quinta-feira, 22 de julho de 2010

Aquilo Que Um Dia Você Chamou de Amor

Dos amores idos, nem sempre esquecidos.

Soundtrack :José Gonzalez - Heartbeats



Aquilo que um dia você chamou de amor bateu na minha janela ontem à noite, acometido de uma palidez que me surpreenderia se eu já não o soubesse meio borráceo como um desenho velho de giz, os olhos atônitos desprovidos do brilho que costumavam ter, um desassossego fosco, uma ausência súbita e irreversível. Não sei explicar, mas algo havia de tão comovente ali, naquele conhecido há tanto tempo distante e que reaparecia diante de mim de forma assim inusitada, que eu não soube o que fazer. Desejei convidá-lo a entrar e fazer perguntas calorosamente desnecessárias, um “como vão as coisas” ou “chá ou café?” ou ainda assentir, por educação ou amizade, que sim, me recordo de coisas que absolutamente já não me dizem coisa alguma; ou lhe perguntar se estava tudo bem, se tinha onde ficar, se desejava passar a noite ali pois eu ainda me lembrava: aquilo que um dia você chamou de amor tinha aversão a frio e, de fato, suas mãos tremiam, enluvadas pela temperatura incerta daquele reencontro. Desejei coisas tantas, todas tão cordiais. Aquilo que um dia você chamou de amor estava parado do lado de fora da minha janela no meio da noite e, pasme, embora tão dissolvente, ainda se parecia tanto com você. E eu, que há muito tempo deixara de parecer comigo e me espantara muito com o fato de que ele me reconhecera em meio às tantas outras “eu” que já haviam passado por mim, nada fiz. Nada disse. Apenas o olhei de frente, longamente. Como alguém que oferece, ao punhal, o peito e uma rosa. E anônimo, confuso, quieto, aquilo que um dia você chamou de amor se afastou com a dignidade dos que não pertencem mais ao seu próprio passado e a segurança dos que desconhecem seu próprio destino, sem olhar para trás. E acredite: já não tremia.



22 comentários:

Talita Prates disse...

precisou do confronto com o presente
para cessar o tremor.

que saudade que eu estava de te ler além-140 caracteres!

adorei!

um bjo,
super querida!

Talita
História da minha alma

Jullie disse...

muito boooooom :DD
www.sinta-o-amor.blogspot.com

Ceisa Martins disse...

Sem palavras, seu texto me tocou a alma! Lindo!

Beijos!

Monique disse...

Flávia, achei realmente que esse blog seu tinha sido esquecido mas fico muito feliz por você ter o ressuscitado!

Muitos textos seus definem, por mim, aquilo que eu antes não conseguia.

O texto ficou lindo.

Beijos,
Monique.
cartapapelde.blogspot.com

Anne disse...

Mana do meu coração, saudade de ti. Bom, eu já chamei tanta coisa de amor, q no fim das contas nem era amor...q hj só posso agradecer a Deus pelo amor de verdade! Acho q hj sei o q é o amor e o meu coração está cheeeio dele, pra todos os lados.

E vc como está? E o nosso bbzinho?
Manda noticias, gosto de saber de ti!

Bjos, amo vc de monte!
Bjos nessa barriguxa tb.

Grã disse...

Ontem à noite, quando bati à sua janela, o frio endurecia-me as palavras e um contorcido sorriso tentava manter-se. Meus olhos, embotados, congelaram ao ver a vidraça (agora intacta). Já ali e ainda não sabia o que queria, cheguei conduzido por "aquilo que um dia chamei de amor", ele me fez levantar, vestiu-me com sobras de nós dois - as únicas coisas quentes que ainda carrego comigo - apertava-me as mãos com muita força, fazendo-as tremer.
Ao chegar não mais que um vulto aproximou-se da janela embaçada, sabia que era você, sabia que me escutaria chegar, sabia que viria me encontrar e diria tudo aquilo que ali, pela janela, me disse. Éramos apenas portadores e "aquilo que um dia eu chamei de amor" enlaçou "aquilo que um dia você chamou de amor" e voltaram juntos prá aquele dia. Parti leve, sem a necessidade de nomear aquilo tudo que sempre senti por você, tudo aquilo que, um dia, chamei de amor.

tá-tum

;)

Marguerita disse...

