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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Você


soundtrack: Lorene Scafaria - We Can't Be Friends


Você, aquele seu olhar de pureza, sempre me desnorteou. Você tinha nos olhos aquela coisa de pureza, uma coisa muito louca, eu olhava pra você e pensava que parecia um anjo, e eu, que nunca acreditei em Deus, flagelava minha descrença até ela quase se transformar em fé, e deve ter se transformado, por alguns segundos, algumas vezes, desconfio. Não o suficiente para que eu desejasse o paraíso, nessas horas eu desejava apenas que você jamais deixasse de olhar para mim daquele jeito, mesmo quando você me beijava a boca, a nuca, e as suas mãos seguravam os meus seios com uma delicadeza morna e úmida, uma delicadeza desistindo de ser lúcida, e a minha pele quase virava a sua – eu aceitava o fim do mundo e o meu próprio sem receio ou barganha porque aqui, nesse lapso efêmero onde somos carne e sangue e osso entremeados de absurdas repercussões sensoriais, eu pertencia a você e você e você a mim, ninguém sendo dono de ninguém, nós apenas nos descobrindo, redescobrindo. Cobrindo-nos de profundidades. Ainda durmo sem travesseiro e com os pés para fora da cama – mas, desde que você se foi, minha pele não se acostuma, e os cantos da casa me olham inquisitivos, atônitos, eu, blasé, mentirosa, respondo: é a vida. Não é a vida, meu amor, não é. Não é a vida, é a minha descrença despencando em queda livre na vontade reprimida de que exista de fato um Deus, uma força, uma entidade que faça todo o transitório ser menos hostil sem você. Porque a vida é transitória, relapsa e insinuadora de desvios. E a minha descrença, permanente e vígil como qualquer promessa de eternidade, se fere inteira em cada “e se”, e eu não consigo mais secar suas feridas. Ou, talvez, não queira.


A verdade é que não acredito em paraíso. Mas em nós, eu acreditava. 



terça-feira, 5 de novembro de 2013

da via crúcis de conjecturar.

Imagem: "Blow, Wind, Blow" - Couting Alyis

Ando cismada com pessoas volúveis. Mais que o habitual. Mais do que consigo ignorar. Porque opinião, ainda que febril, não é coisa que dá e passa. Não arrisco falar de sentimentos: os meus têm raízes profundas, robustas - mas são os meus e, mesmo assim, penso que só sei deles o essencial para não me desconhecer completamente; do coração alheio não se fala, quando mal se sabe o próprio. Preciso perder essa mania de discutir com quaisquer uns, mesmo em silêncio, para provar que tudo está do avesso e não se pode viver de/para efêmeros; devo, talvez, tentar ser mais indulgente com as circunstancialidades. Quem sabe eu esteja errada, e a facilidade que certas pessoas têm de volatilizar isto e aquilo seja um bônus, e fidelizar-se a algo que ninguém mais conhece seja, de fato, a grande loucura da vida. Claro que é.


Eu nunca fui muito lúcida, mesmo.



domingo, 27 de outubro de 2013

do lado de dentro.

Imagem: Bailey Elizabeth (in deviant art)

Há algo sempre comigo. 

Nestes dias, principalmente. A vida segue quase comum - tudo igual, exceto essa coisa que está sempre comigo e que, agora, mal se restringe a me fazer companhia. Não sei dizer seu nome. Não sei dizer o que me provoca - comoção, angústia, tristeza, raiva, euforia, orgasmo. Uma iminência, um pressentimento, talvez. Seja lá do que for. Roo as unhas enquanto tento delimitar um espaço entre mim e esta coisa. Inútil; nem ela e nem eu nos habituaríamos a outras presenças, ou a presença nenhuma, nos momentos em que é preciso levar as mãos ao peito e comprimir com firmeza para que o coração não salte e se choque com a palavra paralisada entre os dentes. Esta coisa é quem limpa minha sujeira quando os sentimentos me evisceram. Esta coisa é que segura minha mão quando medos íntimos me violentam no meio da noite. Há tanto tempo me falta jeito para dizer amor ou delicadeza, mal me lembro se um dia foi fácil e deslizou através dos meus lábios como se tivessem carne de cetim. Roo as unhas, mordo as pontas dos dedos, arranco um pedaço do que faz meus olhos verterem casulos e perscrutações. Não há nenhum ruído lá fora, quase ouço o que se passa dentro de mim - mas esta coisa, esta que permanece comigo consistente e vígil como um cão de guarda, obscurece o silêncio cada vez que, de olhos fechados, me observo e insisto em me cobrar: quem é você?

Roo as unhas, meus dedos sangram um pouco. A dor me salva de (me) saber.




segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Des(a)tino


Daquele lugar, aqui.



