segunda-feira, 21 de abril de 2008

Milagreiro

"Um dos maiores milagres de Deus é permitir
que pessoas comuns façam coisas incomuns."

(H. Jackson Brown)

Soundtrack: Jeff Buckley - Hallelujah*


Ninguém jamais soube ao certo qual a origem daquele menino. Não veio de lugar algum; apareceu, apenas. Foi Zé da Pedra quem o encontrou ali, nas proximidades da Pedra do Arco, brincando de enterrar os pés na areia sem se importar com a madrugada fria anunciando o nascimento de mais uma manhã, o corpo resguardado somente por uma bermuda rota de chita. O velho pescador não entendia como uma criança tão mirrada podia suportar assim o frio se ele, homem feito e acostumado com intempéries, sentia doerem os ossos com aquele tempo terrível. Zé da Pedra aproximou-se do pequeno, perguntou-lhe o nome. O menino, alheio, continuava a brincar na fina areia branca. O pescador insistiu; o garoto buscou com o olhar os olhos do velho, o mutismo se transformando em um sorriso doce e desconcertante, sorriso de quem é imune aos males do mundo, invadindo o coração do homem como uma lufada de serenidade branda e sem pressa. Zé da Pedra observou cuidadoso que o menino tinha o corpo úmido; preocupado, decidiu levá-lo para casa e deixá-lo nas mãos de dona Teresa, até que um adulto aparecesse para buscá-lo.

Dona Teresa o recebeu como a um filho, o menino era um anjo, o sorriso tranqüilo pairando no rosto feito maresia. Mas estranho, não falava sequer uma palavra, apesar de compreender absolutamente tudo que lhe diziam. Ainda mais estranha era sua capacidade de se fazer entender apenas com o olhar, suas maneiras delicadas, sua serenidade inexplicavelmente contagiante... a mulher arrumou-lhe roupas e um lugar para dormir; como os dias se passassem sem que ninguém surgisse à sua procura, Zé da Pedra e dona Teresa não viram mal em ficar com ele, a quem já havia se apegado irremediavelmente. Porque não sabiam seu verdadeiro nome, e porque sua aparição se dera justo no dia desse santo, passaram a chamá-lo de Jerônimo.

Jerônimo era o sol que aquecia o casebre do pescador e sua esposa. Acompanhava o velho Zé da Pedra todas as manhãs até a Pedra do Arco e aguardava seu retorno à tardinha. Permanecia sentado sobre as rochas, observando os barcos de pescadores em seu balé sobre as ondas; às vezes fechava os olhos e, como que absorvido pelo cheiro do mar, parecia hipnotizado por uma espécie de transe. Foi assim que dona Teresa o encontrou no dia em que descobriu que o menino mudo sabia cantar. E cantava bonito de se ouvir, bonito de se sentir... Cantava e seu canto ecoava pelo mundo levando consigo a pureza da alma do menino. Dona Teresa o ouvia estática, silenciosa, entre lágrimas. Ele calou, abriu os olhos, sorriu para ela, a envolveu em um abraço terno. Voltaram para casa e as palavras eram desnecessárias.

As coisas estavam diferentes desde que Jerônimo chegara, dona Teresa agora percebia. Os homens voltavam do mar com as redes transbordantes de peixe; há tempos ninguém caía enfermo, as desavenças, outrora corriqueiras, faziam parte do passado. As crianças nasciam saudáveis, as mulheres tinham bons partos, os homens andavam apaziguados. Até o tempo, tão atroz naquela época do ano, subitamente se transmutara. Diariamente Jerônimo presenteava a vila com sua voz encantada – e era ele, dona Teresa tinha certeza, o responsável por aquela enxurrada de bênçãos. O dom do menino igualmente não passara despercebido aos demais habitantes do povoado – as pessoas afluíam à casa de dona Teresa à sua procura, muitas das vezes apenas para serem tocadas por ele. Seguiam-no até a Pedra do Arco para se embriagarem com seu canto feiticeiro – e choravam diante dele, se abraçavam uns aos outros, sentiam o amor fluir por entre seus corpos de gente crédula.

