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sábado, 5 de novembro de 2016

o controle remoto do ar condicionado

fonte: Google (autoria desconhecida)

            O mundo é pródigo em lugares misteriosos. A colônia de Roanorke. O lago Angikuni. O rio Azul, na China. Quem nunca estremeceu ao ouvir falar, por exemplo, no Triângulo das Bermudas? O mais intrigante, entre todos eles, tem como principal característica fazer as coisas desaparecerem e reaparecerem em datas e locais inesperados – e nisso consiste sua alta periculosidade – e se localiza em território brasileiro, mais especificamente em território paranaense: o buraco negro da minha casa, que já tragou de tudo um pouco e teve como última vítima o controle remoto do ar condicionado.

            Há algumas semanas, aproveitando uma frente fria que baniu temporariamente o calor insano típico do final do ano, meu marido e eu resolvemos fazer um faxinão em casa. Arruma daqui, limpa dali, esvazia acolá, ao fim do dia tínhamos a casa brilhando, todos os músculos e articulações doendo, alguns itens para doação e cinco sacolas imensas de lixo para descarte (eliminamos tantas inutilidades que, ao término do trabalho, era possível ouvir um eco estranho reverberando pelos cômodos, que não sei dizer se desapareceu ou se nos acostumamos com ele). A sensação de dever cumprido era tão boa quanto a de uma massagem nas nossas costas destruídas.

            Frentes frias são como paixões na adolescência: vêm e vão. Interrompidos por um temporal, os dias amenos foram substituídos por outros cada vez mais secos e abafados. Consigo tolerar o calor durante o dia, mas minha ideia de um limbo espiritual pós-morte inclui dormir suada, grudenta e com mosquitos em redor do meu desditoso corpo pelo resto da eternidade. Meu marido, por conta de uma rinite alérgica, não é adepto do uso constante de ar-condicionado; chegou, porém, o inevitável momento em que até ele concordou em pedir uma mãozinha à tecnologia para driblar o imenso desconforto causado pelo mormaço. Vamos ligar, pois, o ar condicionado. Mas, ei, cadê o controle remoto?

            Procuramos em todos os lugares: nas caixas de brinquedos das crianças, nos armários, atrás dos livros da estante, sob as camas, em cada bolsa/mala/mochila, na geladeira (houve um episódio em que o buraco negro sumiu com meu smartphone e o fez ressurgir dentro dela), nas gavetas da cozinha, nos sacos de lixo. Mapeamos a casa inteira, fizemos uma retrospectiva do dia da faxina, identificamos os pontos estratégicos (leia-se: os mais improváveis) e nos dividimos na busca pelo ouro.

– E aí, encontrou?
– Nada. E você?
– Nada.
– Gente.

            Os dias passaram. O calor se impôs com uma intensidade sobrenatural. E o controle remoto havia desaparecido.

– Como está quente hoje.
– Ô.
– Mas e o controle remoto?
– Gente.

            Tinha que estar em algum lugar. TINHA QUE ESTAR EM ALGUM LUGAR.

– O cesto de revistas, o sofá, o cafofo da Sushi. O que ficou faltando?
– Acho que nada. A gente já olhou tudo.
– Gente. Não pode.
– Não faltou nada.
– Gente.
– Uma hora vai aparecer.
– Não adianta nada aparecer só no inverno. Tem que aparecer hoje. Sente só esse calor. Não é de Deus.
– Tá quente, mesmo.

            Demos por encerradas as buscas e decidimos comprar outro controle remoto, o que não saiu necessariamente barato – mas valeu, pois o investimento pouparia uma família de ser carbonizada em uma noite incendiária de verão. Não costumo me lembrar dos meus sonhos; no entanto, docemente embalada pelo ambiente geladinho, devo ter sonhado, nesta primeira noite de frescor após tantas outras de tortura, com anjos tocando flautas e liras ao meu redor. Dia depois veio uma nova frente fria, o calor deu uma trégua e o condicionador de ar ganhou alguns dias merecidos de folga, mas a instabilidade climática provocou uma crise de asma no meu pequeno. Fui até a caixinha de remédios, peguei tudo o que precisava, abri a caixa do nebulizador, retirei o motor, as máscaras, as cânulas – e reluzente, enigmaticamente, o controle remoto perdido.

            Más línguas dirão que o problema da minha casa é falta de organização. Não vou me deter a dar mais explicações na tentativa de convencer os incrédulos, até porque nem tenho tempo hábil para tal: dessa vez, o buraco negro sumiu com o carregador do meu notebook e a bateria está por um fio, mas prometo que, assim que ele reaparecer, eu volto. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Trivialidade.