Enquanto meus olhos repousam sobre a contraditória indiscrição que é viver, apenas observo. Não a minha vida, não necessariamente a vida de alguém: observo, escondida naquele canto esquecido entre uma vaga lembrança e uma existência presente, escuro e empoeirado como um vão da escada que se dirige àquele lugar que tanto evitamos e que tanto nos fascina justamente porque não o conhecemos, observo a imagem em reflexo àquilo que eu costumava chamar de “aqui”, sem sê-lo – uma espécie de ponte talvez, eu que tanto medo tenho de pontes embora goste de caminhar sobre, partindo de, em direção a. Um abismo contundido, uma brisa contundente, um contudo – um, contudo. Conteúdo. Tenho todos os dias mais uma chance de desatar de mim o laço que amarra a alguns receios minha liberdade. Tenho. E aperto o nó, como se aperta a garganta de um sonho para fazê-lo lutar para sobreviver ao pressentir a iminência da própria morte. Há dias nos quais desconfio que a coragem seja um pretexto para desistir insuspeitadamente, pois, para resistir, é preciso precaução – e alguns medos são, de fato, o que nos mantêm vivos. 

Partindo de, em direção a. E lá vou eu em busca de qualquer des(a)tino que me caiba na vida, mais uma vez.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Com Amor, F.



Soundtrack: Allie Moss - Corner


Então: lembre aquilo que eu lhe disse. A razão das coisas é serem imperfeitas. Imperfeitas como meu café sempre mais forte ou mais fraco ou mais doce ou mais amargo do que deveria.  Imperfeitas, e ponto final. Como minhas cartas: sem cabeçalho e repletas de incorreções e autenticidades desnecessárias. É assim. Portanto vamos às notícias, que é o que interessa.

As notícias são as mesmas de sempre, não fosse o ineditismo de meu primeiro fio de cabelo branco – há quem insista para que eu o arranque mas o deixo ali entre os outros, único e reluzente, quase como uma coroa. A parte minha mais parecida comigo, esse inevitável fio de cabelo branco. Que fique aí e, insidiosamente, se multiplique – porque nunca temi velhice e meu grande medo sempre foi, e ainda é, perceber ser inconveniente para mim mesma. Vou mudar outra vez – de cidade, de casa, de vida. Encontrei um apartamento não tão grande mas espaçoso, com jeito de antigo e cheiro de dias melhores se aproximando, com muitas e amplas janelas, dessas que  permitem à luz entrar também dentro de nós. Ficará ainda melhor com um pouco de cor. Ainda não decidi onde vou arrumar os livros e discos e você sabe, gosto deles um tanto desarrumados porque assim me parecem mais interessantes; as fotos, inclusive aquelas que você achava estranhas por se assemelharem demais a sentimentos desconhecidos se aproximando íntimos o suficiente para desvendar nossos segredos, creio que gostarei delas pelas paredes, perscrutadoras dos meus tons de vida. Ando em busca de olhos fiéis.

Troquei novamente o número do meu telefone. E confesso: não me lembro do seu. Preciso de uma agenda telefônica daquelas antigas, de papel mesmo – nada dessas geringonças eletrônicas que parecem fantásticas mas que, de uma hora para outra, se tornam mais inúteis que uma pilha gasta. Eu costumava ter boa memória antes dessas coisas virarem rotina; a rotina, hoje, é não recordar sequer o que comi no café da manhã. Faz parte. Não faz parte é esperar, isso ainda não aprendi. Mas pratico – diária e diligentemente, porque o erro maior é não procurar saber. Portanto, quando precisar de mim, ou quando quiser falar comigo, estou todos os dias, à mesma hora, na esquina daquela rua inventada onde o tempo não passa porque ali é sempre quando fui mais feliz nessa vida, e eu não me lembro quando foi, mas sei que foi um dia muito, muito suave, como uma canção de ninar na boca de uma mãe ou um par de mãos dadas. Passo, paro, respiro, observo, sigo adiante – mas sempre volto. Sempre.

Então, eu não vou me despedir de você porque nenhum de nós está partindo. E, em meio a tudo isso, lembre aquilo que eu lhe disse: as coisas são assim, marginais, sabiamente defeituosas. Como a imperfeição dos cafés, cartas, memórias, juízos, com a virtude incógnita de serem certas em seus desvios, tão incógnita quanto amores perfeitos.



 



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

(e)terno

"olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo"



Ana C.

Ouve o que eu digo, meu amor: o mundo não se acaba hoje, não. 