Houve dias a fio, porém, em que o pequeno silenciou. As redes retornavam vazias do mar; a discórdia insinuava-se sorrateira no coração das gentes, as moléstias ressurgiam impiedosas, tornando a castigar a carne de moços e velhos. O povo, possuído por uma irritação nervosa e insana, não compreendia o porquê daquele mutismo – e, em uma tarde de incontido desespero, invadiram a casa de Zé da Pedra em busca do menino milagreiro. Dona Teresa insistia em dizer que Jerônimo desaparecera, o choro lhe embotando a voz e as idéias, o nervosismo se agigantando diante da fúria dos invasores. E, de repente, o canto... o arrebatamento indescritível se apossando de suas almas através daquela voz devastadoramente bela.

Guiadas pelos sons as pessoas o encontraram na Perda do Arco, os olhos fixos no mar, os últimos raios do sol que se deitava no horizonte refletindo-se na sua tenra e alva pele de criança. Zé da Pedra fez menção de aproxima-se; o menino, com o rosto transfigurado por uma expressão de bondade infinita, sinalizou para que o velho pescador permanecesse onde estava. Um misto de medo, respeito e encantamento tomara conta daquela gente. O menino fechou os olhos e, instintivamente, todos os outros repetiram o gesto. E então Jerônimo cantou... doce, sublime como jamais havia cantado, sua voz lhes invadindo corações e mentes, mudando suas vidas para sempre. Durante uma fração incalculável de tempo permaneceram entorpecidos por aquele encanto; ao abrirem os olhos, porém, perceberam que o menino havia desaparecido.

Foram dias, semanas, meses de incessante e vã procura. Dona Teresa amofinou, quase morreu de tristeza; Zé da Pedra, melancólico, atracou o barco na praia e deliberou não mais entrar no mar. O povo da vila se uniu nas promessas, orações e nos desvelos com o velho casal. As coisas lentamente entravam nos eixos; as pessoas, aos poucos, percebiam a herança do menino. Era a solidariedade a semente que aquela criança havia plantado, e que só agora, na sua ausência, começava a dar os primeiros frutos.

Jerônimo jamais tornou a ser visto. Uns diziam que era anjo; outros diziam que era sonho. E aquela vila de pescadores jamais tornou a ser a mesma: seus habitantes haviam, finalmente, aprendido a se amar. A vida havia se tornado próspera, o mar era pródigo e farto, Deus os abençoara pela generosidade que agora era autêntica e gratuita. Quem passa por lá ainda ouve falar nos milagres do menino – e na doce voz que, todas as noites, acalenta o sono daquele povoado.


* Jeff Buckley (1966- 1997) foi um cantor, compositor e guitarrista norte-americano. Conhecido por seus dotes vocais, foi considerado pelos críticos umas das mais promissoras revelações musicais de sua época. Seu trabalho e seu estilo único continuam sendo admirados por fãs, artistas e músicos no mundo todo e, apesar da morte prematura, Jeff Buckley vem cada vez mais conquistando novos admiradores. "Grace" - o primeiro e único álbum de estúdio oficial e completo de Jeff Buckley, lançado em 1994, da qual faz parte a faixa Hallelujah, composta por Leonard Cohen em 1984 e considerada a melhor composição canadense da história - é constantemente citado como um dos melhores álbuns de todos os tempos.

26 comentários:

Luan Iglesias disse...

Esse te ublog é tão moderno que eu quase me perdi no lik de "comentar".
Qualquer comentário que eu fizesse nçao chegaria a altura de seu texto.

Sou um eterno apaixonado por música, vou estudar sobre Jeff Buckley.

Um beijo, boa semana.

Flavinha disse...

Ah, moço obrigada pelo carinho com o texto! E não deixe de ouvir o Jeff Buckley - vale muito, muito a pena. Para quem gosta de rock, é um deleite...

Beijo!

Girassol disse...

Flavinha, torna-se cada vez mais imperativo: tens que escrever um livro de crónicas!! Vai fazer um sucesso e eu estarei na primeira fila para comprar um.
Adoro adoro adoro a tua escrita. Parabéns!

