Se você tem filhos, provavelmente concordará com este texto. Se não tem e não pretende tê-los, também. Na verdade, quero falar com você, que ainda não tem filhos mas deseja muito ser mãe. Você tem ideia do que seja realmente a maternidade?
Antes de ser mãe, você deve lembrar que, a princípio e por um longo tempo, seu filho será um bebê - e bebês dão trabalho. Basicamente, bebês choram, mamam, fazem xixi e cocô e precisam dos cuidados da mãe 24 horas por dia, pois não têm horário para nada e a menor inobservância pode facilmente fragilizá-los ou adoecê-los. Enquanto tiver um bebê, muitas vezes você se sentirá exausta, confusa, sozinha (ainda que conte com uma rede de apoio), incompreendida. Você chorará de cansaço, de desespero, de solidão, de dor nos seios ingurgitados. Você cheirará a leite e fraldas e trocará almoço, banho, passeio ou qualquer outra coisa por algumas horas de descanso. Não se preocupe, tudo vai passar, e logo seu bebê terá se transformado em uma criança.
Antes de ser mãe, você deve lembrar que crianças também precisam de você em tempo integral. E que os filhos não são uma extensão da mãe e, muito menos, sua propriedade: são seres independentes, com personalidade própria e direito de se descobrir e encontrar seu lugar no mundo. Amar um filho não é projetar nele as próprias expectativas, mas acolhê-lo e respeitá-lo exatamente por quem ele é, com seus defeitos e peculiaridades. Você deve lembrar que crianças têm um potencial infinito de aprendizado, e que educar um filho não significa prover a melhor escola nem todos os cursos possíveis e imagináveis: educar uma criança exige que você seja seu maior e melhor exemplo, e isso só será possível caso você se esforce dia após dia para vencer seu pior lado a fim de se tornar um ser humano melhor. Criar um filho não é só colocar comida na mesa, roupas boas no armário, brinquedos caros na estante - é demonstrar interesse pela pessoinha que está ao seu lado, é não negar um abraço ou um sorriso, é preservar sua inocência, é lutar diariamente pelo seu direito à infância, é estar ciente de que os seus problemas de gente grande não devem ser transferidos para uma criança que não tem capacidade nem obrigação de lidar com eles. Antes de ser mãe, você deve lembrar que crianças não são robôs: elas fazem birra, testam sua paciência, levam você ao limite. O filho que você vai ter pode ser completamente diferente do filho que você sonhou. Contudo, você deve lembrar que nenhuma criança deve estar exposta à violência, seja ela física, psicológica ou verbal - pois há palavras, atitudes e omissões que abrem feridas tão profundas a ponto de uma vida inteira não ser suficiente para que cicatrizem. Mas não se preocupe: sua criança também irá crescer e, quando menos esperar, seu filho será um adolescente.
Antes de ser mãe, você deve lembrar que adolescentes também precisam de empatia. Você, muitas vezes, sentirá saudades do bebê fofinho e da criança espirituosa de antes, e chorará por não reconhecê-los no rebelde de hoje. Você deve lembrar que é indispensável muita disposição para orientá-los e que impor limites é necessário, e a melhor maneira de fazer isso é estabelecendo com os filhos uma relação de confiança e cumplicidade, porém nada disso é algo que se possa exigir automaticamente de quem quer que seja: confiança se conquista, cumplicidade se constrói ao longo do tempo. Você deve lembrar que é desde a primeira infância que se estabelecem esses vínculos. Ignorando a realidade, a adolescência do seu filho tem grandes chances de se tornar um martírio para vocês dois. Mas não se preocupe. Essa fase também irá passar, e seu adolescente logo dará lugar a um adulto.
Antes de ser mãe, você deve lembrar que a gente cria os filhos para a vida. Não somos suas donas, apenas guardiãs temporárias. Amar um filho não é privá-lo de encontrar seu lugar no mundo, mas prepará-lo para alçar seus próprios voos, levando consigo a certeza de que sempre terá para onde voltar. Antes de ser mãe, você deve lembrar que um dia ficará novamente sozinha, pois esse é o ciclo da existência. Aconteceu com nossos pais, acontece conosco, acontecerá com nossos filhos. Todos precisam escrever sua história. E, fisicamente perto ou longe, você sempre estará ao seu lado, com o mesmo amor de quando se viram pela primeira vez.