Há alguns dias eu estava com um amigo na livraria de um shopping center, em busca de um presente para um outro amigo. Loja cheia, com mezaninos cheios e com a cafeteria igualmente lotada, coisa que definitivamente não é empecilho para dois alucinados por café. Escolhemos nossos livros, nos dirigimos até o balcão, fizemos nosso pedido e, enquanto esperávamos, Juliano avistou uma mesa com três lugares ocupada por apenas uma pessoa.

- Com licença. Você se importa de dividir a mesa com a gente?

O rapaz olhou para a cara do meu amigo um tanto surpreso, não sei se pela naturalidade com que a pergunta havia sido feita ou se por ser uma vítima estreante naquele tipo de abordagem – afinal, basta olhar para o lado onde quer que se esteja para reconhecer uma infinidade de “solitários por força do hábito”: no cinema, nos restaurantes, lanchonetes, ônibus, bancos de praça... o fato é que, refeito da surpresa, o tal rapaz concordou em dividir conosco sua mesa-para-três-ocupada-por-um.

Confesso que me sinto pouco à vontade de me sentar com desconhecidos, e costumo resolver esse pequeno problema da forma mais simples possível. Apresentando-me. Foi exatamente o que fiz.

- Muito prazer, Flávia. E este é Juliano – e ambos, meu amigo e eu, estendemos a mão com um sorriso. O rapaz retribuiu na mesma moeda e, como há poucas coisas no mundo que um sorriso genuinamente simpático não resolva, em poucos minutos a conversa fluía como se fôssemos três velhos conhecidos. Entre goles de café, biscoitinhos amanteigados, gargalhadas, dicas gastronômicas, impressões sobre viagens e afins, 50 minutos se passaram num piscar de olhos. Nos despedimos de Elias – esse era o nome do moço – com abraços e satisfeitos por tê-lo conhecido, ainda que de forma tão inusitada.

- Cara bacana, né?

- É.

- Será que a gente ainda se vê?

- Não sei, quem sabe... o mundo é pequeno, né?

- É... – e, de braços dados, também deixamos a livraria, com a sensação de que levávamos conosco muito mais do que livros na sacola e um bom café no paladar.

E o que teima em não me sair da mente desde então é a expressão de surpresa no rosto do Elias, quando nos convidamos para dividir com ele sua mesa-para-três-ocupada-por-um. E me causa um certo desconforto, uma estranheza triste e reflexiva, a conclusão de que somos todos “Elias” em graus variáveis de solidão por opção. Talvez a correria do cotidiano tenha feito germinar nas pessoas um instinto subliminar de autopreservação diante da alucinada existência contemporânea, e isso tenha nos afastado uns dos outros a ponto de nos transformar em ilhas cercadas de ilhas por todos os lados. E nos esbarramos sem nos tocar, e nos olhamos de soslaio sem nos enxergar, e nos falamos sem nos dizer coisa alguma.

E assim, sem perceber, nos distanciamos de nossa essência gregária, e convivemos pacificamente com a ausência do outro, sem atentar para o fato de que essa é também uma espécie de “auto-ausência” – pois, ainda que neguemos consciente ou inconscientemente, carregamos conosco, ao longo da vida, a necessidade atávica de compartilhar, de dividir. A questão do espaço é relativa e, de certa forma, insignificante: há quem viva sua “vida-para-vários-ocupada-por-um” até mesmo no ambiente familiar.

Quem sabe um dia eu reencontre o nosso Elias em uma dessas esquinas da cidade – ou no cinema, ou num restaurante, ou num banco de praça, ou quem sabe naquela mesma livraria. Se o mundo é mesmo pequeno como dizem, não duvido que tornemos a dividir uma mesa e alguns bons minutos de nossas vidas. Enquanto isso, continuo acreditando que todo e qualquer lugar vazio é candidato em potencial para ser preenchido. E, igualmente, continuo acreditando que vale a pena preencher os meus – e os dos eventuais “Elias” que aceitarem dividir comigo suas tantas “coisas-para-muitos-ocupadas-por-um”.




(texto escrito em algum dia perdido de fevereiro de 2008. a lição da história, porém, permanece muito bem guardada comigo e ficará, ad eternum.)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A PEC da Mulher Maravilha

Há alguns anos, abri mão de ter empregada doméstica porque não vi muita razoabilidade em pagar uma pessoa para fazer algo que eu mesma faço, e tão bem quanto.