Essa pressa toda, essa urgência. Ouve o que eu digo: não é preciso. Desde que abrimos a porta, e entrou o primeiro vento, e a vida como a conhecíamos se desorganizou para se acomodar no ruído quase imperceptível dos nossos pés, deslizando mornos sobre este caminho novo, feito das nossas sinestesias, e das nossas esperanças úmidas e vontades bruscas, e dos nossos absurdos, desde então tudo mudou. E o tempo, não se engane, está parado – e, por entre seus dedos imóveis, atravessam infinitas possibilidades, escolher nunca foi mesmo calmaria, uma coisa de cada vez e todas a seu tempo e até viver intensamente pede, cobra, por que pensar que não?, um pouco de parcimônia. Parcimônia, cada gosto de vida derretendo suavemente sobre a língua enquanto os olhos, fechados, procuram intimamente guardar a salvo de nós mesmos as imagens ainda sem nome daquilo que nos faz existir um pouco mais. E eu, meu amor, esqueci-me de tudo para existir. Então se perpetue em mim, que não tenho memória, no enlace lento e silencioso de quem se partilha não só por amar, mas também por saber que o tempo para em reverência a quem se entrega. E por saber que dentro de mim, que não tenho memória, só cabe o que me faz sentir eterna e que é por isso que cabemos, você e eu, em cada cor possível e ainda por nascer. 

O mundo não se acaba hoje, não, meu amor. Nem amanhã. O mundo só se acaba quando a gente quer.



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Mosaico


Flores. Girassóis. Se eu plantar a semente, será que nasce uma cerejeira? Sorvete, bombom sonho de valsa, doce de leite, pêssego. Outras delícias.


[e se aquele pedido guardado na boca e esquecido
porque não soube retórica nem houve saída criasse coragem]


Filmes. Vou desenhar você. Música. Tudo bem. Desenhos. Desenhos. Desenhos. Não consigo dormir. Música. Imagem. Música. Casa comigo? Poesia. Música. Te amo. Neruda. Música. Vou plantar um pé de cereja pra nós dois.


[e crescesse num súbito e nesse repente
se fizessem todos os sentidos que a vida escondeu]


Violão de três cordas. Leonor. With or Without You. Não discuto com doida. Somos assim, sempre cuidando um do outroVou enfiar o dedo no seu nariz.Conversa. Música. Vá embora. Fotografia. Música. Choro. Música. Wish You Were Here.

[e as histórias enfim admitissem respostas]

Tatuagem. Espoleta. Sorrisos. Você tá estranha hoje. Brócolis. Cevada. Se adivinhar te dou um doce. All Star. Meu sorriso é o teu sorrindo. Caneca de porquinho. Oinc oinc. Infinito. Infinitos de infinitos.



[e apenas abra os olhos e pense rápido]


Jim Morrison. Por que ainda fala comigo? Mike Patton. Quero sumir. David Gilmour. Desmantelada. Robert Plant. Você tá bem? James Hatfield. Se eu fosse um doce, seria de quê? Joey Ramone. Cale essa boca. Eddie Vedder. Pára.

[porque tudo o que (re)tarda e analisa e ajuíza
também intimida a verdade de qualquer vontade]


Você tá cheirando meia. Beijos muitos. Não há falta na ausência. Beijos outros. Essa música me rasgaBeijos tantos.


[e então sem hesitar me diga - você:

viria?]

For every minute you’re angry you lost 60 seconds of happinessQuintana.Te pego, dedo no nariz e chinelada. Cachoeira. Chata. Churrasco. Eu não sei mais quem você é. Banho + música = Terapia. Nunca estou ocupado  pra você.Sorrisos que não cabem. Ainda te amo. Você não existe. Sinto sua falta. Sinto sua falta. Sinto sua falta.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Deselegância

"(...) e nunca te falei nisto porque deve ser o mesmo 
quando uma mulher fala de filhos para um rapaz em início
de namoro, mas eu pensei em ter uma filha com você, que
fosse muito parecida com você. Eu pensei, confesso e 
talvez a imagine, a menina, para sempre."
R.



Perdoe minha deselegância.

Essa, de nunca saber o que responder quando você me diz eu te amo, eu e esse medo meu de coisas bonitas. Eu e essa mania minha de achar que tudo o que é bom dura pouco, como um furtivo e efêmero primeiro beijo. Costumo colocar a culpa de deixar a felicidade escorregar por entre os meus dedos nesses calos de desamor que ainda tenho nas mãos e que doem, ah, como doem quando algo os aperta, mesmo que esse algo tenha, seja, a felicidade com sua  maciez de seda  – e eu, que pensei já ter me acostumado à dor, ainda me assusto, e as minhas mãos se abrem abruptas com a involuntariedade da criança amedrontada que confunde a sombra na parede com um monstro à espreita. Relaxe, você diz, me abrace. E ensaio, quero, mas não encontro no meu baú de habilidades esquecidas o abraço que desaprendi – porque é como se abrir os braços fosse a chave para destrancar meu coração e quero mesmo fazer isso? Não sei.