Ah, e como se não bastasse, o teu gosto musical é O gosto, hehe.
Jeff Buckley é maravilhoso, me acompanhou muito nos tempos de faculdade e nas horas de estudo e stress profundo. Não dá para cansar de ouvir.

Um beijo querida.
Um óptimo feriado.

Anônimo disse...

Milagreiro é a palavra!
A frase de H.Jackson é tudo!
A voz de Jeff Buckley é hino!
Seu texto sobre o "menino-Deus" é o máximo!!!!

Tava lendo e qdo li Zé da Pedra lembrei da música Zés Brasil que é de um cara de Angra dos Reis e que veio concorrer(e ganhou) no festival de música de minha cidade...Um samba muuuiiitttoo bom!

eu gosto de histórias misteriosas e envolventes como esta sua...

beijo! tud de bom pra vc!!!!
Gisele

nina disse...

Qualquer comentário que eu fizesse não chegaria a altura do seu texto [2].
Está cada vez melhor, cada vez melhor!

Flavinha disse...

GIRASSOL,

Menina, como vc é linda. Se um dia, quem sabe, talvez, eu escrever um livro, vc não irá comprar - porque eu farei questão de presenteá-la com um exemplar! Jeff Buckley... como pode um artita ser tão completo, né? Fico pensando no quão mais ele teria produzido se tivesse ficado mais tempo por aqui. Beijo, beijo, beijo.

GI,

E vc é fofíssima!!!!
Não conheço esse samba que vc citou, mas vou dar uma procurada na internet pra ver se encontro alguma coisa sobre. Tanto artista bom que tem por aí, ainda bem que existem esses festivais para revelá-los. Podia ter alguma coisa assim na literatura, algo que mostrasse o talento da galera para o grande público. A gente precisa disso - de ver coisa boa aparecendo e ficando. tudo de bom pra vc também, mocinha. Beijo!

Flavinha disse...

NINA,

Menina, vc sabe que eu adoro o seu blog. Adoro as coisas que vc escreve. E eu fico toda orgulhosa de saber que vc gosta das coisas por aqui (rs)... obrigada mesmo pelo carinho e pelas tuas palavras sempre estimulantes. Beijo!

Marcelo Martins disse...

Começo a ficar sem graça de comentar aqui.
Seus textos estão chegando em um nível profissional.
Não sei de onde tira tanto talento, mas é espantoso aos meus olhos.
Essa história sobre Jerônimo daria um belo curta metragem,rs.
Admiro você e as suas letras, sempre...

Beijos

Tamara disse...

Meo Deos Mulé ( Adoro quando vc me chama assim!)....Promete que vai me mandar um convite na tua noite de autografos?

Menina....vc eh muito tudo de bom e mais um "cadinho"!!!

Bravo!
Bravo!
Bravissima....Bravissima...Sempre!!
Pelo texto e por Jeff Buclley

Paula Calixto disse...

Eu lembro desse texto do antigo "Cotidianidades", Flavinha!

Tô enganada?!

Bom, ele é excelente de qualquer modod e a música... Pôxa! Eu lembro dela "das antigas" coisas que meus primos ouviam. (:

Beijos.

Flavinha disse...

MARCELO,

Cê sabe que eu tenho vontade de roteirizar um curta? Mas um curta documental. Não sei se daria conta de fazer um ficcional... obrigada mesmo pelo comentário - e pára de bobagem, que vc escreve no mesmo nível, rsrs. Beijo!

TAMARA,

Jura que cê gosta?! Ué, então pronto: agora que eu já sei, eu chamo sempre (rs)! E eu não sou tudo isso não, jesusmariajosé... mas a noite de autógrafos tá garantida, hehe... beijo!

PAULINHA,

Sua memória, flor, não te trai: feitas algumas pequenas correções e algumas discretas alterações, esse é praticamente o mesmo texto publicado no Cotidianidades. Fico feliz que tenha lembrado - sinal de que ele marcou, né? Beijo!

BABI SOLER disse...

Bela escrita repleta de amor.
Boa semana!

Fê Probst disse...

tem mimo pra ti lá no P.S.!

Ricardo Rayol disse...

um prazer ler uma estoria dessas, talvez eu possa usar em umas das aventuras do Juarez.