Mentira. Ficar sem empregada doméstica, àquela altura do campeonato – com uma rotina de trabalho insana, um filho de três anos, um cachorro indomesticável e um corpo a caminho dos quarenta, que pode até ter boa vontade, mas, indiscutivelmente, já não tem o mesmo pique de alguns anos atrás – foi uma questão de caixa. Não que a mudança na legislação trabalhista das domésticas tenha me surpreendido: assinar carteira, pagar hora extra, recolher FGTS e combater a informalidade eram rotina na minha vida muito antes da PEC que regulamentou os direitos dos trabalhadores domésticos. A verdade é que, mesmo exercendo uma função pela qual sou relativamente bem remunerada, o amontoado de contas a pagar no início de cada mês fazia meu salário se transformar rapidamente em nada mais que uma vaga lembrança na minha conta bancária; colocadas todas as despesas na ponta do lápis, abrir mão da funcionária me renderia uma economia mensal de quatro dígitos, e anual de cinco. Analisei todos os prós e contras e cheguei à conclusão de que seria perfeitamente possível dar conta do serviço da casa já que, trabalhando fora o dia inteiro e com o filho na creche, não nos sobraria muito tempo (nem energia) para fazer tanta bagunça; a rotina seria, mais ou menos, chegar em casa, passar uma vassoura, lavar uma loucinha, colocar a roupa na máquina para lavar e deixar o “grosso" para o fim de semana. Tudo muito harmônico. Até cheguei a pensar duas vezes, mas a possibilidade de ter um dinheirinho sobrando venceu. E a minha vida, que já não era lá um exemplo de calmaria, ao contrário do que eu imaginava, virou definitivamente de pernas para o ar.

A primeira semana sem a funcionária não foi tão ruim – eu estava sob efeito da empolgação inicial e a casa ainda permanecia razoavelmente organizada, a ponto de me fazer acreditar que tinha me preocupado à toa. Chegava do trabalho, fazia o jantar, lavava a louça, varria a casa e passava uma flanelinha nos móveis para tirar o pó, e a máquina dava conta da roupa suja da semana. Nem percebi que, pouco a pouco, as roupas começavam a se acumular à espera de que eu me encorajasse a encarar um ferro de passar somado a algumas horas de pé, e que meus armários, estantes e banheiros, em questão de dias, pareciam ter sido varridos pelo furacão Katrina. Intensifiquei o ritmo e passei a limpar, limpar, limpar – mas, se minha boa vontade era grande, a falta de jeito e familiaridade era infinitamente maior, e eu tinha a impressão de que tudo estava sempre caótico. Precisava dividir meu pouco tempo extra entre cozinhar, limpar, lavar, passar, ser mãe, estudar e, ainda, encontrar alguns minutos para cuidar de mim – o que foi me deixando cansada e mal-humorada porque, afinal de contas, mesmo acostumada a fazer várias coisas ao mesmo tempo, não fiz curso de Mulher Maravilha. Pegar o jeito das coisas não foi fácil; foi um típico “caminho das pedras”, que me fez ter certeza de que a mudança na legislação dos trabalhadores domésticos já veio tarde (e que eu gostaria de de ganhar, além de um cachorro autolimpante e de um robô igual àquele da família Jetson, uma PEC que, diante de tanto esforço, legalizasse, como um direito “politrabalhista” legítimo e inalienável de toda Mulher Maravilha diplomada ou não, meu lugarzinho no paraíso). E, passado o primeiro mês, e o segundo, e o terceiro, finalmente, vi minha vida sem empregada doméstica entrar nos eixos e passar de caos a uma experiência enriquecedora e (pasmem) prazerosa, até.

Hoje, além de cumprir minha jornada profissional formal de 40 horas por semana, sou minha “personal” faxineira, cozinheira, office boy e, muitas vezes, cabeleireira e manicure (porque o tempo que eu dedicava indo ao salão duas vezes por semana, agora,  é dedicado a preciosas, merecidas e ansiosamente aguardadas horas de descanso, leitura, lazer e mimos pessoais). Se compensa? Compensa, quando vejo que o gás de cozinha dura mais, a conta de energia caiu em mais de 30% e a do supermercado também diminuiu consideravelmente depois que aprendi a comprar os produtos certos e a utilizá-los sem desperdício – eu não fazia ideia de quanto podia durar um frasco de detergente de louças, ou um litro de amaciante de roupas, ou um quilo de sabão em pó, até essas coisas passarem a fazer parte da minha rotina. Nem sempre consegui guardar a grana, mas ninguém pense que torrei o dinheiro com futilidades – ao longo desse tempo all by myself (que deixou de ser all by myself depois que conheci meu atual marido, o qual se mostrou, além de um príncipe encantado, a mola mestra no que se refere aos cuidados com as crianças e com as tarefas do lar), consegui, entre outras coisas, trocar o sofá, comprar a mesa de jantar dos meus sonhos, refazer a cozinha, investir em um carro melhor, financiar parte da nossa casa própria, quitar várias continhas e investir em uma série de itens que fazem a vida de qualquer dona de casa parecer um comercial de Veja.

