segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Na Veia

"F.: às vezes acho que a gente veio ao mundo ou com um
parafuso a menos, ou com um coração a mais, ou ambos, talvez...
P.: um coração a mais, que para o mundo é, de fato, um parafuso a menos...
F.: é verdade... sorte nossa: tanta coisa cabe em dois corações!"

Pequeno diálogo entre mim e Patrícia,
em uma de nossas muitas elucubrações
sobre sentimentos e suas (in)definições.




Sou daquele tipo de gente que só incorpora, intransitivamente. Vivo dessa absorção das coisas, desse admiti-las em mim ainda que tal simbiose não as torne minhas – e me torne intensamente delas. Por isso nunca gostei de despedidas: porque de alguma forma me tiram aquilo de que faço parte, e nesse ir-me um pouco a cada aceno último vou ficando aquém das minhas próprias histórias, das histórias que escrevi na pele com as tintas que minha alma produziu. Porque só incorporo, intransitivamente.

Por isso nunca escapo dessa coisa de sentir – e de tanto sentir, com tanto de mim, vou virando algo sempre a meio palmo de crescer e não caber mais em si, vou virando a iminência de um esgotamento que nunca se concretiza; incorporo e transformo tudo em condição de incorporar e incorporar e incorporar... E fico sentindo até sentimento virar palavra, e palavra assumir cor e sair rindo. Sabe quando a gente gargalha por dentro? É palavra sentida, virada em sorriso de alma, uma coisa que quem vê não entende muito bem mas que quando percebe já se deixou contagiar, que sorriso de alma faz cócegas nos braços da alma alheia, é assim sem cerimônia...

E, pensando bem, fazer cerimônia pra quê?




___________
*NOTINHAS*

* Hoje, segunda-feira, começo de semana, todo mundo devidamente de volta à rotina real e virtual... falando em virtual, a nossa Internet de todo santo dia é justamente a bola da vez lá no Coletivo, com um texto delicioso da Mirian Martin inaugurando a rodada. Recomendo e convido-os todos para essa viagem!

* E falando em recomendar, agradeço as palavras do Vinícius lá no Vômito Cultural - uma revista eletrônica comandada por gente jovem com curiosidades e assuntos pra todos os gostos - dirigidas a este blog aqui e à blogueira que vos escreve. Obrigada, rapaz! Quem não conhece passe lá pra conferir. Os meninos capricham :)

* Aos poucos conserto o estrago que fiz no template e reinsiro os links de todo mundo. Editar HTML vesga de sono dá nisso.


Beijos a todos e excelente semana!

32 comentários:

ALF disse...

E que coisa linda esse sentir intenso, esse vendaval de sensações confortantes.

Sentir o sentir, com uma intensiddade forte. Que torne o sentir mágico, fluido na essência vida.

Maravilha de texto.

Beijocas
:)

Belarmino disse...

Também sou assim cheio de sentimentos, desse jeito, apaixonado, mas eu me definiria um pouco "pior", definiria como apaixonado inconseqüente e romântico idiota.

Muito obrigado Flávia pela sua recomendação. E sobre Mallu Magalhães, ela é simplesmente fantástica, paixão a primeira ouvida também.

Bill Falcão disse...

Sorriso de alma... É assim mesmo, não precisa de cerimônia!
Bjoooooooo!!!!!!!!!

Edna Federico disse...

Também sou meio assim...às vezes é bom, outras ruim.
Beijo

Afobório disse...

acho que os sentimentos são aquilo que nos fazem perceber as ondas a nossa volta.


e depois despedidas tiram a dignidade da saudade, porque alguém está partindo sozinho ou ficando assim.

sorte e luz.

Ultra Violet disse...

Esse negócio de viver e sentir é uma arte. Não consigo conceber a idéia de que existe gente que não se permite sentir com medo de viver. Isso para mim, é um crime contra a humanidade.

Bjs.

Patty disse...

Nada de cerimônias, Flavinha na maioria das vezes elas são mesmo muito cansativas.

Lindo texto!
Beijo e boa semana!

Tyr Quentalë disse...

Sentir e deixar-se levar pelo sentimento. Isso muitas vezes faz cócegas e nos faz sorrir em nossos pensamentos, mas que seja sempre assim, minha belíssima amiga escritora. Nos contagie com suas alegrias, seus amores e suas cores. Não faça cerimônias para isso.
Abraços e beijos desta barda que te aprecia muito.

Keila Costa disse...

Lembro-me de uma redação de uma amiga em época de colégio; ela falava sobre a transitividade relativa do verbo amar...e hoje vejo tão claras as intansitividades de qualquer sentimento..., os ausentes presentes, os complementos incompletos, as incompletudes indizíveis, os detalhes fora de lugar, os repletos vazios...
Beijos

Rodrigo Carreiro disse...

eu faço cerimônia =/

Anônimo disse...

Na complexa colcha de retalhos de nossa emoção,
cada penequenino trecho de situações intrínsecas
vão sendo artesanalmente alinhavados e passam a fazer parte de nós.
Pessoas, vivências, chegadas, despeditas... Tudo vai sendo costurado junto ao nosso coração.
Quanto maior for o nivel da emoção mais entrelaçado será em nossa colcha.
Nunca poderemos desfazer os laços uma fez que os pontos são arrematados.
Podemos somente reeditar, bordando o perdão onde costurou-se a mágoa
saudades onde ficou a tristeza
compreensão onde ficou o ódio.
cobriremos desta forma as cerimonias do orgulho com paetês de amor.