Eu e esse medo meu de coisas bonitas, como você é bonita. Acredito. Seu vinho, minha cerveja, nosso tempo desconstruído, me perdoe a deselegância de fingir que sou forte demais para me apaixonar de novo. O que estou dizendo, e nem sei se digo isso a você ou a mim, é: às vezes tudo parece leve, tudo parece definido, mas me perdoe a deselegância de sumir de repente dentro de mim mesma sem dar satisfações nem a mim e nem a você. E entre nós a conversa flui tão bem e também o riso, e eu me sinto amada, e existe uma certa responsabilidade em ser amada, entende? Porque a gente tem que ter cuidado com o amor que alguém oferece. A gente tem que ter cuidado, a gente tem que ter. Perdoe minha deselegância de não cuidar bem do seu amor.

Perdoe minha deselegância de não saber o que quero da vida. Às vezes confundo mesmo vontades com pássaros em alvoroço, voando em bando para o nada mais próximo mas que faça recordar em algo o aconchego de um ombro morno. Tenho estado fora do lugar ultimamente. Não peço que você me entenda, só peço que você me perdoe a deselegância de ter medo e de raciocinar demais quando o que eu deveria fazer era sentir, e mais nada. E não pense que estou fugindo, apenas não estou aqui e digo, sei o caminho, só não tenho certeza se já é hora de voltar.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um Beijo. Outro


Não chamei, mas vi que era você. Reconheci seu modo de andar, de parar em frente às vitrines, de atravessar a rua depois de olhar duas vezes em cada direção. Pé direito na frente, sempre. Prudência, seu nome do meio. Já foi o meu – hoje sigo anônima por entre transeuntes e carros e luzes, buscando um novo signo, quem sabe. Buscando nada, talvez, que às vezes o próprio caminho é o destino. Houve um tempo em que caminhávamos os dois a esmo, de mãos dadas, chutando poças de água. Um beijo. Outro. Preferíamos assim, sem motivo. Não acredito em amor, mas era quase isso. Não éramos um, éramos eu e você, e isso era bom e soava como se o mundo continuasse girando a toda velocidade e atirássemos no espaço tudo o que não era nosso, que a vida é veloz e queríamos viver, e vivemos. E no dia em que soltamos nossas mãos, confesso: chorei – por mim, por você, pelo mundo que passou a girar devagar com preguiça de me fazer feliz, pelo dia que haveria de chegar para eu não sentir mais a sua falta. Sentada no chão da cozinha, quieta, sem pressa, limpando os olhos com as costas das mãos e as feridas internas com a saliva que não gastei pedindo coisa alguma. E saí e sequei o choro, e caminhei, e caminhei, e caminhei, e hoje vi você.

Mas você não me viu e nem atravessou a rua e não chamei seu nome, e seguimos assim, sem mãos dadas, por entre transeuntes e carros e luzes, buscando qualquer coisa que seja leve nesse mundo de passos pesados, buscando qualquer mínima doçura que não rejeite nossa estranha condição de sermos cada um ao invés de nós dois. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Letras, Flores e Solidões


Soundtrack: Schuyler Fisk - Fall Apart Today





Não sei o que dizer. A ideia era lhe escrever um bilhete, mas apago e repenso cada palavra como se fosse igualmente impossível nos reescrever na mesma história. Paredes brancas, papel em branco, alguma coisa vazia indo e vindo, minha ansiedade recorrente, um pouco de raiva misturada a um impulso anacrônico de amor, um bêbado na esquina da rua solitária atirando ao vento flores imaginárias. A certeza de que, quanto mais me esforço para esquecer, mais me lembro de. Tão difícil dizer amor, amor. Tão difícil dizer qualquer coisa sempre que há tanta coisa a ser dita. E eu, odiando te encontrar, odiando não te encontrar, que felicidade e liberdade sempre me pareceram antagônicas e, ao mesmo tempo, sempre me pareceram sonhos viciados de um mesmo coração partido, continuo aqui, guardando na voz e dentro do peito aquilo tudo que um dia fez parte do mundo que eu quis lhe contar – incluindo a rua solitária, o bêbado na esquina, as flores imaginárias, o coração partido e o bilhete de amor que nunca se escreveu.



sábado, 28 de janeiro de 2012

Sobre um dia sem nome.

"Eu me lembro que um dia acordei de manhã 
e havia uma sensação de possibilidade."

