Soundtrack: Jim Sturgess - All My Loving
Aí você pensa: por que esses desencontros
acontecem justamente na minha vida?
Você está sozinho e, um dia, conhece alguém legal.
Legal é pouco: extremamente legal. Além de extremamente legal, a criatura é
bonita, simpática, inteligente, divertida, bem-sucedida e compatível com você
do ponto de vista intelectual, sexual e até astrológico. Como se não bastasse, move
montanhas para estar ao seu lado, ama sinceramente o seu cachorro de estimação,
prepara como ninguém o seu prato favorito e, por motivos óbvios, virou o xodó
da família. Tudo o que você sempre quis – mas, por algum motivo, depois de
algum tempo, você começa a se perguntar se tem algum problema de audição ou se
os sininhos realmente não tocaram pois tem a sensação de que, embora não falte
nada, falta. Logo você está all by
yourself de novo, se perguntando por que esses desencontros acontecem justo
na sua vida e as suas borboletas gástricas ignoraram a existência de alguém
que, sem dúvida nenhuma, era o seu número. É, colega. Não adianta insistir. A gente
não escolhe por quem se apaixonar. É assim: você estava de coração aberto, mas
a mágica, simplesmente, não aconteceu.
Ninguém se apaixona por outra pessoa só porque ela saltou de bungee jump carregando uma faixa com o seu nome. Ou porque ela
preenche absolutamente todos os requisitos que você inclui naquela lista enorme
repetida à exaustão, durante a sua vida inteira, em cada prece em favor da sua
vida amorosa. O pacote completo impressiona à primeira vista, mas os detalhes,
ah, os detalhes, essas coisas às vezes inapropriadas que nos saltam aos olhos
tão apropriadamente. A gente se apaixona nos detalhes. No detalhe do sorriso,
no detalhe do olhar, no detalhe do clichê, no detalhe de alguma frase ridícula.
A gente se apaixona no detalhe da camisa fora de moda que não tem nada a ver
com a produção mas tem tudo a ver com a sua alma demodê e pode se apaixonar
definitivamente no detalhe “não acredito que a gente tem o mesmo filme
preferido, cara”. A gente percebe que o estômago virou uma sede de borboletas
hiperativas diante da banalidade, porque o “especial” nasce aqui dentro, muito
dentro, é algo muito particular: um belo dia, o modo como alguém segura a
caneta, diz “oi” ao telefone ou passa a mão nos cabelos ganha um novo significado
diante dos seus olhos, e o simples ato de mascar um chiclete pode abrir a porta
para uma observação demorada – e enamorada – do quanto os músculos faciais do
destinatário da sua paixão ficariam ainda mais bonitos durante o um beijo. Ah,
os detalhes. Quem nunca sorriu um sorriso bobo diante do gesto cotidiano de
alguém, quem nunca se sentiu andando nas nuvens ao acompanhar alguém em sua
caminhada, quem nunca teve certeza de que a terra parou de girar no exato
instante em que alguém se sentou ao seu lado puxando conversa, quem nunca se
surpreendeu com a própria vulnerabilidade ao ser surpreendido pelo próprio
coração me perdoe, mas não sabe o que é se apaixonar.
Não existe a pessoa errada, tampouco a pessoa
certa – o que faz a gente se apaixonar depende menos do que o outro nos oferece
e mais, infinitamente mais, de quem somos no momento em que encontramos alguém.
Na dúvida, a culpa é sempre nos neurotransmissores. Porém, se você não está
disposto a se apaixonar, um conselho: ignore os detalhes. Por mais que se diga
que a paixão é mera questão de química, os tais detalhes são o mínimo múltiplo comum entre o que acontece mundo
afora e tudo o que vivemos coração adentro. Há quem diga que é química,
mas, no fundo, é como mágica. E a mágica – por sorte – não tem hora para
acontecer.
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