Tradução dos meus sentimentos ao ler seu texto maravilhoso.
(Baseado em leituras de Augusto Cury)

Ana Cárita

felipe lima disse...

Acho que somos sim, muito parecidos.

felipe lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Chantinon disse...

Ainda bem que só tenho um coração.
Como tenho TODOS os parafusos soltos, 2 corações não sobreviveriam assim né :)

Cláudia I. Vetter disse...

preenches. e me fazes sorrir, sem medo.
do escuro, do futuro ou de desejar.
i wish iwishiwishiwish, i guess it never stops.

Flávia disse...

ALF, VIOLET,

e quem não sente, ou tolhe o que sente, como será que vive? Vive?

BELARMINO,

Tô ouvindo o som da menina até agora, rs. E se me apresentar um romântico que não seja idiota, eu mudo meu nome...

BILL,PATTY,

Né?

EDNA,

As boas fazem até as ruins valerem a pena...

AFOBÓRIO,

E sabia que eu tenho aversão até mesmo a pronunciar qualquer palavra que seja a tradução de uma despedida? Não sei me despedir. LITERALMENTE.

KEILA,

Sem contar as conjugações anômalas, defectivas, múltiplas... a gente só conjugar certinho quando se dá o direito de esquecer as regras e formalidades...

RODRIGO,

Ah, faça não!

ANA CÁRITA,

E somos tecelãos de sentimentos em constante metaforfose, enquanto vivemos. Linda, linda a sua reflexão. :)

FELIPE,

Você também tem dois corações?!

CHANTINON,

Hahaha, quem sabe?! Vai ver que a chave para a sobrevivência do coração - ou dos corações - é justamente esse "desparafusamento". Equilíbrio emocional e racionalismo são virtudes, sem dúvida, mas pragmatismo demais deixa a gente menos gente...

Beijos a todos!

Clarice Lis disse...

Flávia, o sentimento está a solta, acabei de escrever sobre isso. O sentimento que transborda, que invade. Haja alma para tanto sentir, né? Gostei tando daqui que resolvi linká-la. Posso?
beijos da janela

Altavolt disse...

Nossa, Flavinha! Você é uma pessoa muito intensa! Vive na plenitude dos sentimentos e emoções. E ainda consegue verbalizar (ou escrever) isso com maestria. Parabéns, mesmo! Sorte dos seus amigos que têm alguém assim tão à flor da pele com quem conviver!
Nessa atualidade tão idiotizada em que vivemos hoje, são muito necessárias pessoas como você, que nos dão referências e toques sobre os absurdos que vivemos ou deixamos de viver. Beijão, minha linda!

Sunflower disse...

eu sou a mestre de cerimônia de Luís XV, pense, um ahazo.

beijas

Daniel Salles disse...

'A meio palmo de crescer e não caber mais em si', mas ainda bem que quanto mais crescemos, maior fica a nossa armadura, e bem ou mal, continuamos cabendo em si...

Daniel Salles disse...

E gostei muito do texto sobre o menino de rua...alguns momentos parecem ocorrer para percebermos melhor a relação de troca intersubjetiva constante em que vivemos! O garoto recebeu um prato de comida, você ganhou de bandeja uma série de reflexões...

Tive uma experiência parecida na Bolívia...outro dia eu conto...

A Senhora disse...

A intensidade dos nossos sentimentos por vezes subverte nossos pensamentos. E aquilo que queríamos dizer, porque sentimos, transforma-se em vazio, porque razão e sentimentos intensos às vezes se destroem. Não há razão no que fazemos. Somos loucos...
Mas quando somos loucos de amor poderia se justificar. Exceto na catástrofe de uma morte passional.

Ainda impressionada com a morte da menina Eloá.

PS: Eu estava tentando entender do porque de tantas entradas vindas do seu blog para o meu. Entendi... :)

Paula Calixto disse...

Queira escapar não! Mergulhe e engula de goladas.

Beijos.

Ella... disse...

Flavinha, a srta andou me lendo?
Como sempre, muito bom! bjão, moça.

*Raíssa disse...

Também nunca escapo dessa coisa de sentir. Estou sempre sentindo mais, e mais diferente.

Beijos

Jana disse...

Se tem uma coisa que eu odeio mais do que ervilhas e mostarda,
é cerimônias, convenções sociais e Cia. Ltda.

E, realmente: o que se passa por dentro, aparece por fora.
É por isso que, apesar de clichê, ainda acredito que a beleza é e sempre será interior.

Beijoca
:)

Patrícia Lage disse...

Nem se a gente quisesse, não é, Flá? Nem se a gente quisesse fazer cerimônia, ia ser uma tentaiva sem sentido e sem sucesso.

Para os sentimentos, a gente nunca faz.

Penso aqui que temos bem mais que dois corações. A gente se veste deles.

Meu beijo!

iara disse...

ficou tão sensual e quente o texto.
e me lembrou alguém de quem eu não devia....bjs

Mary West disse...

Tou pensando seriamente em me congelar e naum sentir mais nada.

monday disse...

Quem sente não mente!
é algo assim, profundo
de dentro da gente.

monday disse...

Quem sente não mente!
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freefun0616 disse...

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