pegar um cinema, coisa praticamente impossível durante a semana. Nada de filmes-cabeça ou produções oscarizáveis: a idéia era assistir a algo leve e sem grandes pretensões além de entretenimento, e eu já estava quase comprando o ingresso quando vi que Marley & Eu, adaptação para as telas do best-seller homônimo de John Grogan, dirigida por David Frankel (de "O Diabo Veste Prada") e que conta com Owen Wilson e Jennifer Aniston no elenco, estava estreando no circuito e que faltavam apenas alguns minutos para o início da primeira sessão. Li o livro há alguns meses e, coincidentemente, li anteontem a resenha do filme na edição de dezembro de uma das revistas que assino - e já havia mesmo me apaixonado irremediavelmente pelo incontrolável e desastrado labrador cuja história, verídica e contada pelo dono, serve como pano de fundo para uma viagem pelos caminhos e descaminhos que regem as relações entre humanos e animais e, sobretudo, entre humanos e humanos.

Marley & Eu não é um filme sobre cachorros, apesar de o seu protagonista ser um endiabrado porém adorável "bichinho" de 4 patas: o labrador de 50 kg é do tipo que destrói todos os móveis, monta nas pessoas, faz xixi em lugares inapropriados, arrebenta portas por medo de trovões, rompe paredes de compensado, baba nas visitas, arranca roupas de varais vizinhos, come praticamente tudo que vê pela frente - incluindo revestimentos de sofás, jóias, um telefone e uma secretária eletrônica - e que torna todas as tentativas de adestramento um grande fiasco. No entanto, mesmo sendo tão desajustado, Marley está longe de ser - como sugere o subtítulo do filme - o pior cão do mundo: da mesma forma que recusa qualquer limite ao seu comportamento, seu amor e lealdade também são ilimitados. Marley, à medida em que transforma a vida dos Grogan em uma fonte inesgotável de confusões, se torna um devotado membro da família e mostra que o amor incondicional pode vir de várias maneiras - algumas mais estabanadas, é verdade, mas nem por isso menos incondicionais ou menos leais. Marley & Eu, mais do que a história de uma família e seu animal de estimação, é uma história sobre amor, sobre amar alguém cheio de defeitos, como todos nós, e ser amado por esse ser; sobre o quão feliz e rica pode ser essa convivência desde que deixemos os senões de lado. É quase impossível não simpatizar com o grandalhão, não se acumpliciar com suas travessuras e não se deixar cativar por seu coração puro.

Marley & Eu é uma história para todas as idades, lindamente despretensiosa como igualmente o são os amores gratuitos, esses que nascem e independem de razões para existir. É uma história sobre tolerância, comprometimento, amizade e incondicionalidade - que ultrapassa a relação entre homem e animal e estende profundas raízes para o campo das relações interpessoais, que tantas vezes esbarram em reservas tão inúteis quanto castradoras. Uma história, talvez, sobre vida e morte, e sobre os laços que realmente importam nesse percurso que fazemos entre essa existência aqui, tão única com suas alegrias e dores, e o instante de apagar-se dela. Uma história para rir, para chorar, para se emocionar, para pensar e, sobretudo, uma história para não ignorar nem esquecer.

Ainda dá tempo de desejar um Feliz Natal, não? Afinal de contas, Natal é todo dia, desde que estejamos de coração aberto ao verdadeiro significado dessa data... Então Feliz Todo Dia a todos, e um 2009 carregado de 365 dias de boas energias e de amor em overdoses, minha gente, muito amor pra todo mundo!

Beijos!

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UPDATE:

Minha mãe, passando por aqui para ler minha opinião sobre o filme - já que a intimei a assisti-lo - deu uma risada e saiu-se com esta: se esse Marley fosse uma pessoa, sem dúvida seria você. Até o olhar é igual. Mães... quem pode com elas?



segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Inviolável Humanidade

Demasiadamente, embora.