E como as coisas mudam, Flávia!

Ou somos nós que mudamos?


Bjo

disse...

Mudamos nós a ponto de não reconhecer atos, nem escolhas.
Mudam os nós que nos prendiam.

Muda o mundo.

Beijo!

Marcos Satoru Kawanami disse...

ontem mesmo percebi que não pertenço mais ao meu passado, como se eu houvesse morrido e renascido na mesma existência. coisa estranha.

[ rod ] ® disse...

Quantos nomes perdem-se neste ato involuntário que chamamos de amor? Quantas verdades somem-se na soberba de um desejo? O ingrediente falho é só uma escolha!

Bjs moça.

Fezzoka disse...

..
tinha tanto tempo que não vinha aqui.

Muito bom, como sempre!

beijos

Krika disse...

Como sempre você é ótima. Bjs Flavitha

Zé Luiz Sykacz disse...

Lindo texto, Flávia.

Você conseguiu traduzir em palavras o que eu já senti muitas vezes, e não há nada mais encantador do que isso ao se ler um texto.

Parabéns, e obrigado pelos escritos.

Um beijo.

Tatiane disse...

Novamente belas palavras nos levam a encontrar lembranças ou sonhos possíveis...bom final de semana moça...Bjs...

Tatiane disse...

Fiquei muito feliz em meu zapear descontráido encontrar o seu cantinho, simplesmente me curvo e agradeço por tão belas palavras....É meu primeiro comentário, e espero q venham muitos outros,pois assim poderei ler tão belas palavras escritas, e me deixar levar...
PS: Naum a conheço mas desejo td de ótimo nessa fase e q o Baby lhe deixe demonstrar todo esse sentimento q me pareces ter guardado pra ele...Bjs e até a próxima.....
PS2: Colei aqui tbm o coment do post anterior,pois naum sabia c leria...pois gostaria q visse esse tbm....

Menina Misteriosa disse...

O encontro de olhares diz tudo. As intenções, as lembranças, as vontades - antigas ou novas - não precisaram de palavras para serem sentidas.
Quem nunca sentiu isso? Reconhecer-se nova diante de alguém que, para nós, já não era o mesmo. Por mais que, um dia, tenha sido amor.
Belo texto, Flávia, como sempre.
Espero que vocês estejam bem.
Beijo

MeninaMisteriosa

Patricia Garbuio Bittencourt disse...

Te admiro cada vez mais,lindo texto!
bjssssss

Elaine Castro. disse...

Amor, palavra tão curta que se engrandece perante tantas traduções do que vem a ser!!!
Eu ainda não sei ao certo, mas também procuro formas de desvendá-lo.
Obrigada pela visita e comentário.
Espero sempre que possível aparecça por lá e dê sua contribuição!!!
Você escreve muito bem, "tira leite de pedra".
Aguardo ansiosa por novas palavras...

Abraços.

Jaqueline Lima disse...

as coisas levam tempo para acontecer. e se vão embora. levam tempo para partir...

beijos bonita!

Luz da Lua disse...

Fiquei imensamente feliz de retornar e ver que está tudo como era antes... chegar, ler algo novo, sorrir, e voltar...
Eu que agradeço o teu retorno!

paulo disse...

Poder ler textos verdadeiros e saber que são ficção e ler os de ficção sabendo que são verdadeiros nos mostram a qualidade de quem escreve e passa a sua mensagem deixando a interpretação e o entendimento para cada um...

Beijo Flávia

Tod(as) palavras disse...

gosto muito dessa essencialidade e forma. texto muito rico. meu abraço.