Apesar de não ser a Mulher Maravilha, nesses anos sem empregada doméstica, acredito que tenho me virado muito bem. Estou pensando em me dar de presente uma folguinha para voltar a malhar em uma academia, e não apenas entre baldes, panelas e produtos de limpeza. Ao contrário do que algumas pessoas podem imaginar, não encaro ter que arrumar minha própria bagunça como castigo: cuidar da casa virou quase uma terapia. E aprendi a organizar não só o meu espaço físico, mas também meu tempo, meu dinheiro, minhas prioridades e, por tabela, até minha própria vida. Ficar sem empregada doméstica, longe do que muita gente supõe, não foi o fim do mundo, e sim o começo de uma rotina que me ensinou, entre outras coisas, a otimizar meu tempo e a ser ainda mais prática e independente. Porque nos dias de hoje, se duvidar, até a Mulher Maravilha deve ter um pezinho na cozinha – e insistir em manter os pés fora do chão pode custar muito caro. Em todos os sentidos. 



terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Algo Sobre Minha Mãe




Das raízes. As minhas.



Observo minha mãe e meu filho adormecidos ao meu lado no sofá. É quase meia-noite. Ele nos braços dela. Minha mãe e meu filho ressonam enquanto permaneço de olhos abertos diante da tevê, aguardando pacientemente que a insônia que me visita todas as noites se exaspere da minha monótona companhia e se vá – e me deixe descansar, enfim. Tranquilos, minha mãe e meu filho dormem. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos. Minha mãe e meu filho estão ali, e ignoram a noite e seus pequenos ruídos, e me ignoram e ignoram o velho filme policial e minha insônia fiel. Estão ao meu lado e, apenas, dormem.

Observo minha mãe com meu filho nos braços e imagino quantas noites essa mesma cena deve ter se repetido comigo. Eu me orgulho de ter boa memória, mas, confesso, as primeiras lembranças que tenho de minha mãe datam do nascimento da minha irmã caçula (quando eu tinha por volta de quatro anos), ou seja: quando ela tinha a idade que tenho hoje eu contava apenas seis anos, portanto, não recordo assim tanta coisa. Lembro, contudo, dos olhos, que sempre foram impressionantes e, àquela época, eram marcantes mesmo para mim – uns olhos profundos, inquisitivamente melancólicos, que pareciam trespassar a tudo e a todos com sua languidez misteriosamente castanha. Não sei se ela percebia, mas um de meus passatempos preferidos era, sempre foi, observá-la. Ela era bonita, muito bonita, com uma pele muita branca sem nenhuma mancha ou imperfeição e um corpo miúdo e ágil como o de uma bailarina – e aquele corpo pequeno se movimentava tão rápido que eu tinha certeza de que, se quisesse, ela poderia ficar parada no ar, como um beija-flor. Às vezes parecia caminhar na ponta dos pés – como se, a cada passo, dançasse pelo mundo uma valsa suave. Fisicamente sempre fui mais parecida com meu pai, e essa semelhança era algo que realmente me desgostava – não porque não gostasse de meu pai ou porque sua aparência fosse desagradável, ao contrário: meu pai havia sido um homem muito bonito em sua juventude. O que me desagradava não era a semelhança com ele, mas a falta de semelhança com ela. Eu era forte e robusta, e cresci bem rápido: mal entrara na adolescência e meu corpo, já sinuoso e efervescido pelos hormônios, havia ultrapassado o porte de minha mãe, o que me deixou triste porque sua pequenez delicada de bailarina era até ali (como sempre seria) meu ideal de beleza e feminilidade.

Minha mãe nunca passou despercebida: estava sempre muito bem arrumada e com os cabelos dourados e lisos muito bem cortados, invariavelmente na altura da nuca. Era uma daquelas pessoas para quem o tempo não ousava passar: eu ouvia as histórias sobre ela, contadas pelos meus avós e tios, e eram histórias bonitas e comoventes, algumas engraçadas e outras nem tanto, mas todas parecendo ter saído de algum romance – os mesmos romances que eu lia nos livros em cuja contracapa ela rabiscava cartas com sua letra grande e redonda, vigorosa e fluida como ela própria. Minha mãe tinha um cheiro sempre muito bom e peculiar – e não sei se era um cheiro que só eu percebia ou se, quando ela passava, todos sentiam aquele perfume delicado a imiscuir-se descerimoniosamente em todas as superfícies e narinas. Quando ela ria, era impossível não rir também – porque era uma risada sonora e muito diferente das outras, não por ser a risada dela, minha mãe, mas porque o som que nascia através daqueles lábios – os mesmos lábios que, feito róseos e delgados braços de menina, se contraíam levemente quando ela estava triste ou aborrecida – ia tomando conta de tudo em volta como se aquele momento feliz fosse feito para acabar jamais, e o rosto dela corava muito suavemente, tão suavemente que era perceptível apenas porque vê-la rindo nos absorvia de tal maneira que era impossível desviar os olhos para outra direção.

