segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um Beijo. Outro


Não chamei, mas vi que era você. Reconheci seu modo de andar, de parar em frente às vitrines, de atravessar a rua depois de olhar duas vezes em cada direção. Pé direito na frente, sempre. Prudência, seu nome do meio. Já foi o meu – hoje sigo anônima por entre transeuntes e carros e luzes, buscando um novo signo, quem sabe. Buscando nada, talvez, que às vezes o próprio caminho é o destino. Houve um tempo em que caminhávamos os dois a esmo, de mãos dadas, chutando poças de água. Um beijo. Outro. Preferíamos assim, sem motivo. Não acredito em amor, mas era quase isso. Não éramos um, éramos eu e você, e isso era bom e soava como se o mundo continuasse girando a toda velocidade e atirássemos no espaço tudo o que não era nosso, que a vida é veloz e queríamos viver, e vivemos. E no dia em que soltamos nossas mãos, confesso: chorei – por mim, por você, pelo mundo que passou a girar devagar com preguiça de me fazer feliz, pelo dia que haveria de chegar para eu não sentir mais a sua falta. Sentada no chão da cozinha, quieta, sem pressa, limpando os olhos com as costas das mãos e as feridas internas com a saliva que não gastei pedindo coisa alguma. E saí e sequei o choro, e caminhei, e caminhei, e caminhei, e hoje vi você.

Mas você não me viu e nem atravessou a rua e não chamei seu nome, e seguimos assim, sem mãos dadas, por entre transeuntes e carros e luzes, buscando qualquer coisa que seja leve nesse mundo de passos pesados, buscando qualquer mínima doçura que não rejeite nossa estranha condição de sermos cada um ao invés de nós dois. 

6 comentários:

Fabrício Franco disse...

Flávia,

Não somos - sempre - nós mesmos, cada qual, apenas tangidos juntos, vezenquando, por fatores/motivos/fados que desconhecemos? Aproveitamos o enquanto, essa condição instantânea de estar junto. Depois, é isso: caminhar, que "o próprio caminho é destino".

Beijo, com carinho.

Anne disse...

LINDO! O processo mais difícil é o de ser um quando se era dois... ainda bem que tudo nessa vida passa, tudo muda o tempo todo. Adorei o texto, perfeito como sempre!

Bjos, saudades.

Patrícia disse...

Lindamente triste, mas sempre intenso! Ser cada um ao invés de nós dois, muitas vezes é necessário. Bjsss

Patrícia Pinna disse...

Boa tarde, Flávia. Amei o poema, essa maneira de dizer que o amor ficou em outra esquina, e que o uníssono não existe mais, e sim duas pessoas procurando um destino, aplacar a dor e as lembranças boas.
Nem sempre o outro nos vê no fim de uma relação, mas muitas vezes o sentimos em nós, e isso puramente dói.
Chegará o dia da libertação, do renascimento do amor, e assim seremos felizes mais uma vez!
Tenha um dia abençoado e feliz!
Parabéns! Beijos na alma!

Dalva disse...

Oi, Flávia.

Tuas palavras descrevem perfeitamente essa dor que hoje vivo... A falta de alguém que fazia parte de nós é uma lacuna que não se pode preencher.

Boa semana.

Grã disse...

Parece "coisa", mas, enquanto caminhava, te vi no reflexo de uma das vitrines...
virei rápido para conferir, mas não era você. Agora você diz que era, estou confuso! (Segure o ímpeto de completar dizendo q, na verdade, eu SOU confuso, não vale a pena).

Enquanto seguia anônima, te vi homônima em outros olhos, mas aqueles não sabiam me ver.

Prudência!?! Mudei de nome, hoje é Pendência o que carrego aqui ao meio.

Muitas vezes sinto que ainda caminho a dois:
quando escuto teus sons que me acompanham,
quando um flash de seus olhos fechando-se, revive nos meus, que se entregam ao sonho.

Não. Continuo não acreditando no amor, meu amor!
Amor, é coisa prá quem não sabe brincar.
Um beijo. O mesmo beijo.

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Suas palavras fazem tanto sentido prá mim que não distinguo nossas histórias e, de fato, me vejo te vendo em um reflexo de uma loja, me vejo te vendo fechar os olhos para dormir, durma com os anjos!