Virginia Woolf


Deixo o corpo cair no sofá, olho em frente, o dia de ontem pendurado na parede parece mesmo meio torto. Um gole de água, outro de paciência minimamente invasiva com cara de poucos amigos. Há tanta coisa para arrumar que nem sei se começo por mim ou se pela palavra que caiu da minha boca e ficou assim toda riscada, sempre deixo as coisas pela metade; saí jogando tudo fora, inclusive aquele velho pedido de desculpas que não fiz e ficou se repetindo pela sala, arranhando no toca-discos. Ao contrário do que se possa supor, não sirvo em roupa bonita, linha reta ou confissão. E se guardar segredos de fato poupasse o mundo de alguma verdade terrível, quem sabe valesse a pena manter o silêncio quando até os vincos da nossa pele reclamam amor e nos pedem asilo. Não foi o vento, mas um pedaço de egoísmo quem trincou os vidros das janelas – e vou deixar assim pois desisti de tentar consertar toda e qualquer falha que não seja minha, e não nego que pelas minhas próprias chego a ter desvelo de mãe. Vou desalinhar um pouco mais o passado na parede. Não estou aqui para ser perdoada.



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Do Instante ao Destino


Soundtrack: Matthew Perryman Jones - Amelia

Entendo que hoje seja um dia difícil. Entendo mais: que hoje é um dia difícil arrastando um som metálico de melancolia, assim sofrido, meio oco. Coisa que devia ter sido deixada para trás mas veio caminhando junto. Boa companheira, má companhia. Muito peso para carregar, bagagem quase nenhuma. Um quase você, não fosse esse olhar que não se encaixa. Entendo mais por intuição do que por me dispor a; deve mesmo haver, escondido sob os sulcos dos nossos pés, um instante que nos prepara para certas compreensões. E eu lhe digo que entendo e que não me importo com o fato de hoje parecer maior do que realmente é, e lhe digo que todas as coisas de hoje rodopiam íngremes conforme a sua própria vontade e o que nos cabe é discutível e torto porém não se engane com minha concisão: pratico vermelhidões mas sou frágil como mente desenganada. E não me preocupo com o que você vai achar ou não, eu vou ficar aqui, arrumando a casa para o dia do vendaval. Sem trancas nas portas. Sem portas, que eu não quero oclusões. Não me acostumo. Eu vou ficar aqui, arrumando a casa, desarrumando um pouco a vida: fascinante como tudo fica mais inteiro depois de uma gota de caos. Porque não há mesmo redenção sem um pouco de culpa, nem resgate sem um tanto fiel de perdição.

Eu não me lembro da última vez em que foi fácil. E quando não há nada, como é que se faz?

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Da Pequena e Dolorosa Impropriedade de Não Sangrar Até Viver

"Then share thy pain, allow that sad relief;
Ah, more than share it! give me all thy grief."

(Então compartilha a tua dor, permita que se alivie a tristeza;
Ah, mais que compartilhá-la! dá-me todos os pesares.)

Alexander Pope - Eloisa to Abelard

Soundtrack: Russian Red - Gone, Play On





Hoje, estranhamente, eu quereria sofrer.

Quereria uma dor que me cortasse a carne. Dilacerante. Súbita. Agônica. Feita de infinitas dores menores, aquelas todas que teimei um dia em não sentir ou em não vivê-las com a entrega que mereciam de mim. Uma dor implacável, uma dor agigantada pelo meu próprio medo de sentir dor.

Hoje eu quereria uma dor de coração em frangalhos e choro devastado, de mãos e pernas trêmulas e espasmos de corpo inteiro e joelhos feridos da queda – sem lenços, sem consolações, sem ofertas de ombros ou amparo, sem, sem, sem. Pelo chão, um a um, crises existenciais, mecanismo de luta e fuga, papéis em branco e rabiscos imaginários. Uma dor egoísta: inteira minha. Uma dor que me possuísse com a fúria das dores rejeitadas e menosprezadas que vêm para cobrar seu tributo quando a fragilidade nos assola e não me atreveria novamente a escorraçá-la, venha, eu te acolho nos meus braços suados; apenas me esgote e me anestesie até que eu nada sinta e, então, se despeça com um beijo torto e saciado e vá embora exatamente como veio. De uma vez.


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Polaróide

tudo dito,
nada feito,
fito e deito.

(Paulo Leminski)

Soundtrack: Iron and Wine - The Sea and the Rhythm






Hoje, por um momento, pensei mesmo em lhe telefonar.