Antes de ser mãe, você deve lembrar que esse texto não trata do lado ruim da maternidade, pois ser mãe não tem um lado bom e um lado mau. Maternidade é difícil, requer dedicação, abnegação, sacrifício, paciência, sabedoria e, claro, amor - um amor altruísta, diferente de qualquer outro sentimento, que nos dilacera ao mesmo tempo que nos edifica. Ser mãe é tão assustador quanto apaixonante. Se você leu esse texto até o fim e se encheu de coragem, vá em frente. Porém, se bateu uma pontinha de medo, talvez não seja a hora.
Filhos não são status, prêmios de consolação ou recompensa. São seres humanos. São presentes maravilhosos demais para virem ao mundo e existirem nele de qualquer jeito. Ser mãe não é fácil. Vai exigir o seu melhor e, mesmo assim, inevitavelmente, algumas coisas fugirão ao controle e darão errado. É uma luta diária. Eu, particularmente, não trocaria minha maternidade por nada. E se você, que deseja ter filhos, estiver realmente pronta para essa batalha, prepare o colo e o coração: não há nada nessa vida que mais valha a pena.
(Obs.: escrevi sob o ponto de vista de uma mãe porque não tenho total propriedade para incluir o ponto de vista dos papais, mas penso que, independente do laço parental, quando se tem amor e responsabilidade, as lutas e realizações são conjuntas.)
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domingo, 4 de novembro de 2018
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Toda Mãe é um Ser Imaginário
Ois! Tudo bem com vocês?
Faz tempo que não dou as caras por aqui, mas minha ausência se justifica: com dois filhos pequenos, encontrar tempo e disposição para fazer, nos intervalos dedicados a eles, qualquer outra coisa que não seja comida-cama-banho é um desafio. A maternidade é uma epopeia. A mais árdua e recompensadora delas. Hoje, estou aqui justamente para falar sobre maternidade - a respeito de todas as coisas que imaginamos a respeito das mães e nos fazem esquecer de quem elas são realmente. A respeito das nossas mães, de nós, quando mães, de quem somos além de mães, em quem a maternidade nos transforma.
O texto é fresquinho, inédito, foi escrito por esta que vos fala e está lá no blog Lado Mãe, no qual participo, a partir de hoje, como colaboradora mensal. Convido vocês a ler aqui, e os desafio a resistir a chamegar muito as mamães após a leitura :)
Beijos com o carinho de sempre!
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Um quarto cor-de-rosa.
Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha.
Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha sem sequer saber se ela gostará de cor-de-rosa. Eu mesma não gostava. Não sei se fez diferença na minha vida não ter tido meu quarto cor-de-rosa, e também não sei se fará diferença na vida dela. Mas faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque é o que as mães fazem: tentar construir um lugar bonito, seguro e colorido para os filhos, para onde eles possam voltar sempre, mesmo quando alguns sonhos e esperanças desbotarem e a vida parecer um filme melancolicamente preto-e-branco.
Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque, um dia, ela crescerá – e desejo que jamais se esqueça de que será sempre a minha menina. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque sei que o mundo não o é, e a tratará com rigor e a fará chorar, e desejo que as lembranças de sua cama quentinha, suas bonecas e, sobretudo, do amor incondicional que lhe dedicamos desde o instante em que soubemos que seríamos abençoados com sua chegada sejam como um doce beijo de boa noite a apaziguar diuturnamente seu coração. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque não espero que minha filha seja uma princesa – embora, para mim, seja exatamente o que ela sempre vai ser.
Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha, porque minha filha está construindo um quarto cor-de-rosa dentro de mim, repleto de lindezas e doçuras e sonhos. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque não posso fazer um mundo cor-de-rosa para ela e, mesmo que pudesse, não o faria – o que posso, e farei, é estar ao seu lado e segurar sua mão mesmo quando ela imaginar estar sozinha em sua caminhada, pois há jornadas que não podemos cumprir pelos filhos, ainda que sejamos capazes de dar um braço ou uma perna para poupá-los de certas dores. Faço um quarto cor-de-rosa para minha filha porque, além de beijá-la, abraçá-la, amá-la e estar/ser com ela incondicionalmente, é o que posso fazer. E porque fazer um quarto cor-de-rosa para minha filha é como erigir um lugar sagrado onde estaremos sempre juntas, resguardadas pelas ternas memórias dos nossos momentos lado a lado nessa existência.