Soundtrack: José González - Heartbeats



Entre todas as estranhezas que me fizeram te amar, eu talvez tenha amado demasiadamente mais a mais banal – aquela de cuidar a urgência como se fosse uma tua velha amiga que se achegava a ti mordendo o lábio provocativa, e que quase infantil deitava-se no teu colo e abraçava-se ao teu pescoço e se confundia inteira contigo a ponto de não se saber onde um começava e o outro terminava, a tua urgência sempre foi uma fêmea voraz. Eu, por isso, talvez, a tenha amado. Eu talvez a tenha amado porque ela te possuía, era incontida e maior que tu, era ela quem falava pela tua boca quando a tua língua se descontrolava e galopava frenética em frases despedaçadas por pequenas pausas delituosas – e, nesses silêncios pontuais, era a tua meteórica paciência pensando, pesando-me, eu sabia, eu sempre soube. Eu sempre soube que a tua pretensa força era o que te fazia sofrer. O que eu não soube, e sequer poderia – porque o caótico desalinho entre nossas expectativas nos fez verter dias afins em tempos antagônicos – é que o teu pretenso sofrimento era também o que te fazia forte.

Eu talvez tenha amado demasiadamente a mais banal, e amei em grande parte porque me assustam essas coisas raras que desaparecem com a mesma velocidade com que despontam e deixam esses ecos vazios na memória atônita, essas ranhuras cicatriciais que nunca fecham porque estamos sempre a esgarçá-las com os dedos sujos – de saudade, de desespero ou de algum outro desejo vão escondido sob as unhas, esperando a hora de se disseminar febril. Os meus dedos não conhecem sossego, a minha pele nunca está intacta, eu nunca estou intacta e, de fato, quem está? Eu demasiadamente amei a mais banal embora todas as tuas estranhezas me fizessem sentir uma mulher comum, mas extraordinariamente comum como nunca houve outra, eu era extraordinariamente única porque as minhas próprias estranhezas sobressaíam entre o que eu acreditava ser o meu melhor, embora não fosse – o meu melhor é o que veio depois, o que rasguei na carne quando num acesso de fúria espantei das vértebras as falsas virtudes que, como traças, me roíam os traços mais reais.

Os traços mais reais – embora essa vida seja uma ficção e a verdade se esconda em um canto inviolável da humanidade que nos cumprimenta zombeteira diante do espelho quando esquecemos a porta aberta.


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José González é sueco, filho de argentinos, canta em inglês e sua música lembra o que seria um folk à la Nick Drake com João Gilberto. Suas influências contemporâneas são Elliot Smith, Joe Pernice e Kings Of Convenience, mas sua voz evoca a de cantores clássicos da história da música pop como Mark Eitzel e Mark Kozeleck. A faixa Heartbeats integra o álbum Veneer, lançado na Suécia em 2003, ponto de partida para que González ultrapassasse a fronteira musical da Escandinávia e ganhasse as paradas da Europa.

Quanto ao texto, não custa enfatizar: FICÇÃO. E não tentem se - ou me - convencer do contrário!


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Aquele Outro Caminho

Quando foi? Eu nunca aprendi.

Soundtrack: Ingrid Michaelson - Breakable



Estou estranhamente calma, tão diferente de antes, quando cada passo meu beijava o chão como um gemido enviesado de dor. Não há falta. O que há eu não sei, talvez de fato nem haja nada para saber e isso não é ruim, é como cair em um precipício em slow motion: não dói nada, não dói, nem cansa. E até já me desafeiçoei àquela mania de catalogar sentimentos por cores porque eles escorregam uns nos outros dentro do coração trespassado por uma flecha desenhado a dedo no espelho embaçado do banheiro, mas lembra, eu te havia mesmo dito que um dia tudo perde a cor - e tu, talvez, não me tenha compreendido porque falei com os olhos marejados de sussurros mas sem arriscar palavra, enquanto teus olhos injetados de algum sentido que eu não alcançava lambiam o dia volátil estendido diante da outra janela. Eu te havia mesmo dito que não precisava de ti para absolutamente coisa alguma mas que essa completa e lúdica inutilidade tua na minha vida só me fazia te querer mais, e era tão pateticamente bom, e foi nessa hora – tenho certeza – que todas as coisas que eu pretendia verbalizar se acotovelaram indóceis na ponta da minha língua e viraram um soluço fosco, e por isso eu disse apenas “me ajuda a te entender”. As perguntas que escondi sob o colchão permanecem lá, as respostas eu não sei; talvez perambulem sem se descobrirem respostas naquele outro caminho, o de antes, o que era meu e teu quando éramos tu e eu, e quando fomos tu e eu? Porque este caminho, este caminho atropelado por pequenos descuidos, este é ou meu, ou teu, ou da mulher que escarra esperanças viciadas na esquina de um amor que não veio, pobre mulher, quem sabe eu tenha te livrado de um mal maior. Porque essa vida, esse lapso de vida que nos ladeia hoje, é uma viela estreita, quase estrangulada, e não cabemos lado a lado sem nos ferir mutuamente – e aquele atalho que um dia risquei com os cabelos no travesseiro enquanto revisitava teu rosto antes de dormir se perdeu, desnorteava um pouco cada vez que outra saliva nutria tua boca e te acomodavas entre outras pernas, e que as minhas próprias pernas conheciam outras posses e eu alimentava ao seio outras sofreguidões, eu nunca aprendi a te ler.