Eu, que algumas vezes mal me lembro da sua voz e, noutras, me espanto com a nitidez do seu timbre a invadir meu esquecimento e se aninhar nos meus ouvidos em minhas noites de insônia, pensei mesmo em lhe telefonar. Não me agrada nem um pouco dizer “oi”, nem perguntar trivialidades, nem me despedir; então, em resumo, nem sei por que motivo lhe telefonaria. A verdade é que senti que lhe devia isso: confessar que a tal foto – a mesma que lhe afirmei, com o rosto anuviado por um quase orgânico impulso de fingir a indiferença que nunca fui capaz de representar sequer razoavelmente, ter perdido num surto de voluntária displicência – ainda existe. A parte estranha é que, de fato, não senti necessidade de falar com você: a necessidade era de dizer nada e estar, beber esse tempo partilhado num copo de prata, sentir seu sabor encorpado no vermelho da língua. E, se tivesse de dizer alguma coisa, diria somente que aquela vontade que um dia senti de nunca soltar a sua mão ainda está acima dessa desfeita que você me fez: de arrancar de mim a parte sua que me fazia mais eu, eu era mesmo mais forte quando meu olhar desfalecia enxergando além do que jamais vi antes de aprender a observar o seu sorriso surgindo para se espraiar em todos os lugares que minha mente alcança. Ausente, sua boca ainda me fala daquelas histórias contadas com suave saliva que me partiam e partem ao meio, e se funde comigo, e vai virando esse instante que engole as horas e as cores daquela fotografia que tiramos no único dia que, para nós, não terminou, porque era feito das verdades que nunca nos dissemos; então, alheios a nós, intimamente desconhecidos de nós, naquele dia fomos felizes. Mas não ligue, nem se assuste e nem se impressione – a foto vai ficar exatamente onde está e o telefone também, isso logo passa, quem sabe é apenas melancolia. Ou saudade com meio palmo de língua para fora, cansada de ser.



quinta-feira, 22 de julho de 2010

Aquilo Que Um Dia Você Chamou de Amor

Dos amores idos, nem sempre esquecidos.

Soundtrack :José Gonzalez - Heartbeats



Aquilo que um dia você chamou de amor bateu na minha janela ontem à noite, acometido de uma palidez que me surpreenderia se eu já não o soubesse meio borráceo como um desenho velho de giz, os olhos atônitos desprovidos do brilho que costumavam ter, um desassossego fosco, uma ausência súbita e irreversível. Não sei explicar, mas algo havia de tão comovente ali, naquele conhecido há tanto tempo distante e que reaparecia diante de mim de forma assim inusitada, que eu não soube o que fazer. Desejei convidá-lo a entrar e fazer perguntas calorosamente desnecessárias, um “como vão as coisas” ou “chá ou café?” ou ainda assentir, por educação ou amizade, que sim, me recordo de coisas que absolutamente já não me dizem coisa alguma; ou lhe perguntar se estava tudo bem, se tinha onde ficar, se desejava passar a noite ali pois eu ainda me lembrava: aquilo que um dia você chamou de amor tinha aversão a frio e, de fato, suas mãos tremiam, enluvadas pela temperatura incerta daquele reencontro. Desejei coisas tantas, todas tão cordiais. Aquilo que um dia você chamou de amor estava parado do lado de fora da minha janela no meio da noite e, pasme, embora tão dissolvente, ainda se parecia tanto com você. E eu, que há muito tempo deixara de parecer comigo e me espantara muito com o fato de que ele me reconhecera em meio às tantas outras “eu” que já haviam passado por mim, nada fiz. Nada disse. Apenas o olhei de frente, longamente. Como alguém que oferece, ao punhal, o peito e uma rosa. E anônimo, confuso, quieto, aquilo que um dia você chamou de amor se afastou com a dignidade dos que não pertencem mais ao seu próprio passado e a segurança dos que desconhecem seu próprio destino, sem olhar para trás. E acredite: já não tremia.



sábado, 3 de julho de 2010

Algo Parecido com Você

Cadê eu?

...perguntava-me.

E quem respondia era uma estranha que me dizia fria e
categoricamente: tu és tu mesma.

(Clarice Lispector)

Soundtrack: Natalie Walker - Urban Angel






Fazia tanto tempo que eu não saía para andar à toa. Desde você. Nem lembrava mais como era essa disciplina de um passo de depois do outro sem necessariamente precisar de direção, a cidade estava lá, inteira, eu só lhe roubaria algumas ruas e ela nem daria falta e eu sou ainda muito justa: empresto, devolvo, intacto. Como no dia em que emprestei seu carro e saí sem fazer barulho para comprar cervejas. Dezesseis para as quatro, se não me engano. Descalça. Clichê, enrolada no cheiro do seu sono. Tarde quente aquela, como nunca houve outra desde que descobri que era uma catarse ver você dormir com os lábios quase imperceptivelmente entreabertos de quem balbucia um desejo sonhado. Energia medida em quanta. Ainda hoje eu não teria coragem de interromper seu sono; a gente dorme, acorda, dorme, acorda, dorme e tudo que quer é desentender que a vida é paga com juros e parar de lembrar de despedidas, o sino da igrejinha velha, lembra?, acabou de tocar, sete badaladas – sete horas, sete dias, sete anjos, sete selos, sete palmos, uma alma vai, outra vem; sete e um. Escurece por onde volto sob um tempo que se fecha e fica tão bonito assim, cinza, sempre gostei de exceções. Ouvi dizer que vão cortar o pinheiro da rua de cima porque cresceu demais e pode desabar, tudo o que cresce demais vira uma ameaça – é assim com saudade, raiva, medo, amor. Amor. Você cresceu demais mas não me importo, portanto desabe sobre mim e outra vez me acaricie as costas com o peso de toda história nossa que cabe nas suas mãos sem medo de me machucar, sou forte o suficiente para você. Para nós. Para quem fui, para quem me tornei – algo parecido com você, sempre que me lembro, e me lembro sempre do seu modo de segurar a xícara e de caminhar de manhã e de abrir um livro numa página qualquer e de, e de, e de. E de. Está tão calmo aqui. Volto para casa debaixo de uma chuva fina, abro a porta, olho o relógio na parede, sete e meia, noves fora zero e resta um: eu. Ainda faltam cinco minutos para mim.