Estou fazendo um quarto cor-de-rosa para minha filha. Não julgue, amigo querido, uma mãe por se esmerar em coisa tão aparentemente inútil e boba. Mães são assim – estão sempre a se esmerar em coisas bobas e inúteis para seus filhos amados. Construímos quartos cor-de-rosa a cada sorriso de um filho, a cada passinho, a cada vitória dele. Somos meninas aprendendo a crescer através do amor que a maternidade nos descortina, dia após dia. Talvez o quarto cor-de-rosa que estou fazendo para minha filha seja, de fato, para mim. Para você. Para todos nós. Como amor de mãe, que se irradia até onde entendimento humano jamais alcançará.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Algo Sobre Minha Mãe
Das raízes. As minhas.
Observo minha mãe e meu filho adormecidos ao meu lado no sofá. É quase meia-noite. Ele nos braços dela. Minha mãe e meu filho ressonam enquanto permaneço de olhos abertos diante da tevê, aguardando pacientemente que a insônia que me visita todas as noites se exaspere da minha monótona companhia e se vá – e me deixe descansar, enfim. Tranquilos, minha mãe e meu filho dormem. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos. Minha mãe e meu filho estão ali, e ignoram a noite e seus pequenos ruídos, e me ignoram e ignoram o velho filme policial e minha insônia fiel. Estão ao meu lado e, apenas, dormem.
Observo minha
mãe com meu filho nos braços e imagino quantas noites essa mesma cena deve ter
se repetido comigo. Eu me orgulho de ter boa memória, mas, confesso, as
primeiras lembranças que tenho de minha mãe datam do nascimento da minha irmã
caçula (quando eu tinha por volta de quatro anos), ou seja: quando ela tinha a
idade que tenho hoje eu contava apenas seis anos, portanto, não recordo assim tanta coisa. Lembro, contudo, dos olhos, que sempre foram impressionantes e, àquela época, eram marcantes mesmo para mim – uns olhos
profundos, inquisitivamente melancólicos, que pareciam trespassar a tudo e a
todos com sua languidez misteriosamente castanha. Não sei se ela percebia, mas
um de meus passatempos preferidos era, sempre foi, observá-la. Ela era bonita,
muito bonita, com uma pele muita branca sem nenhuma mancha ou imperfeição e um
corpo miúdo e ágil como o de uma bailarina – e aquele corpo pequeno se
movimentava tão rápido que eu tinha certeza de que, se quisesse, ela poderia
ficar parada no ar, como um beija-flor. Às vezes parecia caminhar na ponta dos
pés – como se, a cada passo, dançasse pelo mundo uma valsa suave. Fisicamente
sempre fui mais parecida com meu pai, e essa semelhança era algo que realmente
me desgostava – não porque não gostasse de meu pai ou porque sua aparência
fosse desagradável, ao contrário: meu pai havia sido um homem muito bonito em
sua juventude. O que me desagradava não era a semelhança com ele, mas a falta
de semelhança com ela. Eu era forte e robusta, e cresci bem rápido: mal entrara
na adolescência e meu corpo, já sinuoso e efervescido pelos hormônios, havia
ultrapassado o porte de minha mãe, o que me deixou triste porque sua pequenez
delicada de bailarina era até ali (como sempre seria) meu ideal de beleza e feminilidade.