Um Sonhador disse...

caraca
Flavinha:
que blog maravilhoso. que texto lindo caraca
to impressionado...
to te linkando.. gostei bastante do blog.. vou ler sempre.. :)

Ingrith disse...

Uau, que lindo... Fico imaginando que as vezes na nossa vida é precisao passar um Jerõnimo...

FINA FLOR disse...

tive a impressão de já ter lido isso em algum lugar.... será?

bacana!

beijocas

MM.

ps: tive que tomar uma medida mais drástica, digamos assim, em relação aos meus vizinhos.... passe lá no canteiro e veja.

Flavinha disse...

BABI,

pra vc também, moça. Beijo!

FÊ,

Oba!! Passando pra pegar! Beijo!

RaYOL,

Fica à vontade, querido. Beijo!

UM SONHADOR,

Que gentil, você, moço! Tô passando no seu espaço pra te conhecer. OBrigada pelo link e pela visita! Beijo!

INGRITH,

A gente precisa, né? Ter - e ser... Beijo!

MM,

É sim, flor - esse texto foi postado pela primeira vez no meu antigo blog. Que bom que lembra dele! Tô passando ra saber o que vc fez... a curiosidade bateu (rs). Beijo!

Mila disse...

Flavissima...
Este texto teu é mesmo um primor...
Como só vc poderia conceber... escrever... sempre suspiro quando te leio mana... que dom este eu com as palavras... Isso me lembra o titulo de um livro que eu adoro... pq fala de um personagem que eu admiro e sou devota... "Medico de Homens e de Almas"... acho que assim é vc...
Beijos Mila

Nathália disse...

É, você precisa mesmo escrever um livro!
Vou querer o meu com dedicatória, obrigada. :)

Beijo!

P. disse...

Eu não tenho mais o que dizer sobre as tuas escrituras. Eu devo mesmo ter que estudar muito ainda a teoria dessa arte...
O que esta humilde leitora pode fazer é levar teu nome, tua obra para os meus mestres. Porque eu já te consagro, viu?!
E é sério. Farei isso.

Agora... Imersa de emoção, vou ali recolher as lágrimas e volto.

beijomeu e amor dessa amiga-metade.

minicontosperversos disse...

Bela:

Não vamos nem comentar que vai ficar repetitivo. Todo mundo deu o recado de como vc é talentosa. Dois pedidos: 1) nosso paizão acredita (e vivencia) nessa história de um meninio-deus, mas ele aos seus 77 anos não é nada internético; teria como nos enviar pra impressão essa sua obra-prima? sempre sempre citaremos a fonte; 2) já pensou na aplicação dessa sua obra-prima em impressos e afins relacionados a responsabilidade social? tem emporesa que pagava pra isso. aquela em que a gente trabalha também!!!!

bjus!

Fernando disse...

Lindo, Flavinha, lindo!

Deste seu conto, que você mesma classificou por brasilidade, acho que não tem nada mais brasileiro - até porque nunca saí do país pra fazer um juízo de valor do que é estrangeiro - do que procurar alguém pra pôr a culpa das suas agruras.

A outra vertente do conto é aquela de sempre, de que uma criança traz luz pra qualquer lugar. Se cantar bem como Jerônimo, então...

Mas o bonito do conto foi demonstrar que o mal por si só se destrói, já dizia um sábio, que agora não sei quem. Tanto mal quiseram ao garoto quando não cantou, que depois de sua última cantata, o remorso os fuzilou. E assim, a solidarizando-se uns aos outros encontraram uma harmonia.

Agora, já pensou se o moleque tivesse em casa gripado quando foram atrás? Já teriam-no jogado do sexto andar...

Excelente Flavinha, like always.

Beijocas!

Renata disse...

Muito lindo seu conto... adorei.
Beijos

Si disse...

Flor, estou aqui “entorpecida” com seu texto.
Sempre admirei a maneira que você exprime sentimentos e sensações, o caminho de cada palavra, o desencadeamento... Mas, dessa vez, percebi uma linguagem própria. Única.
Querida, você já é uma escritora nata.

PARABÉNS, de coração!!!

Beijos. E um buquê de hortênsias.

freefun0616 disse...

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