quarta-feira, 26 de setembro de 2012

(e)terno

"olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo"



Ana C.

Ouve o que eu digo, meu amor: o mundo não se acaba hoje, não. 

Essa pressa toda, essa urgência. Ouve o que eu digo: não é preciso. Desde que abrimos a porta, e entrou o primeiro vento, e a vida como a conhecíamos se desorganizou para se acomodar no ruído quase imperceptível dos nossos pés, deslizando mornos sobre este caminho novo, feito das nossas sinestesias, e das nossas esperanças úmidas e vontades bruscas, e dos nossos absurdos, desde então tudo mudou. E o tempo, não se engane, está parado – e, por entre seus dedos imóveis, atravessam infinitas possibilidades, escolher nunca foi mesmo calmaria, uma coisa de cada vez e todas a seu tempo e até viver intensamente pede, cobra, por que pensar que não?, um pouco de parcimônia. Parcimônia, cada gosto de vida derretendo suavemente sobre a língua enquanto os olhos, fechados, procuram intimamente guardar a salvo de nós mesmos as imagens ainda sem nome daquilo que nos faz existir um pouco mais. E eu, meu amor, esqueci-me de tudo para existir. Então se perpetue em mim, que não tenho memória, no enlace lento e silencioso de quem se partilha não só por amar, mas também por saber que o tempo para em reverência a quem se entrega. E por saber que dentro de mim, que não tenho memória, só cabe o que me faz sentir eterna e que é por isso que cabemos, você e eu, em cada cor possível e ainda por nascer. 

O mundo não se acaba hoje, não, meu amor. Nem amanhã. O mundo só se acaba quando a gente quer.



5 comentários:

Fabrício Franco disse...

Gosto de vir aqui e perceber que, ventos novos e novas luas, você permanece: lúcida, cristalina, com aquele tom de modorra tão necessário às leituras sobre coisas do sentir. E sim, o mundo não se acaba senão quando nós findamos, mas ainda assim vezes há que ele perdura. Perdura nos contatos tangenciais, nos lugares onde nossas sombras já fletiram, em conversas que ecoam outros papos. O mundo - de dois - só termina mesmo quando ambos não mais existem.

Beijo, é bom ler você de volta.

Edu Grabowski disse...

Sabe de uma coisa?... impossível não ler você e divagar.... e a sensação é sempre tão boa nesses passeios dentro d'alma, dentro do ser.... e você suaviza em palavras o que a vida esmaga com as mãos!

É..."O mundo só acaba quando a gente quer." !

As Flores e Eu disse...

Lindo!
Que assim seja.

Anne disse...

O mundo não se acaba mesmo... acaba só o que deve acabar enquanto construímos novas histórias. E que venham cheias de cor, porque eu nunca me canso de acreditar que amanhã é sempre melhor, que sempre trará mais e melhor. Que um dia, um dos contos que invento dentro de mim, há de ter um final feliz!

Lindo texto, como sempre.
Bjo mana.

Amo-te.

Ridiculous thoughts disse...

Ah, é disso que eu gosto: me perder entre circunstâncias e significados... e nunca nunca entender nada. Como sai bonito quando tu escreves assim!