Eu nunca aprendi. Quando foi que nos vimos pela última vez?


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Ingrid Michaelson é uma cantora e compositora nova-iorquina que faz um som indie-pop/folk e tem músicas nas trilhas sonoras de Grey’s Anatomy (olha aí os seriados médicos outra vez) e One Tree Hill. A faixa Breakable faz parte do álbum Girls and Boys, lançado em 2007.


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Primazia

"Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água..."

Chico Buarque - Gota D'Água


Soundtrack: Dionne Warwick - Walk on By



Eu te amei com todas as minhas forças e todas as minhas fraquezas. Escancarei a nudez da minha alma diante dos teus olhos, te entreguei meu corpo de dama e meu cio de besta. Confessei-te meus segredos, adulterei minha pouca razão e desalinhei-a para caber sem temores entre as tuas carícias. Sim, eu rompi com todas as minhas premissas, porque te amei – e, porque te amei, morri e vivi desse amor tantas e tantas vezes, e em todas as vezes cri que fosse a última e me surpreendi ali, continuamente morrendo e vivendo, continuamente morrendo e vivendo, continuamente morrendo e vivendo. Porque te amei.

E esse amor, onde ficou? Desalentado, esquecido atrás da porta, enquanto apagavas as luzes para reacender teus olhos em alguma esquina furtiva do teu labirinto de desejos, em algum encanto barato e fugaz. Perdido entre os cacos da última garrafa de vinho, um tanto ébrio, borrado ainda do violáceo dos teus beijos frios. Ressequido. Esse amor ficou vagando atônito, a passos pequenos, descrevendo círculos estéreis por entre os “não” que a tua inconstância deliberou cravar entre nós dois. Esse amor se desfez do abraço frouxo de amor que cinge uma inexistência e cruzou os braços – cruzou os braços. E amor de braços cruzados esquece de si, amor, ou se faz esquecer – porque vive de tempo presente, desentende, ignora o depois.

Esse amor não ficou, amor. Esse amor, aquele amor, se foi.

E tu? Por onde vais agora, sem vinho e sem esquinas?


sábado, 11 de outubro de 2008

(...)

"(...) Amor é com quem me deito e deixo
montar
minhas coxas em forma de forquilha
e onde
amor abre caminho pelas minhas
águas."

Olga Savary - Nome




Minha idéia fixa é gastar meus lábios na tua saliva. Desagregar o tempo e reinventá-lo contado sem pressa nos teus dedos, nas pausas da tua respiração, nos hiatos das nossas insensatezes cometidas em nome das urgências da carne e dos anseios do espírito. Vandalizar essa distância que nos separa e reduzi-la a míseras descontinuidades, vestir meu corpo com a tua pele e umedecer-me do teu suor inquieto, morder lentamente cada um dos teus desejos. Enlaçar tuas vontades entre as minhas pernas, sincronizar tuas pulsações com o ritmo dos meus instintos de fêmea. Beber da tua boca o gosto disrítmico e adocicado da tua entrega, te receber em mim e ser o universo onde repousas tua languidez, a paz que sobrevém ao caos da colisão entre as nossas delícias. Tripudiar sobre a lógica – é tão simples e óbvio ocuparmos o mesmo lugar no espaço, porque o mundo gira diferente na tua íris. Banir as solenidades vocabulares e dizer-me inteira a ti na linguagem dos meus impulsos, e me responda, como é que se diz eu te amo sem ser clichê?

As minhas reticências te gritam, indiscretas.