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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Um Passo

Entra.

Soundtrack: Russian Red - No Past Land



Tu nem sabes, mas já te dei tudo que era meu.

E em troca eu quis apenas esse eco torto de felicidade que me alisa a pele estremecida e pelo qual quase deixo de respirar, me arrepio inteira, viro apenas um corpo quieto guardado sob a mão invisível feita disso que eu sinto e que entra pela minha boca e sai pelos meus olhos e por qualquer gesto meu rasgado no espaço, qualquer gesto meu me abandona e vira teu, eu já te dei. É tudo tão simples e silencioso, e tudo grita por dentro, e o que posso fazer? Eu deixo... tu nem sabes, mas enquanto ainda estás aí do lado de fora, parado, esperando que eu te abra a porta e diga qualquer coisa nessa língua muda que tu entendes tão perfeitamente e que tão perfeitamente nos cabe, eu já não estou aqui, já me transportei para o lado em que não há aqui nem lá - em que unicamente há uma história para dois em qualquer lugar para onde quer que se virem os meus pés afoitos, pequeninos pés sem memória buscando reinventar o chão. O calor que eriça teus pelos sob as gotas d’água também rodopia entre meus dedos numa felicidade corrediça e quente, e sei que estás aí sorrindo e eu estou aqui sorrindo e quase hesitando mas é tarde, eu já te dei tudo que era meu inclusive aquele passo que restava pesado e desinibiu-se e virou destino cumprindo-se em linha reta, tudo que era meu eu já te dei. E sei que estás aí parado, molhado, esperando, e que a chuva que cai sobre a tua cabeça é nada, como é nada tudo o que não é chuva, nem tu, nem eu, nem essa porta se abrindo para o que eu não sei o que é mas quero muito saber, então entra; vem. Eu tremo, sim, mas não é frio, é por não me restar nada que eu não queira absurdamente te entregar, toma.

Toma.

(Baseado em fatos inesquecivelmente reais)

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A espanhola Lourdes Hernández, mais conhecida como Russian Red, canta um folk suave e lânguido em inglês e vem ganhando espaço nas paradas européias. I Love Your Glasses, o álbum de estréia, traz arranjos bonitos, muito violão acústico e um clima summer of love acentuado por sua voz aguda, ao mesmo tempo macia e vigorosa, de cantora dos anos 70. Pra ser ouvido do início ao fim.





segunda-feira, 5 de maio de 2008

Um

"Tu porém, terás estrelas como ninguém...
Quero dizer: quando olhares o céu de noite,
(porque habitarei uma delas e estarei rindo),
então será como se todas as estrelas te rissem!
E tu terás estrelas que sabem sorrir!
Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido.
Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá).
Terás vontade de rir comigo.
E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto...
e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu.
Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"

(Aintoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)

Àqueles cuja amizade me faz crescer a cada dia.
Amo. Infinito.



Buscou-se ainda uma vez mais no coração outrora seu, que agora era do outro; viu no rosto inteiro sorriso-olho-imensidão-azul a posse de que já não dispunha, que fora dada de vontade própria e descalçada de reservas – e por que haveria de retomar para si aquele tolo, insensato coração que, assombrosamente, tão feliz batia acolhido em peito alheio? Deixou que ficasse lá, que um dia haveria de voltar – no fundo não o querendo mesmo novamente consigo, tão bonito era olhar para si e se encontrar em outra gente.

Tão bonito. Tão bonita, tão bonita aquela existência híbrida. Partira-se ao meio, o coração lhe saltara inopinadamente das mãos indo parar naquele outro ser que se escancarava afeto, virando coisa a princípio coexistida e logo depois inteiramente abdicada, tamanho o aconchego dos braços abertos da alma destinatária. Confiança desinibiu-se, entrelaçada nos dedos da alegria enfeitada de cumplicidade irmanada no amor. Tão grande e irmão amor que se fez soar individido, neste peito e naquele – e o que, outrora, fôra um, era agora parte: metades viventes uma na outra. Corações trocados, transfusão de vida. Caminhar sincronizado, passos enlaçados de amizade pura e simples. Notas consoando inteiras num sereno e retumbante bater em uníssono.


P.S.: queridos meus, tem postagem fresquinha da Anne no Espasmos de Riso - um "causo", digamos... de urgência urgentíssima... quase um alerta vermelho pra quem gosta de chocolate Charge... não deixem de conferir. Beijos a todos!