Minha mãe nunca
passou despercebida: estava sempre muito bem arrumada e com os cabelos dourados
e lisos muito bem cortados, invariavelmente na altura da nuca. Era uma daquelas
pessoas para quem o tempo não ousava passar: eu ouvia as histórias sobre ela,
contadas pelos meus avós e tios, e eram histórias bonitas e comoventes, algumas
engraçadas e outras nem tanto, mas todas parecendo ter saído de algum romance –
os mesmos romances que eu lia nos livros em cuja contracapa ela rabiscava
cartas com sua letra grande e redonda, vigorosa e fluida como ela própria. Minha
mãe tinha um cheiro sempre muito bom e peculiar – e não sei se era um cheiro
que só eu percebia ou se, quando ela passava, todos sentiam aquele perfume
delicado a imiscuir-se descerimoniosamente em todas as superfícies e narinas. Quando
ela ria, era impossível não rir também – porque era uma risada sonora e muito
diferente das outras, não por ser a risada dela, minha mãe, mas porque o som
que nascia através daqueles lábios – os mesmos lábios que, feito róseos e
delgados braços de menina, se contraíam levemente quando ela estava triste ou
aborrecida – ia tomando conta de tudo em volta como se aquele momento feliz
fosse feito para acabar jamais, e o rosto dela corava muito suavemente, tão
suavemente que era perceptível apenas porque vê-la rindo nos absorvia de tal
maneira que era impossível desviar os olhos para outra direção.
O início da
minha vida adulta foi quase um martírio para nós duas. Por algum motivo, na
minha cabeça, cortar o cordão significava contrariá-la de todas as formas
possíveis. Sinceramente, não me lembro se um dia pedi desculpas por cada uma
das dores que lhe causei. Continuo não me parecendo com ela fisicamente, mas me
vejo repetindo muito de seus gestos, hábitos e maneiras, como, acredito, meu
filho também fará quando tiver a idade que tenho hoje. Um dia direi isso a ela,
como também lhe direi que toda a animosidade daqueles anos não significava que
eu não a amasse, mas que a amava tanto a ponto de não saber o que fazer. Éramos
dois gigantes permanentemente em luta – ela por desvelo, eu por rebeldia.
Ambas, por amor. E foi justamente por essa época que aprendi que o amor,
sobretudo o amor entre pais e filhos, embora não seja capaz de simplificar as
coisas, tem o dom de nos fazer crescer apesar delas – ainda que as diferenças
pareçam assustadoramente abissais.
Observo minha mãe e meu filho, o quanto são parecidos – a mesma pele branca e sem imperfeições, os mesmos olhos melancólicos e misteriosamente castanhos, o mesmo cabelo dourado – e penso que, um dia, daqui a muitos anos, esta cena se repetirá e serei eu adormecida no sofá com meu neto nos braços enquanto meu filho, insone e pensativo, rememorará qualquer coisa marcante a meu respeito. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos, esta segurança morna e adocicada que alisa nossos cabelos enquanto dormimos e que, enquanto dormimos, sussurra aos nossos ouvidos que alcançar a eternidade é, sim, possível – e que nós vivemos para sempre por sermos feitos muito mais de amor do que, meramente, de carma e DNA.
Observo minha mãe e meu filho, o quanto são parecidos – a mesma pele branca e sem imperfeições, os mesmos olhos melancólicos e misteriosamente castanhos, o mesmo cabelo dourado – e penso que, um dia, daqui a muitos anos, esta cena se repetirá e serei eu adormecida no sofá com meu neto nos braços enquanto meu filho, insone e pensativo, rememorará qualquer coisa marcante a meu respeito. Não consigo deixar de pensar na segurança que é nos perpetuamos naqueles que amamos, esta segurança morna e adocicada que alisa nossos cabelos enquanto dormimos e que, enquanto dormimos, sussurra aos nossos ouvidos que alcançar a eternidade é, sim, possível – e que nós vivemos para sempre por sermos feitos muito mais de amor do que, meramente, de carma e DNA.
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créditos da imagem: Google (desconheço autoria)
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quarta-feira, 23 de maio de 2012
Status de Relacionamento: Mãe Solteira
Soundtrack: Ludov - Princesa
- Essa aí.
Cuidado com essa aí que é mãe solteira.
Uma vez ouvi
essa frase da mãe de um amigo de faculdade. Tínhamos acabado de passar no
vestibular e ele estava de namorinho com uma menina do curso de Farmácia; a mãe
soube do relacionamento e, como qualquer boa mãe, tomou para si a missão de
advertir o filho sobre o perigo daquele envolvimento. Afinal, a menina era mãe
solteira: saíra de outro relacionamento com mais experiência e um filho pequeno
para criar. A menina era legal,
divertida, inteligente, mas o namoro não durou muito, não sei por que – embora sempre
tenha desconfiado que a tal advertência materna tenha sido mesmo o começo do
fim. O tempo passou e nunca mais me lembrei dessa história. Até o dia em que
fui convidada para um passeio por um dos meus pacientes e ele, muito educadamente,
complementou o convite:
- A senhora não deixe de levar seu marido.