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Depois de um hiato de 4 meses - em que estive ausente curtindo a gravidez e tocando projetos profissionais - eis que o "Sabe de uma Coisa?" está de volta. Agradeço a todos que permaneceram visitando este espaço mesmo durante o tempo de quiescência, aos que mandaram mensagens de "volta, Flávia!" e àqueles que, mesmo distantes, sempre curtiram este blog tanto quanto eu. Obrigada, e bem-vindos todos!


sábado, 21 de novembro de 2009

Quando O Que Se Tem É Tudo Que Se Tem

Pensei: vou morrer.

Porque acreditei que não agüentaria esperar o minuto seguinte, eu que deliberadamente não aprendi a ser paciente, eu que não compreendo nem faço questão de crer nessa coisa misteriosa e absolutamente incerta e abstrata chamada futuro. Porque eu respirei e o ar me fazia doerem os ossos e a minha cabeça pesava sobre as idéias que eu tivera e ainda mais sobre as que eu não tivera, a minha cabeça pesava pendular e disciplinada e era como se naufragasse sem resistência entre os meus passos, eu andando em círculos sobre o tapete da sala, indo e vindo, e indo e vindo, e indo e vindo, indo, aonde eu jamais saberia dizer. A mim, talvez. Eu que há tanto tempo apenas desejo meu coração em paz, e não me lembro onde nem em que momento ele ficou para trás. Eu que sofro e choro e rio e me maltrato e me desfaço em rotas internas de complexidade irremediável, eu, intratável, eu que tenho tanto fascínio por profundezas e que, por isso mesmo, agonizo naquilo que é raso, pensei: vou morrer. Hoje. E não desejei que fosse diferente, mas morrer de uma morte macia, embora contundente, sem impressionismos. Nada disrítmico. Nada que me fizesse sentir entorpecida; desejei, exigi, uma morte consciente, assim, meio amarelada, do tom exato das serenidades antigas. E morri. Eu, a intratável de coração perdido num dia que ainda não chegou. Sem pedir licença para ir embora. Sem traje bonito, sem óbolo sobre a língua, sem arrependimento ou confissão. Sem documentar a minha morte, com a discrição elegante dos que jamais perdem a hora da chegada ou da partida. Morri dispensando boas intenções e ladainhas e sinos e beatitudes e o sétimo dia, e tão definitiva e imperceptivelmente que ninguém percebeu, além de mim, que eu já havia nascido de novo.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Lista de Compras

"Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente
pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou
de doer, embora lateje louca nos dias de chuva."

C. F. Abreu


Soundtrack: Anna Nalick - Wreck of the Day




Eu sei; não me omiti de mim nas vezes tantas em que deveria tê-lo feito, sempre fui demais obsessiva em amealhar verdades invasoras esculpidas caoticamente sem qualquer critério ou estratégia. Tenho sido cruel comigo. Tenho medido forças com minha sensatez. Não quero mais essa idéia estranha de realidade interposta entre as cores da casa, preciso de um café. Amargo, para adocicar o destino do dia neste copo que me chega macio à boca. Preciso de uma vontade disparatada que perca no beco sem saída velho conhecido as cópias das minhas chaves. Música interior. Desconjunções. Desobrigações. Desfaçatezes, des, des, des; desisti dessa coisa de fazer sentido. Destinos, onde quer que estejam, não tenham pressa: durmam tranqüilos até as dez. Um bunker. Lá fora, a chuva não se decide. Aqui dentro, relógio, tic-tac-tic-tac-tic-tac escorrendo pelas paredes, mais um café, por favor, e um pouco de água tônica, e aquele desejo antigo que eu deixei por aí nem sei se debaixo da cama ou se dentro do armário, enrolado em alguma roupa velha, mas esse armário, esse aí, sim, esse deixe como está: fechado. É melhor assim. Não é bom mexer com aquilo que, após tanto tempo transtornado com os olhos abertos no escuro, finalmente, e ainda com a testa suada, adormeceu.

