O que é a vida para você?
Soundtrack: The Twilight Singers - Powder Burns
- Oi. Quem fala?Soundtrack: The Twilight Singers - Powder Burns
- Alô.
- Quer falar com quem?
- Quem é?
- Olha, você me ligou. Quer falar com quem?
- Com você.
- E quem é você?
- Não vale a pena dizer. Só queria falar com alguém. Com você.
- Ok, já falou. Até mais.
- Não desl...
O telefone voltou a tocar, olhei: novamente, número não identificado. Não atendi. Precisava terminar de escrever aquele romance, protelado há semanas – meio por bloqueio criativo, meio por uma vergonhosa e irresistível preguiça. A chuva forte despencando do lado de fora era um convite tentador ao ócio; o telefone, se esgoelando sem parar, ajudava a tirar o pouco de concentração que me restava. Depois da enésima ligação atendi, contrariadíssima, e não disse nada. Esperei. Ele falava em voz baixa e, dessa vez, parecia meio constrangido pela insistência.
- Desculpa. Você não me conhece, eu não te conheço. Disquei ao acaso, você atendeu. Preciso falar com você, por favor, não desliga. Vou me matar daqui a pouco e preciso conversar com alguém.
Ótimo. Um lunático na minha linha no meio da madrugada. Na melhor das hipóteses, um desocupado. Passada a surpresa do primeiro instante e cumprido o inevitável caminho susto-perplexidade-indignação-só-me-faltava-essa, respondi com meu habitual respeito pelas duas condições:
- Você bebeu?
- Pareço bêbado?
- Ok. Você cheirou? Sem ofensas.
Ele riu.
- Você é sempre assim?
- Assim?
- Assim, meio sarcástica. Sem ofensas.
- Ah, não, não. Só quando desconhecidos com idéias suicidas me telefonam no meio da noite. Sabe como é, instinto.
- Você parece ser legal.
- Você fala demais para quem vai se matar.
- Quantos suicidas conhece? Quero dizer, conheceu?
- Nenhum.
- Como pode saber se falam muito ou se falam pouco?
- Como posso saber se vai mesmo se matar ou se é um esquizofrênico a fim de “suicidar” o próprio tédio e a minha noite também?
Silêncio. Do lado de fora, só chuva. Silêncio e chuva, ambos caudalosos. Quase desliguei, ele tornou a falar.
- O que é a vida para você?
- O que é a morte para você?
- Perguntei primeiro.
- Tanta coisa. Nascer, crescer, reproduzir, passando por todos os intermediários, talvez.
- Dá pra ser mais clara?
- Comer, beber, beijar, brigar, ter dor de barriga, arrumar um emprego, pagar contas. Cair da goiabeira e ficar com uma cicatriz no joelho, sexo por amor, sexo sem amor, fazer dieta, sabotar a dieta, tomar uma cerveja gelada num dia quente, tanta coisa, tanto faz, eu não sei. Não interessa o que é a vida para mim. Interessa o que é a vida para você. É VOCÊ quem quer se matar.
- Não quero. Vou.
- Ok, é você quem VAI se matar.
- Isso.
Silêncio. Para mim ainda parecia um trote mas, de repente, começou a me incomodar MESMO a possibilidade de que aquele sujeito fosse realmente se suicidar. Não sei se o incômodo era saldo da proximidade da vida ou da morte dele; o fato é que de repente aquilo tudo ficou muito desconfortável, principalmente porque eu não fazia idéia de quem era o fulano que me escolhera como ouvinte das suas – até prova em contrário – últimas palavras. Ele parecia tão próximo. Talvez estivesse esperando que eu dissesse “não faça isso” ou coisa parecida, ou algum tipo de discurso sobre como a vida é bela e a morte é negra, mas o insólito da situação tirara de órbita minha capacidade de raciocínio lógico. Ainda assim, foi minha vez de quebrar o gelo.
- E afinal, vai se matar por quê?
- Pensei que não fosse perguntar.
- Não ia. Perguntei porque acabou o assunto.
- E por que não desligou?
- Prefere que desligue?
- Você é estranha.
- Você ainda não viu nada.
- Não vejo sentido em continuar vivendo.
- Hã?
- Não vejo sentido em continuar vivendo.
- Isso é clichê. Não acredito que vai se matar por um clichê.
- A vida é um clichê.
- Não acredito que vai se matar por um clichê.
- No que você acredita?
- Agora? Acredito que você deve estar doidão.
- Não me mataria se estivesse doidão. Poderia me arrepender depois.
- É, poderia.
- Sua voz é bonita. Você deve ser bonita. Já pensou em se matar?
- A bola da vez é a sua morte, não a minha.
- Pensou, não pensou?
- Sei lá, todo mundo pensa nisso uma vez na vida.
- Por que não se matou?
- Porque não queria morrer de verdade. E acho que você também não quer. Quem quer morrer não fica de conversa fiada ao telefone.
- Uma contradição.
- Quê?
- A vida. É uma contradição. A gente nunca sabe mesmo quando está vivo e quando já está morto.
- Não prefere falar de amenidades? Sei lá, filmes. Batman. Você viu Batman?
- Não gosta de falar disso, não é?
- Estou tentando te distrair. Sei lá, pra você ter uma pré-morte mais legal. Aliás, como pretende, desculpe, como vai se matar?
- Você vai saber. Leia os jornais amanhã.
- Por que me ligou, afinal?
- Precisava falar com alguém. Fico feliz que tenha sido você. Se não fosse me matar, te convidaria para um cinema. Ou para uma cerveja. Enfim, fica para a próxima. Vou nessa, se cuide. Obrigado pela conversa.
Ele desligou. Só ele: eu fiquei subitamente atônita, com o telefone na mão. Não podia retornar a ligação, não podia nada a não ser esperar. Esperar. Esperar. Esperar. A madrugada passou lenta, se arrastando, eu rolando na cama, com o telefone na mão. Sempre com o telefone na mão. No dia seguinte devorei os noticiários e jornais em busca de algum sinal: nada. Uma semana mais tarde encontraram o corpo de um homem boiando no rio, sem marcas de violência ou qualquer outro indicativo de homicídio – segundo as informações, provavelmente o homem se suicidada. Não me contive: chorei. Depois disso a vida quase voltou ao normal. Quase, pois eu não conseguia esquecer o telefonema nem me convencer de que, mesmo que quisesse, eu não poderia ter impedido – cada pessoa segue seu próprio destino: o meu era atender a um telefonema, o dele terminara naquele leito de rio. “Você parece legal”, eu me sentia péssima, de qualquer jeito.
Voltei a trabalhar no romance e tentei esquecer o episódio, embora volta e meia ele me voltasse à memória. E, numa noite em que as nuvens anunciavam uma chuva tão torrencial quanto à da noite em que ele telefonara, ouvi o toque insistente da campainha. “Algum chato”, pensei, enquanto me encaminhava para a porta e espiava através do olho mágico. Não havia ninguém. Entreabri a porta com cuidado e olhei através da pequena fresta: nada, a não ser um pequeno envelope pardo depositado sobre o batente da porta. Apanhei-o e me tranquei em casa novamente e, ainda de pé junto à entrada, rasguei uma das bordas, verifiquei o conteúdo e senti o coração bater de alívio e de felicidade – como tinha me encontrado? Não importava: eram duas entradas para o cinema, a última sessão daquela noite. E um bilhete: “desculpe, foi engano.”