domingo, 10 de janeiro de 2010

Porta-Retratos

"Que te dizer? Que te amo, que te
esperarei um dia numa rodoviária,
num aeroporto, que te acredito, que
consegues mexer dentro-dentro de mim?"


(Caio Fernando Abreu)

Soundtrack: Maxi Priest - Fields of Gold





Lembro de quando decidimos reinventar essa coisa toda de destino e, sem resistência, encantados com a idéia de domar o incerto, redesenhamos o imprevisível a lápis numa cartolina branca imaginária. Foi o desenho mais bonito que fizemos juntos, porque o fizemos de lábios colados naquela noite onde o que não era sonho era cumplicidade – e apenas a paixão adormecendo satisfeita entre as minhas pernas e os seus quadris quase tirava nosso sossego, num murmúrio de não necessidade de palavra, você e eu formados por um pedaço de cada atordoamento de amor errado que amamos nessa vida e, no entanto, tudo tão perfeitamente certo. Eu, enfiando o rosto no seu peito, encontrando ali a segurança do instante único em que o mundo para inteiro a fim de caber na palma da nossa mão; você, de olhos fechados e com o polegar me acariciando com suavidade uma unha – não o dedo, a unha, tão engraçado achei aquilo, e tão bom. Era a sua forma de declarar presença dentro da vida que eu ainda nem sabia que, dali em diante, seria a minha, e que nascia em silêncio enquanto eu observava o quanto o seu rosto ficava bonito daquela maneira, rasgando a penumbra como um facho de claridade de longos cílios. Lembro de como foi surpreendente nada mais ter importância. Foi a primeira vez em que não me desagradou não pensar e que acreditei que podíamos, sim, gozar esse mistério que é a felicidade absoluta, eu nem sabia se o que senti enquanto abracei o seu corpo morno e nu era mesmo felicidade mas era quase uma invulnerabilidade o que eu sentia; então acho que naquele instante eu completamente fui feliz, sim. Morno e nu, seu corpo. Escudo. Altar. Eu soube, ali. E nem precisaria muito mais para que aquele instante se perpetuasse, mas, confesso, guardei – num canto da minha memória que é o mais belo e enfeitado com o melhor que jamais houve mim – a tal cartolina imaginária e o desenho rabiscado, justamente o mais bonito, feito a quatro mãos, a lápis, a salvo do tempo, dos esmorecimentos e das desatenções.

É esse o quadro que beijo com carinho todas as noites antes de dormir.

Para L.


27 comentários:

[ rod ] ® disse...

O que começa em sintonia talvez o possa seguir-me. As histórias, desenhos e artes feitas à corpos que se entrelaçam emanam uma força imensamente perturbadora... que fazer para escoá-la no dia do adeus! Um bj moça e um feliz ano de pensamentos, poesia e dizeres tão seus quanto nossos.

Rafhitch disse...

Flá, seu texto é sensacional. Fui lendo e me lembrando de muitas coisas.

Ele me fez voltar no tempo, relembrar coisas boas e que eu, por descuido ou desleixo, havia deixado adormecer em minha memória.

Adorei mesmo!

Beijos e felicidades sempre para você!

Patrícia Lage disse...

Lindo.

=)
Meu beijo.

Jester disse...

Uma relação afinada faz com que as imagens saltem da cartolina e dancem na atmosfera, tipo papel picado na ventania duma tarde iluminada pela memória. Ping-pong de sentimentos. A-dô-le-ta de pensamento. Uma única freqüência respiratória, o mesmo compasso cardíaco.
Texto muito bonito!!! Como sempre...

Fe disse...

Adorei. Viajei lendo. rsrs

bjaoo ;**

Talita Prates disse...

assim: MARAVILHOSO, Flávia!

E quão bom é esse silêncio cúmplice, esse "murmúrio de não necessidade de palavra"...

Lindamente escrito, querida.

Um bjo,
e boa sorte! ;)

primaverasdesetembro disse...

aaaaaaaaah[suspiro]
que graça tem viver senão/também, por isso aqui que li?

Flores.

paulo disse...

De metáforas em metáforas viajamos sem destino, mas por caminhos que nos trouxeram alegria e prazer.
É nisto que devemos acreditar, Flávia

Beijo

Maldito disse...

Ta aí, uma maneira de falar sobre o tema, que nao se ve todo dia...
bj

Jaqueline Lima disse...

as palvras mais sensastas e devastadoras que já vi por aqui...

beijos bonita!