O início da minha vida adulta foi quase um martírio para nós duas. Por algum motivo, na minha cabeça, cortar o cordão significava contrariá-la de todas as formas possíveis. Sinceramente, não me lembro se um dia pedi desculpas por cada uma das dores que lhe causei. Continuo não me parecendo com ela fisicamente, mas me vejo repetindo muito de seus gestos, hábitos e maneiras, como, acredito, meu filho também fará quando tiver a idade que tenho hoje. Um dia direi isso a ela, como também lhe direi que toda a animosidade daqueles anos não significava que eu não a amasse, mas que a amava tanto a ponto de não saber o que fazer. Éramos dois gigantes permanentemente em luta – ela por desvelo, eu por rebeldia. Ambas, por amor. E foi justamente por essa época que aprendi que o amor, sobretudo o amor entre pais e filhos, embora não seja capaz de simplificar as coisas, tem o dom de nos fazer crescer apesar delas – ainda que as diferenças pareçam assustadoramente abissais. 

Observo minha mãe e meu filho, o quanto são parecidos – a mesma pele branca e sem imperfeições, os mesmos olhos melancólicos e misteriosamente castanhos, o mesmo cabelo dourado – e penso que, um dia, daqui a muitos anos, esta cena se repetirá e serei eu adormecida no sofá com meu neto nos braços enquanto meu filho, insone e pensativo, rememorará qualquer coisa marcante a meu respeito. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos, esta segurança morna e adocicada que alisa nossos cabelos enquanto dormimos e que, enquanto dormimos, sussurra aos nossos ouvidos que alcançar a eternidade é, sim, possível – e que nós vivemos para sempre por sermos feitos muito mais de amor do que, meramente, de carma e DNA.


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créditos da imagem: Google (desconheço autoria)



domingo, 5 de fevereiro de 2012

Incompletudes

(...)Dentro do peito, no entanto; havia ainda aquele ponto
brilhante, incandescente, de onde saía uma chuva de
pequenas fagulhas. Era quase insuportável. Ela mal tinha
coragem de respirar, por medo de atiçar aquele fogo ainda
mais;contudo, respirava fundo... fundo. Quase não tinha
coragem de olhar-se no espelho frio; mas olhou, e ele
mostrou-lhe uma mulher radiante, com lábios trêmulos,
sorridentes, grandes olhos escuros e um ar de quem está
à espera de que alguma coisa... divina aconteça.
Ela sabia que iria acontecer infalivelmente.(...)

Katherine Mansfield in: Bliss



A sua dúvida talvez seja a mesma minha: não saber onde todas renúncias se recolhem à espera de uma segunda chance. Aquele caminho que a gente não seguiu, aonde daria. Parecia tão simples desinibir ternuras alguns dias atrás que não percebi em que momento a espontaneidade se tornou privilégio – e se tornou regra essa cordialidade vigilante, hábil em macerar o dia. Tenho vontades que não morrem. Tenho repentes que inquietam meu coração e fazem doer meus dedos. Parecia tão simples, mas imagino: nada é simples, a não ser fugir – e eu escolhi ficar aqui, e renunciar, e ignorar. Porque certas coisas, quanto mais absurdas, mais adequadas me parecem. Certas coisas, não tão certas. Enquanto escrevo, eu me lembro do cheiro daqueles dias. Então escrevo, e me lembro, e persisto desorientando infinitudes e desafiando incompatibilidades - porque não pude, porque não soube, porque não vi(vi) mas ainda assim acredito num amor imune ao aleatório.



sábado, 5 de setembro de 2009

Entre Tantas, Uma História

Do que existe, e do que não se vê.

Soundtrack: Suzanne Vega - Luka


Ao me ouvir chamá-lo, o menino de sete anos abriu a porta do consultório feito uma ventania e se atirou no meu pescoço, “oi, tia”. Estava mais corado e bem mais desenvolto que na ultima consulta. Contou-me animado a respeito da escola nova; mostrou com orgulho a ponta de um dentinho permanente rasgando a gengiva, diminuindo o perímetro da janelinha sobre a qual eu brincara quando nos conhecemos. Foi essa a quarta vez que vi A.; na terceira eu lhe havia solicitado uns exames de rotina e, na segunda, ele comparecera para realizar uma lavagem de ouvido.