Preciso ligeiramente desorganizar a minha vida.


domingo, 13 de setembro de 2009

Aquele Dia em Setembro

"Quero te explicar isso, te passar este quarto imóvel com
tudo dentro e nenhuma cidade fora com redes de parentela.
Aqui tenho maquininhas de me distrair, tv de cabeceira,
fitas magnéticas, cartões postais, cadernos de tamanhos variados,
alicate de unhas, dois pirex e outras mais. Não tem nada lá fora
e minha cabeça fala sozinha, assim, com movimento pendular
de aparecer e desaparecer. Guarde bem este quarto parado,
com maquininhas, cabeça e pêndulo no coração.Fiz uma penteadeira
com Bogart e Bacall, très chic. Pronto, acabei esse assunto
de quartinho cultural, mas guarde bem – para mais tarde.
Fica contando ponto."


Ana Cristina César - Luvas de Pelica

Soundtrack: Aqualung - Strange and Beautiful





Não é que eu precise desesperadamente da sua presença, não é isso. Mas é que eu abri a porta do quarto e junto com ela se abriu uma coisa estranha dentro de mim, meio como uma idéia manca, manca e amputada, e eu senti a sua falta ali, naquele vazio recém descoberto. Porque a vida anda, ah, a vida anda; mas às vezes tropeça nas próprias pernas e se aprisiona trôpega nos retornos, ou às vezes se assusta e estanca para respirar ou, às vezes, simplesmente se cansa e se pergunta afinal, o que é que eu estou fazendo. A vida é mesmo assim, esquisita.

A vida é mesmo assim, eu não precisando da sua presença e a sua presença aqui, passeante. Insistente. E, daquilo que apaguei sem querer da minha lista imaginária de pequenas omissões, o que mais me sufocou foi ter dito foi “vai” quando você plantou seus olhos turvos de dúvidas sobre os meus lábios trêmulos, você sabia, você sabe, os meus lábios sempre tremem quando desacreditam do que eu digo. Então era “vai”, mas era “fica”. Ficou essa coisa que ainda não reconheço e que se parece tanto com solidão embora não seja pois, sim, é algo que pesa e respira e projeta sua sombra nas paredes e, seja lá o que for, me faz companhia, você ria, lembra? Você ria da minha imprudência em dizer que gostava de ficar só. Imprudente. Quem sabe seja sina minha esse imaginário ranger de dentes mastigando o real significado do que minha voz pronuncia, minha voz sempre teve gosto de inversões.

Tenho uma nova idéia a respeito de lucidez.


segunda-feira, 29 de junho de 2009

(A)Parte

"As cartas não eram para olhos profanos.
Não interessavam a mais ninguém.Queimei
tudo na lareira da sala, quando não havia
ninguém em casa. Cartas em fundo de gaveta
podem ser perigosas. Basta um desenho antigo,
já amarelado, um perfil marcante como uma
figura de proa avançando pelo grande
mar onde para sempre nos perdemos."


Lia Luft - Adria

Soundtrack: Coco Rosie - Not For Sale




Eu ouço a última frase fechar silenciosa a porta e caminhar sozinha rua abaixo, ainda meio atordoada por se saber inútil. Não tive coragem de dizê-la. A mim, parece ser meu coração pulsando na ponta da língua que evito pronunciar, prefiro deixar meu coração em segredo. E, das coisas todas que eu disse até aqui, nenhuma me revela tanto quanto essa omissão, que então me torna uma incógnita como o tal raio que não cai duas vezes no mesmo lugar e veja só, ele cai. Mas a frase, essa se foi sem beijo nem insistência, se foi apática e vagarosa, quase autômata, eu era uma sua desconhecida e era impossível nos reconhecermos, nós que alguns poucos momentos antes ainda nos pertencíamos. Ela não cabia, não cabe, na minha voz – a minha voz tampouco cabe no seu sentido, eu não me encaixo mais porque se dissipou de mim a tal da idéia, e o fez com uma velocidade inesperada como esse vento quente que sopra do lado de fora e corta ao meio a rigidez do inverno. Da última vez que lhe escrevi fazia um vento assim, não sei se você se recorda – e as palavras se balançavam alvoroçadas nos meus cílios fingindo-se de borboletas, que as palavras criam asas, sim, e frágeis nascem e frágeis morrem, e inocentes se atiram em vôos cegos, as minhas, cílios pesados de verbo eu sempre tive. Olhos verborrágicos. Meio por insolência, meio por descuido. Mas não é disso que falo hoje, eu hoje não falo nada. Eu hoje chão, calçada, jardim, almoço, varal, música, fé, ponta de pé, corpo de bailarina assim no espaço solto, palavra deixo ir que não me pertence. Não essa. Ou aquela; não aquela. E já não é coragem que me falta, é coragem que cultivo. Prefiro deixar meu coração em segredo.