Monique Heemann disse...

"Lembro de como foi surpreendente nada mais ter importância". Muito bom! Beijos!

Erica Ferro disse...

Escreves de um modo tão intenso, genial e verdadeiro.
Sou tua fã, saiba.

O que seria da parede da nossa vida sem esses quadros? Triste.

Um beijo.
_
Tenho que agradecer por suas sábias e belas palavras no meu último post.
Você tem razão e eu devo pensar muito bem antes de qualquer decisão de exclusão. Pode ser, sim, só uma fase e eu poderei me precipitar e me arrepender muito por uma atitude insana.
Agradeço mais uma vez por ter me ajudado nesse momento.

Menina Misteriosa disse...

Gostei da ideia do 'imaginário' para guardar e deixar gravado na memória momentos tão reais.
Beijos

http://meninamisteriosa.wordpress.com/
http://www.aceuabertodaboca.blogspot.com/

Fred Matos disse...

Sempre bom viajar nas suas palavras, Flávia.
Beijos

Marguerita disse...

Esta escrita exala ternura!

Um beijo pra ti.

EDUARDO POISL disse...

Não ame pela beleza, pois um dia ela acaba.
Não ame por admiração,
pois um dia você se decepciona.
Ame apenas, pois o tempo nunca pode acabar com um amor sem explicação.
Madre Teresa de Calcutá

Desejo uma linda semana com muito amor e carinho.
Abraços

*Natália* disse...

Aaah Flavinha... eu sempre flutuo com as suas palavras !

beiijos.

Menina da Imprensa disse...

Saudades daqui, saudades de ti...
Que talento moça! Se suas palavras já dão colorido a tantas vidas, imagino os desenhos... :o)

Smaaacks!

Anônimo disse...

Adorei o texto carregado de carinho. Realmente existe sempre o momento mais perfeito que eh gravado como um foto em nossa memória. Se esse momento nao eh felicidade creio q seja algo bem perto disso.
Lily

Altavolt disse...

Esses porta-retratos imaginários, que guardamos para sempre, são os mais importantes de nossas vidas. Superam qualquer coisa material. Beijão, Flávia!

Lídia disse...

Ai Flavitaaa... que lindo!
O que não faz a sintonia hein?

beijos querida!
Miss you!

(:

Edu Grabowski disse...

Nas cotidianidades conheci você. Conheci sua escrita. E me encantei letra a letra. Palavra a palavra. E pensava que dom, que descrição ela consegue fazer das coisas! Como gostaria de um dia escrever assim... E então você me leu também e disse gostar demais de como escrevo e fiquei lisonjeado. Começamos a conversar pelo msn... Ficamos amigos. Somos amigos!
E eu tenho a dizer que é sempre um encantamento ler você. Se eu sou seu Caio Fernando dos desenhos, você o é em textos, crônicas e poemas pra mim!
Adoro você minha amiga.
Saudades dos papos, dos risos... e das palhaçadas!
Tempo...tempo... desencontros!
Te cuida e fica com Deus!
Torço por você e pela sua felicidade, sempre!
Beijos do seu amigo,
Edu.

MAYARA disse...

Primeiramente, acompanho seu blog há tempos. É sempre bom ver crônicas novas. Parabéns! =)
Lindo texto, muito bom. Tem sempre momentos que guardamos com todo carinho e que são carregados de tal importância que nunca serão esquecidos.
Adorei a frase do Caio Fernando Abreu.
x)

Vinicius disse...

Caramba que profundo isso rs..
é verdade ou apenas um conto ?

Nasca disse...

desejar que as coisas sejam mais enquanto acontecem. e que sendo tudo, sejam sempre. e que sendo sempre, sejam suas. sendo suas, sempre, tudo e acontecendo só posso me silenciar, entendido de artes que sou, e admirar os quadros que ainda virão. você é prosa, rima, métrica e tá fazendo o amor. obrigado.

enquanto isso vou guardando meus espaços :**

Maria Rita disse...

Absolutamente incrível. Existem momentos que valem por uma vida, e com certeza este é um deles. Impossível não viajar para universos íntimos de nossa alma.

Lindo!

Bjs...

despertardaessencia.blogspot.com/

Keila Costa disse...

Adoro essas susas texturas repletas de palavras...e essas são tão alma...tão fundas...encanto-me, emociono-me...Beijo