O tio de A. o levara até mim porque o menino, além de queixar-se de dor nos ouvidos, parecia ter um certo grau de hipoacusia – era preciso que o chamassem várias vezes até que ele atendesse aos comandos e, na casa dos avós, onde ele passara a morar desde que a mãe perdera sua guarda, os familiares, atentos, perceberam que o que parecia teimosia ou distração poderia, ao invés de algo puramente comportamental, ter uma causa orgânica. A palidez de A. me impressionou tanto quanto seu silêncio; segundo o tio, ele sempre fora uma criança quieta, mas, para mim, acostumada que sou com crianças de todas as idades e classes sociais, aquela inatividade toda era mais do que uma questão de temperamento – certamente havia por trás algo que ia muito além da dor física ou da contenção de travessuras infantis. A. não me olhava nos olhos, e respondia minhas perguntas com gestos e acenos de cabeça. O exame físico me deixou assustada: alguns hematomas e cicatrizes pelo corpo, e uma quantidade de cerúmen nos condutos auditivos que eu jamais havia visto sequer em ouvidos de adultos. Fiz a prescrição do medicamento a ser usado durante a semana, marquei a lavagem para dali a cinco dias e fui pra casa com aquilo no pensamento.

O que encontrei durante o procedimento nos ouvidos de A. me deixou chocada. Era realmente uma quantidade inimaginável de cerúmen, mas não apenas isso: ele tinha pequenos fragmentos de plástico e papel em ambos os condutos auditivos. Para quem não sabe, a lavagem otológica é realizada com soro fisiológico aquecido – ou seja, a temperatura do líquido deve ser rigorosamente monitorada a fim de retirar o cerúmen sem provocar queimaduras; é praticamente impossível um paciente não esboçar reações caso ela esteja ao menos ligeiramente acima do tolerável, lembrando que o epitélio do ouvido interno é extremamente sensível a variações térmicas. Apesar disso, A. não mexeu sequer um músculo da face. Cheguei a pensar que a indiferença dele se devesse a algum provável problema neurológico, o que justificaria o comportamento quase glacial mas, ao ser indagado se o líquido estava quente demais, ele respondeu “sim”.

- E porque você não disse nada?

Ele baixou a cabeça e pareceu receoso de responder alguma coisa. Por fim, balbuciou “eu posso?”, e isso me desnorteou. Pedi ao tio de A. que me dissesse afinal o que era que estava acontecendo ou eu teria de chamar o Conselho Tutelar; o rapaz, então, contou que o menino fora retirado do convívio com a família por ser vítima de abusos constantes por parte do padrasto e que, muitas vezes, era espancado apenas por ter feito alguma pergunta ou mínima queixa. Nas últimas semanas, A. levava surras constantes porque não atendia aos chamados, o que era classificado como rebeldia e desobediência pelo agressor – e isso causara no menino um pavor que ele transferia inconscientemente aos outros adultos de seu convívio: A. não se queixava para não ser agredido, mesmo que se encontrasse no limite da dor física ou psicológica. As feridas emocionais de A. eram tão profundas que anestesiavam sua capacidade de expressar reações comuns às outras crianças.

Há 5 meses A. é meu paciente. Hoje, o garoto é uma criança diametralmente oposta à de antes: brinca, tagarela e o mais importante, se sente seguro e amado por aqueles que assumiram a responsabilidade de cuidá-lo. O final feliz da história de A., no entanto, é exceção – a regra continua a ser a existência dolorosa e anônima de um número incontável de crianças vítimas de toda sorte de abusos físicos e psicoafetivos. Tão frágil quanto essas pequenas vítimas é a efetividade com que é combatida a violência infantil no país; apesar de patente, as estatísticas relacionadas ao assunto estão muito aquém do real. A distorção no registro desses números está diretamente relacionada ao velho conceito, ainda em voga, de que é melhor fechar os olhos para o que acontece na casa do vizinho e fazer de conta que F. realmente quebrou o braço porque tropeçou no carrinho e caiu da escada, ou que os hematomas nos braços e pernas de N. surgiram de um tombo de bicicleta, ou que foi o próprio A. quem picou os pedaços de plástico e os inseriu dentro dos ouvidos. É mais fácil, é mais confortável acreditar que o que não se vê, não existe. Só que violência infantil existe, e não é prerrogativa apenas de quem a executa com as próprias mãos: é de quem silencia diante dela também.


sábado, 11 de julho de 2009

Com o Tempo a Gente Esquece

Esquecer é um aparte,
é uma morte,
é uma arte.