Confesso que
na hora me bateu um constrangimento. Sincronicamente, ele baixou os olhos para
minha mão esquerda: nada de aliança. Fez-se um breve e pesado silêncio,
tradutor de centenas de perguntas (da parte dele, tenho certeza) e de algumas possíveis
justificativas (não sei explicar porque, mas REALMENTE fiz uma revista mental
em busca de algumas), seguido de um fôlego curto, de coragem ou de alívio, não
sei, mas que foi o abre-alas para a frase que escapou da minha boca e, também
para mim, foi a constatação de um status do qual nem eu havia me dado conta: SOU
MÃE SOLTEIRA.
Sou mãe
solteira. E daí? Sou legal, divertida, inteligente - como a menina do meu amigo de faculdade. Tenho um bom emprego, nome limpo na praça, bons antecedentes,
nada de ficha na polícia. Limpinha, todos os dentes na boca. Porque meu estado civil deveria importar? Porque meu
estado civil importa tanto? E o termo, “mãe solteira”, pesa, infinitamente mais
do que a responsabilidade de ser uma delas. É como se a mãe solteira estivesse
sempre à espreita de uma oportunidade de se dar bem à custa de algum bobão que
leve para casa o “kit” de que outro abriu mão. Ou como se fosse alguém tão emocionalmente vulnerável a
ponto de aceitar migalhas de afeto por pura carência. Ou, ainda, como se fossem
mulheres sem sorte, renegadas: coitada, essa aí não tem sorte com homem: é mãe
solteira. Ninguém nunca parou para pensar no quanto uma mãe solteira pode ser
sortuda? Há bem pouco tempo atrás, a mulher separada e a mãe solteira eram
párias – não havia desgraça maior para uma família do que ter entre os seus uma
mulher largada do marido ou uma moça com um filho sem pai. Hoje, felizmente, a
mulher aprendeu a exigir ser respeitada independente de véu, grinalda, papel
passado e de como administra sua cama e sua vida. E conciliar um filho e
liberdade para ir e vir não é coisa de gente azarada, mas de gente inteligente
e bem resolvida.
Mães solteiras
são mulheres flex – trabalham, criam
seus filhos, estudam, criam seus filhos, pagam suas contas, criam seus filhos,
cuidam de si, criam seus filhos, (às vezes) namoram, criam seus filhos.
Esquecem (às vezes) de si, criam seus filhos. Aprendem a equilibrar nos ombros problemas,
angústias, iminências, esperanças, devaneios, alegrias, tempo. Sobretudo tempo.
Tempo é a coisa mais relativa na vida de uma mãe solteira. Sempre falta mas, no
fim das contas, a gente sempre encontra. Aliás, somos especialistas nisso de
achados e perdidos, porque a rotina, ao contrário de nós, está sempre de pernas
para o ar – e é preciso muita habilidade para não desaparecer em meio ao
de-tudo-um-pouco. É claro que é difícil. É claro que há dias em que a sobrecarga
é tanta que a única vontade é largar tudo, trocar de identidade e correr pro
mundo, mas é uma vontade que nasce para morrer logo em seguida – porque logo
ali, pertinho, sorrindo, existe um rostinho lindo dizendo “eu te amo, mamãe”
que faz tudo, absolutamente tudo valer a pena. Eu não me orgulho de muitas
coisas nessa vida, mas de ser mãe solteira eu me orgulho, sim.
Mães solteiras
merecem respeito. Mais do que isso: merecem aplausos. É coisa para mulheres
valentes, que têm a coragem de dar à luz seus filhos e de conduzir sua vida sem
se submeter a convenções meramente sociais. Não é feio ser mãe solteira. Feio é
ter preconceito e mente pequena, julgar o livro pela capa e o caráter pelo
estado civil. Feio é ser infeliz. E felicidade, certamente, é algo que nunca
nos falta.
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