Soundtrack: Skank - Vamos Fugir




Com o tempo a gente esquece que a toalha molhada sobre a cama deixou úmido o lençol recém-trocado e se lembra de como foi delicioso tomar um banho demorado depois do dia mais cansativo da semana, porque a toalha molhada sobre a cama é apenas e tão somente uma toalha molhada sobre a cama. Com o tempo a gente esquece a janela aberta, e a porta fica apenas encostada – e por aí vão entrando novas idéias e saindo posturas viciosas, que é preciso mesmo arejar os ambientes e tirar o mofo da vida. A gente esquece as chaves no bolso e desiste de trancar o riso. E, às vezes, também se esquece de lembrar o próprio nome e passa a se chamar Passarinho, Correnteza ou Ventania. Ou Céu.

Com o tempo a gente esquece a reserva que fez no restaurante mais badalado da cidade e passa a tarde no quintal chupando fruta do pé. Com o tempo a gente se esquece de como é que se fuma, e de como é que se bebe, e respira fundo a sobriedade de estar com a cabeça fresca e o corpo pronto para o que der e vier. A gente esquece que acabou a margarina e que faltou sal no feijão, a gente esquece que adoçou o café com açúcar ao invés de adoçante, a gente esquece que o arroz cozinhou demais – e dá de ombros porque nem dá nada passar um dia sem margarina, e sal demais aumenta a pressão, e comer açúcar uma vez na vida não vai fazer disparar o ponteiro da balança, e qual o problema de comer arroz um pouco mais molinho? Com o tempo a gente se esquece de ligar o celular, a tevê e o computador – e dá vontade de encontrar alguém pra jogar conversa fora ou de ficar em casa com o corpo largado no sofá e os pés sobre a mesa, curtindo um abraço e uma caneca de chocolate quente. A gente esquece o guarda-chuva em cima da mesa da cozinha e vê que bom mesmo é sacar fora os sapatos e se enfiar por entre os pingos d’água, bom mesmo é lavar a alma numa chuva inesperada. A gente esquece o relógio e as chaves do carro, e sai a pé e vai lá fora viver sem hora pra voltar.

Com o tempo a gente esquece como é que se faz as malas, porque tudo que se pretende é ficar. A gente se esquece de que tudo tem um preço, e quer mais é pagar pra ver. Com o tempo a gente esquece também de que amanhã é segunda-feira e deixa o corpo se lembrar, com toda a preguiça do mundo, de que hoje é domingo e o hoje está aí pra isso. A gente, com o tempo, até esquece que o filme é dublado, e entra no clima da interpretação canastrona da versão aportuguesada porque o filme é o mesmo, e a gente já viu, e vale a pena ver de novo de qualquer jeito porque o John Malkovich está matando a pau ou a Bette Davis nunca esteve tão malvada. Com o tempo a gente se esquece do bicho-papão, do boi da cara preta, da vaca que foi pro brejo e entende que o que era doce está muito longe de acabar. Com o tempo a gente esquece que cresceu e vê que o tempo que passou não faz tanta diferença assim, e que sempre é hora de esquecer muita coisa para lembrar-se do que realmente importa. É que, com o tempo, a gente se lembra da gente. E disso, quando a gente lembra, a gente nunca mais se esquece.


terça-feira, 26 de maio de 2009

De Uma Carta

"(...)O que me traz a ti, Flavitcha. Eu conheço os homens (não todos, é verdade). Então há uma micro-chance de eu estar errado), eu converso com eles, e escuto suas idéias ridículas e covardes. Na verdade, eu não deveria criticá-los dessa maneira. Afinal, eles são apenas humanos. Os humanos e seus temores insuportáveis. E como humanos, eles estão preparados apenas para se relacionar com humanas, que possuem as mesmas fraquezas deles.

Você, porém, minha criança, não é humana. Você é algo além. Desconfio, e apenas desconfio, que você seja um anjo. Como eu sei disso? Pelos sentimentos com que temperas as tuas palavras. Veja bem, há pessoas que sabem fingir, mas você não finge. Você é autêntica... e bela, como eu nunca vi.

Eu sei que já deves ter ouvido isso milhares de vezes, e provavelmente perdeu o valor, mas não há como te dizer isso de outra forma simplesmente porque é a mais pura verdade: És especial !

Por isso mereces alguém tão especial quanto. Não vai ser C. quem saberá captar o teu espírito, tampouco qualquer outro humano, com exceção de um que treinou a vida inteira para encontrar um anjo parecido contigo.

Esses encontros de fato acontecem. São como colisões no vasto espaço. Improváveis, mas vez ou outra, acontecem sim. O problema é que nem sempre eles encontram condições de liberar sua energia, e então precisam ser reprimidos. (...) E a vida segue assim, minha querida. Nós com os nossos "companheiros", vivendo e fingindo que escapamos da solidão. E na barriga aquela fome por algo inenarrável: o acontecimento único de um encontro de asteróides..."


Ao remetente do texto - que não sabe que leio tudo
o que me escreve, mas que ficará sabendo agora que
cada linha que chega fica gravada na minha memória
e faz meu dia incomparavelmente melhor: obrigada.

Muito. Mesmo. Por tanta, tanta coisa.

Um beijo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sobre Febres e Antitérmicos

Mens sana in corpore sano.

Soundtrack: Chico e Lucinha - História de uma Gata











Tenho um gato vira-lata.
Eu estava realmente planejando ter um gato, mas um de raça, peludo, de pedigree assepticamente puro - só que esse bendito gatinho vira-lata atrapalhou meus planos quando cruzou o meu caminho feito a pedra do Drummond. Feio. Microscopicamente feio, com uma crosta antiga de sujeira sobre a pelagem branca, sujeira velha mesmo para um animal com menos de duas semanas de vida. Manco. Olhudo. Levei-o comigo enrolado numa camisa e dei casa, comida, roupa lavada, CPF, RG, uma vida dentro das CNTP e amor desbalanceado, pendendo sempre para a ultrapassagem do limite superior da normalidade (mas reza a lenda que amor que é amor é sempre plus ultra). Em troca, ele usurpou a minha família, meu iogurte desnatado e o meu coração. E o último item, o tal que para ser o que é deve ser plus ultra, ele retribuiu, como retribui até hoje, igualmente sem medida, e o até então pretendido gato de pedigree asséptico virou poeira cósmica sapecada em algum lugar da minha memória de peixe.
Pois bem: há um tempo, coisa de um mês, minha irmã caçula me telefonou preocupada e meio chorosa para contar que o gato estava doente e que veterinário algum descobrira o mal de que o bichano padecia. Não comia. Não miava. Não brincava (sim, meu gatinho brinca e pasmem, abana o rabo, convencido talvez de que, equivocadamente ou nem tanto, existe um gene canino no seu DNA). Não "nada". Mas o que mais impressionava era a febre: um febrão digno de uma legião de microvilões estafilocócicos destruidores de gatinhos, no mínimo uma nada inofensiva sepse. S-E-P-S-E. Meu gatinho vira-lata, o tal que com duas semanas de vida sobrevivera no mundo em condições inóspitas e se salvara graças a seu charme e inteligência, estava prestes a ser derrotado por uma bacteriazinha chinfrim. Corre que corre com ele de veterinário em veterinário, vão-se amostras de sangue, vêm hemogramas e... surpreendentemente nada, nadinha, nem um leucócito a mais, nem a menos. O veterinário, então, bateu o martelo: febre emocional. A prescrição: atenção, em altas doses, seguida à risca, e em menos de 48 horas o animalzinho estava serelepemente curado.
E se alguém estiver se perguntando "e o que é que eu tenho a ver com isso?" eu respondo: nada. Mas quem é que que nunca teve uma febre emocional na vida, uma febrícula que fosse? Quem é que nunca se deixou atingir pelo tal virusinho ou bacteriazinha que deixa a gente com aquela terrível sensação de sei-lá-o-quê? Não existe influenza que seja páreo para a melancolia, porque tristeza não é imunomodulada - a gente não produz anticorpos contra ela, mas é cientificamente comprovado que a severa inflamação espiritual decorrente desses estados sorumbáticos é perfeita e eficazmente combatida com outro tipo de manifestação flogística: o calor humano. É uma delícia ser lembrado e receber um carinho apenas porque batatinha-quando-nasce-se-esparrama-pelo-chão. É bom, é inexplicavelmente bom ouvir um inesperado "te gosto", ou "que saudade de você", ou aquele mutismo de olhos derramados com cara de cafuné, ou sentir o toque daquela mãozinha - ou mãozona - pousando na pele ou nos cabelos apenas porque deu vontade. É inexplicavelmente bom mas não apenas inexplicavelmente bom: é necessário. Porque cada um de nós é, no fundo, aquele fulano que passa distraído e sem querer querendo se deixa cativar pelas surpresas do caminho. E cada um de nós, no fundo, é exatamente como um gatinho vira-lata, com nódoas no pedigree, cruzando o caminho de alguém para carinhosamente lhe atrapalhar os planos, olhudo, manco e faminto, esperando para ser enrolado numa camisa e num coração. Plus ultra.
Você já abriu seu coração hoje?


P.S.: pessoas, esse é meu Theo.
P.S. 2: vocês se lembram o que são as tais CNTP, não lembram? ;)